Evolução do mercado: Combustíveis minerais (CN 27) — 2015–2025
Introdução
O setor dos combustíveis minerais (posição pautal 27 da Nomenclatura Combinada) é, de longe, o mais volumoso e financeiramente relevante do comércio externo da União Europeia. Abrangendo desde o petróleo bruto e o gás natural liquefeito até ao carvão, coque e asfaltos, esta posição reúne os bens energéticos que sustentam a indústria, o transporte e o consumo doméstico dos 27 Estados-Membros.
Entre 2015 e 2025, o comércio da UE neste setor foi marcado por três grandes dinâmicas: uma escalada de preços sem precedentes em 2022, ligada à invasão da Ucrânia e à subsequente crise energética europeia; uma profunda reconfiguração das cadeias de abastecimento, com a substituição da Rússia como principal fornecedor por parceiros como os Estados Unidos, a Noruega e a Argélia; e uma evolução da composição produto a produto, com o carvão a perder relevância e o gás de petróleo a ganhar peso nas importações.
No conjunto do período, as importações da UE passaram de 314,4 mil milhões de euros (2015) para 414,8 mil milhões de euros (2025), um crescimento nominal de +31,9 %, enquanto as exportações subiram de 88,2 mil milhões para 116,7 mil milhões (+32,3 %). O défice comercial estrutural do setor agravou-se de −226,2 mil milhões para −298,1 mil milhões de euros, reflectindo uma dependência líquida de importações que disparou de −1,3 % para −81,2 % (défice comercial e dependência de importações).
O presente relatório organiza-se em três secções: a primeira analisa o ciclo de preços e o choque de 2022; a segunda descreve a reestruturação geográfica dos fornecedores e destinos; a terceira examina a evolução da composição setorial e as dinâmicas de especialização interna da UE.
1. O ciclo de preços e o choque energético de 2022
Os preços médios de importação mais do que duplicaram entre 2015 e 2022
O preço médio ponderado das importações da UE em combustíveis minerais subiu de 307 €/t em 2015 para um máximo de 808 €/t em 2022 — um aumento de 163 % em apenas sete anos (evolução geral do comércio). Em 2025, o preço recuou para 468 €/t, ainda assim 53 % acima do valor de 2015. Nos produtos específicos, o choque foi ainda mais pronunciado: o gás de petróleo e hidrocarbonetos gasosos (CN 2711) atingiu um preço médio de importação de 1.239 €/t em 2022, contra apenas 235 €/t em 2016 (segmentação por produto).
| Produto | 2015 (€/t) | 2022 (€/t) | 2025 (€/t) | Variação 2015–2022 |
|---|---|---|---|---|
| 2709 — Óleos brutos | 349 | 695 | 476 | +99 % |
| 2711 — Gás de petróleo | 323 | 1.239 | 528 | +284 % |
| 2710 — Óleos refinados | 425 | 939 | 639 | +121 % |
| 2701 — Hulhas (carvão) | 71 | 297 | 142 | +318 % |
| 2707 — Óleos de destilação do alcatrão | 391 | 658 | 526 | +68 % |
O ano de 2022 consolidou o valor máximo das importações em 831 mil milhões de euros
O impacto combinado de preços mais altos e volumes ainda elevados empurrou o valor total das importações da UE para um máximo histórico de 831,4 mil milhões de euros em 2022, praticamente o dobro dos 415,9 mil milhões registados em 2018. Em 2025, o valor situou-se nos 414,8 mil milhões, regressando a patamares pré-crise em termos nominais, mas com volumes de importação significativamente mais baixos — 842 milhões de toneladas em 2025, contra 1.013 milhões em 2015, uma queda de −16,9 % (visão geral).
Choques de preço pontuais em 2022 afectaram parceiros com coeficientes de variação já elevados
A análise de choques detectou três eventos de preço com anormalidade estatística elevada em 2022:
| Parceiro | Fluxo | Anormalidade | Variação 2021→2022 | Peso no valor total |
|---|---|---|---|---|
| Argélia | Importações | 6,7 | +145 % | 7,1 % |
| Ucrânia | Exportações | 6,1 | +161 % | 5,0 % |
| Canadá | Exportações | 6,0 | +92 % | 2,9 % |
(detalhe dos choques de oferta)
Estes choques reflectem a transmissão global da crise energética europeia: a Argélia, fornecedor de gás natural para o sul da Europa, viu os seus preços de exportação duplicarem; a Ucrânia, como país em conflito e rota de trânsito, registou variações de preço nas exportações da UE para o seu território; e o Canadá, enquanto fornecedor marginal de petróleo bruto, registou igualmente uma anomalia significativa.
2. A reconfiguração geográfica das cadeias de abastecimento
A quota da Rússia nas importações de combustíveis da UE caiu de forma abrupta
A dinâmica mais marcante do período é, sem dúvida, o colapso das importações provenientes da Federação Russa. Em 2015, a Rússia era de longe o principal fornecedor externo da UE, com 87,8 mil milhões de euros em vendas de combustíveis minerais, representando cerca de 28 % do total das importações do setor. Em 2025, este valor desceu para 17,4 mil milhões de euros — uma queda de −80,1 % — reflectindo as sanções progressivas impostas após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022 (principais parceiros de importação).
| Fornecedor | 2015 (mil M€) | 2022 (mil M€) | 2025 (mil M€) | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Federação Russa | 87,8 | 147,2 | 17,4 | −80 % |
| Estados Unidos | 10,4 | 103,4 | 70,9 | +584 % |
| Noruega | 22,6 | 68,2 | 45,0 | +100 % |
| Argélia | 17,4 | 38,6 | 24,7 | +41 % |
| Cazaquistão | 14,2 | 32,6 | 28,2 | +98 % |
| Reino Unido | 21,0 | 59,9 | 22,0 | +5 % |
A queda russa em volume foi igualmente acentuada: o carvão (CN 2701), um dos produtos emblemáticos das importações russas, sofreu uma redução de 156,9 milhões de toneladas (2015) para apenas 58,8 milhões (2025), uma queda de −63 % em volume.
Os Estados Unidos tornaram-se o principal fornecedor não europeu
O parceiro que mais cresceu em termos absolutos foram os Estados Unidos: as importações da UE originárias norte-americanas passaram de 10,4 mil milhões de euros em 2015 para um máximo de 103,4 mil milhões em 2022, estabilizando em 70,9 mil milhões em 2025 — um crescimento de +584 % no período completo. Este crescimento reflecte sobretudo o aumento massivo das exportações de GNL (gás natural liquefeito) e de petróleo bruto dos EUA para a Europa, substituindo o gásoduto russo e o petróleo russo.
A concentração das importações baixou significativamente, reflectindo a diversificação de fornecedores
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações, medido por valor, desceu de 1.307 em 2015 para 794 em 2025, uma redução de −39,2 % (concentração HHI). Um HHI de 794 num mercado com milhares de milhões de euros em jogo indica um grau de diversificação razoável, mas ainda longe de ser uniforme. A queda reflecte a passagem de uma estrutura dominada por um fornecedor (Rússia) para uma mais repartida entre múltiplos parceiros.
A Noruega (+99,6 %), o Cazaquistão (+98,1 %) e a Argélia (+41,4 %) foram os principais beneficiários desta redistribuição, complementando o crescimento norte-americano. Note-se que a Noruega, como membro do Espaço Económico Europeu e país vizinho, ocupa uma posição estratégica particular no fornecimento de petróleo bruto e gás.
As exportações da UE mantiveram-se geograficamente mais estáveis
Do lado das exportações, a concentração HHI manteve-se relativamente estável (de 576 para 619, +7,6 %), e os principais destinos alteraram-se de forma menos radical. O Reino Unido permaneceu o maior destino individual com 14,5 mil milhões de euros em 2025 (+40,3 % vs. 2015), seguido pelos Estados Unidos (9,0 mil milhões, +4,3 %) e Gibraltar (7,0 mil milhões, +113,2 %). As exportações para Singapura (-59,4 %) e Nigéria (−26,3 %) registaram os maiores declínios (principais parceiros de exportação).
3. A evolução da composição setorial e a especialização interna
Os óleos brutos (CN 2709) continuam a dominar as importações em volume, mas perderam quota em valor
Os óleos brutos de petróleo (CN 2709) constituem o segmento mais volumoso das importações da UE: em 2025, representaram 435,5 milhões de toneladas e 212,2 mil milhões de euros, correspondendo a cerca de 51 % do valor total das importações de combustíveis minerais. No entanto, em 2015, esta quota era ainda mais elevada (56 %), reflectindo o crescimento relativo do gás (segmentação por produto).
| Segmento de importação | Volume 2015 (M t) | Volume 2025 (M t) | Variação | Valor 2015 (mil M€) | Valor 2025 (mil M€) | Variação |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2709 — Óleos brutos | 503,0 | 435,5 | −13 % | 175,4 | 212,2 | +21 % |
| 2711 — Gás de petróleo | 119,0 | 143,9 | +21 % | 40,1 | 88,0 | +119 % |
| 2710 — Óleos refinados | 131,5 | 91,2 | −31 % | 55,9 | 58,4 | +4 % |
| 2701 — Hulhas | 156,9 | 58,8 | −63 % | 11,2 | 8,4 | −25 % |
| 2707 — Óleos do alcatrão | 5,2 | 9,9 | +90 % | 2,1 | 5,2 | +156 % |
O gás de petróleo e hidrocarbonetos gasosos (CN 2711) registou o maior crescimento
O segmento CN 2711 (gás de petróleo e outros hidrocarbonetos gasosos) foi o que mais cresceu em termos de valor das importações: de 40,1 mil milhões de euros em 2015 para 88,0 mil milhões em 2025, um aumento de +119 %. Este crescimento reflecte a massiva substituição do gás russo por GNL norte-americano, norueguês e de outras origens, cujos preços unitários são significativamente mais elevados do que os do gás canalizado russo pré-sanções.
O carvão (CN 2701) sofreu o maior declínio em volume
O segmento do carvão e seus aglomerados (CN 2701) registou a queda mais acentuada: as importações em volume passaram de 156,9 milhões de toneladas em 2015 para apenas 58,8 milhões em 2025 (−63 %). Em valor, a descida foi de 11,2 mil milhões para 8,4 mil milhões de euros (−25 %). Este declínio é consistente com a política climática da UE e com a transição energética em curso, acelerada pelas sanções ao carvão russo.
Na UE, a produção interna de combustíveis minerais cresceu significativamente em valor
A produção interna da UE de combustíveis minerais (incluindo refinação) cresceu de 63,3 mil milhões de kg em 2015 para 121,4 mil milhões de kg em 2025 (+92 % em quantidade) e de 2,5 mil milhões para 15,5 mil milhões de euros em valor (+525 %). Este crescimento reflecte sobretudo a expansão da capacidade de refinação e a valorização dos produtos derivados em contexto de preços elevados.
A especialização inter-regional na UE é heterogénea
Em 2025, os Estados-Membros mais especializados na exportação de combustíveis minerais (medido pelo RSCA — Índice Simétrico de Vantagem Comparativa Revelada) foram a Grécia (RSCA = 0,50), a Lituânia (0,46), a Finlândia (0,44), Malta (0,44) e a Bélgica (0,35) (especialização dos Estados-Membros). A Grécia e a Bélgica, em particular, são centros de refinação e trânsito de petróleo de grande relevância. Em contrapartida, o Luxemburgo (RSCA = −0,94), o Chipre (−0,92) e a Irlanda (−0,87) são os Estados-Membros menos especializados neste setor.
Do lado das importações, os Países Baixos foram o maior importador em todos os anos do período, atingindo 83,6 mil milhões de euros em 2025 (+49,2 % vs. 2015), reflectindo o papel central do porto de Roterdão como hub energético europeu. A Alemanha (54,5 mil milhões, +2,6 %), a Itália (54,4 mil milhões, +35,5 %), a França (50,5 mil milhões, +43,1 %) e a Espanha (46,0 mil milhões, +33,4 %) completam o top-5 (principais importadores da UE).
A volatilidade das trocas com a Rússia e os EUA reflecte a transição do modelo de abastecimento
O coeficiente de variação (CV) das importações ao longo do período confirma a instabilidade das relações comerciais mais afectadas pela crise de 2022:
| Parceiro | CV das importações (valor) |
|---|---|
| Colômbia | 0,61 |
| Federação Russa | 0,53 |
| Estados Unidos | 0,46 |
| Líbia | 0,33 |
| Cazaquistão | 0,21 |
| Noruega | 0,19 |
| Arábia Saudita | 0,10 |
A Rússia (CV = 0,53) e os Estados Unidos (CV = 0,46) apresentam a maior volatilidade, reflectindo respetivamente a queda abrupta das exportações russas e a escalada das exportações norte-americanas. Em contraste, parceiros tradicionais como a Arábia Saudita (CV = 0,10) e a Argélia (CV = 0,11) apresentam padrões mais estáveis.
Conclusão
O período 2015–2025 foi de transformação profunda para o comércio externo da UE em combustíveis minerais. A crise energética de 2022, desencadeada pela invasão russa da Ucrânia, não apenas provocou picos de preços sem precedentes — com o valor das importações a atingir 831 mil milhões de euros em 2022 — mas acelerou uma reestruturação geográfica das cadeias de abastecimento que terá efeitos duradouros.
A dependência da Rússia como fornecedor, que em 2015 era dominante, cedeu lugar a um modelo mais diversificado, centrado nos Estados Unidos, na Noruega, na Argélia e no Cazaquistão. O HHI das importações desceu de 1.307 para 794, reflectindo esta maior diversificação. Simultaneamente, a composição produto a produto evoluiu no sentido do declínio do carvão (−63 % em volume) e do crescimento do gás de petróleo e hidrocarbonetos gasosos (+21 % em volume, +119 % em valor).
A dependência líquida de importações agravou-se substancialmente, passando de −1,3 % para −81,2 %, o que sublinha a vulnerabilidade estrutural da UE no setor energético. Contudo, o crescimento da produção interna (+92 % em quantidade, +525 % em valor) e a progressiva diversificação de fornecedores oferecem alguma margem para reduzir esta vulnerabilidade no médio prazo.
Em suma, o setor dos combustíveis minerais na UE saiu do período 2015–2025 com um modelo comercial reconfigurado, mais diversificado mas ainda fortemente dependente do exterior, e sujeito a uma volatilidade de preços que continua a representar um risco macroeconómico relevante para o bloco.