Evolução do mercado: Óleos de petróleo (CN 2710) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no segmento dos óleos de petróleo e preparações derivadas (posição aduaneira CN 2710), no período compreendido entre 2015 e 2025. Esta posição inclui óleos leves e preparações (271012), óleos médios e preparações (271019), preparações com biodiesel (271020), resíduos de óleos (271099) e produtos contendo bifenilos policlorados (271091). Trata-se de um dos maiores capítulos do comércio externo europeu, com importações e exportações anuais que oscilaram entre os €39 mil milhões e os €130 mil milhões ao longo da década.
O período analisado é marcado por três dinâmicas centrais: (i) uma reconfiguração radical das origens de abastecimento, com o colapso das importações da Rússia e a ascensão do Médio Oriente e da Ásia; (ii) uma escalada dos preços médios, impulsionada por crises geopolíticas e energéticas; e (iii) uma queda estrutural dos volumes transacionados, ainda que o valor do comércio se tenha mantido ou mesmo elevado. Estes movimentos refletem tanto fatores cíclicos — como a pandemia de COVID-19 — quanto alterações estruturais profundas, nomeadamente as sanções europeias ao petróleo russo.
1. Disjunção entre volume e valor: os preços como motor da recuperação nominal
A evolução do comércio total mostra uma queda acentuada nos volumes
Ao longo do período 2015–2025, o comércio da UE em óleos de petróleo (CN 2710) com países terceiros registou uma evolução marcada pela diverência entre os indicadores de volume e de valor. Em termos de comércio geral:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor | 68,7 mil M€ | 77,3 mil M€ | +12,4% |
| Exportações — quantidade | 150,7 Mt | 118,4 Mt | −21,4% |
| Importações — valor | 55,9 mil M€ | 58,4 mil M€ | +4,5% |
| Importações — quantidade | 131,5 Mt | 91,2 Mt | −30,7% |
| Saldo comercial | 12,9 mil M€ | 18,9 mil M€ | +46,8% |
A queda de 21,4% nas exportações e de 30,7% nas importações em volume contrasta com a evolução positiva em valor, evidenciando o papel decisivo dos preços na sustentação do valor nominal do comércio.
O choque de 2020–2022 define um ciclo completo de crise e recuperação
O ano de 2020 representou o ponto mínimo do período tanto para importações (38,9 mil M€; mínimo do período) quanto para exportações (48,0 mil M€; mínimo do período), refletindo o colapso da procura durante a pandemia. A recuperação foi, no entanto, rápida e intensa, culminando em 2022 com valores máximos de exportações (130,3 mil M€) e importações (101,5 mil M€), impulsionada pela escalada dos preços energéticos associada à invasão russa da Ucrânia.
Os preços médios mais do que duplicaram em relação ao mínimo de 2016
Os preços médios de exportação subiram de 364,6 €/t (mínimo em 2016) para 922,7 €/t (máximo em 2022), antes de recuarem para 647,4 €/t em 2025. Em termos agregados:
| Preço médio | 2015 | 2016 (mín.) | 2022 (máx.) | 2025 |
|---|---|---|---|---|
| Exportações (€/t) | 456,3 | 364,6 | 922,7 | 647,4 |
| Importações (€/t) | 424,6 | 344,8 | 938,6 | 638,7 |
A variação acumulada dos preços de exportação entre 2015 e 2025 foi de +41,9%, enquanto os preços de importação subiram +50,4%, indicando uma compressão dos termos de troca ligeiramente favorável aos fornecedores externos.
O saldo comercial europeu manteve-se estruturalmente positivo
Apesar da queda de volumes, a UE manteve ao longo de todo o período um saldo comercial positivo com o exterior, situando-se entre 9,1 mil M€ (2020) e 28,7 mil M€ (2022). O máximo de 2022 reflete simultaneamente o pico de preços e uma vantagem europeia em termos de capacidade exportadora — possivelmente ligada ao papel de intermediários de grandes centros de refinação como os Países Baixos e a Bélgica.
2. Reconfiguração geopolítica do abastecimento: da Rússia ao Médio Oriente e à Ásia
As importações russas colapsaram de forma dramática
A transformação mais marcante do período foi a quase eliminação das importações da Rússia. Em 2015, a Rússia era de longe o principal fornecedor da UE, com 19,6 mil M€ em importações, atingindo um máximo histórico de 35,4 mil M€ em 2022. Em 2025, o valor residual cifrou-se em apenas 167 M€ — uma queda de 99,2%.
| Fornecedor | 2015 (mil M€) | 2022 (mil M€) | 2025 (mil M€) | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Rússia | 19,6 | 35,4 | 0,2 | −99,2% |
| Arábia Saudita | 3,0 | 12,0 | 8,8 | +189,6% |
| Índia | 1,8 | 8,8 | 5,0 | +172,4% |
| EUA | 6,5 | 10,6 | 6,8 | +4,6% |
| Reino Unido | 8,0 | 4,3 | 4,5 | −44,4% |
| Emirados Árabes Unidos | 1,6 | 5,7 | 2,5 | +53,6% |
A queda reflete as sanções progressivas da UE ao petróleo russo, implementadas a partir de meados de 2022 no quadro das sanções à Rússia após a invasão da Ucrânia.
A Arábia Saudita e a Índia tornaram-se os principais substitutos
A Arábia Saudita e a Índia preencheram parcialmente o vazio deixado pela Rússia. A Arábia Saudita mais do que triplicou as suas exportações para a UE (de 3,0 mil M€ para 8,8 mil M€), enquanto a Índia cresceu de 1,8 mil M€ para 5,0 mil M€ — uma variação de +172,4%. Estes dois países, juntamente com os Emirados Árabes Unidos, refletem o redirecionamento da procura europeia para os produtores do Golfo e refinarias asiáticas.
A concentração das importações desabou
O Índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações, medido em valor, desceu de 1.949 (2015) para 861 (2025), uma queda de 55,9%. Este valor indica uma transição de um mercado moderadamente concentrado (dominado pela Rússia) para um mercado bastante diversificado. Em termos de volume, a descida foi ainda mais acentuada: de 2.158 para 871 (−59,7%).
Para as exportações, o HHI manteve-se sempre em valores baixos (de 573 para 639), refletindo a distribuição geográfica mais equilibrada das exportações europeias.
A volatilidade revela fragilidades no novo mapa de abastecimento
O coeficiente de variação (CV) dos fluxos de importação evidencia padrões distintos:
| Fornecedor | CV das importações |
|---|---|
| Kuwait | 1,10 |
| Rússia | 0,62 |
| Turquia | 0,63 |
| Índia | 0,46 |
| Reino Unido | 0,33 |
| EUA | 0,35 |
| Noruega | 0,16 |
O Kuwait, apesar de volume relativamente menor, apresenta a maior volatilidade (CV = 1,10), sugerindo relações comerciais esporádicas ou dependentes de eventos pontuais. A Rússia e a Turquia, com CVs superiores a 0,6, refletem as descontinuidades abruptas associadas a sanções e instabilidade. Os fornecedores mais estáveis são a Noruega (0,16) e a Arábia Saudita (0,20), oferecendo maior previsibilidade ao abastecimento europeu.
Choques de preço de 2022 afetaram múltiplos parceiros simultaneamente
Os principais choques detetados concentram-se no ano de 2022, com abnormidades de preço entre 6,0 e 6,5 desvios-padrão:
| Parceiro | Tipo | Fluxo | Desvio | Variação | Valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Arábia Saudita | Preço | Exportações UE | 6,5 | +113,2% | 2,2% |
| Índia | Preço | Importações UE | 6,3 | +121,2% | 8,1% |
| Canadá | Preço | Exportações UE | 6,0 | +92,8% | 3,3% |
O choque mais significativo em termos de peso comercial foi o aumento de 121,2% nos preços das importações da Índia, que representavam 8,1% do valor total das importações — evidenciando como o encarecimento global do petróleo afetou particularmente a via indiana que se tornou alternativa à rota russa.
3. Segmentação do produto e especialização intra-europeia
Os óleos médios (271019) dominam esmagadoramente o comércio
A decomposição por subproduto revela a forte predominância do segmento 271019 (óleos médios e preparações sem biodiesel), que em 2025 representou:
| Segmento | Importações — quantidade (Mt) | Share | Importações — valor (mil M€) | Share |
|---|---|---|---|---|
| 271019 — Óleos médios | 74,8 | 82,0% | 48,5 | 83,2% |
| 271012 — Óleos leves | 15,3 | 16,8% | 9,2 | 15,8% |
| 271020 — Com biodiesel | 0,8 | 0,9% | 0,6 | 0,9% |
| 271099 — Resíduos | 0,2 | 0,2% | 0,0 | 0,1% |
| 271091 — Com PCB | 0,0 | 0,0% | 0,0 | 0,0% |
Os mesmos dois segmentos dominam as exportações, com o 271019 a representar 55,5% do volume exportado (65,6 Mt) e o 271012 a contribuir com 44,3% (52,4 Mt) em 2025.
Os volumes de todos os segmentos principais diminuíram ao longo da década
A queda de volumes não se limitou ao segmento dominante. Entre 2015 e 2025:
- 271019 (importações): de 107,3 Mt para 74,8 Mt (−30,3%)
- 271012 (importações): de 23,7 Mt para 15,3 Mt (−35,4%)
- 271019 (exportações): de 91,8 Mt para 65,6 Mt (−28,5%)
- 271012 (exportações): de 58,5 Mt para 52,4 Mt (−10,4%)
A redução mais acentuada nas importações do segmento 271012 (−35,4%) pode refletir a transição energética europeia e a redução da procura de combustíveis mais leves, associada à eletrificação do transporte e às alterações nos padrões de mobilidade.
Os Países Baixos e a Bélgica são os nós logísticos centrais do comércio europeu
Em 2025, a estrutura dos principais Estados-Membros no comércio extra-UE de óleos de petróleo revela uma concentração nos países do litoral atlântico e do Mar do Norte:
| Estado-Membro | Importações (mil M€) | Exportações (mil M€) |
|---|---|---|
| Países Baixos | 11,5 | 18,7 |
| França | 11,6 | 4,0 |
| Bélgica | 5,7 | 10,1 |
| Itália | 5,6 | 7,0 |
| Grécia | 3,0 | 7,7 |
| Espanha | 4,6 | 6,7 |
| Alemanha | 3,4 | 4,6 |
Os Países Baixos são simultaneamente o maior importador e exportador extra-UE, refletindo o papel do Porto de Roterdão como principal hub de distribuição de produtos petrolíferos na Europa. A Grécia destaca-se por uma taxa de exportação/importação particularmente elevada (2,6x), coerente com a sua frota marítima e capacidade de refinação orientada para a exportação.
A especialização revela assimetrias entre Estados-Membros
A análise de especialização (RSCA) em 2025 identifica os Estados-Membros com vantagem comparativa revelada neste setor:
| País | RSCA | RCA |
|---|---|---|
| Malta | 0,668 | 5,03 |
| Finlândia | 0,610 | 4,13 |
| Grécia | 0,594 | 3,92 |
| Lituânia | 0,544 | 3,38 |
| Bélgica | 0,377 | 2,21 |
Nos extremos opostos, Luxemburgo (RSCA = −0,975), Chipre (−0,854) e Irlanda (−0,801) apresentam a maior desvantagem comparativa, refletindo a sua dependência quase total de importações neste segmento e a inexistência de capacidade de refinação relevante.
Conclusão
O período 2015–2025 transformou profundamente o mercado europeu de óleos de petróleo (CN 2710). A queda acumulada de 21% a 31% nos volumes comercializados — tanto em exportações como importações — aponta para uma contração estrutural da procura europeia, provavelmente ligada à transição energética e à melhoria da eficiência energética.
Contudo, os preços mais do que compensaram esta redução em termos nominais, com o valor total do comércio a maniver-se em patamares historicamente elevados, sobretudo após o choque de 2022. A escalada dos preços desencadeou eventos de choque com abnormidades superiores a 6 desvios-padrão, afetando rotas comerciais tão distintas como a Arábia Saudita, a Índia e o Canadá.
A mudança mais estrutural foi, sem dúvida, a reconfiguração do abastecimento: a Rússia passou de 35% do valor das importações para praticamente zero, num processo que reduziu o HHI de importação em mais de 55% e redistribuiu as encomendas europeias pela Arábia Saudita, a Índia, os EUA e os Emirados Árabes Unidos. Esta diversificação, embora reduza a dependência de um único fornecedor, introduz novas vulnerabilidades — como a elevada volatilidade nas relações com o Kuwait (CV = 1,10) e a concentração geográfica no Golfo Pérsico.
No plano intra-europeu, os Países Baixos e a Bélgica consolidaram a sua posição como centros logísticos de distribuição, enquanto os países do Sul da Europa (Grécia, Espanha) ganharam relevância como exportadores líquidos de produtos refinados para mercados terceiros. O equilíbrio futuro dependerá tanto da evolução dos preços energéticos globais quanto da velocidade da transição energética europeia.