Evolução do mercado: Ceras minerais (CN 2712) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor das ceras minerais e produtos assemelhados (posição aduaneira CN 2712), que abrange vaselina, parafina, ceras de petróleo microcristalinas, slack wax, ozocerite, ceras de linhite e turfa, entre outros produtos sintéticos ou minerais. O período em análise — de 2015 a 2025 — foi marcado por transformações estruturais profundas: a crise energética de 2022, as sanções à Rússia e a reconfiguração das cadeias de abastecimento globais deixaram marcas duradouras neste mercado. A UE passou de um défice comercial de cerca de €96 milhões em 2015 para aproximadamente €394 milhões em 2025, um agravamento de 311%, refletindo simultaneamente a perda de fornecedores tradicionais, o crescimento das importações da China e do Reino Unido, e uma erosão significativa das exportações em volume.
1. Deterioração estrutural da balança comercial: um défice em expansão
1.1. As importações crescem muito mais do que as exportações
Ao longo da década analisada, as importações da UE em código 2712 registaram um crescimento acentuado, tanto em valor como em volume, enquanto as exportações sofreram uma contração significativa em termos físicos:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações — valor (€) | 407 381 066 | 663 663 243 | +62,9% |
| Importações — volume (t) | 383 880 | 587 216 | +53,0% |
| Importações — preço médio (€/t) | 1 061 | 1 130 | +6,5% |
| Exportações — valor (€) | 311 471 042 | 269 382 831 | −13,5% |
| Exportações — volume (t) | 236 137 | 135 589 | −42,6% |
| Exportações — preço médio (€/t) | 1 319 | 1 987 | +50,6% |
| Saldo comercial (€) | −95 910 024 | −394 280 413 | −311,1% |
Enquanto as importações cresceram em volume em mais de metade (+53%), as exportações caíram em mais de dois quintos (−42,6%). O défice comercial agravou-se de forma dramática. Note-se que o pico das importações foi atingido em 2022, com €920 milhões e 535 000 toneladas, impulsionado pela crise energética que elevou os preços para máximos históricos.
1.2. O preço como amortecedor das exportações
Embora o volume exportado tenha diminuído significativamente, o valor das exportações caiu apenas 13,5%, graças a um aumento expressivo do preço médio de exportação (de €1 319/t para €1 987/t, +50,6%). Isto sugere que a UE está a exportar menos em termos físicos, mas a concentrar-se em produtos de maior valor acrescentado. Em contraste, o preço médio de importação subiu apenas 6,5%, o que indica que a UE continua a importar sobretudo commodities de cera a preços relativamente acessíveis.
1.3. Segmentação por produto: parafinas dominam, vaselina é nicho de valor
A decomposição por subprodutos revela padrões distintos:
Importações por segmento (2025):
| Segmento | Volume (t) | Valor (€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| 271290 — Outras ceras minerais | 344 281 | 343 100 970 | 997 |
| 271220 — Parafina (<0,75% óleo) | 237 375 | 305 814 907 | 1 288 |
| 271210 — Vaselina | 5 561 | 14 747 366 | 2 651 |
Exportações por segmento (2025):
| Segmento | Volume (t) | Valor (€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| 271290 — Outras ceras minerais | 76 175 | 146 659 434 | 1 925 |
| 271210 — Vaselina | 34 261 | 64 232 220 | 1 874 |
| 271220 — Parafina (<0,75% óleo) | 25 153 | 58 491 177 | 2 325 |
O segmento 271290 domina ambos os fluxos, representando a maioria do volume importado e exportado. A vaselina (271210), embora em volumes pequenos nas importações (apenas 5 561 t), apresenta o preço médio mais elevado (€2 651/t), confirmando o seu carácter de produto especializado. Curiosamente, nas exportações a UE exporta significativamente mais vaselina (34 261 t) do que importa, sugerindo uma capacidade produtiva interna relevante para este subproduto.
O segmento 271220 registou uma evolução notável nas importações: o volume mais do que duplicou entre 2020 (144 216 t) e 2022 (299 772 t), antes de recuar para 237 375 t em 2025 — um crescimento líquido de 71,4% face a 2015.
2. Reconfiguração geográfica: da Rússia para a China e o Reino Unido
2.1. O colapso das importações da Rússia
A dinâmica mais marcante do período é o desaparecimento quase total da Rússia como fornecedor de ceras minerais para a UE. Em 2015, as importações russas ascendiam a €91,6 milhões; em 2025, o valor residual registado é de apenas €2 (dois euros) — uma queda de 100%. Este colapso está diretamente ligado às sanções comerciais impostas após 2022 e reflete a exclusão de um fornecedor historicamente dominante. No auge, a Rússia era o segundo maior fornecedor da UE, atrás apenas das origens não especificadas.
| Fornecedor (importações) | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 66 755 885 | 169 944 253 | +154,6% |
| Rússia | 91 593 672 | 2 | −100,0% |
| Origens não especificadas | 243 913 978 | 140 543 715 | −42,4% |
| Reino Unido | 22 947 218 | 80 172 213 | +249,4% |
| EUA | 51 062 292 | 58 821 629 | +15,2% |
| Malásia | 39 997 626 | 51 198 372 | +28,0% |
| Egipto | 4 639 721 | 28 754 768 | +519,8% |
2.2. A China como principal substituto
A China emergiu como o principal beneficiário da reconfiguração das cadeias de abastecimento. As importações de ceras minerais chinesas passaram de €66,8 milhões em 2015 para €170,0 milhões em 2025 (+154,6%), atingindo um pico de €299,5 milhões em 2022. A China tornou-se, de longe, o maior fornecedor individual da UE, preenchendo parcialmente o vazio deixado pela Rússia. No entanto, o pico de 2022 e a subsequente queda sugerem que parte deste crescimento foi pontual, ligada à urgência de substituir fornecedores sanccionados.
2.3. Crescimento surpreendente do Reino Unido e do Egipto
Dois fornecedores registaram crescimentos particularmente notáveis:
- Reino Unido: as importações triplicaram (+249,4%), de €22,9 milhões para €80,2 milhões. Este crescimento pode refletir tanto a reorganização das cadeias de valor pós-Brexit como a capacidade de refinação britânica em preencher lacunas de abastecimento.
- Egipto: com um crescimento de +519,8%, de €4,6 milhões para €28,8 milhões, o Egipto emerge como um fornecedor cada vez mais relevante, possivelmente ligado à expansão da capacidade de refinação no Norte de África.
2.4. Concentração crescente das importações
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 1 386 para 1 765 (+27,4%), indicando uma maior concentração das fontes de abastecimento. Se por um lado a diversificação geográfica diminuiu (com a perda da Rússia e o crescimento dominante da China), por outro a concentração das exportações da UE diminuiu (HHI de 913 para 656, −28,1%), sugerindo que os exportadores europeus diversificaram os seus mercados de destino.
2.5. Principais destinos das exportações da UE
| Destino (exportações) | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 55 858 985 | 44 993 950 | −19,5% |
| EUA | 57 896 503 | 27 272 703 | −52,9% |
| Nigéria | 15 271 463 | 13 428 632 | −12,1% |
| Índia | 15 989 904 | 19 425 716 | +21,5% |
| China | 17 971 314 | 23 223 047 | +29,2% |
| Turquia | 12 145 793 | 18 841 946 | +55,1% |
| África do Sul | 9 582 664 | 10 447 639 | +9,0% |
As exportações para os EUA sofreram a maior queda (−52,9%), enquanto a Turquia (+55,1%), a China (+29,2%) e a Índia (+21,5%) ganharam relevância como mercados de destino. Esta reorientação para mercados asiáticos e emergentes sugere uma adaptação dos exportadores europeus face à crescente concorrência e às mudanças nas cadeias de valor globais.
2.6. Especialização intra-UE
Em termos de vantagem comparativa revelada (RSCA), os Estados-Membros mais especializados na exportação de ceras minerais em 2025 são a Grécia (RSCA = 0,52), a Hungria (0,39) e os Países Baixos (0,36). A Alemanha, apesar de ser o maior exportador em valor absoluto (€137 milhões em 2025), apresenta um RSCA mais modesto (0,10), reflectindo a diversificação do seu portfolio exportador. Do lado das importações, os principais compradores intra-UE são a Polónia (€113 milhões), a Alemanha (€172 milhões) e os Países Baixos (€132 milhões), com a Itália (+152,9%) e a Espanha (+121,6%) a registarem os maiores crescimentos no período.
3. Choques de 2022: a crise energética como ponto de rutura
3.1. O ano de 2022 como máxima histórica de preços
O ano de 2022 representa claramente um ponto de inflexão no mercado de ceras minerais. Impulsionada pela escalada dos preços do petróleo e do gás natural — matéria-prima fundamental para a produção de parafinas e ceras de petróleo —, a UE registou máximos históricos em praticamente todos os indicadores:
| Indicador | Máximo histórico | Ano |
|---|---|---|
| Importações — valor (€) | 920 104 797 | 2022 |
| Importações — preço médio (€/t) | 1 572 | 2022 |
| Exportações — preço médio (€/t) | 2 259 | 2022 |
| Parafina 271220 — preço importação (€/t) | 1 764 | 2022 |
| Vaselina 271210 — preço importação (€/t) | 2 970 | 2022 |
O preço médio de importação atingiu €1 572/t em 2022, face a €792/t no mínimo de 2020 — um aumento de 98,5% em apenas dois anos. O preço da vaselina importada disparou para €2 970/t, mais do que o dobro do valor de 2020 (€1 890/t).
3.2. Choques de preço específicos por parceiro
A análise de eventos de choque identifica três perturbações particularmente significativas em 2022:
| Parceiro | Fluxo | Tipo de choque | Anomalia | Variação (%) | Participação no valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| África do Sul | Exportações | Preço | 69,9 | +70,3% | 4,6% |
| Egipto | Importações | Preço | 25,8 | +96,9% | 3,9% |
| EUA | Exportações | Preço | 10,1 | +148,5% | 17,9% |
O choque mais relevante em termos de impacto comercial foi o aumento de 148,5% nos preços de exportação para os EUA em 2022, que representava 17,9% do valor total das exportações. Este fenómeno reflete a transmissão do choque energético europeu para os mercados de destino, mas também pode indicar mudanças na composição do mix exportador (produtos de maior valor).
3.3. Volatilidade assimétrica entre parceiros
A volatilidade dos fluxos comerciais (medida pelo coeficiente de variação) difere significativamente entre parceiros:
Importações — maior volatilidade:
| Parceiro | Coeficiente de variação |
|---|---|
| Tailândia | 0,875 |
| África do Sul | 0,799 |
| Egipto | 0,718 |
| Turquia | 0,738 |
| Reino Unido | 0,542 |
Exportações — maior volatilidade:
| Parceiro | Coeficiente de variação |
|---|---|
| EUA | 0,540 |
| Brasil | 0,355 |
| África do Sul | 0,345 |
| Costa do Marfim | 0,333 |
A Tailândia (CV = 0,875) e a África do Sul (CV = 0,80) são os fornecedores mais voláteis do lado das importações, refletindo possivelmente a irregularidade das relações comerciais ou a sensibilidade a interrupções logísticas. Do lado das exportações, os EUA apresentam a maior volatilidade (CV = 0,54), consistente com a forte queda registada (−52,9% em valor). Em contraste, parceiros como a Norvega (CV = 0,083) ou a Turquia (CV = 0,105) mantiveram relações comerciais mais estáveis.
3.4. Normalização pós-choque e resiliência
Após o pico de 2022, o mercado iniciou uma fase de normalização. Em 2025, o valor das importações (€664 milhões) e o preço médio (€1 130/t) situam-se significativamente abaixo dos máximos de 2022, mas claramente acima dos níveis pré-crise. Isto sugere que parte do choque de preços se tornou estrutural, possivelmente devido à reconfiguração permanente das cadeias de abastecimento (substituição da Rússia por fornecedores mais distantes) e a custos energéticos persistentemente mais elevados na Europa.
Conclusão
O mercado europeu de ceras minerais (CN 2712) sofreu uma transformação profunda entre 2015 e 2025. Três dinâmicas principais definem este período:
-
Agravamento do défice comercial: a UE tornou-se progressivamente mais dependente de importações, com o défice a quadruplicar para €394 milhões. A queda de 42,6% no volume exportado, apesar do aumento dos preços de exportação, sinaliza uma perda de competitividade em termos de volume.
-
Reconfiguração geográfica radical: a perda total da Rússia como fornecedor (de €92 milhões para praticamente zero) foi o evento estrutural mais significativo. A China assumiu uma posição dominante como fornecedor alternativo, mas a dependência crescente de um único fornecedor (HHI das importações em alta) constitui um risco. Paralelamente, o Reino Unido e o Egipto emergiram como fornecedores cada vez mais relevantes.
-
O choque de 2022 como catalisador: a crise energética de 2022 provocou uma disrupção sem precedentes nos preços (máximos históricos em praticamente todos os segmentos), mas também acelerou a reconfiguração das cadeias de abastecimento. Embora os preços tenham entretanto recuado, a estrutura de mercado resultante — mais cara, mais concentrada e mais dependente de fornecedores extra-europeus — parece ser permanente.
Olhando para o futuro, os principais riscos para o mercado europeu de ceras minerais residem na concentração das importações na China, na sensibilidade residual aos preços da energia e na capacidade de manter uma base exportadora diversificada. A especialização de países como a Grécia, a Hungria e os Países Baixos poderá oferecer oportunidades para reforçar a competitividade europeia num segmento onde a dependência externa continua a crescer.