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Evolução do mercado: Gás de petróleo (CN 2711) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativamente ao código pautal 2711 — Gás de petróleo e outros hidrocarbonetos gasosos — ao longo do período 2015–2025. Este código abrange uma família alargada de produtos energéticos, entre os quais se destacam o gás natural (GNL e gasoso), o propano, os butanos e os hidrocarbonetos olefínicos (etileno, propileno, butileno e butadieno).

A década em análise foi marcada por transformações estruturais profundas no mercado energético europeu, desde a crescente substituição do gás natural transportado por gasoduto pelo GNL importado por via marítima, passando pelo choque geopolítico e energético de 2022 — associado ao conflito na Ucrânia — até à progressiva diversificação geográfica dos fornecedores. O défice comercial da UE neste setor, que partiu de -38,3 mil milhões de euros em 2015, atingiu -83,8 mil milhões de euros em 2025, evidenciando uma agravamento de 118,9%.

O relatório organiza-se em três eixos principais: a reconfiguração estrutural do abastecimento, a dinâmica de preços e a ocorrência de choques, e a evolução dos fluxos de exportação e da concentração do mercado.


1. A viragem do gasoduto ao GNL: reconfiguração estrutural do abastecimento europeu

1.1. A transição do gás natural gasoso (271121) para o GNL liquefeito (271111)

A dinâmica mais relevante no período 2015–2025 é a inversão da composição das importações de gás natural da UE. O gás natural em estado gasoso (CN 271121), tradicionalmente dominante, registou uma quebra consistente de volume: de 82,7 milhões de toneladas em 2015 para 63,1 milhões de toneladas em 2025, uma redução de 23,6%. Em contrapartida, o gás natural liquefeito (CN 271111) triplicou de volume, passando de 20,4 milhões de toneladas para 65,2 milhões de toneladas no mesmo período.

Produto Volume 2015 (Mt) Volume 2025 (Mt) Variação
271121 — Gás natural (gasoso) 82,7 63,1 −23,6%
271111 — Gás natural (GNL, liquefeito) 20,4 65,2 +219,6%
271112 — Propano 11,8 12,1 +2,7%
271113 — Butanos 3,4 2,9 −15,9%

Em 2025, o GNL liquefeito ultrapassou pela primeira vez o gás gasoso em volume importado, sinalizando uma mudança estrutural definitiva no modelo de abastecimento europeu. Esta transição é diretamente explicável pela perda de fornecimento por gasoduto desde a Rússia e pelo investimento massivo em terminais de regaseificação em países como a Bélgica, os Países Baixos, a Alemanha, a Itália e a Espanha.

1.2. A queda das importações da Rússia e a ascensão dos Estados Unidos como fornecedor principal

A reconfiguração geográfica do abastecimento é igualmente marcante. As importações da Rússia, que em 2015 perfaziam 12,9 mil milhões de euros, registaram uma variação modesta de +2,5% em 2025 (para 13,2 mil M€), mas esta aparente estabilidade esconde uma trajetória muito volátil: o pico de 48,3 mil M€ foi atingido provavelmente em 2022, refletindo a escalada de preços mesmo antes do corte efetivo de fornecimento.

O caso mais extraordinário é o dos Estados Unidos, cujas exportações de gás para a UE cresceram 3.329,5% ao longo da década, de 828 milhões de euros para 28,4 mil milhões de euros. Os EUA tornaram-se o maior fornecedor de valor em 2025, ultrapassando a Argélia (14,5 mil M€) e a Noruega (10,8 mil M€).

Fornecedor Valor 2015 (M€) Valor 2025 (M€) Variação
Federação Russa 12.917 13.241 +2,5%
Argélia 8.740 14.547 +66,5%
Noruega 6.085 10.848 +78,3%
Estados Unidos 828 28.404 +3.329,5%
Reino Unido 3.626 4.233 +16,7%
Qatar 2.828 3.909 +38,2%
Nigéria 1.185 2.266 +91,2%

O crescimento exponencial das importações dos EUA reflete a expansão da capacidade de exportação de GNL norte-americana combinada com a necessidade europeia de substituir o gás russo. A Argélia e a Noruega, fornecedores tradicionais por gasoduto e GNL, também reforçaram as suas posições.

1.3. A diversificação e a ligeira redução da concentração das importações

O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor desceu de 2.185 em 2015 para 1.925 em 2025 (−11,9%), indicando uma ligeira desconcentração da base fornecedora. Apesar de a UE permanecer altamente dependente de um número limitado de parceiros, a entrada de novos fornecedores de GNL (EUA, Qatar, Nigéria) e a manutenção de fornecedores tradicionais (Argélia, Noruega) contribuíram para uma distribuição mais equilibrada.

Dimensão HHI 2015 HHI 2025 Variação
Importações (valor) 2.185 1.925 −11,9%
Importações (volume) 2.164 1.848 −14,6%

Por outro lado, os Estados Unidos apresentaram o maior coeficiente de variação (CV) nas importações (0,85), refletindo a natureza recente e expansiva deste fluxo comercial. O Azerbaijão (CV = 0,97) e o Peru (CV = 0,95) registaram igualmente elevada volatilidade, embora em volumes significativamente inferiores.


2. O choque de 2022: preços, volatilidade e resiliência do mercado europeu

2.1. A escalada sem precedente dos preços em 2022

O ano de 2022 constituiu um ponto de rutura no mercado europeu de gás. Os preços médios de importação dispararam para níveis históricos. O preço médio do gás natural gasoso (271121) atingiu 1.316 €/tonelada em 2022, face a 173 €/tonelada em 2020 — um aumento de mais de 660%. O GNL liquefeito (271111) atingiu 1.284 €/tonelada em 2022, contra 192 €/tonelada em 2020.

Produto Preço 2020 (€/t) Preço 2022 (€/t) Preço 2025 (€/t)
271121 — Gás natural (gasoso) 172,7 1.316,2 539,8
271111 — Gás natural (GNL) 192,0 1.283,8 529,5
271112 — Propano 300,6 653,6 463,1
271113 — Butanos 309,6 651,2 450,2
271114 — Olefinas 462,1 958,7 673,5

O valor total das importações de gás da UE atingiu o recorde absoluto de 234,9 mil milhões de euros em 2022, face a 27,9 mil milhões de euros no mínimo do período (provavelmente 2016 ou 2020), o que traduz um aumento de 742%. Os preços recuaram significativamente em 2023–2025, embora se tenham estabilizado em patamares claramente superiores aos registados antes de 2021.

2.2. Choques de preço identificados nos parceiros comerciais

A análise de eventos de choque revela três episódios particularmente relevantes:

Parceiro Tipo Fluxo Anomalia Variação (%) Partilha no valor (%)
Sérvia Preço Exportações 16,3 +508,7% 6,2%
Reino Unido Preço Exportações 16,0 +220,5% 15,6%
Estados Unidos Preço Importações 14,1 +228,0% 23,8%

O choque nas exportações para a Sérvia (centrado em 2022, com uma variação de preço de +508,7%) reflete a elevada exposição dos Balcãs Ocidentais à crise energética europeia. O choque no preço das importações dos EUA em 2021 (anomalia de 14,1) antecedeu o pico de 2022, sugerindo que o aperto do mercado de GNL transatlântico se manifestou precocemente.

2.3. O impacto diferenciado nos membros da UE

A estrutura das importações por Estado-Membro revela padrões de vulnerabilidade diferenciados. Os países com maiores terminais de GNL e rotas alternativas de gasoduto (Itália, Espanha, Bélgica, França) cresceram de forma mais sustentada, enquanto os países do Leste mais dependentes de rotas russas registaram maior volatilidade.

Estado-Membro Importações 2015 (M€) Importações 2025 (M€) Variação
Itália 12.734 22.974 +80,4%
Bélgica 6.177 13.656 +121,1%
Espanha 7.700 11.395 +48,0%
França 2.748 12.924 +370,4%
Países Baixos 1.679 10.950 +552,3%
Hungria 1.286 3.312 +157,6%
Grécia 748 3.258 +335,3%

A França (+370,4%) e os Países Baixos (+552,3%) registaram os maiores crescimentos, refletindo a expansão da capacidade de regaseificação e o papel de hub de distribuição no noroeste europeu. A Grécia (+335,3%) beneficiou da sua posição geoestratégica como porta de entrada do GNL do Mediterrâneo Oriental.


3. Novos fluxos de exportação e reconfiguração das relações comerciais da UE

3.1. Crescimento exponencial das exportações para a Europa de Leste

Embora a UE seja estruturalmente importadora líquida de gás, as exportações registaram crescimento significativo, passando de 1,9 mil milhões de euros para 4,2 mil milhões de euros (+123,5%). Os destinos que mais cresceram situam-se sobretudo na Europa de Leste e nos Balcãs:

Destino das exportações Valor 2015 (M€) Valor 2025 (M€) Variação
Ucrânia 121 1.456 +1.106,2%
Moldávia 7 614 +8.575,7%
Sérvia 32 172 +436,4%
Noruega 48 163 +241,3%
Reino Unido 179 301 +68,5%
Marrocos 205 303 +47,8%
Tunísia 85 99 +17,3%

O crescimento exponencial das exportações para a Ucrânia (+1.106,2%) e a Moldávia (+8.575,7%) é particularmente notável e reflete diretamente o contexto geopolítico pós-2022. A UE tornou-se simultaneamente fornecedor de gás para países que antes dependiam inteiramente das rotas russas, reforçando o papel europeu como hub redistribuidor energético no continente.

3.2. A crescente concentração das exportações e a especialização dos Estados-Membros

Em contraste com a ligeira desconcentração das importações, o HHI das exportações aumentou significativamente: de 550 para 1.950 (+254,8% em valor). Este aumento reflete a concentração das exportações em poucos destinos estratégicos (Ucrânia, Reino Unido, Marrocos), ao passo que em 2015 as exportações estavam mais dispersas geograficamente.

Dimensão HHI 2015 HHI 2025 Variação
Exportações (valor) 550 1.950 +254,8%
Exportações (volume) 564 2.328 +312,9%

Os indicadores de especialização revelam que a Bélgica (RSCA = 0,73; RCA = 6,28) é o Estado-Membro mais especializado em gás, o que é consistente com a posição do porto de Zeebrugge e do terminal de GNL como hub europeu. Seguem-se os países bálticos — Letónia (RSCA = 0,65), Estónia (RSCA = 0,64) e Lituânia (RSCA = 0,52) — que, apesar do seu reduzido peso no total, demonstram uma especialização relativa elevada, possivelmente ligada ao terminal flutuante de Klaipeda e às rotas de reexportação.

Em contrapartida, a Alemanha (RSCA = −0,86), a Áustria (RSCA = −0,88) e a Polónia (RSCA = −0,94) apresentam os menores índices de especialização, refletindo a sua condição de grandes consumidores e importadores líquidos sem capacidade relevante de exportação de gás.

3.3. Os Estados-Membros como motores da exportação: Hungria e Roménia

Ao nível dos Estados-Membros exportadores, dois países se destacam pelo crescimento mais acentuado:

Estado-Membro Exportações 2015 (M€) Exportações 2025 (M€) Variação
Hungria 129 1.361 +952,0%
Roménia 31 709 +2.214,1%
França 384 542 +41,4%
Grécia 62 181 +190,2%
Países Baixos 62 209 +238,8%

A Hungria (+952%) e a Roménia (+2.214,1%) emergiram como exportadores relevantes de gás para países vizinhos, em particular para a Sérvia e a Moldávia. A Roménia, com recursos próprios de gás natural no mar Negro, e a Hungria, com a sua posição como centro logístico do fluxo de gás no centro-sudeste da Europa, desempenham um papel crescente na reexportação e redistribuição de gás no espaço europeu alargado.


Conclusão

O período 2015–2025 constituiu uma década de transformação estrutural no mercado europeu de gás de petróleo e hidrocarbonetos gasosos (CN 2711). A análise dos dados permite identificar três grandes dinâmicas interligadas:

  1. A transição do gasoduto ao GNL como modelo dominante de abastecimento, com o gás natural liquefeito (CN 271111) a ultrapassar em 2025 o gás gasoso (CN 271121) em volume importado — uma inversão sem precedentes.

  2. O choque de 2022, que provocou uma escalada de preços sem paralelo (o preço do gás natural gasoso de importação atingiu 1.316 €/t em 2022, seis vezes o nível de 2020), e cujos efeitos, embora atenuados, ainda se fazem sentir nos patamares de preço de 2025 (540 €/t).

  3. A reconfiguração geográfica tanto das importações (com os EUA a tornarem-se o principal fornecedor em valor, crescendo 3.329%) como das exportações (com a Ucrânia, a Moldávia e os Balcãs como novos destinos estratégicos da redistribuição europeia de gás).

O défice comercial da UE no setor agravou-se para -83,8 mil milhões de euros em 2025, refletindo não só a dependência estrutural de importações, mas também a subida permanente dos custos energéticos. A concentração das exportações (HHI de 1.950) e a especialização geográfica dos fluxos sugerem que o mercado europeu de gás evoluiu de um modelo de comércio diversificado para um padrão mais polarizado, no qual a UE assume um papel dual: grande importador de GNL transatlântico e redistribuidor de gás para a sua periferia oriental e meridional.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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