Evolução do mercado: Eletricidade (CN 2716) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia em energia elétrica (código CN 2716) ao longo do período 2015–2025. Os dados disponíveis permitem identificar transformações profundas no valor das trocas, na estrutura geográfica dos parceiros e no grau de concentração do mercado. Os principais fatores subjacentes incluem a crise energética de 2021–2022, a reconfiguração das relações energéticas com a Rússia e a crescente integração dos mercados ibéricos e centroeuropeus.
1. Expansão do valor comercial e o impacto da crise de preços
O período em análise foi marcado por um crescimento acentuado do valor das importações e exportações de eletricidade, com destaque particular para o pico registado em 2022, seguido de uma parcial normalização.
1.1. Aumento sustentado do valor das importações
As importações da UE em energia elétrica passaram de 2 024 M€ em 2015 para 8 421 M€ em 2025, uma variação de +316,1%. O valor mínimo ocorreu precisamente em 2015, e o máximo — 22 115 M€ — foi atingido em plena crise energética de 2022.
| Métrica | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor das importações (M€) | 2 024 | 8 421 | +316,1% |
| Volume importado (1 000 MWh) | 65 475 | 86 200 | +31,7% |
| Preço de importação (€/MWh) | 30,9 | 97,7 | +216,1% |
O crescimento do valor (+316%) superou largamente o do volume (+31,7%), o que evidencia o peso dominante do fator preço na evolução das importações.
1.2. Exportações igualmente em crescimento, mas mais moderado
As exportações cresceram de 3 796 M€ para 8 585 M€ (+126,1%), com o máximo a ser atingido em 2022 (16 252 M€). O volume exportado passou de 92,7 milhões de MWh para 112,5 milhões (+21,4%).
| Métrica | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor das exportações (M€) | 3 796 | 8 585 | +126,1% |
| Volume exportado (1 000 MWh) | 92 702 | 112 500 | +21,4% |
| Preço de exportação (€/MWh) | 41,0 | 76,3 | +86,3% |
1.3. Deterioração da balança comercial e o pico de 2022
A balança comercial da UE em eletricidade era fortemente excedentária em 2015 (+1 772 M€), mas deteriorou-se até se tornar deficitária em 2022 (-5 863 M€), antes de recuperar ligeiramente para +163 M€ em 2025. Esta inversão conjuntural esteve diretamente ligada à escalada dos preços de importação, que atingiu um máximo de 258,7 €/MWh nas importações face a um pico de 215,5 €/MWh nas exportações.
| Ano | Preço importação (€/MWh) | Preço exportação (€/MWh) | Diferencial |
|---|---|---|---|
| 2015 | 30,9 | 41,0 | +10,1 (favorável à UE) |
| 2022 (máx.) | 258,7 | 215,5 | -43,2 (desfavorável) |
| 2025 | 97,7 | 76,3 | -21,4 (desfavorável) |
2. Reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais
O período 2015–2025 assistiu a uma profunda reestruturação dos fluxos de eletricidade da UE, com a saída da Rússia e a consolidação dos fornecimentos do Norte da Europa e do Reino Unido.
2.1. Colapso das importações russas e reforço do papel da Noruega
As importações da UE provenientes da Federação Russa caíram de 263 M€ em 2015 para menos de 1 M€ em 2025 (-99,7%), refletindo claramente as sanções e a deterioração das relações energéticas no contexto geopolítico pós-2022. Em contrapartida, a Noruega consolidou-se como principal fornecedor, com crescimento de 327 M€ para 1 795 M€ (+449,4%).
| Parceiro (importações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Noruega | 327 | 1 795 | +449,4% |
| Reino Unido | 143 | 1 160 | +710,2% |
| Montenegro | 26 | 253 | +887,1% |
| Bósnia e Herzegovina | 119 | 173 | +45,4% |
| Federação Russa | 263 | 0,7 | -99,7% |
2.2. Redirecionamento das exportações: do Reino Unido à Europa de Leste
O Reino Unido manteve-se como principal destino das exportações da UE (de 1 013 M€ para 2 352 M€, +132,1%), mas destaca-se o crescimento expressivo das exportações para a Moldávia (+264,2%) e Montenegro (+590,5%). Estes fluxos sugerem uma maior integração energética da UE com os Balcãs Ocidentais e a Europa de Leste, possivelmente reforçada pela procura de alternativas ao gás russo e pela cooperação nos mercados de interconexão.
| Parceiro (exportações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 1 013 | 2 352 | +132,1% |
| Moldávia | 93 | 337 | +264,2% |
| Montenegro | 29 | 203 | +590,5% |
| São Marino | 25 | 29 | +19,7% |
2.3. Itália como epicentro da procura de importações na UE
Dentro da própria UE, a Itália registou o crescimento mais espetacular nas importações de eletricidade: de 25 M€ em 2015 para 2 557 M€ em 2025 (+10 049%). A Alemanha (+723%), a Dinamarca (+513%) e a Croácia (+53%) também apresentaram aumentos significativos. Do lado das exportações, a Bélgica (+486 142%), a Eslovénia (+545%) e a Croácia (+450%) foram os Estados-Membros com maior crescimento relativo, embora em valores absolutos a França (2 283 M€) e a Alemanha (1 016 M€) continuem a dominar.
3. Aumento da concentração nas importações e especialização dos Estados-Membros
A estrutura do mercado revelou uma tendência de concentração crescente nas importações, contrastando com alguma diversificação nas exportações.
3.1. Concentração das importações em poucos fornecedores
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 1 458 para 2 384 (+63,5%), aproximando-se do limiar convencional de mercado moderadamente concentrado (2 500). Este aumento reflete a consolidação da Noruega e do Reino Unido como principais fornecedores e o desaparecimento das importações russas. Em contrapartida, o HHI das exportações desceu de 2 473 para 1 830 (-26,0%), indicando uma maior diversificação dos destinos exportadores da UE.
| Índice HHI | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações | 1 458 | 2 384 | +63,5% |
| Exportações | 2 473 | 1 830 | -26,0% |
3.2. Padrões de especialização dos Estados-Membros
Em 2025, os Estados-Membros com maior vantagem comparativa revelada (RCA) na exportação de eletricidade foram a Bulgária (RCA de 6,64), a Grécia (3,45) e a Eslovénia (3,12). No extremo oposto, Malta (RCA de 0,004) e o Luxemburgo (0,13) apresentaram os níveis mais baixos de especialização.
| Estado-Membro | RCA (2025) | RSCA (2025) |
|---|---|---|
| Bulgária | 6,64 | 0,74 |
| Grécia | 3,45 | 0,55 |
| Eslovénia | 3,12 | 0,51 |
| Eslováquia | 2,80 | 0,47 |
| Dinamarca | 2,48 | 0,42 |
3.3. Importadores líquidos estruturais: Itália, Bélgica e Portugal
A Itália, apesar de ser o maior importador da UE em valor absoluto, apresenta um RCA de apenas 0,18, confirmando o seu papel como importador líquido estrutural. A Bélgica (RCA de 0,34) e Portugal (RCA de 0,65) encontram-se numa posição semelhante. Estes padrões refletem diferenças no mix energético nacional, na capacidade de interconexão e nas condições climáticas que afetam a produção renovável.
Conclusão
O mercado europeu de eletricidade (CN 2716) sofreu uma transformação significativa entre 2015 e 2025. O período foi dominado por três dinâmicas principais: (1) uma escalada sem precedentes dos preços em 2022, que temporariamente inverteu a balança comercial da UE; (2) a reconfiguração geográfica dos fornecimentos, com o colapso das importações russas e a consolidação da Noruega e do Reino Unido como parceiros-chave; e (3) o aumento da concentração das fontes de importação, contrastando com a diversificação dos destinos de exportação.
O resultado líquido em 2025 — uma balança marginalmente positiva (+163 M€) — contrasta fortemente com o excedente de 2015 (+1 772 M€), sinalizando que a UE se tornou mais dependente das importações externas e mais suscetível a choques de preços. A crescente integração com os Balcãs Ocidentais e a Europa de Leste representa simultaneamente uma oportunidade de diversificação e um desafio de segurança energética que deverá condicionar a política comercial da UE nos próximos anos.