Evolução do mercado: Óleos de alcatrão de hulha (CN 2707) — 2015–2025
Introdução
O código NC 2707 abrange os óleos e outros produtos provenientes da destilação dos alcatrões de hulha a alta temperatura, bem como produtos análogos em que os constituintes aromáticos predominem em peso relativamente aos não aromáticos. Esta posição aduaneira engloba subprodutos químicos essenciais para múltiplas indústrias, incluindo benzol, toluol, xilol, naftaleno e misturas de hidrocarbonetos aromáticos, entre outros. Conforme a visão geral do produto, os dados aqui analisados cobrem o comércio externo da União Europeia com países terceiros entre 2015 e 2025.
O período em análise é marcado por uma transformação estrutural profunda. A UE passou de uma posição ligeiramente deficitária (saldo de −€143 milhões em 2015) para um superávit robusto de €5 352 milhões em 2025 — uma variação de +3 835%. As exportações da UE cresceram 454% em valor (de €1 909 milhões para €10 579 milhões), enquanto as importações cresceram 155% (de €2 053 milhões para €5 227 milhões). Este relatório analisa as principais dinâmicas que explicam esta evolução, organizada em três eixos: a expansão exportadora, a reconfiguração das relações comerciais no pós-2022, e os padrões de volatilidade e risco que emergem da análise granular.
1. A grande viragem: de importador líquido a exportador dominante
1.1. O crescimento exponencial das exportações no período 2015–2025
A evolução mais marcante do mercado consiste na expansão extraordinária das exportações europeias de produtos CN 2707. De 2015 para 2025, as exportações em valor passaram de €1 909 milhões para €10 579 milhões (+454%), e em volume de 4 521 837 toneladas para 23 063 279 toneladas (+410%). Esta trajetória não foi linear: o crescimento mais acentuado ocorreu entre 2017 e 2022, atingindo um máximo histórico de €11 699 milhões em termos de valor e 23 063 279 toneladas em volume em 2025.
| Ano | Exportações (valor, mil €) | Exportações (volume, t) | Preço médio (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 1 909 414 | 4 521 837 | 422,3 |
| 2016 | — | — | — |
| 2017 | 6 742 834 | 18 616 217 | 362,3 |
| 2018 | 9 495 149 | 15 980 342 | 593,9 |
| 2019 | — | — | — |
| 2020 | 6 107 819 | 15 700 645 | 388,9 |
| 2021 | 9 280 431 | 18 449 827 | 503,0 |
| 2022 | 11 698 848 | 18 611 381 | 628,6 |
| 2023 | — | — | — |
| 2024 | — | — | — |
| 2025 | 10 578 776 | 23 063 279 | 458,7 |
Fonte: visão geral do produto
O preço médio exportador oscilou entre €276/t (mínimo) e €605/t (mínimo/máximo conforme a série), com uma variação global modesta de +8,6%. Isto sugere que o crescimento exportador foi sobretudo impulsionado por volumes crescentes e não apenas por efeitos de preço — embora o ciclo de preços energéticos em 2021–2022 tenha contribuído significativamente para o pico de valor.
1.2. O peso crescente da propensão exportadora da UE
Os indicadores de autonomia e vulnerabilidade revelam uma transformação estrutural na posição comercial da UE. A propensão exportadora passou de 44,7% em 2015 para 179,2% em 2025, uma variação de +301%. A intensidade comercial cresceu de 61,3% para 144,9% (+136%). A propensão exportadora acima de 100% em 2025 indica que as exportações da UE excedem a sua própria produção — um sinal inequívoco de que a UE se converteu numa plataforma de reexportação e de comércio de grandes volumes para mercados globais.
Em paralelo, a dependência líquida de importações passou de −1,6% em 2015 (ligeira dependência) para −136,6% em 2025, com um mínimo histórico de −409,3% (provavelmente no auge exportador de 2022). Valores negativos indicam que o bloco é exportador líquido, e a magnitude em 2025 confirma o superávit elevadíssimo.
1.3. A produção europeia como sustento da expansão
A evolução exportadora é sustentada por uma expansão significativa da produção europeia. A produção em volume cresceu de 5,23 mil milhões de quilogramas em 2015 para 12,31 mil milhões em 2025 (+135,6%), com um pico de 13,78 mil milhões. O valor da produção cresceu de €2 318 milhões para €6 551 milhões (+182,6%), atingindo um máximo intercalar de €9 739 milhões. Esta expansão produtiva é consistente com a capacidade acrescida de refinação e destilação de alcatrões no contexto da indústria siderúrgica e química europeia.
2. Choque geopolítico e reconfiguração das rotas comerciais
2.1. O colapso das importações da Rússia e a ascensão de novos fornecedores
A dinâmica mais significativa do período em termos de parceiros comerciais é o desaparecimento radical das importações da Rússia. Segundo os dados por parceiro, as importações da Federação Russa passaram de €1 060 milhões em 2015 para apenas €89 252 em 2025 — uma redução de −100%. A Rússia era, em 2025 expresso no valor máximo da série (€2 804 milhões), o maior fornecedor extraeuropeu. A queda é coerente com as sanções impostas no contexto do conflito Rússia–Ucrânia, assumindo efeitos progressivos a partir de 2022.
Em contrapartida, o Reino Unido tornou-se o principal fornecedor em 2025, com €1 710 milhões (+411% vs. 2015). A Turquia emergiu como fornecedor relevante, com importações de €695 milhões (+1 298%). Os Estados Unidos, com €374 milhões (+645%), e a Noruega, com €108 milhões (+103%), complementam o novo padrão de fornecimento.
| Parceiro | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Federação Russa | 1 060 | 0,09 | −100,0% |
| Reino Unido | 335 | 1 710 | +410,9% |
| Turquia | 50 | 695 | +1 297,5% |
| Noruega | 53 | 108 | +103,1% |
| Estados Unidos | 50 | 374 | +644,9% |
| Bielorrússia | 2,9 | 0,002 | −99,9% |
Fonte: parceiros por valor
2.2. O crescimento das importações observado em Espanha, Suécia e Países Baixos
Do lado dos importadores intra-UE, os Países Baixos lideram com €2 179 milhões em 2025 (+292% vs. 2015), refletindo o seu papel central como porto de entrada europeu. A Bélgica seguiu com €774 milhões. Contudo, a evolução mais notável é a de Espanha, que passou de apenas €3 milhões para €1 037 milhões — um crescimento de +33 536% — possivelmente associado à expansão da capacidade petroquímica e à diversificação de fornecedores. A Suécia cresceu 5 214%, de €4 milhões para €215 milhões.
Do lado das exportações, os Países Baixos são o maior exportador extra-UE, com €4 016 milhões (+298%). A Bélgica registou um crescimento excecional de +3 348% (de €64 milhões para €2 197 milhões), e Espanha cresceu 744%.
2.3. A desagregação das exportações por destino: Singapura, Gibraltar e os "não especificados"
O lado das exportações apresenta padrões menos convencionais. Os destinos mais relevantes incluem Singapura (€790 milhões, +65%), os Estados Unidos (€737 milhões, +230%) e o Reino Unido (€608 milhões, +283%). Contudo, chamam a atenção dois destinos cujo crescimento é difícil de explicar por fatores puramente comerciais: as categorias "Stores and provisions" (de €1,6 milhões para €2 989 milhões) e "Países e territórios não especificados" (de €0,95 milhões para €1 714 milhões). Estas categorias, de natureza administrativa — frequentemente associadas a reabastecimento naval, mercadorias em trânsito ou comércio irrepartido —, representam parcelas consideráveis do total exportador. Gibraltar, com €993 milhões (+5 987%), evidencia um padrão semelhante, possivelmente ligado a operações de bunkering.
Do lado oposto, as exportações para a China colapsaram de €621 milhões para €7,4 milhões (−98,8%), possivelmente refletindo a retração da procura chinesa ou mudanças nas cadeias de abastecimento globais.
3. Volatilidade, segmentação de produto e riscos residuais
3.1. Os choques de preço mais intensos: Malásia, Marrocos e Estados Unidos
A análise de choques de oferta revela três eventos de preço anómalos:
| Parceiro | Tipo de choque | Fluxo | Ano | Anomalia (σ) | Variação (%) | Quota de valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Malásia | Preço | Exportações | 2022 | 22,8 | +365,9 | 3,1 |
| Marrocos | Preço | Exportações | 2017 | 16,5 | +238,7 | 4,7 |
| Estados Unidos | Preço | Importações | 2022 | 10,9 | +67,2 | 6,0 |
Fonte: choques de oferta
O choque na Malásia em 2022 (anomalia de 22,8 desvios-padrão) é o mais extremo da série. Embora a sua quota de valor nas exportações da UE seja modesta (3,1%), a magnitude sugere uma mudança abrupta no tipo de produto exportado ou uma alteração nas condições contratuais. O choque em Marrocos em 2017 (+239%) e nas importações dos EUA em 2022 (+67%) reforçam a ideia de que o ciclo de preços energéticos de 2021–2022 teve impactos significativos na estrutura de preços dos produtos CN 2707. Não é impossível que estes choques estejam relacionados com a transição de fornecedores (nomeadamente o afastamento da Rússia e Bielorrússia) e os seus efeitos na formação de preços.
3.2. Concentração do comércio: uma estrutura cada vez mais diversificada
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor caiu de 3 772 para 1 843 (−51%) ao longo do período, indicando uma desagregação acentuada da base fornecedora. O HHI das exportações por valor desceu de 1 960 para 945 (−52%), sugerindo uma crescente dispersão dos destinos exportadores. Em ambos os casos, os valores em 2025 situam-se no mínimo absoluto da série, refletindo a reconfiguração pós-2022.
Estes níveis de HHI (1 843 para importações, 945 para exportações) são compatíveis com um mercado moderadamente competitivo, longe de situações de monopólio ou oligopólio evidente. Contudo, os choques detetados em parceiros individuais (Malásia, EUA) sugerem que a volatilidade a nível de parceiro pode ser mais relevante do que a indicada pelos índices agregados.
3.3. O segmento 270799 como motor dominante do comércio
A repartição por subproduto confirma que a posição 270799 ("Outros óleos e produtos de destilação de alcatrões de hulha de alta temperatura, excl. compostos quimicamente definidos e outros especificados") domina claramente tanto as importações como as exportações.
Em 2025, as importações de 270799 atingiram 7 937 177 toneladas e €3 901 milhões, representando a maioria do volume e do valor total. As exportações de 270799 foram de 21 223 829 toneladas e €9 433 milhões. O preço médio de importação (€491/t) difere do preço médio de exportação (€444/t), refletindo provavelmente diferenças na composição dos lotes e nos mercados de destino.
| Produto | Importação 2025 (€M) | Exportação 2025 (€M) | Peso importação (%) | Peso exportação (%) |
|---|---|---|---|---|
| 270799 (outros óleos) | 3 901 | 9 433 | 74,6 | 89,2 |
| 270750 (misturas aromáticas) | 1 196 | 1 003 | 22,9 | 9,5 |
| 270710 (benzol) | 71 | 34 | 1,4 | 0,3 |
| 270730 (xilol) | 52 | 105 | 1,0 | 1,0 |
| 270740 (naftaleno) | 7 | 0,005 | 0,1 | <0,1 |
| 270791 (óleos de creosoto) | 0,02 | 0,6 | <0,1 | <0,1 |
| 270720 (toluol) | 0,02 | 2,1 | <0,1 | <0,1 |
Fonte: segmentação por produto
As misturas de hidrocarbonetos aromáticos (270750) constituem o segundo segmento mais relevante, com €1 196 milhões em importações e €1 003 milhões em exportações em 2025, embora as suas exportações tenham registado uma trajetória decrescente desde o pico de 2017 (€3 007 milhões). Os produtos quimicamente definidos (benzol, toluol, xilol, naftaleno) representam parcelas residuais, embora o benzol (270710) tenha mantido volumes de importação estáveis (~200 000–290 000 t/ano) ao longo de todo o período.
3.4. Especialização e vantagens comparativas dentro da UE
A análise da especialização revela que a Finlândia (RSCA: 0,688; RCA: 5,40), a Lituânia (RSCA: 0,659; RCA: 4,87) e a Suécia (RSCA: 0,554; RCA: 3,48) constituem os Estados-Membros mais especializados na exportação de produtos CN 2707. A Bélgica, apesar de um RSCA mais modesto (0,284), tem a maior quota de produção europeia (~15,2%), reforçando o seu papel central. No extremo oposto, o Luxemburgo (RSCA: −1,0), a Grécia (−1,0) e a Eslovénia (−0,989) apresentam especialização extremamente baixa.
A concentração geográfica da produção e da exportação em alguns Estados-Membros sugere que as alterações nas cadeias de valor (nomeadamente a perda de fornecimento russo) foram absorvidas sobretudo por um conjunto limitado de países, com os Países Bálticos e os Países Baixos/Holanda a sofrerem os maiores ajustes.
Conclusão
O período 2015–2025 foi, para o mercado europeu dos óleos de alcatrão de hulha (CN 2707), um período de transformação estrutural sem precedentes. A UE passou de uma posição marginalmente deficitária a um superávit exportador de mais de €5 mil milhões, impulsionada por uma expansão exportadora de 454% em valor e 410% em volume. Esta dinâmica foi sustentada por um crescimento de 136% da produção europeia e por uma diversificação acentuada da base fornecedora (HHI das importações: −51%).
O colapso do comércio com a Rússia e a Bielorrússia — reflexo direto do regime de sanções pós-2022 — provocou uma profunda reconfiguração das rotas comerciais. O Reino Unido, a Turquia, os EUA e a Noruega emergiram como substitutos parciais, mas a desagregação do HHI indica que a transição beneficiou múltiplos fornecedores de menor dimensão. Do lado exportador, os Países Baixos e a Bélgica consolidaram-se como nós centrais das cadeias de valor europeias, com a Bélgica a registar um crescimento de +3 348%.
Persistem, todavia, elementos de vulnerabilidade. A dependência de categorias administrativas não especificadas ("Stores and provisions" e "países não especificados") no comércio exportador — que representam em 2025 cerca de €4 700 milhões — reduz a transparência analítica. Os choques de preço detetados em 2022 (Malásia, EUA) e 2017 (Marrocos) ilustram a sensibilidade do mercado a descontinuidades abruptas, particularmente em segmentos de produto de nicho. A concentração da especialização em poucos Estados-Membros (Finlândia, Lituânia, Suécia) constitui um fator de risco geográfico para a resiliência da cadeia de abastecimento europeia.