Evolução do mercado: Carvão (CN 2701) — 2015–2025
Introdução
Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código aduaneiro 2701 — "Hulhas; briquetes, bolas em aglomerados e combustíveis sólidos semelhantes, obtidos a partir da hulha" — no período entre 2015 e 2025. A análise baseia-se em dados anuais, excluindo períodos incompletos, e tem como objetivo descrever e interpretar as principais dinâmicas observadas, incluindo tendências de volume, valor, parceiros comerciais e estrutura do mercado. Os dados revelam uma transformação profunda no comércio de carvão da UE, marcada por uma drástica redução das importações e uma reconfiguração das rotas de abastecimento.
A Grande Reconfiguração: Queda Acelerada das Importações e Redução do Défice Comercial
O período em análise é caracterizado por uma contração massiva nas importações de carvão pela UE, refletindo tanto políticas climáticas como choques geopolíticos. Este movimento foi o principal motor da redução do défice comercial do bloco neste setor.
A dramática redução no volume e valor das importações
As importações da UE sofreram uma queda pronunciada em volume e valor. Em termos de quantidade, o valor inicial de 2015 (156,9 milhões de toneladas) para o último ano disponível (2025) caiu 62,5%, atingindo 58,8 milhões de toneladas. O valor em euros das importações (valor das importações) apresentou uma queda mais moderada de 25,1%, passando de 11,2 mil milhões de euros para 8,4 mil milhões de euros, devido à forte subida dos preços. O ponto mínimo de volume foi atingido em 2025, enquanto o valor mínimo ocorreu em 2020, durante a desaceleração económica da pandemia.
A reconfiguração radical dos parceiros de importação
A estrutura dos parceiros de importação sofreu uma mudança sísmica, principalmente após 2022. A Rússia, que em 2015 era o maior fornecedor (3,1 mil milhões de euros), passou a ser uma fonte residual (apenas 62 mil euros em 2025), uma queda de -100%. Para compensar, a UE virou-se para outros fornecedores: as importações da Austrália (+74,1%), dos Estados Unidos (+22,8%) e, notavelmente, do Cazaquistão (+1009,4%, de 57 milhões para 638 milhões de euros) cresceram significativamente. Apesar desse redirecionamento, os volumes totais continuaram a cair, indicando uma redução estrutural da procura por carvão importado.
| Parceiro de Importação (Valor em EUR) | 2015 (início) | 2025 (último) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Federação Russa | 3,147 mil milhões | 62 mil | -100,0 |
| Estados Unidos | 2,121 mil milhões | 2,603 mil milhões | +22,8 |
| Austrália | 1,741 mil milhões | 3,031 mil milhões | +74,1 |
| Cazaquistão | 57,5 milhões | 637,9 milhões | +1.009,4 |
O aumento das exportações e a redução do défice
Paradoxalmente, num contexto de declínio global do carvão, as exportações da UE cresceram em valor em 91,2% (de 254 milhões para 486 milhões de euros) e em volume em 30,2% (de 2,3 milhões para 3,0 milhões de toneladas). Este crescimento, embora modesto em volume absoluto, ajudou a atenuar o défice comercial, que diminuiu 27,8% (de -10,9 mil milhões para -7,9 mil milhões de euros). Os principais destinos das exportações da UE em 2025 foram a Ucrânia (189 milhões de euros) e a Noruega (122 milhões de euros).
Dinâmica de Preços e Volatilidade: O Choque dos Anos 2020
O período analisado testemunhou uma extrema volatilidade nos preços do carvão, com um pico acentuado em 2022, impulsionado por fatores geopolíticos e de mercado. Esta volatilidade afetou desigualmente os diferentes parceiros e segmentos de produto.
O pico de preços de 2022 e a subsequente correção
Tanto os preços médios de importação como de exportação apresentaram um pico em 2022. O preço médio de importação atingiu um máximo de 297 €/t em 2022, comparado com o mínimo de 68,9 €/t em 2016, uma diferença de mais de quatro vezes. Os preços de exportação também atingiram o pico de 277,6 €/t em 2022. Em 2025, ambos os preços já tinham corrigido significativamente (142,3 €/t nas importações e 162,8 €/t nas exportações), mas permaneciam muito acima dos níveis pré-2020. Esta subida acentuou a perda de competitividade do carvão face a outras fontes de energia.
Choques de preços identificados nos parceiros comerciais
A análise de volatilidade e choques revela eventos extremos. Um choque de preço nas importações da Austrália em 2017 apresentou uma anomalia elevada (87,5) e uma mudança de 93,9%. Mais significativo foi o choque nas exportações para o Reino Unido em 2022, com uma anomalia de 64,8 e uma mudança de 98%, sugerindo uma reorientação do comércio intra-europeu durante a crise energética. Parceiros como a Indonésia, o Cazaquistão e a Noruega apresentaram os maiores coeficientes de variação (CV > 0.8), indicando elevada instabilidade nos seus fluxos comerciais.
Diferenças de preço entre os segmentos de produto
Os subprodutos dentro do código 2701 apresentaram dinâmicas de preço distintas. A antracite (270111) foi consistentemente o segmento mais caro, atingindo um preço médio de importação de 298,9 €/t em 2023. A hulha betuminosa (270112) dominou o volume, mas os seus preços foram mais voláteis, com um pico de 309,6 €/t em 2022. Os "outros combustíveis de hulha" (270120) são um nicho de mercado com preços elevados mas muito voláteis (máximo de 285,2 €/t em 2024).
Concentração do Mercado e Especialização dos Estados-Membros
A contração do mercado conduziu a uma maior concentração geográfica tanto das origens das importações como dos destinos das exportações, ao mesmo tempo que revelou uma divergência na dependência e especialização dentro da própria UE.
Aumento da concentração das fontes de abastecimento e dos mercados de destino
O Índice Herfindahl-Hirschman (HHI), que mede a concentração, subiu significativamente tanto para as importações como para as exportações em termos de valor. O HHI das importações aumentou 39,6% (de 1.801 para 2.515), indicando que as importações se tornaram mais dependentes de um número menor de parceiros (como Austrália e EUA). A concentração das exportações aumentou ainda mais (64,2%, para um HHI de 2.333), refletindo a crescente importância de parceiros como a Ucrânia e a Noruega.
Os Estados-Membros mais expostos e a sua especialização produtiva
Os dados de especialização revelam que, em 2025, os Países Baixos eram o Estado-Membro mais especializado em exportação de carvão (RSCA de 0,658), o que se reflete no seu papel como grande exportador (149 milhões de euros). Polónia (RSCA 0,431) também apresenta especialização. Em contraste, países como a Irlanda, Suécia e Áustria têm um RSCA próximo de -1, indicando uma quase nula especialização e, portanto, uma dependência quase total de importações para o seu consumo.
Os grandes importadores dentro da UE e a sua evolução
A análise dos principais importadores da UE mostra uma tendência de queda generalizada. A Alemanha (-31,5%), Itália (-58,5%) e Espanha (-56,7%) reduziram significativamente o seu valor de importações. A Polónia é uma exceção, com um aumento de 46,9% no valor das suas importações, possivelmente refletindo necessidades energéticas específicas durante a transição. Os Países Baixos mantiveram-se como o maior importador em valor (3,0 mil milhões de euros em 2025), mas com uma redução de 17,6% face a 2015.
Conclusão
O mercado europeu do carvão (CN 2701) entre 2015 e 2025 passou por uma transformação estrutural profunda. O fator mais determinante foi a queda acentuada e sustentada nas importações em volume (-62,5%), impulsionada por políticas de descarbonização e acelerada pela crise geopolítica de 2022, que forçou um corte abrupto com a Rússia. Esta contração foi parcialmente compensada pelo crescimento das exportações da UE (+30,2% em volume), ajudando a reduzir o défice comercial. Os preços exibiram uma volatilidade extrema, com um pico histórico em 2022, e o mercado tornou-se mais concentrado, dependendo de um leque mais reduzido de parceiros externos. Dentro da UE, a exposição à importação varia enormemente, com alguns Estados-Membros a manterem uma especialização residual no setor. A trajetória clara é de um mercado em contração estrutural, reconfigurado por choques externos e pela transição energética.