Evolução do mercado: Misturas betuminosas (CN 2715) — 2015–2025
Introdução
O código NC 2715 abrange misturas betuminosas à base de asfalto ou de betume naturais, betume de petróleo, alcatrão mineral ou breu de alcatrão mineral — produtos fundamentais para a pavimentação rodoviária, impermeabilização e construção civil. Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia com países terceiros no período 2015–2025, com base em dados anuais completos (Painel de dados).
O período em análise foi marcado por transformações profundas. A UE manteve-se exportador líquido ao longo de toda a década, mas assistiu a uma queda acentuada dos volumes exportados, parcialmente compensada por uma forte subida dos preços. Simultaneamente, a produção interna cresceu significativamente e as rotas comerciais reconfiguraram-se, refletindo tanto choques geopolíticos como alterações estruturais na procura e na oferta.
1. A inversão preço-volume: exportações estáveis em valor, mas em colapso em quantidade
1.1. Exportações mantêm o valor apesar da queda dramática de volume
A dinâmica mais marcante do período é a divergência radical entre a evolução do valor e da quantidade exportada. Enquanto o valor das exportações manteve uma trajetória relativamente estável — passando de 74,85 mil milhões de euros em 2015 para 73,94 mil milhões em 2025 (variação de −1,2%) —, a quantidade exportada desabou de 157 223 toneladas para apenas 64 203 toneladas, uma queda de 59,2%. Em valores mínimos e máximos, a quantidade atingiu o mínimo de 63 499 toneladas e o máximo de 257 001 toneladas (Painel de dados).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) | Mínimo | Máximo |
|---|---|---|---|---|---|
| Valor exportações (milhões EUR) | 74,85 | 73,94 | −1,2% | 58,53 | 103,92 |
| Quantidade exportações (t) | 157 223 | 64 203 | −59,2% | 63 499 | 257 001 |
| Preço médio exportações (EUR/t) | 476 | 1 151 | +141,8% | 305 | 1 163 |
1.2. O preço unitário como fator compensatório
O preço médio de exportação subiu de 476 EUR/t para 1 151 EUR/t — um aumento de 141,8% —, compensando quase inteiramente a redução de volume. Esta subida reflete, em parte, o aumento dos custos das matérias-primas petrolíferas (o betume é um subproduto do refino do petróleo), a inflação generalizada pós-2021 e a pressão dos custos energéticos, particularmente após a invasão da Ucrânia em 2022. A subida mais acentuada do preço ocorreu entre 2021 e 2023, em linha com a escalada dos preços da energia global.
1.3. Importações seguem trajetória inversa: mais volume, preço em queda
As importações apresentam um padrão oposto. O valor passou de 22,88 milhões de euros para 26,91 milhões (+17,6%), mas a quantidade praticamente duplicou: de 44 269 toneladas para 100 831 toneladas (+127,8%). Curiosamente, o preço médio de importação desceu de 517 EUR/t para 267 EUR/t (−48,4%), sugerindo que os fornecedores externos passaram a oferecer betumes a preços significativamente mais baixos, possivelmente oriundos de regiões com custos de produção inferiores ou com moedas depreciadas (Painel de dados).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) | Mínimo | Máximo |
|---|---|---|---|---|---|
| Valor importações (milhões EUR) | 22,88 | 26,91 | +17,6% | 20,53 | 50,57 |
| Quantidade importações (t) | 44 269 | 100 831 | +127,8% | 44 269 | 147 401 |
| Preço médio importações (EUR/t) | 517 | 267 | −48,4% | 267 | 517 |
A balança comercial permaneceu positiva ao longo de todo o período, passando de 51,98 milhões de euros em 2015 para 47,02 milhões em 2025 (−9,5%), com um mínimo de 7,97 milhões em 2020 — ano de crise pandémica — e um máximo de 78,15 milhões em 2018.
2. Reconfiguração das parcerias comerciais e o impacto de choques geopolíticos
2.1. Os principais parceiros de exportação: concentração na Europa e na vizinhança
Os destinos tradicionais das exportações da UE de misturas betuminosas são, sobretudo, países europeus vizinhos. O Reino Unido e a Suíça dominaram consistentemente as exportações, representando em conjunto a maior parte do valor. No entanto, ambos registaram quedas: o Reino Unido passou de 17,96 milhões para 15,10 milhões (−15,9%), e a Suíça desceu de 21,85 milhões para 14,80 milhões (−32,2%) (Parceiros de exportação).
| Parceiro (exportações) | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 17,96 | 15,10 | −15,9 |
| Suíça | 21,85 | 14,80 | −32,2 |
| Noruega | 3,75 | 6,25 | +66,7 |
| Turquia | 3,90 | 3,43 | −12,0 |
| Israel | 2,80 | 3,55 | +26,5 |
| Gibraltar | 0,73 | 0,35 | −52,3 |
| Marrocos | 3,08 | 0,62 | −79,9 |
Destaca-se a evolução positiva de Noruega (+66,7%) e Israel (+26,5%), que ganharam relevância enquanto destinos de exportação. Em contraste, Marrocos registou uma queda de 79,9%, refletindo possivelmente alterações na procura local ou no acesso a fornecedores alternativos.
2.2. Importações: o caso da Rússia e a diversificação de fornecedores
O parceiro de importação mais afetado pela geopolítica foi a Rússia. Em 2015, as importações russas de misturas betuminosas para a UE representavam 3,26 milhões de euros; em 2025, o valor residual era de apenas 16 000 euros — uma queda de 99,5%. O valor máximo das importações russas atingiu 27,35 milhões (provavelmente em 2018 ou 2019), tornando a Rússia um fornecedor dominante num dado momento, antes do colapso subsequente (Parceiros de importação).
| Parceiro (importações) | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Federação Russa | 3,26 | 0,02 | −99,5 |
| Reino Unido | 7,51 | 6,68 | −11,1 |
| Suíça | 3,16 | 1,42 | −55,2 |
| Estados Unidos | 5,99 | 10,86 | +81,1 |
| Canadá | 0,28 | 1,19 | +323,4 |
| Bósnia e Herzegovina | 0,03 | 1,75 | +4 968,9 |
| Bielorrússia | 0,27 | 0,18 | −32,3 |
A queda das importações russas foi compensada por crescimentos notáveis dos Estados Unidos (+81,1%), Canadá (+323,4%) e, em particular, Bósnia e Herzegovina, cujas exportações para a UE passaram de valores residuais (34 496 euros) para 1,75 milhões de euros. Este crescimento explosivo (+4 968,9%) é, no entanto, um fenómeno de baixa base — o que explica o coeficiente de variação (CV) de 1,01 registado para este parceiro (Volatilidade).
2.3. Choques de preço identificados e volatilidade dos fluxos
A análise de volatilidade revelou dois choques de preço significativos. O primeiro ocorreu em 2018 nas importações da Bósnia e Herzegovina, com uma subida de preço de 110% e uma anormalidade de 18,7 — possivelmente associado a distorções nos primeiros fluxos comerciais significativos com este parceiro. O segundo, mais impactante, registou-se em 2022 nas importações do Reino Unido, com uma subida de 162,4% e uma anormalidade de 7,0, representando 40,9% do valor das importações (Choques de abastecimento).
O choque de 2022 nas importações do Reino Unido é coincidente com a crise energética global desencadeada pelo conflito na Ucrânia e com os efeitos residuais do Brexit, que terão distorcido os custos logísticos e aduaneiros. Os parceiros com maior volatilidade nas importações incluem a Macedónia do Norte (CV = 1,48), a Rússia (CV = 1,13), a Noruega (CV = 1,17) e a China (CV = 1,02). Do lado das exportações, os destinos mais voláteis foram a Macedónia do Norte (CV = 2,89), Marrocos (CV = 1,90), a Bósnia e Herzegovina (CV = 1,41) e o Reino Unido (CV = 1,12).
2.4. Desconcentração das exportações e estabilidade relativa das importações
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das exportações desceu de 1 548 para 1 028 (−33,6%), indicando uma desconcentração significativa dos destinos de exportação. As exportações da UE tornaram-se, assim, mais diversificadas geograficamente ao longo do período. Em contraste, o HHI das importações manteve-se relativamente estável, subindo ligeiramente de 2 382 para 2 408 (+1,1%), sugerindo que a base de fornecedores externos da UE não se diversificou de forma substancial apesar da perda da Rússia (Concentração HHI).
3. Crescimento da produção interna e redução da abertura comercial da UE
3.1. A produção europeia de misturas betuminosas mais do que duplicou
Os dados de produção (PRODCOM 23.99.13.10) revelam um crescimento substancial da produção interna da UE. Em quantidade, a produção passou de 63,25 mil milhões de quilogramas (2015) para 106,00 mil milhões de quilogramas (2025), uma variação de +67,6%, tendo atingido um máximo de 192,75 mil milhões de kg em anos intermédios. Em valor, a evolução foi ainda mais impressionante: de 2,48 mil milhões de euros para 8,12 mil milhões de euros (+228,0%), refletindo a subida generalizada dos custos dos materiais betuminosos (Produção).
| Indicador de produção | 2015 | 2025 | Variação (%) | Mínimo | Máximo |
|---|---|---|---|---|---|
| Quantidade (mil milhões kg) | 63,25 | 106,00 | +67,6% | 63,25 | 192,75 |
| Valor (mil milhões EUR) | 2,48 | 8,12 | +228,0% | 2,48 | 8,12 |
O crescimento da produção, combinado com a queda dos volumes exportados, reforça a ideia de que a indústria europeia está a redirecionar progressivamente a sua produção para o mercado interno.
3.2. A UE é e continua a ser exportador líquido, mas a dependência externa diminuiu
Ao longo de todo o período, a dependência líquida de importações permaneceu negativa, confirmando o estatuto da UE como exportador líquido. No entanto, o valor subiu de −1,57% para −0,60% (+61,6%), indicando que a posição exportadora líquida da UE se está a reduzir gradualmente — menos por aumento das importações do que pela redução das exportações face à produção interna.
3.3. Queda acentuada da intensidade comercial e da propensão exportadora
Dois indicadores estruturais confirmam o retraimento da abertura comercial da UE neste produto:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Intensidade comercial | 2,89% | 1,33% | −54,0 |
| Propensão exportadora | 2,23% | 0,97% | −56,6 |
A intensidade comercial (soma de exportações e importações em percentagem da produção) caiu para metade, e a propensão exportadora (exportações como percentagem da produção) desceu de 2,23% para 0,97%. Estes valores refletem uma clara orientação da indústria europeia para o mercado interno, possivelmente impulsionada por programas de investimento em infraestruturas rodoviárias (como o Plano de Recuperação e Resiliência da UE pós-COVID) e pela crescente procura interna de materiais de pavimentação.
3.4. Perfil de especialização dos Estados-Membros
A análise de especialização revela disparidades significativas entre os Estados-Membros. Em 2025, os países mais especializados na exportação de misturas betuminosas (Especialização) foram:
| País | RSCA | RCA |
|---|---|---|
| Estónia | 0,52 | 3,20 |
| Grécia | 0,46 | 2,74 |
| Croácia | 0,39 | 2,28 |
| Bélgica | 0,34 | 2,02 |
| Áustria | 0,30 | 1,85 |
Do lado oposto, países como a Irlanda (RSCA = −0,99), a Roménia (−0,99), a Hungria (−0,99), Portugal (−0,98) e a Dinamarca (−0,97) apresentam uma quase total ausência de especialização exportadora, concentrando-se no consumo interno.
Em termos dos maiores exportadores da UE por valor, a Alemanha manteve a liderança (de 19,46 milhões para 16,86 milhões, −13,4%), seguida por Espanha (15,51 milhões para 5,80 milhões, −62,6% — a maior queda entre os principais), e Áustria, que cresceu de 6,60 milhões para 11,56 milhões (+75,0%) (Reporters de exportação).
Conclusão
O mercado europeu de misturas betuminosas (CN 2715) passou por uma transformação estrutural entre 2015 e 2025, caracterizada por três grandes dinâmicas interligadas:
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Uma inversão preço-volume sem precedentes: as exportações mantiveram o valor apesar de uma queda de 59% em quantidade, graças a uma subida de 142% nos preços unitários. Em paralelo, as importações duplicaram em volume, mas a preços muito mais baixos, sugerindo a entrada de fornecedores externos competitivos.
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A reconfiguração geopolítica das rotas comerciais: a virtual eliminação das importações russas (−99,5%) e a redução das exportações para parceiros tradicionais como a Suíça e o Reino Unido foram parcialmente compensadas pelo crescimento de novas rotas (Estados Unidos, Canadá, Bósnia e Herzegovina). A concentração das exportações diminuiu (HHI −34%), enquanto a das importações se manteve estável.
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A crescente orientação para o mercado interno: a produção europeia cresceu 68% em quantidade e 228% em valor, enquanto a propensão exportadora e a intensidade comercial caíram para metade. A UE reforçou a sua autonomia neste setor, mantendo-se exportador líquido mas com uma economia de misturas betuminosas cada vez mais focada no mercado único.
Estas tendências sugerem que o setor das misturas betuminosas na UE está a evoluir de um modelo de comércio ativo para um paradigma de autoabastecimento orientado para a procura interna, impulsionado por investimentos em infraestruturas e pela crescente complexidade logística e regulatória do comércio externo pós-2020.