Evolução do mercado: Produtos minerais (CN 25) — 2015–2025
Introdução
O capítulo 25 do Sistema Harmonizado abrange uma vasta gama de produtos minerais — sal, enxofre, terras e pedras, gesso, cal e cimento — que constituem a base da indústria da construção, da agricultura e de múltiplos processos industriais. Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia com países terceiros no período 2015–2025, com base em dados de comércio agregados ao nível do capítulo 25.
O período em análise é marcado por transformações estruturais profundas: a reconfiguração das cadeias de abastecimento após a pandemia de COVID-19, a escalada de preços energéticos em 2021–2022, a invasão da Ucrânia e a crescente pressão regulatória europeia sobre emissões industriais. A análise que se segue identifica as dinâmicas mais relevantes que moldaram o posicionamento da UE neste setor.
1. A viragem estrutural: de superavitário a deficitário acentuado
1.1. A deterioração da balança comercial
A transformação mais marcante do período reside na deterioração acentuada da balança comercial da UE em produtos minerais. Em 2015, o défice comercial situava-se nos -86 milhões de EUR, um valor residual face ao volume total de trocas. Em 2025, esse défice atingiu os -1.884 milhões de EUR, uma deterioração de 2.081% ao longo da década (ver evolução da balança).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (mil milhões EUR) | 4,08 | 4,14 | +1,4% |
| Importações (mil milhões EUR) | 4,17 | 6,02 | +44,5% |
| Saldo (mil milhões EUR) | -0,09 | -1,88 | — |
1.2. Dinâmicas divergentes de volume e preço
A divergência entre exportações e importações explica-se por dinâmicas opostas em volume e preço. Enquanto as exportações perderam 26,8% do seu volume (de 58,7 para 43,0 milhões de toneladas), as importações cresceram 53,0% (de 54,9 para 84,0 milhões de toneladas). Em termos de valor, as exportações mantiveram-se estáveis (+1,4%), sustentadas por uma subida de 38,5% no preço médio (de 69,6 para 96,3 EUR/t), enquanto as importações cresceram 44,5% em valor apesar de uma ligeira descida no preço médio (-5,6%, de 75,9 para 71,7 EUR/t).
Estas dinâmicas sugerem que a UE está a perder competitividade em produtos de menor valor acrescentado (agregados, cimento) ao mesmo tempo que consolida a sua posição em segmentos mais especializados.
1.3. A dependência líquida de importações diminui paradoxalmente
Apesar do défice comercial crescente, o indicador de dependência líquida de importações desceu de 5,4% para 2,5% (-53,3%). Este resultado aparentemente paradoxal deve-se ao facto de a produção interna da UE ter crescido de forma muito significativa (+112,2% em valor, de 24,7 mil milhões para 52,5 mil milhões de EUR), o que dilui o peso relativo das importações no consumo total.
2. Reconfiguração geográfica das relações comerciais
2.1. A ascensão da Turquia como principal fornecedor
A evolução mais impressionante no lado das importações é a ascensão da Turquia, cujas vendas à UE cresceram 169,8% ao longo do período, passando de 394 milhões para 1.064 milhões de EUR. A Turquia tornou-se assim o segundo maior fornecedor externo da UE em produtos minerais, atrás apenas da Noruega (ver principais parceiros).
| Principais fornecedores | 2015 (milhões EUR) | 2025 (milhões EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Noruega | 473 | 718 | +51,8% |
| Turquia | 394 | 1.064 | +169,8% |
| Reino Unido | 391 | 462 | +18,4% |
| Ucrânia | 199 | 276 | +39,0% |
| Marrocos | 232 | 299 | +29,2% |
2.2. A Bósnia e Herzegovina: crescimento excecional
O caso mais excecional é o da Bósnia e Herzegovina, cujas exportações para a UE cresceram 344,9% — de 19,7 milhões para 87,7 milhões de EUR. Trata-se do crescimento mais acentuado entre todos os principais parceiros, refletindo provavelmente a integração progressiva dos Balcãs Ocidentais nas cadeias de abastecimento europeias do setor mineral.
2.3. O papel do Reino Unido pós-Brexit
O Reino Unido manteve-se como parceiro comercial de referência em ambos os sentidos. Nas exportações da UE para o Reino Unido, o valor cresceu 43,3% (de 471 para 675 milhões de EUR), consolidando o Reino Unido como o principal destino das exportações europeias de produtos minerais. Nas importações, o crescimento foi mais moderado (+18,4%), sugerindo que o Brexit não provocou uma rutura significativa neste setor, provavelmente devido à natureza pesada e de baixo valor unitário dos produtos, que favorece fluxos geográficos de proximidade.
2.4. Os principais exportadores intra-UE
Do lado das exportações, Espanha mantém a liderança com 786 milhões de EUR em 2025, seguida de Itália (609 milhões) e Alemanha (502 milhões). A posição de Espanha como maior exportador reflete a sua tradição na indústria cimenteira e de materiais de construção (ver principais exportadores).
3. A transformação do mix de produtos: cimento em declínio, agregados em ascensão
3.1. O colapso das exportações de cimento
A dinâmica mais significativa a nível de segmentos de produto é o colapso das exportações de cimento (CN 2523). As exportações desceram de 26,8 milhões de toneladas em 2015 para apenas 9,0 milhões em 2025, uma queda de 66,3% em volume. Em termos de valor, a redução foi menor (de 1.415 para 967 milhões de EUR, -31,7%), devido à subida significativa do preço médio de exportação (de 52,7 para 107,2 EUR/t, +103,4%). Esta evolução reflete provavelmente o aumento dos custos energéticos, as restrições ambientais à produção de clínquer e a crescente concorrência de produtores extra-europeus.
3.2. A explosão das importações de cimento
Em contrapartida, as importações de cimento cresceram de forma exponencial: de 2,6 milhões para 14,2 milhões de toneladas (+445% em volume), e de 217 milhões para 1.075 milhões de EUR em valor. O preço médio de importação (75,5 EUR/t em 2025) permaneceu inferior ao preço médio de exportação (107,2 EUR/t), o que sugere que os produtores externos — nomeadamente turcos e norte-africanos — beneficiam de custos de produção inferiores.
| Produto CN 2523 — Cimento | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (volume, M ton) | 26,8 | 9,0 | -66,3% |
| Exportações (valor, M EUR) | 1.415 | 967 | -31,7% |
| Importações (volume, M ton) | 2,6 | 14,2 | +445% |
| Importações (valor, M EUR) | 217 | 1.075 | +395% |
3.3. Os agregados de construção como motor das importações
O segmento de calhaus, cascalho e pedras britadas (CN 2517) é o maior em volume tanto em importações como em exportações. As importações cresceram de 20,8 para 38,8 milhões de toneladas (+86,4%), sustentadas por uma procura crescente de agregados para a construção civil. O preço médio de importação manteve-se baixo (19,0 EUR/t em 2025), refletindo a natureza commoditized destes produtos e os custos de transporte que limitam o raio de abastecimento. As exportações de agregados mantiveram-se relativamente estáveis (~8,2 milhões de toneladas), indicando uma orientação predominantemente doméstica da produção.
3.4. O crescimento sustentado das exportações de gesso
Em contraste com o cimento, o segmento de gesso e anidrite (CN 2520) apresentou um crescimento consistente das exportações: de 5,3 milhões para 10,0 milhões de toneladas (+88,0% em volume) e de 126 para 207 milhões de EUR em valor. O preço médio de exportação manteve-se relativamente estável (em torno de 18–21 EUR/t), sugerindo um crescimento orgânico da procura externa, possivelmente ligado à expansão da construção em países vizinhos.
3.5. Especialização geográfica dentro da UE
O indicador de vantagem comparativa revelada simétrica (RSCA) evidencia uma especialização geográfica clara: a Croácia (RSCA = 0,638), a Letónia (0,598) e o Chipre (0,486) são os Estados-Membros mais especializados em produtos minerais, enquanto Malta (-0,998), a Irlanda (-0,656) e a Hungria (-0,630) são os menos especializados, refletindo diferenças na disponibilidade de recursos geológicos e na estrutura económica.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural do comércio da UE em produtos minerais. A principal tendência é a desindustrialização parcial do setor cimenteiro europeu, com a queda acentuada das exportações e o crescimento exponencial das importações de cimento, numa dinâmica que reflete o aumento dos custos energéticos e a pressão regulatória ambiental. Paralelamente, a UE consolidou a sua posição em segmentos de maior valor acrescentado (mármore, pedras calcárias, sal), onde os preços de exportação cresceram significativamente.
A reconfiguração geográfica das relações comerciais destaca a crescente importância da Turquia como fornecedor estratégico e a manutenção do Reino Unido como principal destino de exportação, apesar do Brexit. A concentração geográfica das importações aumentou (HHI de importações subiu de 641 para 761), o que representa um risco potencial de abastecimento num setor estratégico para a economia europeia.
Apesar do agravamento do défice comercial nominal, a capacidade produtiva interna da UE cresceu de forma robusta (+46,4% em volume, +112,2% em valor), sugerindo que a indústria europeia está a reorientar-se para produtos de maior valor acrescentado. O indicador de dependência líquida de importações, que diminuiu de 5,4% para 2,5%, confirma que a UE mantém, no conjunto, uma posição de relativa autonomia no setor dos produtos minerais — embora a crescente dependência externa de cimento e agregados constitua um fator de vulnerabilidade que merece acompanhamento.