Evolução do mercado: Quartzo (CN 2506) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 2506 abrange o quartzo (exceto areias naturais) e as quartzites, mesmo desbastadas ou simplesmente cortadas, em blocos ou placas de forma quadrada ou retangular. Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia com países terceiros para este produto no período 2015–2025, com base em dados anuais completos. A análise revela um mercado marcado por uma profunda transformação estrutural: a produção interna da UE cresceu exponencialmente, os volumes importados diminuíram significativamente, mas os valores do comércio dispararam devido a uma subida acentuada dos preços. O período em análise é ainda pontuado por choques de oferta e por uma reconfiguração das parcerias comerciais.
Para mais detalhes sobre o âmbito e as definições do produto, consulte a visão geral no Trade Dashboard.
1. A descoberta do volume: desacoplamento entre valores e quantidades
1.1. Os preços triplicaram enquanto os volumes caíram
A dinâmica mais marcante do período 2015–2025 é o forte desacoplamento entre o crescimento do valor comercial e a evolução dos volumes físicos. Tanto nas importações como nas exportações, os valores dispararam enquanto as quantidades diminuíram.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 72,5 M€ | 140,4 M€ | +93,6% |
| Importações (quantidade) | 567 518 t | 356 028 t | −37,3% |
| Importações (preço médio) | 128 €/t | 394 €/t | +208,5% |
| Exportações (valor) | 33,4 M€ | 62,9 M€ | +88,4% |
| Exportações (quantidade) | 461 731 t | 434 360 t | −5,9% |
| Exportações (preço médio) | 72 €/t | 145 €/t | +100,3% |
Fonte: Dados gerais de comércio
1.2. O quartzo (250610) sofreu a inflação mais agressiva
A segmentação por subproduto revela que a subida de preços não foi uniforme. O quartzo (250610) registou uma inflação muito superior à das quartzites (250620), tanto nas importações como nas exportações.
Preços médios de importação (€/t):
| Subproduto | 2015 | 2020 | 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Quartzo (250610) | 188 | 200 | 819 | +335% |
| Quartzites (250620) | 100 | 129 | 305 | +204% |
Preços médios de exportação (€/t):
| Subproduto | 2015 | 2020 | 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Quartzo (250610) | 64 | 80 | 97 | +52% |
| Quartzites (250620) | 155 | 523 | 824 | +431% |
Fonte: Comparação por segmento de produto
1.3. A divergência reflete dinâmicas de procura e oferta distintas por segmento
Enquanto o preço de importação do quartzo subiu de 188 €/t para 819 €/t (+335%), o volume importado desabou de 177 989 t para apenas 61 856 t (−65,3%). Este padrão sugere uma redução drástica da oferta disponível no mercado global ou uma procura europeia cada vez mais orientada para produtos de maior valor acrescentado. Pelo contrário, nas quartzites, o volume importado manteve-se relativamente estável (de 389 529 t para 294 172 t, −24,5%), sugerindo uma procura mais inelástica — possivelmente ligada à indústria de construção e revestimentos — mas com preços ainda assim em forte subida.
Do lado das exportações, as quartzites europeias apresentam um preço muito superior ao quartzo, o que pode refletir uma especialização europeia em quartzites processadas de maior valor.
2. A grande transformação produtiva da UE e a reconfiguração do mercado
2.1. A produção interna explodiu em volume e em valor
O dado mais impressionante do período é a evolução da produção europeia de quartzo e quartzites. Segundo os dados PRODCOM, a produção em quantidade passou de 2,84 mil milhões de kg em 2015 para 14,0 mil milhões de kg em 2025 (+393,6%), atingindo um máximo de 16,6 mil milhões de kg. Em valor, a subida foi ainda mais espetacular: de 53,8 M€ para 1 383,0 M€ (+2 471%).
Fonte: Volumes de produção
2.2. A dependência das importações diminuiu apesar do défice nominal crescer
Apesar de o défice comercial nominal ter aumentado de 39,1 M€ para 77,5 M€ (uma variação de −98%, ou seja, o défice praticamente duplicou), a dependência líquida de importações [net import reliance] diminuiu de 32,8% para 25,3% (−22,9%). Isto é coerente com o aumento massivo da produção interna: a UE tornou-se progressivamente mais autossuficiente em termos físicos, embora o custo das importações remanescentes tenha aumentado significativamente em termos nominais.
| Indicador de autonomia | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações | 32,8% | 25,3% | −22,9% |
| Intensidade comercial | 52,2% | 49,4% | −5,5% |
| Propensão para exportar | 19,5% | 21,4% | +9,5% |
Fonte: Dependência de importações, Intensidade comercial, Propensão para exportar
2.3. Itália, Países Baixos e Espanha lideram a especialização europeia
Em 2025, os Estados-Membros mais especializados na produção e exportação de CN 2506, segundo o índice RSCA (Revealed Symmetric Comparative Advantage), são:
| País | RSCA | RCA | Quota na produção UE | Quota no total UE |
|---|---|---|---|---|
| Itália | 0,575 | 3,71 | 29,7% | 8,0% |
| Portugal | 0,542 | 3,37 | 4,7% | 1,4% |
| Países Baixos | 0,444 | 2,59 | 37,6% | 14,5% |
| Espanha | 0,215 | 1,55 | 9,0% | 5,8% |
| Eslovénia | 0,129 | 1,30 | 1,3% | 1,0% |
Fonte: Especialização dos Estados-Membros
Os Países Baixos dominam em quota de produção (37,6%), mas é a Itália quem apresenta a vantagem comparativa mais forte (RSCA de 0,575). Esta configuração sugere que os Países Baixos desempenham um papel central na transformação e reexportação, enquanto a Itália e Portugal possuem uma verdadeira vantagem estrutural na exportação líquida deste produto.
3. Reconfiguração das parcerias, concentração crescente e volatilidade
3.1. O Brasil tornou-se o principal fornecedor da UE, ultrapassando a Turquia
A geografia das importações da UE sofreu uma transformação profunda entre 2015 e 2025:
| Parceiro | Importações 2015 | Importações 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Brasil | 23,8 M€ | 84,8 M€ | +256,2% |
| Noruega | 5,6 M€ | 24,2 M€ | +332,6% |
| Turquia | 20,8 M€ | 5,1 M€ | −75,4% |
| EUA | 7,5 M€ | 11,9 M€ | +58,0% |
| Ucrânia | 5,1 M€ | 1,1 M€ | −77,6% |
| Índia | 3,4 M€ | 0,6 M€ | −83,7% |
| China | 4,1 M€ | 3,2 M€ | −23,0% |
Fonte: Principais parceiros por valor
O Brasil consolidou-se como o parceiro dominante, representando a maior fatia do valor importado em 2025 (84,8 M€). A Noruega também ganhou relevância, passando de 5,6 M€ para 24,2 M€. Em contrapartida, a Turquia, que em 2015 era o segundo maior fornecedor, perdeu três quartos do seu valor exportado para a UE. A Ucrânia e a Índia sofreram quedas ainda mais acentuadas.
3.2. A concentração das importações duplicou, criando riscos de abastecimento
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor subiu de 2 179 para 4 389 (+101,5%), passando de um nível moderadamente concentrado para um nível de elevada concentração. Este é um dos desenvolvimentos mais relevantes do período em termos de risco estratégico: a UE tornou-se significativamente mais dependente de um número reduzido de fornecedores externos, sobretudo do Brasil.
| Concentração (HHI) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 2 179 | 4 389 | +101,5% |
| Importações (volume) | 2 622 | 3 028 | +15,5% |
| Exportações (valor) | 2 526 | 2 313 | −8,4% |
| Exportações (volume) | 4 985 | 6 407 | +28,5% |
Fonte: Concentração HHI
Note-se que, do lado das exportações, a concentração por valor até diminuiu ligeiramente (de 2 526 para 2 313), sugerindo que a UE diversificou os seus mercados de destino. Os principais destinos de exportação em 2025 foram a Noruega (27,6 M€) e o Canadá (3,5 M€), este último com um crescimento espetacular de +941% desde 2015.
Fonte: Principais parceiros de exportação
3.3. Um choque de preço significativo foi detetado na Turquia em 2022
A análise de volatilidade identificou um evento de choque [shock] nas importações provenientes da Turquia em 2022. Tratou-se de um choque de preço com uma anormalidade de 38,1 e uma subida de 31,1%, ocorrendo num momento em que a Turquia ainda representava 28,1% do valor das importações da UE. Este choque pode estar relacionado com a desvalorização da lira turca, a inflação interna na Turquia ou com perturbações na cadeia de abastecimento no contexto pós-COVID e do início do conflito na Ucrânia.
Fonte: Eventos de choque na oferta
A volatilidade medida pelo coeficiente de variação (CV) confirma que os parceiros mais instáveis em termos de importações incluem a Mauritânia (CV = 1,52), o Reino Unido (CV = 0,94), a Rússia (CV = 1,02) e a Índia (CV = 0,85), enquanto a Noruega se apresenta como o fornecedor mais estável (CV = 0,19).
Fonte: Volatilidade por parceiro
Conclusão
O mercado europeu do quartzo e quartzites (CN 2506) experimentou, entre 2015 e 2025, uma transformação estrutural profunda. A produção interna da UE cresceu de forma exponencial, tanto em volume (+394%) como em valor (+2 471%), impulsionada por investimentos significativos, com destaque para os Países Baixos, a Itália e Espanha. Paralelamente, os volumes importados diminuíram substancialmente, mas os preços subiram de forma acentuada — triplicando no caso das importações (+209%) — gerando um défice comercial nominal que praticamente duplicou.
Do ponto de vista da segurança de abastecimento, a concentração das importações duplicou (HHI de 2 179 para 4 389), com o Brasil a consolidar-se como fornecedor dominante. Esta evolução, embora acompanhada de uma diminuição da dependência líquida em termos físicos (de 32,8% para 25,3%), representa um risco de concentração que merece acompanhamento. A volatilidade observada em certos parceiros — com destaque para o choque de preços registado na Turquia em 2022 — sublinha a importância de manter cadeias de abastecimento diversificadas.
Em suma, o período 2015–2025 caracterizou-se por uma "descida do volume" compensada por uma "subida do valor", por uma crescente autonomia produtiva europeia e por uma reconfiguração geográfica significativa das relações comerciais, com o Brasil e a Noruega a ganhar centralidade e a Turquia, a Ucrânia e a Índia a perder relevância.