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Evolução do mercado: Hortaliças e tubérculos (CN 07) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor de produtos hortícolas, plantas, raízes e tubérculos comestíveis (posição aduaneira CN 07) ao longo do período 2015–2025. Esta posição agregada engloba desde batatas e tomates frescos até legumes secos, produtos congelados e raízes tropicais como mandioca e batata-doce (âmbito e definições).

O período em análise é marcado por uma transformação estrutural significativa. As exportações da UE cresceram 37,8% em valor (de 5 292 M€ para 7 294 M€), mas o seu volume recuou 5,0% (de 6,60 Mt para 6,27 Mt). Em contrapartida, as importações dispararam 79,1% em valor (de 3 754 M€ para 6 724 M€) e 56,3% em quantidade (de 3,39 Mt para 5,30 Mt). Consequentemente, o excedente comercial da UE encolheu 63,0% — de 1 539 M€ para apenas 570 M€ (dados gerais).

Este relatório organiza-se em três eixos: primeiro, a erosão do excedente comercial impulsionada por preços e volumes de importação em forte ascenso; segundo, a reconfiguração geográfica das parcerias comerciais, com destaque para o reforço dos fornecedores mediterrânicos; e terceiro, as vulnerabilidades e choques que marcaram o período, desde a pandemia até à guerra na Ucrânia.


1. O fim do conforto comercial: excedente em erosão acelerada

1.1 As importações crescem a um ritmo quase cinco vezes superior ao das exportações

A dinâmica mais marcante do período é o desequilíbrio entre o crescimento das importações e das exportações. Enquanto o valor das exportações aumentou 37,8%, o das importações cresceu 79,1% — ou seja, mais do dobro (visão geral). Em termos de volume, a discrepância é ainda mais acentuada:

Indicador 2015 2025 Variação
Exportações — valor (M€) 5 292 7 294 +37,8%
Importações — valor (M€) 3 754 6 724 +79,1%
Exportações — quantidade (Mt) 6,60 6,27 −5,0%
Importações — quantidade (Mt) 3,39 5,30 +56,3%
Saldo comercial (M€) +1 539 +570 −63,0%

As exportações mantiveram-se relativamente estáveis em volume, mas perderam fôlego a partir de 2019 (mínimo de 5,77 Mt em 2020). As importações, pelo contrário, atingiram o pico de 6,10 Mt em 2020 antes de recuar ligeiramente — um padrão que sugere procura estrutural crescente no mercado interno europeu.

1.2 A inflação dos preços de exportação mascara a perda de volume

Uma análise desagregada por preço unitário revela que a UE tem vindo a exportar menos toneladas, mas a preços significativamente mais elevados. O preço médio de exportação subiu de 802 €/t para 1 164 €/t (+45,0%), ao passo que o preço médio de importação aumentou de 1 107 €/t para 1 269 €/t (+14,6%) (dados gerais).

Esta assimetria de preços tem duas leituras complementares:

  • Do lado da exportação, a subida de preços reflecte a valorização de produtos de maior valor acrescentado (produtos frescos de qualidade, hortícolas processados) e, provavelmente, os efeitos inflacionários do período 2021–2023. Os sete produtos de exportação mais relevantes em 2025 incluem hortícolas frescos diversos (CN 0709, a 2 408 €/t), tomates (CN 0702, a 2 053 €/t) e produtos congelados (CN 0710, a 1 391 €/t) (segmentação por produto — exportações).

  • Do lado da importação, o crescimento mais moderado dos preços sugere que a UE tem vindo a diversificar para fornecedores com estruturas de custos competitivas, nomeadamente no Norte de África e Médio Oriente.

1.3 O setor produtivo europeu cresceu, mas não tanto quanto o mercado

Os dados de produção da UE no setor mostram um crescimento substancial: a quantidade produzida aumentou 42,7% (de 4 148 kt para 5 920 kt) e o valor da produção disparou 81,7% (de 4 207 M€ para 7 644 M€) (volumes de produção). Contudo, este crescimento produtivo não foi suficiente para acompanhar a procura interna, o que se reflecte na aceleração das importações. A dependência líquida de importações passou de +1,9% em 2015 para −1,7% em 2025, oscilando entre −3,3% e +4,0% ao longo do período (dependência líquida de importações). A inversão de sinal em 2025 indica que, em termos agregados, a UE se encontra ligeiramente em posição de superávit — mas o indicador esconde flutuações consideráveis e a pressão crescente das importações em determinados segmentos.


2. A viragem para Sul: reconfiguração das parcerias comerciais

2.1 Marrocos, Egito e Turquia emergem como fornecedores dominantes

A análise dos principais parceiros de importação revela uma clara reconfiguração geográfica. Três países do Mediterrâneo e Médio Oriente registaram crescimentos exponenciais no período:

Parceiro de importação 2015 (M€) 2025 (M€) Variação
Marrocos 815 1 688 +107,1%
Egito 238 774 +224,6%
Turquia 240 771 +221,5%
China 470 736 +56,5%
Reino Unido 330 233 −29,4%
Rússia 48 27 −45,0%
EUA 225 257 +13,9%

(principais parceiros de importação)

Marrocos consolida-se como o maior fornecedor extra-UE, com um valor de importação que praticamente duplicou. A proximidade geográfica, os acordos de comércio preferencial UE-Marrocos e a capacidade de produção fora de estação tornam-no um parceiro estratégico fundamental. O Egito e a Turquia seguem-se, com crescimentos de mais de 220%, reflectindo a aposta destes países na produção hortícola para exportação europeia.

Em contraste, a Rússia — outrora parceiro relevante (317 M€ no pico de 2017) — praticamente desapareceu das importações europeias, atingindo apenas 27 M€ em 2025 (−45,0% face a 2015). Esta queda resulta tanto das sanções como da reorientação das exportações russas.

2.2 O Reino Unido permanece o principal destino de exportação, mas os mercados suíço e norte-americano ganham peso

Do lado das exportações, o Reino Unido continua a ser, de longe, o principal destino, absorvendo 3 494 M€ em 2025 (35,8% de crescimento face a 2015). No entanto, os maiores crescimentos percentuais registaram-se noutros mercados:

Parceiro de exportação 2015 (M€) 2025 (M€) Variação
Reino Unido 2 573 3 494 +35,8%
Suíça 408 705 +72,9%
EUA 256 402 +56,7%
Noruega 284 389 +36,6%
Senegal 70 106 +56,0%
Costa do Marfim 32 90 +182,9%

(principais parceiros de exportação)

O crescimento das exportações para mercados africanos (Senegal, Costa do Marfim) é particularmente notável e pode reflectir o dinamismo demográfico e a urbanização no continente africano, bem como a procura de produtos hortícolas europeus em mercados urbanos em expansão.

2.3 A especialização intra-UE concentra a produção em Espanha e nos Países Baixos

A estrutura de especialização dentro da UE revela uma clara hierarquia. Com base no índice RCA (Vantagem Comparativa Revelada), em 2025 os membros mais especializados são:

Estado-Membro RSCA RCA Quota produção Quota comércio total
Espanha 0,658 4,854 28,1% 5,8%
Chipre 0,638 4,524 0,1% 0,0%
Países Baixos 0,284 1,794 26,0% 14,5%
Grécia 0,250 1,667 1,1% 0,7%
Portugal 0,154 1,365 1,9% 1,4%

(especialização dos Estados-Membros)

Espanha e os Países Baixos dominam a produção europeia, respondendo em conjunto por mais de metade da produção total da UE. A concentração das exportações é ainda mais pronunciada: os Países Baixos (2 436 M€) e Espanha (2 074 M€) representam cerca de 62% do total exportado em 2025 (principais exportadores intra-UE).

Do lado das importações, a França (1 495 M€), Espanha (1 161 M€) e os Países Baixos (1 101 M€) lideram — o que sublinha que mesmo os grandes produtores são simultaneamente grandes importadores, reflectindo a complementaridade sazonal e a especialização em diferentes segmentos de produto.

2.4 Legumes secos e tomates lideram a transformação do mix de importações

A segmentação por produto revela padrões distintos. Os legumes de vagem secos (CN 0713) constituem a maior posição de importação em volume (1,07 Mt em 2025), com um crescimento explosivo — de 764 kt em 2015 para 1,97 Mt no pico de 2023 — antes de um recuo em 2024–2025. Os tomates (CN 0702) apresentam um crescimento mais linear, passando de 445 kt para 774 kt (+73,8%). As raízes tropicais (CN 0714) triplicaram de volume (de 120 kt para 429 kt), reflectindo a crescente integração de produtos como mandioca e batata-doce nos padrões alimentares europeus (segmentação por produto — importações).

Do lado das exportações, os hortícolas frescos diversos (CN 0709) dominam em valor (1 938 M€ em 2025), seguidos dos produtos congelados (CN 0710, 1 164 M€) — estes últimos com um crescimento de valor de 60% face a 2015, atingindo um preço médio de exportação de 1 391 €/t, o que sugere uma aposta crescente em valor acrescentado.


3. Incerteza e resiliência: choques, volatilidade e riscos estruturais

3.1 A invasão da Ucrânia e os choques de 2022–2023 reverberam no comércio de hortícolas

O período 2022–2023 foi marcado por choques de preços significativos. O evento mais anómalo foi o choque de preços nas exportações para o Senegal em 2022 (anomalia de 28,9, desvio de +65,3%), reflectindo provavelmente perturbações nas cadeias de abastecimento e na procura local. Na mesma linha, as importações da Turquia registaram um choque de preços em 2022 (anomalia de 9,1, desvio de +27,5%), e as de Israel em 2023 (anomalia de 8,8, desvio de +26,9%) (choques de abastecimento).

Estes choques coincidem com a eclosão da guerra na Ucrânia (fevereiro de 2022), os picos de preços da energia e das matérias-primas agrícolas, e as perturbações logísticas que afetaram toda a cadeia alimentar europeia.

3.2 A Rússia e a Ucrânia emergem como fontes de volatilidade extrema

O coeficiente de variação (CV) revela que as rotas comerciais com a Rússia (CV = 0,98 nas importações) e a Ucrânia (CV = 0,84 nas importações; CV = 0,78 nas exportações) são as mais voláteis do período (volatilidade por parceiro). No entanto, a Rússia representava apenas 27 M€ em importações em 2025 e a Ucrânia não figura entre os principais parceiros, o que significa que o impacto directo destas rotas na balança comercial global é limitado — embora a perda do fornecimento russo (317 M€ no pico de 2017) tenha de ser compensada por outros fornecedores.

Do lado das exportações, a volatilidade mais elevada regista-se nas rotas para a Bielorrússia (CV = 0,93) e a Índia (CV = 1,43), mas ambas com quotas de valor reduzidas. As rotas principais — Reino Unido (CV = 0,07), Noruega (CV = 0,14) e Suíça (CV = 0,16) — apresentam notável estabilidade.

3.3 O Marrocos é simultaneamente o parceiro mais relevante e o mais estável

Uma conclusão notável da análise de volatilidade é que Marrocos, apesar de ser o maior fornecedor extra-UE (1 688 M€ em 2025, 25,1% do total das importações), apresenta o coeficiente de variação mais baixo entre os principais parceiros de importação (CV = 0,15). Isto sugere que a relação comercial UE-Marrocos no setor hortícola atingiu um grau de maturidade e previsibilidade que a torna um pilar estrutural do abastecimento europeu. Em contraste, o Egito (CV = 0,49) e a Turquia (CV = 0,32) apresentam flutuações mais acentuadas, o que pode reflectir maior sensibilidade a factores climáticos, cambiais e políticos.

3.4 A intensidade comercial e a propensão exportadora da UE atingem máximos históricos

A intensidade comercial da UE no setor — definida como a soma de importações e exportações relativamente à produção — passou de 19,5% em 2015 para 31,2% em 2025 (+60,1%). A propensão exportadora (exportações como percentagem da produção) duplicou praticamente, de 9,9% para 19,2% (+93,1%) (vulnerabilidade e autonomia).

Estes indicadores revelam uma UE cada vez mais integrada no comércio mundial de hortícolas — tanto como compradora como vendedora. A propensão exportadora é o indicador com maior saliência estatística (pontuação de 123,9 contra 78,9 para a intensidade comercial), o que sublinha que a dimensão exportadora é a que mais se intensificou.


Conclusão

O período 2015–2025 transformou profundamente o comércio europeu de hortícolas, raízes e tubérculos. Três grandes tendências definem este ciclo:

  1. A erosão do excedente comercial. As importações cresceram quase o dobro das exportações em valor e mais de dez vezes em volume. Embora a UE permaneça em ligeiro superavite em 2025, a margem encolheu de 1 539 M€ para 570 M€. A produção europeia cresceu 81,7% em valor, mas não foi suficiente para acompanhar a procura interna crescente e diversificada.

  2. A reconfiguração geográfica do abastecimento. Marrocos consolidou-se como parceiro dominante (1 688 M€), com o Egito e a Turquia a registarem crescimentos superiores a 220%. A Rússia desapareceu quase por completo como fornecedor. Do lado das exportações, o Reino Unido permanece o destino principal (3 494 M€), mas mercados como a Suíça e os EUA ganharam relevância, e os destinos africanos (Senegal, Costa do Marfim) apresentam os maiores crescimentos percentuais.

  3. A crescente exposição a riscos externos. A intensidade comercial duplicou, tornando o setor mais dependente de cadeias globais. Os choques de 2022–2023 (guerra, energia, inflação) tiveram impacto directo nos preços com parceiros-chave como a Turquia. No entanto, a baixa volatilidade do comércio com Marrocos sugere que a maturação das relações comerciais bilaterais pode funcionar como factor de estabilização.

A procura europeia de hortícolas — impulsionada por tendências alimentares, demográficas e de sustentabilidade — continuará provavelmente a crescer. O desafio estratégico para a UE reside em equilibrar a complementaridade das importações (essenciais para garantir variedade e disponibilidade fora de estação) com o reforço da capacidade produtiva interna, garantindo simultaneamente a resiliência das cadeias de abastecimento face a perturbações geopolíticas e climáticas cada vez mais frequentes.

Gerado em 2026-08-07. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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