Evolução do mercado: Outros legumes (CN 0709) — 2015–2025
Introdução
A posição comercial-nomenclatura (CN) 0709 abrange um leque heterogéneo de legumes frescos ou refrigerados que não estão cobertos por códigos mais específicos — incluindo pimentos, berberjes, espargos, cogumelos, abóboras, alcachofras, espinafres, entre outros. Trata-se, portanto, de uma posição residual que agrega produtos de valor acrescentado muito diferenciado. Ao longo da década 2015–2025, o comércio externo da UE neste capítulo registou uma dinâmica de crescimento sustentado, com as exportações a garantirem um superavit comercial sempre positivo, mas com características estruturais distintas entre o crescimento das vendas externas e o das compras a terceiros países. O presente relatório analisa três eixos fundamentais desta evolução: (i) o papel determinante dos preços na valorização do comércio; (ii) a reconfiguração das relações comerciais geográficas; e (iii) a evolução da estrutura setorial interna ao nível dos subprodutos.
1. Valorização do comércio puxada pelos preços: crescimento real moderado, ganhos nominais expressivos
1.1. Exportações: crescimento de valor de 45,6 % contra apenas 3,4 % em volume
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE de CN 0709 para terceiros países passou de 1.331 milhões de euros para 1.938 milhões de euros, uma variação de +45,6 %. Contudo, o volume exportado praticamente estagnou: de 778.349 toneladas para 804.601 toneladas (+3,4 %). O preço médio de exportação subiu de 1.710 €/t para 2.408 €/t (+40,8 %), o que significa que a quase totalidade da valorização das exportações se deveu a aumentos de preço e não a ganhos de volume. O valor máximo das exportações foi registado em 2024, atingindo cerca de 1.960 milhões de euros.
1.2. Importações: crescimento mais acentuado, com componente volumétrica relevante
As importações cresceram ainda mais: de 660 milhões de euros em 2015 para 1.091 milhões em 2025, representando um aumento de +65,3 %. Desta vez, o volume acompanhou parcialmente o crescimento nominal — de 410.555 toneladas para 613.189 toneladas (+49,4 %), enquanto o preço médio de importação subiu apenas de 1.607 €/t para 1.779 €/t (+10,7 %). Isto indica que, contrariamente ao que aconteceu nas exportações, as importações cresceram primariamente por via de maior volume de compras ao exterior.
1.3. O superavit estrutural mantém-se, mas a sua natureza altera-se
O saldo comercial da UE em CN 0709 permaneceu positivo ao longo de todo o período, passando de 671 milhões de euros para 847 milhões (+26,1 %). Todavia, este aparente fortalecimento esconde uma dinâmica preocupante: as importações cresceram em taxa (+65,3 %) muito mais do que as exportações (+45,6 %), tanto em valor como em volume. O superavit só se manteve porque as exportações partiam de uma base significativamente superior. A crescente pressão importadora sugere que a capacidade produtiva interna da UE para estes legumes começa a mostrar limitações face à procura doméstica.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor (milhões €) | 1.331 | 1.938 | +45,6 |
| Exportações — volume (kt) | 778 | 805 | +3,4 |
| Exportações — preço médio (€/t) | 1.710 | 2.408 | +40,8 |
| Importações — valor (milhões €) | 660 | 1.091 | +65,3 |
| Importações — volume (kt) | 411 | 613 | +49,4 |
| Importações — preço médio (€/t) | 1.607 | 1.779 | +10,7 |
| Saldo comercial (milhões €) | 671 | 847 | +26,1 |
2. Reconfiguração geográfica: novas dependências e concentração crescente
2.1. O Marrocos e a Turquia como novos motores das importações
A estrutura geográfica das importações da UE sofreu uma profunda transformação ao longo desta década. O Marrocos consolidou-se como principal fornecedor externo, com as compras a passarem de 175 milhões de euros (2015) para 308 milhões (2025), uma variação de +76,3 %. Mas a evolução mais notável foi a da Turquia: as importações turcas passaram de 81 milhões para 271 milhões de euros, um crescimento de +232,3 %, transformando a Turquia no segundo maior fornecedor da UE — uma ascensão sem paralelo entre os principais parceiros. A África do Sul também registou um crescimento extraordinário, de 5 para 20 milhões de euros (+266,5 %), embora em valores absolutos muito inferiores. Em contraste, Israel registou uma queda acentuada, de 63 para 25 milhões de euros (−60,0 %), e o Peru manteve-se estável em torno dos 103–117 milhões de euros.
2.2. O Reino Unido como eixo central das exportações, com crescentes assimetrias
Do lado das exportações, o Reino Unido é, de longe, o principal destino: as vendas para o UK passaram de 765 milhões de euros para 1.238 milhões (+61,9 %), representando em 2025 mais de 60 % do valor total das exportações da UE para terceiros países. A Suíça (272 milhões, +49,5 %) e a Noruega (124 milhões, +30,7 %) completam o trio de destinos europeus extra-UE.
Todavia, dois parceiros registaram quedas dramáticas:
- Bielorrússia: de 45 milhões para 5 milhões de euros (−88,2 %), refletindo verosímilmente os efeitos das sanções e restrições comerciais;
- Estados Unidos: de 82 milhões para 26 milhões de euros (−69,0 %), uma queda que pode refletir a concorrência crescente de fornecedores latino-americanos no mercado norte-americano.
Em contrapartida, as exportações para a Ucrânia dispararam de 4 para 25 milhões de euros (+553,2 %), sinalizando novas oportunidades de mercado, possivelmente associadas ao processo de aproximação comercial UE-Ucrânia.
| Principais parceiros de importação | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Δ (%) |
|---|---|---|---|
| Marrocos | 175 | 308 | +76,3 |
| Turquia | 81 | 271 | +232,3 |
| Peru | 105 | 103 | −1,3 |
| Reino Unido | 35 | 22 | −36,0 |
| Israel | 63 | 25 | −60,0 |
| África do Sul | 5 | 20 | +266,5 |
| Principais parceiros de exportação | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Δ (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 765 | 1.238 | +61,9 |
| Suíça | 182 | 272 | +49,5 |
| Noruega | 95 | 124 | +30,7 |
| Ucrânia | 4 | 25 | +553,2 |
| Bielorrússia | 45 | 5 | −88,2 |
| Estados Unidos | 82 | 26 | −69,0 |
2.3. Crescente concentração das relações comerciais
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI), que mede o grau de concentração das relações comerciais, subiu em ambos os sentidos:
- Importações: de 1.278 para 1.575 (+23,2 % em valor)
- Exportações: de 3.663 para 4.376 (+19,5 % em valor)
As exportações da UE em CN 0709 já eram altamente concentradas (o UK sozinho representa mais de metade do valor), mas o aumento contínuo do HHI em ambos os fluxos sinaliza um risco crescente de dependência de poucos parceiros. No caso das importações, o crescimento ponderal do Marrocos e da Turquia explica quase toda esta concentração acrescida.
2.4. Especialização interna: Espanha e Países Baixos dominam
Analisando os Estados-Membros, a desigualdade de especialização na posição 0709 é acentuada. Espanha lidera com um RSCA (Índice de Vantagem Comparativa Simétrica Revelada) de 0,73, seguida pelos Países Baixos (0,26) e Grécia (0,24). Do lado menos especializado, Malta (−1,00), Irlanda (−1,00) e Finlândia (−0,95) importam praticamente a totalidade do seu consumo.
No plano dos fluxos intra-UE, destaca-se o crescimento exponencial das importações de Espanha (de 97 para 265 milhões de euros, +173,1 %) e da Áustria (de 42 para 116 milhões, +173,6 %), enquanto a Roménia registou um crescimento de +448,4 % (de 15 para 81 milhões). Do lado das exportações intra-UE, Espanha passou de 259 para 616 milhões de euros (+137,8 %), ultrapassando os Países Baixos como principal exportador intracomunitário.
3. Estrutura setorial: os pimentos como produto dominante e tendências emergentes
3.1. Os pimentos e pimentas (070960) como coluna vertebral do capítulo
Os pimentos e pimentas do género Capsicum (código 070960) constituem o segmento dominante tanto nas importações como nas exportações. Do lado das importações, o volume cresceu de 224.850 toneladas (2015) para 358.686 toneladas (2025), um aumento de +59,5 %, enquanto o valor passou de 268 milhões para 568 milhões de euros (+111,9 %). O preço médio de importação subiu de 1.193 €/t para 1.585 €/t (+32,8 %), o que indica que a procura interna de pimentos externos cresceu de forma intensa, potenciada tanto pelo volume como pela valorização dos preços.
Do lado das exportações, o comportamento foi radicalmente diferente: o volume manteve-se praticamente estável (302.185 t → 306.870 t, +1,6 %), mas o valor cresceu de 524 para 752 milhões de euros (+43,6 %) e o preço médio disparou de 1.733 €/t para 2.450 €/t (+41,4 %). As exportações de pimentos tornaram-se, assim, crescentemente dependentes da inflação de preços e não da expansão volumétrica.
3.2. Abóboras e curgetes (070993) registam crescimento sólido nas importações
O segundo maior segmento de importação — abóboras, curgetes e cabaças (070993) — cresceu de 73.462 toneladas para 114.824 toneladas (+56,3 %) e de 73 para 104 milhões de euros (+43,2 %). Notavelmente, o preço médio de importação desceu de 990 €/t para 908 €/t (−8,3 %), sugerindo um efeito de competição alargada entre fornecedores que beneficia os importadores europeus. Nas exportações, o segmento mostrou um crescimento mais modesto (+11,2 % em volume) mas com valorização de preço significativa, atingindo 111 milhões de euros em 2025.
3.3. Queda acentuada nas importações de cogumelos (070959)
Um dos desenvolvimentos mais marcados da década foi a queda nas importações de cogumelos comestíveis frescos (excluindo Agaricus, Boletus, Cantharellus, shiitake, matsutake e trufas — código 070959). O volume importado desceu de 15.952 toneladas para 10.868 toneladas (−31,9 %), e o valor caiu de 81 para 33 milhões de euros (−58,9 %). Esta contração, concentrada sobretudo a partir de 2021–2022, pode refletir a consolidação da produção interna europeia de cogumelos exóticos ou alterações nos padrigos de consumo pós-pandémicos. O preço médio de importação também desceu de forma acentuada (de 5.048 €/t para 3.051 €/t, −39,6 %), o que sugere uma reconfiguração profunda deste nicho de mercado.
3.4. Espinafres (070970): crescimento estelar nas exportações
O segmento de espinafres registou o crescimento mais expressivo do lado das exportações: o volume mais do que duplicou, de 17.480 toneladas para 35.086 toneladas (+100,7 %), e o valor passou de 35 para 79 milhões de euros (+125,4 %). Os espinafres representam assim um segmento emergente que pode vir a ganhar relevância crescente na estrutura de exportações da UE, nomeadamente em mercados como os Países Baixos, a Suíça e o Reino Unido.
3.5. Outros segmentos: Espargos e cebolinho — tendências de consolidação
| Segmento de produto (importações) | 2015 (t) | 2025 (t) | Δ (t) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Δ (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Pimentos e pimentas (070960) | 224.850 | 358.686 | +59,5 % | 268 | 568 | +111,9 % |
| Abóboras, curgetes (070993) | 73.462 | 114.824 | +56,3 % | 73 | 104 | +43,2 % |
| Legumes n.e.s. (070999) | 49.299 | 61.889 | +25,5 % | 97 | 128 | +32,6 % |
| Espargos (070920) | 23.906 | 26.855 | +12,3 % | 114 | 149 | +30,3 % |
| Cogumelos (070959) | 15.952 | 10.868 | −31,9 % | 81 | 33 | −58,9 % |
| Beringelas (070930) | 9.522 | 11.497 | +20,7 % | 12 | 17 | +48,9 % |
| Alcachofras (070991) | 8.285 | 10.750 | +29,7 % | 9 | 12 | +31,0 % |
| Segmento de produto (exportações) | 2015 (t) | 2025 (t) | Δ (t) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Δ (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Pimentos e pimentas (070960) | 302.185 | 306.870 | +1,6 % | 524 | 752 | +43,6 % |
| Cogumelos Agaricus (070951) | 141.733 | 117.393 | −17,2 % | 231 | 330 | +42,8 % |
| Legumes n.e.s. (070999) | 112.054 | 141.379 | +26,2 % | 219 | 344 | +56,9 % |
| Abóboras, curgetes (070993) | 84.878 | 94.356 | +11,2 % | 91 | 111 | +21,7 % |
| Espinafres (070970) | 17.480 | 35.086 | +100,7 % | 35 | 79 | +125,4 % |
| Beringelas (070930) | 49.898 | 44.961 | −9,9 % | 51 | 77 | +50,1 % |
| Aipo (070940) | 43.070 | 38.224 | −11,3 % | 33 | 55 | +67,2 % |
Conclusão
O comércio externo da UE na posição CN 0709 apresentou, entre 2015 e 2025, um padrão claro: crescimento sustentado em valor nominal, mas com uma componente volumétrica moderada — sobretudo nas exportações, onde os preços fizeram o trabalho pesado da valorização. As importações, por seu lado, cresceram tanto em volume como em valor, reflectindo uma crescente procura interna que a produção europeia não consegue plenamente satisfazer.
Três riscos estruturais emergem desta análise:
-
Concentração geográfica crescente: a dependência do Marrocos e da Turquia nas importações, e do Reino Unido nas exportações, torna o comércio vulnerável a perturbações bilaterais — sejam sanitárias, logísticas ou diplomáticas.
-
Pressão importadora: o crescimento das importações em taxa muito superior ao das exportações, aliado ao aumento do HHI, sugere uma erosão gradual da posição de autosuficiência europeia em certos segmentos, particularmente pimentos.
-
Volatilidade elevada em parceiros-chave: os coeficientes de variação das importações de Israel (0,64), Egipto (0,61) e África do Sul (0,56), e das exportações para a Bielorrússia (1,03) e os Estados Unidos (0,75), confirmam que os fluxos com vários parceiros são altamente instáveis — consequência tanto de sanções como de condições climáticas e logísticas.
Em síntese, a posição CN 0709 é um mercado cada vez mais orientado pela valorização de preços, com uma geografia comercial em reconfiguração e dependências crescentes que aconselham uma diversificação proactiva por parte dos operadores europeus.