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Evolução do mercado: Vagens (CN 0708) — 2015–2025

Introdução

O código NC 0708 abrange as leguminosas de vagem frescas ou refrigeradas — incluindo ervilhas (Pisum sativum), feijões (Vigna spp., Phaseolus spp.) e outras leguminosas de vagem. Trata-se de um setor perecível e sazonal, com cadeias de abastecimento de curto prazo, sensíveis a choques climáticos, logísticos e regulatórios.

O panorama geral entre 2015 e 2025 é marcado por três grandes dinâmicas: (1) uma contracção acentuada das exportações da UE para países terceiros, com perdas de mais de 70% em volume e de 65% em valor; (2) um fortalecimento do Marrocos como fornecedor dominante de importações, num quadro de relativa estabilidade dos volumes importados; e (3) uma reconfiguração radical dos parceiros comerciais, impulsionada sobretudo pela saída do Reino Unido do mercado único europeu após o Brexit.

Indicador 2015 2025 Variação (%)
Exportações — valor (milhões EUR) 69,0 24,3 −64,7%
Exportações — quantidade (t) 33 901 10 093 −70,2%
Exportações — preço médio (EUR/t) 2 035 2 412 +18,5%
Importações — valor (milhões EUR) 416,1 385,6 −7,3%
Importações — quantidade (t) 189 125 158 139 −16,4%
Importações — preço médio (EUR/t) 2 200 2 438 +10,8%
Balança comercial (milhões EUR) −347,1 −361,2 −4,1%

(Fonte: Painel geral de comércio — CN 0708)


1. O colapso das exportações da UE e a perda de relevância internacional

1.1. Queda estrutural das exportações em volume e em valor

As exportações da UE de vagens frescas ou refrigeradas para países terceiros registaram uma contracção profunda ao longo da década. Em termos de volume, passaram de 33 901 toneladas em 2015 para apenas 10 093 toneladas em 2025 (−70,2%). Em valor, a queda foi de 68 993 070 € para 24 346 412 € (−64,7%). A divergência entre as duas taxas reflecte um aumento de 18,5% no preço médio de exportação (de 2 035 €/t para 2 412 €/t), sugerindo que a UE se foi concentrando em nichos de maior valor acrescentado, mas sem compensar a perda de volume.

1.2. O colapso do comércio com o Reino Unido como factor dominante

O parceiro mais afectado foi, de forma inequívoca, o Reino Unido. Em 2015, este destino representava 41 238 113 € em exportações — equivalente a quase 60% do total exportado. Em 2025, esse valor desceu para 6 919 711 € (−83,2%), reduzindo a quota do Reino Unido para 28,4%. Esta evolução coincide com a saída efectiva do Reino Unido do mercado único e da união aduaneira da UE (final do período de transição em 31 de dezembro de 2020), que introduziu barreiras alfandegárias, inspeções fitossanitárias e custos de conformidade num produto perecível de curta vida útil.

A evolução nas importações de vagens provenientes do Reino Unido segue um padrão semelhante: de 8 585 815 € em 2015 para apenas 1 121 863 € em 2025 (−86,9%), confirmando que a integração comercial bilateral neste segmento se deteriorou profundamente.

(Fonte: Principais parceiros por valor)

1.3. Outros destinos de exportação em declínio acentuado

Para além do Reino Unido, outros mercados de destino tradicionais registaram quedas significativas:

Destino 2015 (EUR) 2025 (EUR) Variação (%)
Reino Unido 41 238 113 6 919 711 −83,2%
Noruega 9 763 714 5 710 822 −41,5%
Índia 1 571 948 284 240 −81,9%
Estados Unidos 2 599 642 34 429 −98,7%
Paquistão 355 108 93 825 −73,6%

Os destinos não europeus (EUA, Índia, Paquistão) apresentam coeficientes de variação extremamente elevados (1,68; 1,95 e 1,33, respectivamente), o que aponta para relações comerciais pontuais ou esporádicas, desprovidas de contratos de longo prazo.

1.4. A degradação do preço médio de exportação como sintoma de perda de competitividade

O preço médio de exportação, ainda que tenha subido globalmente, esconde disparidades por parceiro. Os choques de preço detetados — como o choque no Egito em 2021 (anomalia de 51,7, subida de 194,5% no preço, com uma quota de apenas 2,8% no valor total) — sugerem que as exportações da UE se tornaram pontuais e reactivas, em vez de constituírem fluxos estáveis e estruturais.

(Fonte: Choques de abastecimento e volatilidade)


2. Marrocos como fornecedor dominante e consolidação das importações

2.1. Estabilidade relativa das importações globais face à contracção das exportações

Enquanto as exportações colapsaram, as importações da UE apresentaram uma evolução muito mais moderada. O valor das importações diminuiu apenas 7,3% (de 416,1 M€ para 385,6 M€), e o volume recuou 16,4% (de 189 125 t para 158 139 t). O preço médio de importação subiu 10,8%, atingindo 2 438 €/t em 2025 — valor superior ao preço médio de exportação, um sinal de que a UE é estruturalmente deficitária e paga um prémio para garantir o abastecimento.

A balança comercial manteve-se fortemente negativa (de −347,1 M€ para −361,2 M€), consolidando a dependência externa da UE neste segmento.

2.2. Marrocos: domínio crescente com baixa volatilidade

Marrocos é, de longe, o principal fornecedor externo de vagens frescas à UE. Em 2025, as importações provenientes deste país totalizaram 239 329 223 € — correspondendo a 62,1% do valor total das importações da UE. A variação ao longo da década foi limitada (−3,4%), com volumes compreendidos entre 213,2 M€ e 269,9 M€.

O coeficiente de variação (CV) de Marrocos é de apenas 0,089 — o mais baixo entre todos os principais fornecedores — confirmando uma relação comercial extremamente estável e previsível. Esta estabilidade reflecte a proximidade geográfica, os acordos comerciais preferenciais UE-Marrocos, a existência de cadeias logísticas amadurecidas e a complementaridade sazonal entre a produção marroquina e a europeia.

2.3. Queda generalizada dos restantes fornecedores tradicionais

Paralelamente ao fortalecimento de Marrocos, a maioria dos outros fornecedores registou reduções significativas:

Fornecedor 2015 (EUR) 2025 (EUR) Variação (%) CV
Marrocos 247 813 841 239 329 223 −3,4% 0,089
Quénia 62 102 970 57 246 248 −7,8% 0,112
Egipto 36 159 548 30 659 136 −15,2% 0,208
Guatemala 19 662 178 2 500 943 −87,3% 0,481
Zimbabwe 10 065 673 4 013 910 −60,1% 0,260

A Guatemala (−87,3%) e o Zimbabwe (−60,1%) apresentam os declínios mais dramáticos, possivelmente reflectindo dificuldades logísticas, alterações nas políticas de exportação desses países ou a reconcentração das compras europeias em fornecedores mais próximos e fiáveis.

Destaca-se ainda o caso do Senegal, que registou um crescimento de 47,1% (de 16,6 M€ para 24,4 M€), tornando-se progressivamente um fornecedor mais relevante — possivelmente como alternativa à Guatemala e ao Zimbabwe.

2.4. Aumento da concentração das importações

O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor subiu de 3 909 para 4 199 (+7,4%), confirmando que a distribuição das importações se tornou mais concentrada. Em termos práticos, a quota de Marrocos (62,1%) e do Quénia (14,9%) somada já ultrapassa os 77% do valor total das importações — uma dependência considerável de apenas dois fornecedores.

Este fenómeno apresenta riscos estratégicos: um evento climático, sanitário ou geopolítico em Marrocos poderia perturbar significativamente o abastecimento da UE em vagens frescas.

(Fonte: Concentração — HHI)


3. Reconfiguração dos fluxos intra-UE e segmentação por subproduto

3.1. Redistribuição do papel dos Estados-Membros na importação

A análise dos principais Estados-Membros importadores revela uma redistribuição notável ao longo da década:

Estado-Membro 2015 (EUR) 2025 (EUR) Variação (%)
Espanha 134 638 044 150 375 158 +11,7%
Países Baixos 108 377 780 99 595 714 −8,1%
França 120 808 769 99 964 016 −17,3%
Itália 4 713 915 7 515 908 +59,4%
Bélgica 17 841 898 9 581 493 −46,3%
Alemanha 20 050 333 10 793 143 −46,2%

A Espanha destaca-se como o único grande importador que aumentou as suas compras (+11,7%), consolidando a sua posição como porta de entrada principal das vagens de Marrocos, dada a proximidade geográfica e as infraestruturas logísticas do Estreito de Gibraltar. A Itália, embora com valores absolutos menores, cresceu 59,4%, possivelmente na sequência da expansão das suas necessidades de abastecimento para a indústria transformadora.

Países como a Bélgica (−46,3%) e a Alemanha (−46,2%) reduziram a sua exposição a este segmento, o que pode reflectir alterações nos padrões de consumo, rotações logísticas ou a reconfiguração das cadeias de distribuição após o Brexit.

3.2. A especialização produtiva dos Estados-Membros: França e Espanha lideram

Os indicadores de vantagem comparativa revelada simétrica (RSCA) para 2025 mostram uma clara heterogeneidade na especialização dos Estados-Membros na produção de vagens:

Estado-Membro RSCA RCA Quota produtiva (%)
Lituânia 0,645 4,631 2,9%
França 0,517 3,143 24,6%
Espanha 0,456 2,676 15,5%
Países Baixos 0,390 2,277 33,1%
Letónia 0,230 1,598 0,5%

A França e a Espanha detêm vantagens comparativas claras, o que é consistente com a sua tradição agrícola mediterrânica e temperada. Curiosamente, os Países Baixos, apesar de liderarem em quota produtiva (33,1%), apresentam um RSCA mais moderado (0,390), sugerindo que a sua produção se destina sobretudo ao mercado interno e à reexportação intra-UE.

Do outro lado, países como a Finlândia (RSCA = −0,990), a Irlanda (−0,986) e a Suécia (−0,957) são fortemente deficitários, reflectindo limitações climáticas para a produção local de vagens frescas.

(Fonte: Especialização — RSCA)

3.3. Os feijões dominam o comércio, mas os outros subprodutos sofrem flutuações extremas

A decomposição por subproduto revela que os feijões (CN 070820) dominam esmagadoramente tanto as importações como as exportações:

Subproduto Importações 2025 (t) Importações 2025 (EUR) Exportações 2025 (t) Exportações 2025 (EUR)
Feijões (070820) 142 459 332 027 890 4 319 15 037 976
Ervilhas (070810) 12 908 49 625 137 3 588 7 336 343
Outros (070890) 2 771 3 909 898 2 187 1 972 093

Os feijões representam 89,2% das importações em valor e 61,7% das exportações em valor. As importações de feijões mantiveram-se relativamente estáveis (de 170 745 t em 2015 para 142 459 t em 2025), com uma contracção gradual.

O subproduto 070890 (outras leguminosas de vagem) apresenta flutuações muito acentuadas, com um pico anómalo nas exportações em 2020 (32 506 t) que se seguiu a um crescimento explosivo em 2017 e desmoronou em 2021 para 947 t — possivelmente ligado a reclassificações, efeitos de stock ou a operações de reexportação pontuais. O preço médio de exportação deste subproduto é altamente volátil, oscilando entre 322 €/t e 1 822 €/t, reforçando a natureza esporádica destas transações.

3.4. A diversificação das exportações da UE diminuiu

O HHI das exportações por valor baixou de 4 032 para 2 882 (−28,5%), o que à primeira vista sugere uma desconcentração. Contudo, este resultado é enganador: reflecte sobretudo a perda de peso do Reino Unido (que antes dominava a carteira de exportações) e não uma verdadeira diversificação para novos mercados. Na prática, a UE deixou de exportar significativamente para quase todos os destinos, e os poucos parceiros remanescentes (Suíça, Noruega) apresentam volumes muito reduzidos.

(Fonte: Comparação de produtos)


Conclusão

O mercado das vagens frescas ou refrigeradas (CN 0708) na União Europeia passou, entre 2015 e 2025, por uma transformação estrutural profunda, articulada em torno de três eixos principais.

Em primeiro lugar, a saída do Reino Unido do mercado único provocou uma erosão dramática dos fluxos comerciais bilaterais, tanto em importações como em exportações, constituindo o factor explicativo mais relevante para a contracção global das exportações da UE (−70% em volume).

Em segundo lugar, registou-se uma consolidação do Marrocos como fornecedor dominante, com uma quota de 62% nas importações e uma estabilidade notável (CV = 0,089), enquanto fornecedores mais distantes como a Guatemala e o Zimbabwe praticamente desapareceram do mapa comercial. A concentração das importações aumentou, criando uma dependência estrutural face a poucos parceiros.

Em terceiro lugar, a contracção das exportações da UE reflecte a perda do seu principal mercado externo sem substituição por destinos alternativos, apesar de o preço médio de exportação ter subido 18,5% — um sinal de que a UE se reorientou, marginalmente, para nichos de maior valor, mas em volumes residuais.

A balança comercial permaneceu fortemente deficitária (−361 M€ em 2025), e os indicadores de especialização confirmam que apenas alguns Estados-Membros (França, Espanha, Países Baixos) detêm vantagens comparativas relevantes, enquanto a maioria do continente é estruturalmente dependente de importações para satisfazer a procura interna de vagens frescas.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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