Evolução do mercado: Alface e chicórias (CN 0705) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativamente ao código pautal CN 0705 — Alface (Lactuca sativa) e chicórias (Cichorium spp.), frescas ou refrigeradas, no período compreendido entre 2015 e 2025.
Este código abrange quatro subcategorias principais: repolhuda (070511), outras alfaces (070519), chicórias exceto endívia (070529) e endívia (070521). A análise incide sobre o comércio da UE com países terceiros (extra-UE), abrangendo importações, exportações, parceiros comerciais, estrutura de mercado e volatilidade.
Os dados revelam uma clara consolidação da UE como exportador líquido líquido de peso, com um superavit comercial que cresceu de forma consistente ao longo da década. A análise evidencia três dinâmicas centrais: (i) a valorização progressiva das exportações europeias face à estagnação ou redução dos volumes; (ii) a reconfiguração geográfica das relações comerciais, tanto no lado das exportações como das importações; e (iii) o crescente domínio espanhol num mercado cada vez mais concentrado na oferta.
1. Supera vit comercial crescente impulsionado pela valorização das exportações
O comércio da UE com países terceiros no setor da alface e chicórias é estruturalmente dominado pelas exportações, cujo valor é entre 12 e 18 vezes superior ao das importações ao longo de todo o período analisado. Esta assimetria não apenas se manteve, como se acentuou significativamente entre 2015 e 2025.
1.1. As exportações crescem em valor apesar da contração dos volumes
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor das exportações (EUR) | 257 981 574 | 335 368 217 | +30,0 % |
| Quantidade exportada (t) | 236 507 | 205 445 | −13,1 % |
| Preço médio de exportação (EUR/t) | 1 091 | 1 632 | +49,6 % |
| Valor das importações (EUR) | 21 582 393 | 17 769 122 | −17,7 % |
| Quantidade importada (t) | 13 741 | 14 241 | +3,6 % |
| Preço médio de importação (EUR/t) | 1 571 | 1 248 | −20,6 % |
| Saldo comercial (EUR) | 236 399 181 | 317 599 095 | +34,3 % |
Fonte: Dados gerais de comércio
O dado mais relevante é a divergência entre a evolução dos volumes e dos valores nas exportações: enquanto a quantidade exportada diminuiu 13,1 % (de 236 507 t para 205 445 t), o valor total cresceu 30,0 % (de €258 M para €335 M). Isto traduz-se num aumento de 49,6 % no preço médio de exportação (de €1 091/t para €1 632/t), refletindo uma orientação crescente para produtos de maior valor acrescentado, designadamente endívia e alfaces mais diferenciadas. A subida dos preços agrícolas europeus, impulsionada por custos de energia e mão de obra mais elevados, contribuiu também para este efeito.
1.2. As importações mantêm volumes estáveis mas perdem valor
No lado das importações, a evolução é inversa mas em sentido contrário: a quantidade importada cresceu ligeiramente (+3,6 %), mas o valor diminuiu 17,7 %, refletido num declínio de 20,6 % no preço médio de importação (de €1 571/t para €1 248/t). Isto sugere que as importações se concentram cada vez mais em produtos de menor valor unitário, potencialmente provenientes de fornecedores com estruturas de custos mais competitivas, sobretudo do Norte de África e da Turquia.
O superavit comercial cresceu assim de €236 M para €318 M (+34,3 %), consolidando a posição da UE como exportador líquido dominante neste setor.
2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros e crescente centralidade do Reino Unido
A análise por parceiros comerciais revela uma reconfiguração significativa das rotas comerciais da UE ao longo da década, com o Reino Unido a consolidar a sua posição como destino dominante das exportações e com o surgimento de novos fornecedores no lado das importações.
2.1. O Reino Unido absorve mais de 60 % das exportações extra-UE
| Parceiro | Valor exportações 2015 (EUR) | Valor exportações 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 153 123 187 | 214 218 325 | +39,9 % |
| Suíça | 40 586 120 | 54 684 956 | +34,7 % |
| Noruega | 16 526 600 | 17 023 356 | +3,0 % |
| Ucrânia | 1 987 922 | 14 392 826 | +624,0 % |
| Emirados Árabes Unidos | 9 806 799 | 6 392 393 | −34,8 % |
| Arábia Saudita | 8 023 282 | 1 572 763 | −80,4 % |
| Bielorrússia | 8 103 902 | 1 156 291 | −85,7 % |
Fonte: Parceiros comerciais (exportações)
O Reino Unido é, de longe, o principal destino das exportações europeias de alface e chicórias, com €214 M em 2025, correspondendo a 63,9 % do total exportado. O crescimento de 39,9 % desde 2015 reflete a consolidação das relações comerciais pós-Brexit e a dependência estrutural do mercado britânico em relação ao fornecimento europeu de hortícolas frescas. Esta concentração é significativa, sendo corroborada por um coeficiente de variação (CV) nas exportações para o Reino Unido de apenas 0,044 — o mais baixo de todos os parceiros — o que indica uma relação comercial extremamente estável.
A Ucrânia surge como destino de crescimento excecional (+624 %), atingindo €14,4 M em 2025, o que pode refletir a reconstrução de cadeias logísticas após 2022 e eventuais fluxos de apoio humanitário que incluem produtos alimentares. Por outro lado, as exportações para a Bielorrússia (−85,7 %) e a Arábia Saudita (−80,4 %) sofreram quedas acentuadas, possivelmente ligadas a sanções e reconfigurações geopolíticas.
2.2. Importações: crescimento exponencial do Egito e da Turquia
| Parceiro | Valor importações 2015 (EUR) | Valor importações 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 17 483 113 | 9 334 741 | −46,6 % |
| Turquia | 44 581 | 2 738 643 | +6 043,1 % |
| Egito | 63 055 | 2 737 524 | +4 241,5 % |
| Tunísia | 775 501 | 1 147 458 | +48,0 % |
| Sérvia | 98 663 | 896 439 | +808,6 % |
| Marrocos | 1 429 079 | 832 572 | −41,7 % |
| Bósnia e Herzegovina | 948 878 | 773 690 | −18,5 % |
Fonte: Parceiros comerciais (importações)
O panorama das importações sofreu uma transformação profunda. Em 2015, o Reino Unido dominava as importações com €17,5 M, mas em 2025 esse valor caiu 46,6 % para €9,3 M. Em contrapartida, a Turquia e o Egito, que em 2015 representavam valores residuais (€44 581 e €63 055, respetivamente), cresceram exponencialmente para €2,7 M cada, refletindo a capacidade destes países em fornecer hortícolas frescas a preços competitivos, aproveitando as suas condições climáticas favoráveis e a proximidade geográfica com a Europa meridional.
A Sérvia (+808,6 %) surge também como fornecedor em ascensão, refletindo o aprofundamento das relações comerciais com os Balcãs Ocidentais. Marrocos, apesar de ser um parceiro historicamente relevante no setor hortícola, registou um declínio de 41,7 %.
2.3. Concentração do mercado: importações diversificam, exportações concentram-se
A análise do índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) revela diníamcas opostas:
| Fluxo | HHI valor 2015 | HHI valor 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações | 6 641 | 3 304 | −50,2 % |
| Exportações | 3 906 | 4 439 | +13,6 % |
Fonte: Concentração HHI
O HHI das importações caiu 50,2 %, indicando uma diversificação significativa das fontes de abastecimento — de uma estrutura fortemente concentrada (HHI > 6 000) para uma moderadamente concentrada (HHI ≈ 3 300). Em contraste, o HHI das exportações subiu 13,6 %, refletindo a crescente centralidade do Reino Unido e de um número reduzido de mercados de destino. Esta assimetria tem implicações para a exposição a riscos: enquanto as importações se tornaram mais resilientes pela diversificação, as exportações ficaram mais dependentes de poucos mercados.
3. Domínio espanhol e segmentação do mercado por subproduto
A análise por Estado-Membro exportador e por subcategoria de produto revela uma estrutura de mercado altamente segmentada, com a Espanha a assumir uma posição de domínio claro.
3.1. A Espanha consolida-se como motor das exportações europeias
| Estado-Membro | Valor exportações 2015 (EUR) | Valor exportações 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Espanha | 154 933 237 | 214 994 805 | +38,8 % |
| Países Baixos | 33 003 873 | 41 685 923 | +26,3 % |
| França | 18 377 033 | 27 567 762 | +50,0 % |
| Itália | 21 570 653 | 23 855 759 | +10,6 % |
| Polónia | 1 771 802 | 14 436 515 | +714,8 % |
| Bélgica | 7 155 876 | 2 386 386 | −66,7 % |
| Irlanda | 1 234 927 | 1 658 739 | +34,3 % |
Fonte: Reporters por valor (exportações)
A Espanha é o exportador dominante, representando 64,1 % do valor total exportado pela UE em 2025 (€215 M). O seu índice de vantagem comparativa revelada (RCA) de 9,51 e o RSCA de 0,81 confirmam uma especialização muito elevada neste setor, refletindo as condições climáticas favoráveis de Almería e de outras regiões do sudeste espanhol, que permitem produção contínua durante todo o ano.
A Polónia regista o crescimento mais excecional (+714,8 %), passando de €1,8 M para €14,4 M, o que pode refletir investimentos em estufas e capacidade de produção controlada para exportação.
3.2. Os principais importadores intra-UE concentram-se no Norte e Oeste
| Estado-Membro | Valor importações 2015 (EUR) | Valor importações 2025 (EUR) | Variação |
|---|---|---|---|
| Irlanda | 14 556 804 | 9 026 727 | −38,0 % |
| Roménia | 102 246 | 973 960 | +852,6 % |
| Grécia | 31 201 | 940 786 | +2 915,2 % |
| Croácia | 952 376 | 848 222 | −10,9 % |
| França | 1 181 702 | 869 040 | −26,5 % |
| Alemanha | 1 028 523 | 450 446 | −56,2 % |
| Países Baixos | 486 864 | 103 645 | −78,7 % |
Fonte: Reporters por valor (importações)
A Irlanda é o maior importador extra-UE, embora com um declínio significativo (−38,0 %). A Roménia (+852,6 %) e a Grécia (+2 915,2 %) registaram crescimentos notáveis, possivelmente ligados a défices sazonais de produção doméstica ou a alterações nos padrões de consumo. Importa notar que os Países Baixos, apesar de serem um grande exportador de hortícolas, reduziram drasticamente as suas importações extra-UE (−78,7 %), o que pode refletir uma reorientação para o autoabastecimento intra-UE.
3.3. Segmentação por subproduto: a repolhuda domina, a endívia valoriza-se
A análise por subcategoria revela padrões diferenciados:
Exportações por subproduto em 2025:
| Subproduto | Quantidade (t) | Valor (EUR) | Preço (EUR/t) |
|---|---|---|---|
| 070511 — Repolhuda | 131 619 | 186 848 495 | 1 420 |
| 070519 — Outras alfaces | 55 832 | 110 695 301 | 1 983 |
| 070529 — Chicórias | 11 061 | 15 880 624 | 1 436 |
| 070521 — Endívia | 6 932 | 21 943 797 | 3 166 |
Fonte: Segmentação por produto
A repolhuda (070511) é o subproduto dominante em volume (64,1 % do total exportado), mas a sua quota em valor é de 55,8 %, dado que o seu preço médio (€1 420/t) é inferior ao das outras categorias.
A endívia (070521) é o subproduto mais valorizado, com um preço médio de exportação de €3 166/t — mais do dobro da repolhuda. Apesar de representar apenas 3,4 % do volume exportado, a endívia contribui com 6,5 % do valor total. A evolução do preço da endívia é particularmente notável: de €2 002/t em 2015 para €3 166/t em 2025 (+58,1 %), com um pico de €3 521/t em 2024.
3.4. Choques de oferta detetados: Marrocos 2022 e Turquia 2017
A análise de volatilidade e choques identificou dois eventos significativos:
| Evento | Tipo | Fluxo | Anomalia | Deslocamento | Quota em valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Marrocos 2022 | Preço | Importações | 55,9 | +40,3 % | 6,4 % |
| Turquia 2017 | Preço | Importações | 3,4 | +22,6 % | 8,4 % |
Fonte: Eventos de choque
O choque de Marrocos em 2022 (anomalia de 55,9, com subida de preços de 40,3 %) é o mais significativo e pode estar relacionado com a seca severa que afetou o Norte de África nesse período, restringindo a oferta e comprimindo os preços de importação. A Turquia em 2017 apresentou um choque mais moderado mas igualmente relevante.
Do lado das exportações, os parceiros com maior volatilidade (CV mais elevado) são a Bielorrússia (CV = 0,95) e a Arábia Saudita (CV = 0,59), confirmando a instabilidade já observada na análise de parceiros.
Conclusão
O mercado europeu de alface e chicórias frescas (CN 0705) apresentou, entre 2015 e 2025, uma evolução marcada por três tendências estruturais:
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Valorização comercial: A UE consolidou a sua posição como exportador líquido, com um superavit que cresceu 34,3 % (de €236 M para €318 M). Contudo, este crescimento é essencialmente impulsionado pela subida de preços (+49,6 % nas exportações) e não pelo aumento de volumes (−13,1 %). Este padrão sugere uma crescente orientação para produtos de maior valor acrescentado e reflete a pressão inflacionária sobre os custos de produção agrícola na Europa.
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Reconfiguração geográfica: As rotas comerciais reconfiguraram-se significativamente. Do lado das exportações, o Reino Unido consolidou a sua dependência do fornecimento europeu (63,9 % do total), mas mercados como a Ucrânia emergiram como destinos relevantes. Do lado das importações, o Egito e a Turquia substituíram em parte o Reino Unido como fornecedores extra-UE, beneficiando das suas vantagens climáticas e de custos. A diversificação das importações (HHI −50,2 %) contrasta com a crescente concentração das exportações (HHI +13,6 %), criando uma assimetria de risco relevante.
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Domínio espanhol e segmentação: A Espanha é o motor incontestado das exportações europeias (64,1 % do valor total), com uma vantagem comparativa robusta (RCA = 9,51). A Polónia surge como actor emergente (+714,8 %). A segmentação por subproduto revela oportunidades diferenciadas: a endívia (CN 070521), embora marginal em volume, apresenta preços de exportação significativamente superiores (€3 166/t em 2025), constituindo um nicho de valor acrescentado.
Em síntese, o setor da alface e chicórias frescas na UE é um mercado maduro, dominado pela exportação, com uma estrutura de preços crescentemente favorável mas exposto a riscos de concentração geográfica e a choques climáticos nos fornecedores periféricos.