Evolução do mercado: Couves (CN 0704) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio da União Europeia (UE) para o código pautal 0704 — que abrange couves, couve-flor, repolho e outros produtos comestíveis semelhantes do género Brassica, frescos ou refrigerados — no período entre 2015 e 2025. A análise baseia-se exclusivamente nos dados fornecidos, focando as dinâmicas de valor, volume e preço, a estrutura geográfica do comércio e a volatilidade do mercado. O objetivo é identificar tendências e transformações estruturais que caracterizaram este setor agrícola ao longo de uma década.
1. Crescimento sustentado por preços e um excedente comercial em expansão
O comércio externo da UE neste setor foi marcado por um forte aumento do valor, mas uma evolução divergente do volume, refletindo uma escalada generalizada dos preços.
1.1. Exportações: valor crescente, volume em declínio
O valor total das exportações da UE cresceu 59,3% no período, atingindo 448,5 milhões de euros em 2025. No entanto, o volume exportado diminuiu 18,6% (de 338.710 toneladas para 275.795 toneladas). Esta dinâmica oposta indica que o crescimento do valor foi integralmente impulsionado pelo aumento dos preços médios de exportação, que subiram 95,6%, passando de 831 EUR/t para 1.626 EUR/t (Evolução geral do comércio).
1.2. Importações: crescimento robusto em valor e volume
As importações apresentaram um crescimento ainda mais acentuado em termos valor (+107,8%), passando de 34,8 milhões de euros para 72,3 milhões de euros. O volume importado também registrou um aumento significativo de 36,5%, atingindo 86.811 toneladas em 2025. Tal como nas exportações, os preços das importações subiram acentuadamente (52,2%), de 547 EUR/t para 833 EUR/t.
1.3. Consolidação do excedente comercial
A UE manteve um excedente comercial estrutural durante todo o período. Apesar da contração do volume exportado, o forte aumento dos preços de exportação, superior ao das importações, fez com que o excedente em valor crescesse 52,4%, de 246,8 milhões de euros para 376,2 milhões de euros. Isto demonstra uma clara vantagem competitiva da UE em termos de valor unitário.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor Exportações (M EUR) | 281,6 | 448,5 | +59,3% |
| Volume Exportações (kt) | 338,7 | 275,8 | -18,6% |
| Preço Médio Exportações (EUR/t) | 831 | 1.626 | +95,6% |
| Valor Importações (M EUR) | 34,8 | 72,3 | +107,8% |
| Excedente Comercial (M EUR) | 246,8 | 376,2 | +52,4% |
2. Diversificação das fontes de importação e concentração das exportações
A estrutura geográfica do comércio revelou tendências distintas: as importações da UE tornaram-se menos concentradas e mais diversificadas geograficamente, enquanto as exportações aumentaram a sua dependência de um número reduzido de parceiros-chave.
2.1. Novos parceiros ganham relevância nas importações
O índice de concentração (HHI) das importações em valor diminuiu 33,4%, sinalizando uma diversificação dos fornecedores. Enquanto o Reino Unido manteve a sua posição de segundo maior fornecedor, países da Europa Oriental e do Mediterrâneo ganharam uma proeminência acentuada (Concentração do comércio). Destaque para:
- Macedónia do Norte: Aumento de 197,5% no valor, tornando-se no maior fornecedor em 2025.
- Albânia e Turquia: Crescimentos exponenciais de 1.937% e 306% no valor importado, respetivamente.
- Egito e Marrocos: Reforço significativo das suas posições como fornecedores.
2.2. Exportações fortemente concentradas no Reino Unido
As exportações tornaram-se mais concentradas, com o HHI a aumentar 16,6%. O Reino Unido é, de longe, o principal destino, representando 72,7% do valor total das exportações da UE em 2025 (327,3 milhões de euros). Outros destinos relevantes como a Suíça e a Noruega também viram crescer o seu valor, mas a queda acentuada nas exportações para a Bielorrússia (-97,7%) ilustra instabilidade nalguns mercados (Principais parceiros por valor).
2.3. Especialização dos Estados-Membros na produção e comércio
Existe uma clara especialização geográfica dentro da UE. A Espanha é o Estado-Membro com maior vantagem comparativa revelada (RSCA de 0,73), respondendo por 37,7% da produção especializada. Em contraste, países como a Irlanda e a Roménia apresentam uma desvantagem comparativa estrutural. Esta especialização reflete-se no comércio: a Espanha é, de longe, o maior exportador (285 milhões de euros em 2025), seguida pela Países Baixos e França (Especialização dos Estados-Membros).
3. Volatilidade assimétrica e um choque de preços identificável
O mercado apresentou níveis de volatilidade muito diferentes consoante os parceiros, com um episódio de choque de preços notável nas importações do Reino Unido.
3.1. Volatilidade elevada nos parceiros mais recentes
Os parceiros de importação que mais cresceram tendem a exibir uma maior volatilidade nos fluxos comerciais, medida pelo coeficiente de variação (CV). Exemplos como a Bielorrússia (CV 1,72) ou o Egito (CV 0,81) indicam relações comerciais menos estáveis (Análise da volatilidade). Esta instabilidade pode estar ligada a fatores sazonais, climáticos ou políticos. Em contraste, o comércio com o Reino Unido apresenta uma baixa volatilidade (CV 0,07 para exportações), denotando uma relação comercial madura e previsível.
3.2. Um episódio de choque de preços significativo
Em 2023, detetou-se um choque negativo de preços (abnormality de 2,3) nas importações da UE vindas do Reino Unido, com uma queda de 20,4% no preço médio. Este evento, que afetou um parceiro com 37,3% do valor das importações, pode ter resultado de um excesso de oferta pontual no mercado britânico ou de uma alteração nas condições comerciais (Eventos de choque identificados).
Conclusão
Entre 2015 e 2025, o mercado das couves (CN 0704) da UE caracterizou-se por três dinâmicas principais. Primeiro, um forte crescimento do valor impulsionado quase exclusivamente pela inflação dos preços, enquanto os volumes comercializados se mantiveram estáveis ou em ligeiro declínio, sugerindo mudanças nos custos de produção ou no posicionamento de mercado. Segundo, uma transformação geográfica estrutural, com a diversificação das fontes de importação para a Europa Oriental e o Mediterrâneo, em contraste com uma concentração ainda maior das exportações no mercado do Reino Unido. Terceiro, a consolidação de uma vantagem competitiva europeia baseada em valor, que permitiu expandir significativamente o excedente comercial. O setor é, contudo, assombrado por uma volatilidade considerável nos fornecedores mais recentes, que representa um risco para a segurança do abastecimento. A análise evidencia um setor em transformação, onde a capacidade de agregar valor se tornou mais determinante do que o volume físico transacionado.