Evolução do mercado: Legumes em conserva (CN 0711) — 2015–2025
Introdução
A posição da União Europeia no comércio internacional de produtos hortícolas conservados transitoriamente (CN 0711) — rubrica que abrange azeitonas, pepinos e pepininhos (cornichons), cogumelos, e misturas de legumes conservados em salmoura ou soluções conservantes, mas ainda impróprios para consumo direto — conheceu uma transformação profunda entre 2015 e 2025. Três dinâmicas estruturais definem este período de uma década: (i) um crescimento robusto das importações, que atingiram 171 049 toneladas e 230,6 milhões de euros em 2025; (ii) uma reconfiguração geográfica acentuada das parcerias comerciais, catalisada pela saída do Reino Unido da União Europeia e pela emergência de fornecedores como a Turquia, a Síria e o Egito; e (iii) uma divergência marcante entre os preços de exportação, que quase duplicaram, e os preços de importação, que recuaram ligeiramente.
O resultado líquido destas tendências é inequívoco: o défice comercial da UE neste setor aprofundou-se de −110,7 milhões de euros em 2015 para −177,3 milhões em 2025, com a dependência líquida de importações a ultrapassar a barreira dos 50 % pela primeira vez. Paralelamente, a produção europeia cresceu de forma exponencial em volume (+212 %), sinalizando uma dinâmica complexa em que a oferta doméstica não consegue compensar a procura crescente por importações.
Este relatório analisa as principais tendências do período em três eixos: o agravamento do défice comercial, a reconfiguração geográfica das parcerias, e a divergência de preços aliada à transformação dos segmentos de produto.
1. O agravamento da dependência europeia: um défice comercial em expansão
1.1 As importações crescem de forma sustentada, com volumes a aumentarem 59 %
Ao longo da década em análise, as importações da UE de produtos CN 0711 apresentaram um crescimento consistente tanto em volume como em valor. Em 2015, a UE importou 107 293 toneladas no valor de 157,1 milhões de euros; em 2025, esses valores subiram para 171 049 toneladas e 230,6 milhões de euros, correspondendo a um aumento de 59,4 % em volume e de 46,8 % em valor (dados gerais do comércio). O preço médio de importação recuou 7,9 % (de 1 464 €/t para 1 348 €/t), sugerindo que o crescimento foi parcialmente sustentado por fontes de abastecimento de menor custo.
O crescimento das importações foi desigual entre segmentos de produto, como demonstra a tabela seguinte:
| Segmento (CN) | 2015 (t) | 2025 (t) | Variação (%) | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) |
|---|---|---|---|---|---|
| 071190 — Legumes em mistura | 39 522 | 74 210 | +87,8 % | 68,0 | 119,9 |
| 071140 — Pepinos e pepininhos | 51 275 | 76 139 | +48,5 % | 41,5 | 62,2 |
| 071159 — Outros cogumelos e trufas | 15 135 | 11 821 | −21,9 % | 45,8 | 36,9 |
| 071120 — Azeitonas | 1 117 | 8 748 | +683 % | 1,4 | 11,4 |
| 071151 — Cogumelos Agaricus | 244 | 131 | −46,3 % | 0,4 | 0,2 |
(comparação por segmento de produto)
Os legumes em mistura (071190) e os pepinos (071140) são, de longe, os principais motores do crescimento das importações, representando conjuntamente 87 % do volume total importado em 2025. As azeitonas (071120), embora ainda marginais em volume absoluto, registaram a maior variação proporcional (+683 %), refletindo uma procura europeia crescente por azeitonas em fase de conservação transitoria para posterior transformação. Em contrapartida, os cogumelos — tanto do género Agaricus como restantes — perderam relevância nas importações, com volumes em ligeiro declínio.
1.2 As exportações europeias perdem mais de um terço do volume, embora o valor se mantenha
Enquanto as importações cresceram de forma robusta, as exportações da UE seguiram uma trajetória oposta em volume. De 2015 (49 682 t) a 2025 (30 582 t), as exportações perderam 38,4 % do seu volume. Contudo, o valor das exportações aumentou 14,7 %, passando de 46,4 para 53,3 milhões de euros. O preço médio de exportação subiu 86,4 % — de 934 €/t para 1 742 €/t — o que compensou parcialmente a queda volumétrica (dados gerais do comércio).
A análise da evolução anual revela um ponto de rutura claro: em 2019, as exportações atingiram o seu máximo histórico em volume (64 644 t) e em valor (63,8 M€), antes de sofrerem uma queda acentuada em 2021 — provavelmente associada aos efeitos da pandemia de COVID-19 — para apenas 23 213 t (31,1 M€). Desde então, as exportações não recuperaram os níveis pré-pandémicos, situando-se em 2025 ainda 53 % abaixo do pico de 2019 em volume.
O segmento dos legumes em mistura (071190) é o principal responsável por esta quebra: as suas exportações caíram de 30 164 t em 2015 para 13 998 t em 2025 (−53,6 %), uma perda que os preços crescentes (de 822 €/t para 1 426 €/t) não conseguiram compensar em termos de valor total.
1.3 O défice comercial atinge um máximo histórico em 2024, com a dependência a superar os 50 %
A conjugação do crescimento das importações com a contração das exportações agravou significativamente o défice comercial da UE no setor CN 0711:
| Indicador | 2015 | 2019 | 2021 | 2024 | 2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Importações (M€) | 157,1 | 146,3 | 160,0 | 267,1 | 230,6 |
| Exportações (M€) | 46,4 | 63,8 | 31,1 | 48,0 | 53,3 |
| Saldo (M€) | −110,7 | −82,6 | −128,9 | −219,1 | −177,3 |
| Dependência líquida de importações (%) | 41,1 | — | — | — | 51,9 |
O défice mais reduzido registou-se em 2019 (−82,6 M€), quando as exportações atingiram o máximo e as importações se situaram num mínimo relativo. A pandemia reverteu esta tendência: em 2021, com as exportações a metade, o défice alargou-se para −128,9 M€. O agravamento prosseguiu até 2024, quando atingiu −219,1 M€ — o valor mais elevado do período — antes de uma ligeira redução em 2025 (−177,3 M€).
Concomitantemente, a dependência líquida de importações subiu de 41,1 % para 51,9 % (+26,1 %), ultrapassando pela primeira vez a barreira simbólica dos 50 %: a UE importa agora mais de metade do que consome em produtos hortícolas conservados transitoriamente. A intensidade comercial (54,8 % → 66,8 %) e a propensão para exportar (16,0 % → 23,2 %) também aumentaram, refletindo uma maior integração do setor no comércio global, embora em contexto de crescente dependência externa.
2. Reconfiguração geográfica: o Brexit, a emergência de novos fornecedores e a diversificação dos destinos
2.1 O Reino Unido perde relevância como parceiro comercial, em resultado do Brexit
Uma das transformações mais visíveis no período é o encolhimento do papel do Reino Unido como parceiro comercial da UE em CN 0711, tanto do lado das importações como das exportações.
No que respeita às importações da UE provenientes do Reino Unido, o valor caiu de 9,3 milhões de euros em 2015 para 2,2 milhões em 2025 (−76,1 %), retirando o país da lista dos principais fornecedores. Do lado das exportações, o Reino Unido continua a ser o maior destino individual, mas o seu peso reduziu-se significativamente: de 23,1 milhões de euros (49,7 % do total das exportações da UE) em 2015 para 15,9 milhões (29,9 %) em 2025, uma queda de 31,0 % em valor absoluto.
A saída formal do Reino Unido da UE em janeiro de 2020 e o fim do período de transição em dezembro desse ano introduziram barreiras alfandegárias e regulamentares que tornaram o comércio bilateral mais custoso. A perda de relevância do Reino Unido como parceiro é tanto mais significativa quanto este país era, no início do período, simultaneamente o maior destino das exportações europeias e um fornecedor relevante.
2.2 A Turquia, a Síria e o Egito consolidam-se como fornecedores-chave
À medida que o peso do Reino Unido diminuía no lado das importações, outros parceiros ganharam protagonismo, preenchendo o espaço deixado e respondendo ao crescimento da procura europeia:
| Fornecedor | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Índia | 34,7 | 62,6 | +80,6 % |
| Egito | 21,0 | 39,9 | +89,8 % |
| China | 36,7 | 38,4 | +4,7 % |
| Marrocos | 22,2 | 26,8 | +21,1 % |
| Turquia | 8,8 | 26,4 | +199,2 % |
| Síria | 2,8 | 12,5 | +340,6 % |
| Reino Unido | 9,3 | 2,2 | −76,1 % |
Três tendências sobressaem nesta reconfiguração:
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A Turquia (+199,2 %) e a Síria (+340,6 %) registaram os crescimentos mais espetaculares. A Turquia passou de 8,8 para 26,4 milhões de euros, consolidando-se como o quinto maior fornecedor. A Síria, partindo de uma base reduzida (2,8 M€), atingiu 12,5 milhões em 2025, tornando-se um fornecedor de vulto num setor — as azeitonas e legumes em conserva — no qual o país tem tradição produtiva.
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A Índia e o Egito mantiveram-se como os dois maiores fornecedores não europeus, com crescimentos de 80,6 % e 89,8 %, respetivamente. Em 2025, a Índia sozinha representa 27,2 % do valor total das importações da UE em CN 0711.
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A China, apesar de ser o terceiro maior fornecedor em valor, registou apenas um crescimento marginal (+4,7 %), perdendo quota de mercado relativa (de 23,4 % para 16,7 % do total das importações). Esta estagnação pode refletir uma reorientação da procura europeia para fornecedores mais próximos ou com menores custos logísticos.
A concentração das importações por origem (HHI por valor) manteve-se moderada, subindo ligeiramente de 1 501 para 1 622 (+8,1 %), refletindo a consolidação de um grupo restrito de fornecedores principais — nomeadamente Índia e Egito — em detrimento de parceiros menores.
2.3 As exportações europeias diversificam-se: Belarus e os EUA ganham peso
Do lado das exportações, a diversificação dos mercados de destino foi uma das tendências mais marcantes do período. Se em 2015 o Reino Unido absorvia praticamente metade do valor exportado, em 2025 o mercado de destino tornou-se significativamente mais plural:
| Destino | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) | Variação (%) | Quota 2025 (%) |
|---|---|---|---|---|
| Reino Unido | 23,1 | 15,9 | −31,0 % | 29,9 % |
| Belarus | 0,2 | 11,0 | +6 447 % | 20,6 % |
| Estados Unidos | 2,8 | 9,6 | +239,2 % | 18,1 % |
| Índia | 1,0 | 2,6 | +173,2 % | 4,9 % |
| Brasil | 6,7 | 2,3 | −65,1 % | 4,4 % |
| Suíça | 2,5 | 1,1 | −57,5 % | 2,0 % |
| Noruega | 0,7 | 0,6 | −10,6 % | 1,2 % |
O caso de Belarus é particularmente notável: de apenas 168 mil euros em 2015, as exportações para este país dispararam para 11,0 milhões em 2025 (+6 447 %), tornando-o no segundo maior destino das exportações europeias. Contudo, esta evolução é altamente volátil (coeficiente de variação de 1,39), refletindo flutuações anuais acentuadas e potenciais condicionamentos de natureza política.
Os Estados Unidos consolidaram-se como terceiro maior destino, com um crescimento de 239,2 %, impulsionado por picos de procura (com um choque de preço nas exportações em 2021). Em contrapartida, o Brasil (−65,1 %) e a Suíça (−57,5 %) perderam relevância como mercados de destino.
A diversificação dos destinos reflete-se na redução significativa do índice de concentração HHI das exportações: de 2 782 em 2015 para 1 720 em 2025 (−38,2 %). Em 2015, o HHI situava-se na zona de alta concentração; em 205, desceu para a zona de concentração moderada. Esta evolução reduz a exposição da UE a dependências excessivas de um único mercado de destino, embora o Reino Unido continue a representar quase 30 % do total.
3. Divergência de preços, volatilidade dos segmentos e transformação estrutural
3.1 Os preços de exportação quase duplicam enquanto os de importação recuam ligeiramente
Uma das dinâmicas mais marcantes do período é a acentuada divergência entre a evolução dos preços de exportação e de importação:
| Indicador de preço | 2015 (€/t) | 2025 (€/t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Preço médio de exportação | 934 | 1 742 | +86,4 % |
| Preço médio de importação | 1 464 | 1 348 | −7,9 % |
Os preços de exportação quase duplicaram, enquanto os de importação recuaram ligeiramente. Esta divergência tem múltiplas interpretações:
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Do lado das exportações, a subida de preços reflete uma combinação de fatores: (i) a seleção de produtos de maior valor acrescentado nos mercados de destino, à medida que os volumes caem; (ii) a pressão inflacionária nos custos de produção europeus; e (iii) o impacto de eventuais restrições de oferta, como evidenciado pela queda abrupta de volumes a partir de 2021.
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Do lado das importações, a ligeira descida de preços sugere que a UE está a aceder a fornecedores com custos de produção mais baixos (nomeadamente Índia, Egito e Turquia), o que permite expandir volumes sem aumento proporcional do valor.
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A consequência para o valor unitário é que a UE passou de uma posição em que os seus preços de exportação eram inferiores aos de importação (934 €/t vs. 1 464 €/t em 2015) para uma convergência (1 742 €/t vs. 1 348 €/t em 2025). Isto sugere uma reorientação das exportações europeias para nichos de maior valor, em contraste com importações crescentemente orientadas para produtos de base.
A análise por segmento de produto revela nuances adicionais nos preços de exportação:
| Segmento | Preço exportação 2015 (€/t) | Preço exportação 2025 (€/t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| 071159 — Outros cogumelos | 1 655 | 6 089 | +268 % |
| 071120 — Azeitonas | 1 026 | 2 029 | +97,7 % |
| 071151 — Cogumelos Agaricus | 1 364 | 2 072 | +51,9 % |
| 071190 — Legumes em mistura | 822 | 1 426 | +73,5 % |
| 071140 — Pepinos | 1 134 | 1 569 | +38,4 % |
Os cogumelos não-Agaricus (071159) apresentam a subida mais espetacular (+268 %), mas num contexto de volume residual (apenas 106 t em 2025). As azeitonas (071120) praticamente duplicaram o preço (de 1 026 para 2 029 €/t), mantendo volumes estáveis, o que sugere uma revalorização deste segmento nas exportações europeias.
3.2 Choques de abastecimento pontuais marcam o comércio com os EUA e o Egito
A análise de volatilidade e de eventos de choque revela dois episódios de destaque no período:
Choque de preço nas exportações para os EUA (2021): O comércio com os Estados Unidos registou uma anomalia de preço com grau de anormalidade de 9,5 — o valor mais elevado do período — com um aumento de preço de 90,3 % em 2021, afetando 27,9 % do valor total das exportações. Este episódio coincide com os distúrbios nas cadeias de abastecimento provocados pela pandemia de COVID-19, que afetaram particularmente o comércio transatlântico. A contração simultânea do volume exportado (de 31 203 t para 12 883 t no segmento 071190, por exemplo) sugere uma combinação de restrições de oferta europeia e de aumento da procura norte-americana.
Choque de preço nas importações do Egito (2022): O Egito registou um choque de preço de importação em 2022, com um aumento de 28,0 % e grau de anormalidade de 2,6, afetando 24,5 % do valor das importações. Este choque pode estar associado à inflação dos custos de produção e transporte no contexto pós-pandémico, bem como a eventuais fatores climáticos que afetaram a produção egípcia.
Do lado da volatilidade estrutural, os parceiros comerciais com maior coeficiente de variação nas importações incluem a Argentina (CV = 0,93), o Sri Lanka (0,81) e a Síria (0,71); nas exportações, destacam-se Belarus (CV = 1,39) e a Noruega (1,07). Estes parceiros oferecem oportunidades de crescimento, mas com risco acrescido de instabilidade.
3.3 A aposta europeia em valor: as azeitonas ascendem e os cogumelos perdem expressão
A composição dos segmentos de produto sofreu uma transformação significativa ao longo do período, com implicações estruturais para a competitividade europeia.
Do lado das exportações, a evolução é marcada por dois movimentos opostos:
| Segmento | Volume 2015 (t) | Volume 2025 (t) | Variação (%) | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 071190 — Legumes em mistura | 30 164 | 13 998 | −53,6 % | 24,8 | 20,0 | −19,5 % |
| 071120 — Azeitonas | 13 268 | 13 278 | +0,1 % | 13,6 | 26,9 | +98,0 % |
| 071140 — Pepinos | 3 727 | 1 812 | −51,4 % | 4,2 | 2,8 | −32,7 % |
| 071151 — Cogumelos Agaricus | 1 280 | 1 388 | +8,4 % | 1,7 | 2,9 | +64,6 % |
| 071159 — Outros cogumelos | 1 242 | 106 | −91,5 % | 2,1 | 0,6 | −68,7 % |
As azeitonas (071120) tornaram-se a principal história de sucesso das exportações europeias em termos de valor. Apesar de volumes praticamente inalterados, o valor das exportações de azeitonas quase duplicou (de 13,6 para 26,9 M€), refletindo uma subida de preços de quase 100 %. Em 2025, as azeitonas representam já 50,6 % do valor total das exportações da UE em CN 0711, contra 29,3 % em 2015. Esta valorização pode refletir uma especialização europeia em azeitonas de maior qualidade e valor acrescentado, destinadas sobretudo a mercados como os EUA e o Reino Unido.
Em contraste, os restantes cogumelos (071159) sofreram um colapso quase total nas exportações: de 1 242 t em 2015 para apenas 106 t em 2025 (−91,5 %). O preço de exportação deste segmento disparou de 1 655 para 6 089 €/t, sugerindo que a UE passou a exportar apenas quantidades residuais de produtos de nicho premium, tendo perdido competitividade nos volumes de base.
A análise da especialização dos Estados-Membros em 2025 confirma a concentração geográfica da produção europeia:
| Estado-Membro | RCA | RCA normalizada (RSCA) | Quota na produção UE |
|---|---|---|---|
| Grécia | 21,72 | 0,912 | 14,7 % |
| Espanha | 7,10 | 0,753 | 41,2 % |
| Portugal | 3,29 | 0,534 | 4,6 % |
| Bulgária | 1,54 | 0,212 | 1,0 % |
| Estónia | 1,26 | 0,114 | 0,4 % |
A Grécia apresenta o índice de vantagem comparativa revelada (RCA) mais elevado (21,72), refletindo uma hiperespecialização no setor — consistente com a tradição grega de conserva de azeitonas e legumes. A Espanha, embora com um RCA menor (7,10), domina em termos absolutos, respondendo por 41,2 % da produção europeia do setor e sendo o maior exportador da UE (26,7 M€ em 2025, +39,8 % face a 2015). A produção europeia cresceu de forma exponencial em volume (+211,9 %, de 106 099 t para 330 878 t), embora o crescimento do valor tenha sido mais modesto (+67,9 %), sugerindo uma expansão orientada para produtos de menor valor unitário.
Conclusão
O período 2015–2025 foi transformador para o comércio da UE em produtos hortícolas conservados transitoriamente (CN 0711). Três conclusões principais emergem da análise:
Primeiro, a UE tornou-se significativamente mais dependente das importações. O défice comercial agravou-se de −110,7 M€ para −177,3 M€, e a dependência líquida de importações ultrapassou os 50 % em 2025. As importações cresceram 59,4 % em volume, impulsionadas sobretudo por legumes em mistura e pepinos, enquanto as exportações perderam 38,4 % do seu volume — uma quebra que se tornou estrutural após a pandemia de COVID-19 e da qual a UE ainda não recuperou plenamente.
Segundo, o mapa geográfico do comércio foi redesenhado. O Brexit retirou o Reino Unido do papel central que ocupava, tanto como fornecedor como destino de exportações. No seu lugar, emergiram fornecedores como a Turquia (+199 %), a Síria (+341 %) e o Egito (+90 %), enquanto as exportações europeias se diversificaram para Belarus e os EUA. Esta reconfiguração reduziu a concentração das exportações (HHI −38 %), mas aumentou ligeiramente a concentração das importações.
Terceiro, a UE parece estar a reorientar as suas exportações para produtos de maior valor acrescentado — as azeitonas duplicaram o seu valor exportado — enquanto perde competitividade em segmentos de volume, como os cogumelos e os legumes em mistura. Os preços de exportação subiram 86,4 % em média, compensando parcialmente a queda volumétrica, mas refletindo também um potencial enfraquecimento da competitividade europeia em termos de custo.
Olhando para o futuro, a crescente dependência de importações de fornecedores com diferentes perfis de risco — desde a Índia (relativamente estável, CV = 0,22) até à Síria (altamente volátil, CV = 0,71) — coloca desafios de diversificação e segurança do abastecimento. A capacidade de a UE manter uma posição de valor nas exportações, apostando em segmentos premium como as azeitonas, será determinante para mitigar o aprofundamento do défice comercial num setor cada vez mais globalizado.