Evolução do mercado: Leguminosas secas (CN 0713) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 0713 abrange uma ampla gama de leguminosas secas em grão — desde ervilhas e feijões-comuns até grão-de-bico, lentilhas e favas — que constituem um pilar fundamental da segurança alimentar e da dieta proteica na União Europeia. Ao longo da década compreendida entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE com estes produtos passou por transformações significativas: as importações cresceram em valor de €714 mil milhões para €1 114 mil milhões, enquanto o défice comercial alargou-se de -€490 mil milhões para -€839 mil milhões. Este relatório analisa as principais dinâmicas estruturais, os choques de preço que marcaram o período e a reconfiguração das relações comerciais da UE com os seus parceiros externos.
1. Crescimento acentuado das importações e aprofundamento do défice comercial
A UE tornou-se progressivamente mais dependente de fornecedores externos
Ao longo do período analisado, as importações da UE de leguminosas secas registaram um crescimento sustentado. O valor total das importações passou de €713 721 058 em 2015 para €1 114 159 286 em 2025, uma variação positiva de +56,1%. Em volume, as importações cresceram de 763 746 toneladas para 1 071 517 toneladas (+40,3%), o que reflecte tanto o aumento da procura interna como a reorientação geográfica dos fornecedores.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor das importações (€) | 713 721 058 | 1 114 159 286 | +56,1% |
| Volume das importações (t) | 763 746 | 1 071 517 | +40,3% |
| Preço médio de importação (€/t) | 934,5 | 1 039,8 | +11,3% |
Em contraste, as exportações da UE cresceram em valor (+23,2%, de €223 milhões para €275 milhões), mas diminuíram em volume (-8,6%, de 584 707 t para 534 466 t). O aumento do valor exportado é portanto explicado inteiramente pela subida dos preços (+34,8%, de €382/t para €515/t), e não por uma expansão real das quantidades expedidas.
O défice comercial duplicou ao longo da década
O saldo comercial da UE em leguminosas secas deteriorou-se de forma consistente, passando de -€490 milhões em 2015 para -€839 milhões em 2025, uma agravamento de 71,1%. Este défice atingiu o seu ponto mais agudo em 2022, quando rondou os -€970 milhões, impulsionado por uma combinação de aumento de volumes importados e subida de preços no mercado global. A recuperação parcial registada em 2024–2025 resultou sobretudo de uma normalização dos preços após o choque de 2022, sem que a estrutura de dependência externa se tenha alterado significativamente.
2. O choque de 2022: preços, volatilidade e o impacto da guerra na Ucrânia
O ano de 2022 como ponto de rutura no mercado
O ano de 2022 destaca-se inequivocamente como o período de maior tensão no mercado europeu de leguminosas secas. As importações atingiram níveis sem precedentes: 1 973 719 toneladas e €1 300 milhões em valor — máximos absolutos do período analisado. Vários factores confluíram: a invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022 provocou disrupções nas cadeias de abastecimento de grãos e leguminosas provenientes da região do Mar Negro, ao mesmo tempo que a inflação generalizada e os custos energéticos elevados pressionaram os preços em toda a cadeia alimentar.
Choques de preço identificados nos principais parceiros
A análise de eventos anómalos revelou três choques de preço significativos centrados em 2022:
| Parceiro | Fluxo | Variação de preço | Anomalia | Participação no valor |
|---|---|---|---|---|
| Estados Unidos | Importações | +57,4% | 9,8 | 22,3% |
| Egipto | Exportações | +44,1% | 9,5 | 28,6% |
| Índia | Exportações | +430,6% | 9,3 | 19,7% |
O choque mais dramático verificou-se nas exportações para a Índia, onde o preço médio subiu 430,6% em 2022. Este fenómeno está associado à restrição de exportações de leguminosas e cereais imposta pelo governo indiano durante a crise alimentar global, que distorceu significativamente os fluxos comerciais e elevou os preços praticados. De facto, as exportações da UE para a Índia desceram de €65,6 milhões em 2015 para apenas €131 788 em 2025, uma queda de -99,8%, o que sugere uma reorientação quase total das relações comerciais.
Volatilidade extrema em parceiros geopoliticamente expostos
A volatilidade dos fluxos, medida pelo coeficiente de variação (CV), revela a instabilidade estrutural de alguns parceiros:
| Parceiro (importações) | Coeficiente de variação |
|---|---|
| Rússia | 1,02 |
| Cazaquistão | 1,31 |
| Ucrânia | 0,94 |
| Reino Unido | 0,58 |
| Canadá | 0,20 |
| Argentina | 0,13 |
A Rússia e a Ucrânia apresentam os níveis mais elevados de volatilidade. As importações da Rússia, que atingiram o máximo de €274 milhões em 2020, caíram para apenas €6 milhões em 2025 (-37,3% face a 2015). A Ucrânia, inversamente, viu as suas exportações para a UE crescerem de €3,1 milhões para €30,3 milhões (+863,4%), reflectindo parcialmente a procura de alternativas ao fornecimento russo e o acordo de exportação de grãos via Mar Negro.
Análise de volatilidade e choques
3. Reconfiguração do mapa de parceiros e segmentação por produto
América do Norte consolida-se como principal fornecedor
A estrutura de fornecimento da UE reconfigurou-se significativamente ao longo da década. O Canadá tornou-se o parceiro dominante nas importações, crescendo de €145 milhões para €305 milhões (+110,1%), consolidando a sua posição como primeiro fornecedor de leguminosas secas à UE. Os Estados Unidos mantiveram-se como segundo parceiro (de €135 milhões para €181 milhões, +33,8%), enquanto a Turquia emergiu como fornecedor crescente (de €35 milhões para €75 milhões, +112,5%).
A concentração das importações, medida pelo Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI), manteve-se relativamente estável, passando de 1 324 para 1 349 em valor (+1,9%), o que indica um mercado moderadamente diversificado sem alterações estruturais significativas na concentração global. Contudo, a concentração por volume aumentou (+12,8%), sugerindo que os fluxos físicos se tornaram ligeiramente mais concentrados em poucos fornecedores.
Principais parceiros de importação (2025)
| Parceiro | Valor 2015 (€) | Valor 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Canadá | 145 426 938 | 305 472 253 | +110,1% |
| Estados Unidos | 135 207 795 | 180 946 588 | +33,8% |
| Argentina | 90 989 410 | 130 006 252 | +42,9% |
| Turquia | 35 227 034 | 74 841 040 | +112,5% |
| Reino Unido | 18 286 713 | 21 444 827 | +17,3% |
| Ucrânia | 3 144 301 | 30 291 738 | +863,4% |
| Rússia | 9 529 557 | 5 976 451 | -37,3% |
Os segmentos de produto revelam dinâmicas distintas
A análise por subposição aduaneira revela que não existe um único motor de crescimento, mas sim dinâmicas diferenciadas por tipo de leguminosa:
Importações por segmento (2025, em volume e valor):
| Código | Produto | Volume (t) | Valor (€) | Preço (€/t) |
|---|---|---|---|---|
| 071333 | Feijão comum | 384 461 | 494 175 377 | 1 285 |
| 071340 | Lentilhas | 276 969 | 281 415 409 | 1 016 |
| 071320 | Grão-de-bico | 185 679 | 181 840 473 | 979 |
| 071310 | Ervilhas | 114 891 | 54 842 270 | 477 |
| 071350 | Favas | 51 171 | 25 468 869 | 498 |
O feijão comum (071333) é o segmento dominante tanto em volume como em valor, representando a maior quota das importações com um crescimento estável (de 338 397 t para 384 461 t). As lentilhas (071340) registaram um crescimento notável em volume (+58,4%, de 174 870 t para 276 969 t), reflectindo o aumento da procura europeia por este produto. O grão-de-bico (071320) cresceu de forma consistente (+84,0% em volume), impulsionado pela popularização das dietas mediterrânicas e da proteína vegetal.
As ervilhas (071310) apresentam uma dinâmica particularmente volátil, com volumes de importação a oscilar entre 81 789 t (2015) e 1 005 831 t (2023), antes de recuarem para 114 891 t em 2025. Esta volatilidade extrema está provavelmente associada à utilização de ervilhas como matéria-prima para rações animais e para a indústria de proteínas vegetais, cuja procura varia significativamente de acordo com os ciclos de produção agroindustrial.
A especialização dos Estados-Membros revela desigualdades internas
Os indicadores de vantagem comparativa revelada (RCA) mostram uma forte heterogeneidade na especialização intra-UE. Os Estados Bálticos — Lituânia (RSCA 0,80, RCA 8,77), Estónia (RSCA 0,66, RCA 4,93) e Letónia (RSCA 0,64, RCA 4,58) — apresentam os mais elevados índices de especialização em leguminosas secas, reflectindo tradições agrícolas e condições edafoclimáticas favoráveis. Portugal (RSCA 0,42, RCA 2,43) também evidencia uma especialização significativa. No extremo oposto, a Irlanda (RSCA -0,99), a Finlândia (RSCA -0,98) e o Chipre (RSCA -0,96) são altamente dependentes de importações para este tipo de produtos.
Comparação por parceiros e segmentos
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por três tendências estruturais no mercado europeu de leguminosas secas: (1) um crescimento acentuado da dependência externa, com o défice comercial a quase duplicar; (2) uma reconfiguração do mapa de fornecedores, com a consolidação da América do Norte e o declínio da Rússia, e (3) a intensificação das pressões de preço, culminando no choque de 2022.
O choque de 2022, desencadeado pela invasão da Ucrânia e agravado por restrições à exportação na Índia, provou que o mercado europeu de leguminosas secas está exposto a riscos geopolíticos significativos. A redução da dependência face a parceiros voláteis — como evidenciado pelo colapso das exportações da UE para a Índia (-99,8%) e a queda das importações da Rússia (-37,3%) — sugere que as cadeias de abastecimento se estão a reconfigurar, mas não necessariamente de forma a reduzir a vulnerabilidade estrutural da UE.
O crescimento consistente de produtos como lentilhas e grão-de-bico, por outro lado, aponta para uma evolução positiva da procura europeia por proteínas vegetais, tendência que deverá continuar a moldar o mercado nos próximos anos. A capacidade da UE em desenvolver uma produção interna mais resiliente — aproveitando as vantagens comparativas dos Estados Bálticos, de Portugal e de outros Estados-Membros especializados — será determinante para mitigar os riscos de abastecimento identificados ao longo desta análise.