Evolução do mercado: Raízes de fécula (CN 0714) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio da União Europeia (UE) relativamente ao código aduaneiro 0714, que abrange raízes de mandioca (cassava), batatas-doces, inhames, taros, mangaritos, arrowroot, salepo, alcachofras-de-Jerusalém e outras raízes e tubérculos com elevado teor de fécula ou inulina — frescos, refrigerados, congelados ou secos — bem como medula de sagueiro (Definições e âmbito do produto).
O período em análise (2015–2025) revelou uma transformação estrutural profunda neste mercado. As importações da UE cresceram de forma exponencial, impulsionadas sobretudo pela ascensão do Egito como fornecedor dominante, enquanto as exportações europeias se diversificaram geograficamente. O défice comercial alargou-se significativamente, refletindo a crescente dependência externa do bloco. A análise incide sobre três dinâmicas principais: o crescimento explosivo das importações e a reconfiguração das cadeias de abastecimento, a estrutura do mercado e a especialização dos Estados-Membros, e os episódios de volatilidade e choques de preços.
1. Crescimento exponencial das importações e reconfiguração das cadeias de abastecimento
O aumento massivo da procura europeia
Entre 2015 e 2025, as importações da UE de raízes de fécula registaram um crescimento extraordinário. Em termos de valor, passaram de €110,7 milhões para €404,5 milhões, um aumento de 265,2%. Em volume, o crescimento foi de 119.593 toneladas para 428.856 toneladas (+258,6%). Curiosamente, o preço médio de importação manteve-se relativamente estável, situando-se em €926/t em 2015 e em €943/t em 2025, uma variação de apenas 1,8%, o que sugere que o crescimento foi essencialmente volumétrico e não inflacionista (Panorama geral do comércio).
A ascensão fulgurante do Egito como principal fornecedor
A dinâmica mais marcante do período foi a transformação do Egito no principal fornecedor da UE. Em 2015, as importações egípcias representavam apenas €3,6 milhões; em 2025, atingiram €188,3 milhões, um crescimento de 5.079,6%. Este aumento catapultou o Egito para a posição de maior fornecedor, ultrapassando os Estados Unidos, que se mantiveram relativamente estáveis (de €42,2 milhões para €51,4 milhões, +21,8%). A Costa Rica também registou um crescimento significativo, de €21,1 milhões para €71,3 milhões (+237,6%), consolidando-se como terceiro fornecedor (Principais parceiros por valor).
| Parceiro | Importações 2015 (€) | Importações 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Egito | 3.634.737 | 188.264.607 | +5.079,6 |
| Costa Rica | 21.124.903 | 71.316.150 | +237,6 |
| Estados Unidos | 42.235.376 | 51.438.081 | +21,8 |
| China | 7.463.734 | 23.576.307 | +215,9 |
| Gana | 5.413.085 | 16.639.978 | +207,4 |
| Reino Unido | 5.996.413 | 2.354.052 | −60,7 |
| Honduras | 5.915.207 | 2.685.422 | −54,6 |
Reversão do comércio com o Reino Unido pós-Brexit
Destaca-se a inversão da posição do Reino Unido. Antes do Brexit, o Reino Unido era um fornecedor relevante para a UE (€6,0 milhões em 2015) e um destino importante das exportações europeias. Com a saída do bloco em 2020, as importações da UE provenientes do Reino Unido caíram para €2,4 milhões (−60,7%), enquanto as exportações da UE para o Reino Unido passaram de €10,7 milhões para €13,9 milhões (+30,1%), evidenciando a reconfiguração das relações comerciais bilaterais.
As batatas-doces como motor do crescimento
A análise por segmento de produto revela que as batatas-doces (CN 071420) dominam absolutamente o mercado, representando a maior quota das importações em volume e valor. As importações deste segmento cresceram de 75.541 toneladas (€69,6 milhões) em 2015 para 339.982 toneladas (€281,2 milhões) em 2025. A mandioca (CN 071410) e os inhames (CN 071430) também cresceram, mas a ritmos muito inferiores. Os taros (CN 071440) registaram um crescimento notável em volume nos últimos anos, passando de 3.638 t para 11.362 t (Segmentação por produto).
| Segmento (CN 6 dígitos) | Importação 2015 (t) | Importação 2025 (t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| 071420 — Batatas-doces | 75.541 | 339.982 | +350,1 |
| 071410 — Mandioca | 21.349 | 44.708 | +109,4 |
| 071430 — Inhames | 11.191 | 20.948 | +87,2 |
| 071490 — Outros (arrowroot, salepo, etc.) | 7.620 | 10.543 | +38,4 |
| 071440 — Taros | 3.638 | 11.362 | +212,3 |
| 071450 — Mangaritos | 253 | 1.312 | +418,6 |
2. Estrutura do mercado e a crescente concentração das importações
Os Países Baixos como hub europeu de redistribuição
Os Países Baixos dominam tanto as importações como as exportações da UE. Em 2025, as importações holandesas atingiram €245,6 milhões (+263,8% face a 2015), representando mais de metade do total importado pela UE. Simultaneamente, as exportações dos Países Baixos cresceram de €5,8 milhões para €22,6 milhões (+289,8%), confirmando o seu papel como plataforma logística de redistribuição para o mercado europeu. A França (€66,7 milhões em importações, +334,3%) e Espanha (€36,4 milhões, +268,5%) completam o trio de maiores importadores (Importações por Estado-Membro).
| Estado-Membro | Importações 2015 (€) | Importações 2025 (€) | Exportações 2015 (€) | Exportações 2025 (€) |
|---|---|---|---|---|
| Países Baixos | 67.520.950 | 245.648.931 | 5.792.943 | 22.580.040 |
| França | 15.364.388 | 66.726.025 | 1.831.497 | 5.617.354 |
| Espanha | 9.867.929 | 36.359.753 | 6.255.036 | 8.039.594 |
| Itália | 1.139.947 | 13.452.304 | — | — |
Crescente concentração das importações e diversificação das exportações
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 2.008 para 2.711 (+35,0%), indicando uma concentração crescente das fontes de abastecimento — nomeadamente pelo peso dominante do Egito. Em contraste, o HHI das exportações desceu de 5.143 para 2.002 (−61,1%), evidenciando uma significativa diversificação dos destinos das exportações europeias. Esta assimetria é relevante: enquanto a UE se tornou mais dependente de menos fornecedores, as suas exportações alcançaram mercados mais dispersos (Índices de concentração HHI).
Especialização desigual dos Estados-Membros
A análise da vantagem comparativa revelada simétrica (RSCA) em 2025 mostra uma acentuada heterogeneidade na especialização dos Estados-Membros. Os Países Baixos lideram com um RSCA de 0,6456 (RCA de 4,64), seguidos por Portugal (0,5358) e Espanha (0,2159). No extremo oposto, a Irlanda apresenta um RSCA de −1,0, sem qualquer especialização exportadora neste produto (Especialização dos Estados-Membros).
| Estado-Membro | RSCA (2025) | RCA (2025) | Quota exportação (%) |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 0,6456 | 4,6438 | 67,4 |
| Portugal | 0,5358 | 3,3084 | 4,6 |
| Espanha | 0,2159 | 1,5506 | 9,0 |
| França | −0,0840 | 0,8451 | 6,6 |
| Irlanda | −1,0000 | 0,0000 | 0,0 |
O défice comercial em forte expansão
O défice comercial da UE alargou-se de €95,5 milhões em 2015 para €360,8 milhões em 2025, uma deterioração de 277,8%. Apesar de as exportações europeias terem crescido em valor (+186,2%) e volume (+102,5%), o ritmo foi largamente ultrapassado pelo crescimento das importações. Adicionalmente, as exportações operam a preços médios mais elevados (€1.448/t contra €943/t nas importações em 2025), sugerindo que a UE exporta sobretudo produtos com maior valor acrescentado (processados ou de nicho), enquanto importa grandes volumes de matéria-prima a preços mais baixos (Evolução do comércio).
3. Volatilidade, choques de preços e riscos de abastecimento
Volatilidade heterogénea entre fornecedores
A análise do coeficiente de variação (CV) dos fluxos comerciais revela padrões de volatilidade distintos entre parceiros. Nas importações, o Egito apresenta o maior CV (1,16), refletindo a natureza explosiva e instável do seu crescimento. A Tailândia (CV de 0,99) e o Reino Unido (CV de 0,95) também exibem elevada volatilidade. Por outro lado, os fornecedores tradicionais como os Estados Unidos (CV de 0,26) e a Costa Rica (CV de 0,22) demonstram maior estabilidade. No lado das exportações, a Bósnia e Herzegovina (CV de 0,99), a Sérvia (CV de 0,82) e a Ucrânia (CV de 0,88) registam os maiores índices de volatilidade, enquanto o Reino Unido (CV de 0,25), destino principal, é o parceiro mais previsível (Volatilidade por parceiro).
Principais choques de preços detetados
Três choques significativos foram detetados durante o período analisado. Em 2019, a Suíça registou um choque de preços nas exportações da UE com uma anormalidade de 16,6 e uma variação de +24,5%, representando 26,2% do valor das exportações nesse ano. No mesmo período, a Noruega apresentou um choque semelhante nas exportações (anormalidade de 13,9, variação de +34,4%, quota de 21,5%). Estes dois choques simultâneos em destinos nórdicos europeus sugerem um evento comum — possivelmente relacionado com restrições de oferta ou questões fitossanitárias. Em 2020, o Egito registou um choque de preços nas importações (anormalidade de 6,8, variação de +8,2%), coincidindo com o início da pandemia COVID-19 e as disrupções nas cadeias logísticas globais (Choques de abastecimento detetados).
| Evento | Tipo | Fluxo | Anormalidade | Variação (%) | Ano | Quota valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Suíça | Preço | Exportações | 16,6 | +24,5 | 2019 | 26,2 |
| Noruega | Preço | Exportações | 13,9 | +34,4 | 2019 | 21,5 |
| Egito | Preço | Importações | 6,8 | +8,2 | 2020 | 27,2 |
Riscos estratégicos para a segurança de abastecimento
A combinação de fatores identificados — concentração crescente das importações num número reduzido de fornecedores (HHI em subida), dependência acentuada de um único país (Egito, que passou de 3,3% para 46,5% do valor total importado), elevada volatilidade desse mesmo fornecedor (CV de 1,16), e défice comercial em forte expansão — configura um quadro de vulnerabilidade estratégica. A exposição a riscos de abastecimento, sejam eles climáticos, geopolíticos ou logísticos, é significativamente superior à registada no início do período em análise.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação profunda do mercado europeu de raízes de fécula (CN 0714). As importações da UE mais que triplicaram em valor e volume, impulsionadas sobretudo pelo crescimento exponencial das batatas-doces e pela emergência do Egito como fornecedor dominante. Este último aspeto constitui a dinâmica mais relevante da década: o Egito passou de fornecedor marginal (3,3% das importações em 2015) para dominante (46,5% em 2025), o que, combinado com a elevada volatilidade das suas entregas, representa um risco significativo para a segurança de abastecimento da UE.
Em contraste, as exportações europeias, embora tenham crescido em termos absolutos, tornaram-se mais diversificadas geograficamente, com os Países Baixos a consolidarem o seu papel como hub logístico de redistribuição. O défice comercial, contudo, alargou-se para €360,8 milhões, refletindo uma crescente dependência externa que dificilmente será revertida num futuro próximo, dada a inexistência de produção europeia significativa de raízes tropicais de fécula.
Os decisores políticos europeus deverão monitorizar de perto a evolução desta dependência, nomeadamente no que concerne à diversificação das fontes de importação e à mitigação dos riscos associados à concentração de mercado, particularmente face às incertezas climáticas e geopolíticas que caracterizam o contexto global atual.