Evolução do mercado: Animais vivos (CN 01) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativamente à posição pautal CN 01 — Animais vivos — no período compreendido entre 2015 e 2025. Esta posição engloba subcategorias que vão desde cavalos e asininos (0101), animais bovinos (0102), suínos (0103), ovinos e caprinos (0104), aves domésticas (0105), até outros animais vivos não incluídos nas anteriores (0106). A visão geral do produto permite contextualizar o âmbito da análise.
Ao longo de uma década, o setor registou uma dinâmica marcada por um crescimento sustentado do valor das exportações — impulsionado sobretudo pela subida dos preços —, por uma reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais e por uma estrutura de mercado com elevada concentração nas importações. As três secções seguintes decompõem estas tendências.
1. Crescimento do valor comercial impulsionado pela subida de preços, não pelo volume
1.1. As exportações cresceram em valor mas recuaram em quantidade
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE de animais vivos para países terceiros passou de 2 715,1 milhões EUR para 3 755,2 milhões EUR, uma variação positiva de +38,3%. No entanto, no mesmo período, a quantidade exportada diminuiu de 532 985 t para 460 531 t (−13,6%). Estes dados apontam para um aumento significativo dos preços médios de exportação, que subiram de 5 094 EUR/t para 8 154 EUR/t (+60,1%), atingindo o máximo da série em 2025 (dados de comércio geral).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor (milhões EUR) | 2 715,1 | 3 755,2 | +38,3% |
| Exportações — quantidade (mil t) | 533,0 | 460,5 | −13,6% |
| Exportações — preço médio (EUR/t) | 5 094 | 8 154 | +60,1% |
1.2. O preço médio de exportação reflete mudanças na composição do cabaz
A análise por subcategoria revela que esta dinâmica de preços não é homogénea. Os bovinos (0102), que representam o maior segmento em volume de exportação, viram o seu preço médio subir de 2 946 EUR/t em 2015 para 4 248 EUR/t em 2025. Contudo, a sua quantidade exportada caiu de 344 873 t para 233 821 t, e o valor passou de 1 015,8 milhões EUR para 993,2 milhões EUR — uma descida ligeira de −2,2%. Em contraste, os cavalos e asininos (0101), um segmento de muito menor volume mas de elevado valor unitário, mantiveram-se como o segundo maior contribuinte em valor (1 322,4 milhões EUR em 2025), com preços médios persistentemente elevados (90 667 EUR/t). A análise por segmento de produto permite comparar estes segmentos em detalhe.
| Subcategoria | Valor exportação 2015 (milhões EUR) | Valor exportação 2025 (milhões EUR) | Preço médio 2015 (EUR/t) | Preço médio 2025 (EUR/t) |
|---|---|---|---|---|
| 0102 — Bovinos | 1 015,8 | 993,2 | 2 946 | 4 248 |
| 0101 — Cavalos | 808,0 | 1 322,4 | 78 845 | 90 667 |
| 0105 — Aves domésticas | 339,8 | 469,7 | 18 680 | 37 253 |
| 0104 — Ovinos/caprinos | 219,6 | 495,0 | 2 721 | 4 236 |
| 0106 — Outros animais | 174,8 | 265,2 | 40 755 | 45 456 |
| 0103 — Suínos | 129,7 | 209,4 | 1 749 | 2 724 |
1.3. O saldo comercial manteve-se estruturalmente positivo
A UE registou um excedente comercial persistente ao longo de todo o período. O saldo passou de 2 113,7 milhões EUR em 2015 para 2 905,0 milhões EUR em 2025 (+37,4%), tendo atingido o máximo de 3 282,2 milhões EUR em 2023. As importações cresceram em valor de 601,4 milhões EUR para 850,2 milhões EUR (+41,4%), mas permaneceram muito inferiores às exportações, reflectindo a posição de excedente estrutural da UE neste setor.
2. Reconfiguração geográfica dos parceiros: consolidação com o Reino Unido e instabilidade no Médio Oriente e Norte de África
2.1. O Reino Unido consolidou-se como principal parceiro comercial em ambos os sentidos
O Reino Unido é simultaneamente o maior destino das exportações e a maior origem das importações da UE em animais vivos. Em 2025, as exportações para o Reino Unido atingiram 746,4 milhões EUR (+47,9% face a 2015), enquanto as importações provenientes deste parceiro totalizaram 603,3 milhões EUR (+39,5%). A estabilidade deste relacionamento comercial é evidenciada pelo baixo coeficiente de variação das exportações (CV = 0,093), o mais baixo entre todos os principais parceiros de exportação (volatilidade).
2.2. Os mercados do Médio Oriente e Norte de África apresentaram elevada instabilidade
A análise dos sete principais destinos de exportação revela uma forte concentração em mercados do Médio Oriente e Norte de África (MENA), muitos dos quais apresentam uma volatilidade acentuada:
| Parceiro | Valor 2015 (milhões EUR) | Valor 2025 (milhões EUR) | Variação | CV |
|---|---|---|---|---|
| Turquia | 321,8 | 24,6 | −92,4% | 0,622 |
| Israel | 61,7 | 351,3 | +469,7% | 0,313 |
| Líbia | 224,1 | 49,6 | −77,9% | 0,624 |
| Líbano | 208,6 | 92,2 | −55,8% | 0,423 |
| Jordânia | 77,9 | 126,3 | +62,2% | 0,361 |
| Argélia | 71,7 | 173,0 | +141,2% | 0,535 |
A Turquia, que em 2015 era o segundo maior destino das exportações da UE (321,8 milhões EUR), viu este valor descer para apenas 24,6 milhões EUR em 2025, uma queda de −92,4%. Em sentido inverso, Israel passou de 61,7 milhões EUR para 351,3 milhões EUR (+469,7%), tornando-se o terceiro maior destino. Estas flutuações reflectem a sensibilidade do comércio de animais vivos a fatores geopolíticos, sanitários e regulamentares nestes mercados (parceiros de exportação).
2.3. As importações concentram-se no Reino Unido, seguido de parceiros atlânticos
Do lado das importações, a concentração é ainda mais evidente. O Reino Unido representou 603,3 milhões EUR em 2025, equivalendo a cerca de 71% do total das importações da UE. Os restantes principais fornecedores incluem os Estados Unidos (102,5 milhões EUR, +19,2%), a Suíça (17,6 milhões EUR, +23,5%) e a Noruega (7,3 milhões EUR, +69,1%). A Islândia apresentou o maior coeficiente de variação entre os principais fornecedores (CV = 0,401), o que sugere flutuações significativas nas importações deste parceiro ao longo do período (parceiros de importação).
3. Estrutura de mercado concentrada nas importações e especialização heterogénea entre Estados-Membros
3.1. As importações são significativamente mais concentradas que as exportações
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações da UE em valor situou-se em 5 214 em 2025, reflectindo uma concentração moderada-alta, dominada pelo peso do Reino Unido. Em contraste, o HHI das exportações foi de apenas 840, indicando uma base de destinos muito mais diversificada. A concentração das importações por volume (HHI = 4 488) confirma esta assimetria estrutural (concentração HHI).
| Indicador HHI | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 5 462 | 5 214 | −4,5% |
| Importações (volume) | 4 296 | 4 488 | +4,5% |
| Exportações (valor) | 854 | 840 | −1,6% |
| Exportações (volume) | 1 102 | 899 | −18,4% |
3.2. Os Estados-Membros apresentam níveis de especialização muito distintos
A análise da vantagem comparativa revelada normalizada (RSCA) para 2025 mostra que a Dinamarca (RSCA = 0,782, RCA = 8,16) é o Estado-Membro mais especializado em animais vivos, seguida da Croácia (RSCA = 0,541) e França (RSCA = 0,522). França, apesar de um RSCA intermédio, é o maior exportador em termos de quota de produção (24,9%). No extremo oposto, Malta (RSCA = −0,993), Finlândia (RSCA = −0,878) e Grécia (RSCA = −0,877) apresentam a menor especialização, o que sugere que o seu comércio externo neste setor é residual face ao seu perfil comercial global (especialização por Estado-Membro).
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota produto | Quota total |
|---|---|---|---|---|
| Dinamarca | 0,782 | 8,163 | 14,1% | 1,7% |
| Croácia | 0,541 | 3,361 | 1,4% | 0,4% |
| França | 0,522 | 3,180 | 24,9% | 7,8% |
| Letónia | 0,474 | 2,799 | 0,9% | 0,3% |
| Lituânia | 0,362 | 2,133 | 1,3% | 0,6% |
| Malta | −0,993 | 0,003 | 0,0% | 0,0% |
| Finlândia | −0,878 | 0,065 | 0,1% | 1,0% |
| Grécia | −0,877 | 0,066 | 0,0% | 0,7% |
3.3. A Irlanda e a Roménia emergem como motores de crescimento no lado da oferta europeia
Entre os Estados-Membros, dois casos de crescimento expressivo merecem destaque. A Irlanda aumentou as suas exportações de 372,1 milhões EUR para 598,4 milhões EUR (+60,8%), consolidando-se como o segundo maior exportador intra-UE em 2025. Mais notoriamente, a Roménia passou de 163,2 milhões EUR para 435,8 milhões EUR (+167,0%), um crescimento que a coloca como o sexto maior exportador. Por seu lado, os Países Baixos mantiveram a liderança, com 488,7 milhões EUR em 2025 (+17,8% vs. 2015). Do lado das importações, a França (+125,7%) e os Países Baixos (+134,9%) registaram os maiores aumentos proporcionais, sugerindo uma crescente procura interna (exportadores e importadores por Estado-Membro).
Conclusão
O comércio externo da UE em animais vivos (CN 01) entre 2015 e 2025 caracterizou-se por três dinâmicas principais:
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Valorização estrutural dos preços: apesar de uma ligeira redução do volume exportado, o valor total das exportações cresceu 38,3%, impulsionado sobretudo por aumentos de preço em praticamente todos os subsegmentos — de cavalos a aves domésticas, passando por bovinos e ovinos.
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Reconfiguração geográfica dos destinos de exportação: a perda de quota da Turquia e de países do Norte de África (Líbia, Líbano) foi compensada por ganhos expressivos em Israel, Jordânia e Argélia. O Reino Unido manteve-se como parceiro dominante e estável em ambos os sentidos do comércio.
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Concentração e assimetrias intra-UE: as importações permanecem fortemente concentradas no Reino Unido, enquanto as exportações se distribuem por uma base mais ampla de destinos. A especialização dos Estados-Membros é muito heterogénea, com a Dinamarca, a França e a Irlanda a destacarem-se do lado da oferta e com a Roménia a registar o crescimento mais dinâmico na última década.
Em síntese, o setor demonstrou resiliência — o saldo comercial manteve-se estruturalmente positivo e em crescimento — mas a sua dependência de mercados geopoliticamente sensíveis e a concentração das importações em torno do Reino Unido constituem riscos que justificam uma monitorização contínua.