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Evolução do mercado: Carnes e miudezas (CN 02) — 2015–2025

Introdução

O setor de carnes e miudezas comestíveis (posição aduaneira CN 02) é um dos mais relevantes no comércio agroalimentar da União Europeia. Esta posição engloba uma vasta gama de produtos — desde carnes de bovino, suíno, ovino e aves até miudezas e produtos transformados (salgados, fumados) —, abrangendo 10 subcapítulos principais. O período 2015–2025 foi marcado por transformações estruturais profundas: a pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia, a subida generalizada dos custos de produção e as alterações nos padrões de consumo. O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da UE neste setor, com base em dados anuais que excluem períodos incompletos, identificando as principais dinâmicas de valor, volume, parceiros e estrutura de mercado.


1. Crescimento sustentado pelo preço: volumes estáveis, valores em forte expansão

A evolução macro do comércio revela uma clara dissociação entre valor e volume

Ao longo da década analisada, o comércio externo da UE em carnes e miudezas apresentou uma trajetória paradoxal: os valores cresceram fortemente enquanto os volumes se mantiveram estáveis ou ligeiramente em baixa. Esta dinâmica traduz a influência decisiva da inflação nos custos de produção, energia e matérias-primas, particularmente acentuada entre 2021 e 2023.

Indicador 2015 2025 Variação
Exportações — valor (mil M€) 13,0 17,3 +32,8%
Exportações — volume (mil t) 6 267 6 017 −4,0%
Exportações — preço médio (€/t) 2 074 2 868 +38,3%
Importações — valor (mil M€) 4,8 6,6 +38,2%
Importações — volume (mil t) 1 243 1 190 −4,3%
Importações — preço médio (€/t) 3 851 5 560 +44,4%

Fonte: Visão geral do comércio

Os picos de 2020–2022 refletem simultaneamente choques de procura e de custos

O valor das exportações atingiu o máximo histórico em 2022, com 18 877 milhões de euros, impulsionado por uma combinação de procura asiática robusta (China, Filipinas) e pela escalada de preços associada à guerra na Ucrânia. No mesmo ano, as importações atingiram também valores elevados, refletindo os choques nos preços das matérias-primas importadas. O saldo comercial permaneceu estruturalmente positivo ao longo de todo o período, passando de 8 208 milhões de euros em 2015 para 10 640 milhões em 2025 (+29,6%), com um pico de 14 871 milhões em 2020, quando as exportações dispararam — nomeadamente de carne suína para a China — enquanto as importações recuaram com a crise pandémica.

A carne suína é o motor das exportações, mas a bovina fresca lidera nas importações

A decomposição por segmento de produto revela assimetrias importantes entre exportações e importações. Do lado das exportações, a carne suína (CN 0203) é de longe o segmento dominante, representando 6 041 milhões de euros em 2025 (35% do total), embora tenha registado uma quebra significativa face ao pico de 10 074 milhões em 2020. Do lado das importações, a carne bovina fresca ou refrigerada (CN 0201) é o maior segmento, com 2 252 milhões de euros em 2025, seguida pelas carnes de ovino/caprino (CN 0204) com 1 497 milhões.

Segmento (exportações) Valor 2015 (M€) Valor 2025 (M€) Variação
0203 — Suína 4 967 6 041 +21,6%
0207 — Aves 2 871 3 636 +26,6%
0206 — Miudezas 1 653 2 089 +26,4%
0201 — Bovina fresca 1 436 2 578 +79,5%
0210 — Salgada/fumada 1 199 1 471 +22,7%
0209 — Toucinho/gorduras 131 231 +76,3%
0202 — Bovina congelada 382 812 +112,5%

Fonte: Comparação por segmento

Destaca-se o crescimento excecional da carne bovina congelada nas exportações (+112,5%), que mais do que duplicou o seu valor, impulsionada por preços que passaram de 3 208 €/t para 6 806 €/t.


2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros, menor concentração

O Reino Unido permanece como parceiro estratégico em ambos os sentidos, mas novos atores ganham relevância

O Reino Unido é simultaneamente o maior destino das exportações da UE (5 653 M€ em 2025) e a principal origem das importações (1 769 M€), refletindo a proximidade geográfica e as cadeias de abastecimento integradas. Contudo, a evolução dos restantes parceiros revela tendências estruturais significativas:

Parceiro (importações) Valor 2015 (M€) Valor 2025 (M€) Variação
Reino Unido 1 470 1 769 +20,3%
Brasil 953 1 155 +21,2%
Nova Zelândia 673 822 +22,1%
Argentina 422 795 +88,4%
Uruguai 296 485 +64,1%
Ucrânia 65 459 +601,8%
Tailândia 192 279 +45,4%

Fonte: Principais parceiros de importação

O caso mais notável é o da Ucrânia, cujas exportações de carne para a UE cresceram mais de 600% em valor (de 65 para 459 milhões de euros). Este crescimento reflete, em grande medida, a liberalização comercial temporária concedida pela UE após a invasão russa de 2022, que eliminou quotas e direitos aduaneiros para produtos ucranianos. A Argentina (+88,4%) e o Uruguai (+64,1%) consolidaram-se igualmente como fornecedores relevantes de carne bovina de pasto.

As exportações reorientam-se para a Ásia e a África Ocidental

Do lado das exportações, os maiores crescimentos verificaram-se em mercados asiáticos e africanos:

Parceiro (exportações) Valor 2015 (M€) Valor 2025 (M€) Variação
Reino Unido 4 810 5 653 +17,5%
China 1 743 1 991 +14,2%
Filipinas 225 715 +217,4%
Coreia do Sul 550 912 +65,9%
Gana 92 224 +143,8%
Hong Kong 591 200 −66,2%
Japão 1 141 1 093 −4,2%

Fonte: Principais parceiros de exportação

As Filipinas destacam-se com um crescimento de 217,4%, tornando-se o terceiro maior destino das exportações europeias de carne, refletindo a crescente procura de proteína animal no Sudeste Asiático e a capacidade da UE de fornecer carne suína e de aves a preços competitivos. A China, após atingir um pico de 7 407 milhões de euros em 2020 (impulsionado pela febre suína africana que reduziu o rebanho doméstico), recuou significativamente, refletindo a recuperação da produção chinesa e eventuais restrições sanitárias. Hong Kong sofreu uma queda ainda mais acentuada (−66,2%), com elevada volatilidade (CV de 0,63).

A concentração geográfica diminuiu, sinal de maior diversificação de risco

O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) diminuiu tanto nas importações como nas exportações ao longo do período:

Fluxo HHI 2015 HHI 2025 Variação
Importações (valor) 1 716 1 462 −14,8%
Exportações (valor) 1 713 1 380 −19,4%
Importações (volume) 2 701 1 930 −28,6%
Exportações (volume) 1 110 909 −18,1%

Fonte: Concentração HHI

A queda do HHI nas importações por volume (−28,6%) é particularmente significativa e reflete a entrada de novos fornecedores — como a Ucrânia e países sul-americanos — que diluíram a dependência dos parceiros tradicionais. Trata-se de uma evolução favorável em termos de segurança de abastecimento.


3. O paradoxo espanhol e a consolidação da posição exportadora da UE

Espanha e Polónia lideram a expansão exportadora europeia

A análise por Estado-Membro revela uma concentração das exportações em poucos países, com dinamismos muito diferenciados:

Estado-Membro (exportações) Valor 2015 (M€) Valor 2025 (M€) Variação
Espanha 1 481 4 100 +176,9%
Países Baixos 2 361 2 898 +22,7%
Irlanda 1 594 2 330 +46,2%
Polónia 957 2 090 +118,5%
Dinamarca 1 756 1 629 −7,2%
Alemanha 1 821 815 −55,3%
França 1 111 968 −12,9%

Fonte: Principais Estados-Membros exportadores

Espanha emergiu como o principal exportador da UE, com um crescimento excecional de 176,9%, passando de 1 481 milhões para 4 100 milhões de euros. A Espanha é o membro mais especializado em carnes e miudezas (RSCA de 0,39), refletindo a importância estrutural do setor suíno (ibérico e convencional) na sua economia. A Polónia, por sua vez, mais do que duplicou as suas exportações (+118,5%), consolidando-se como o segundo membro mais especializado (RSCA de 0,40), impulsionada pelo crescimento do setor avícola.

Em contraste, a Alemanha registou uma queda de 55,3% nas exportações, passando de 1 821 milhões para 815 milhões de euros, refletindo os impactos da peste suína africana, restrições sanitárias impostas por parceiros asiáticos e a perda de competitividade num contexto de custos energéticos elevados.

A produção europeia cresceu mais em valor do que em volume

Os dados de produção corroboram a narrativa de valorização:

Indicador de produção 2015 2025 Variação
Quantidade (mil milhões kg) 35,5 51,6 +45,3%
Valor (mil M€) 75,4 160,9 +113,4%

Fonte: Volume de produção

O valor da produção mais do que duplicou (+113,4%) enquanto a quantidade cresceu 45,3%, indicando uma valorização média significativa dos produtos. A UE reforçou simultaneamente a sua propensão exportadora, que passou de 7,6% para 10,4%, e a intensidade comercial, de 10,3% para 13,3%, confirmando a crescente orientação externa do setor.

Choques de 2022: preços da Nova Zelândia e do Brasil como sinais de alerta

A análise de volatilidade e choques identifica três eventos de choque de preço nas importações, todos centrados em 2022:

Parceiro Tipo de choque Anomalia Variação Participação no valor
Nova Zelândia Preço 218,3 +31,1% 19,1%
Brasil Preço 75,4 +39,9% 24,5%
Tailândia Preço 9,3 +61,1% 5,2%

Fonte: Eventos de choque na oferta

Estes choques, todos de natureza inflacionária, coincidiram com a escalada dos custos energéticos e dos cereais após o início da guerra na Ucrânia. A Nova Zelândia apresentou o choque mais anómalo (anomalia de 218,3), refletindo a subida acentuada dos preços da carne ovina, um segmento em que a UE é fortemente dependente do exterior.


Conclusão

O setor de carnes e miudezas da UE demonstrou, entre 2015 e 2025, uma notável capacidade de adaptação face a múltiplos choques exógenos. O saldo comercial permaneceu estruturalmente positivo e crescente, a base de parceiros diversificou-se significativamente — reduzindo a concentração medida pelo HHI — e a propensão exportadora reforçou-se.

Todavia, subsistem vulnerabilidades: a dependência de fornecedores terceiros para carne ovina (Nova Zelândia, Austrália), a elevada volatilidade das exportações para mercados asiáticos (China, Hong Kong) e a concentração geográfica das exportações em poucos Estados-Membros (Espanha, Países Baixos, Irlanda). O crescimento verificado foi sobretudo um fenómeno de preços — os volumes de comércio pouco se alteraram —, o que levanta questões sobre a sustentabilidade do crescimento num cenário de normalização dos custos de energia e matérias-primas. A diversificação de fornecedores e a reconfiguração das cadeias de valor, particularmente no contexto pós-Brexit e pós-pandemia, serão determinantes para a resilência do setor nos próximos anos.

Gerado em 2026-08-07. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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