Evolução do mercado: Carnes de equídeos (CN 0205) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no segmento de carnes de animais das espécies cavalar, asinina e muar, frescas, refrigeradas ou congeladas (CN 0205) ao longo do período 2015–2025. Trata-se de um mercado em profunda transformação: tanto as importações como as exportações da UE registram quedas significativas em volume, ao mesmo tempo que os preços unitários sobem acentuadamente. A análise incide sobre as três dinâmicas estruturais mais relevantes observadas nos dados — a consolidação da origem das importações na América do Sul, o colapso da produção interna europeia e a transição para uma posição exportadora de nicho — e procura contextualizar as suas causas e implicações.
1. Consolidação das importações na América do Sul e concentração crescente do fornecimento
A primeira dinâmica estrutural observada ao longo da década é a concentração progressiva das importações europeias em dois fornecedores sul-americanos — a Argentina e o Uruguai — em paralelo com a saída quase total de fornecedores outrora significativos como o Canadá, o Brasil e a Austrália.
1.1. Argentina e Uruguai reforçam a sua dominância
Os dados revelam que a Argentina e o Uruguai não só mantiveram como ampliaram a sua posição como principais fornecedores de carne equina à UE. A Argentina passou de 32,3 M EUR em 2015 para 39,3 M EUR em 2025 (+21,7%), enquanto o Uruguai cresceu de 13,1 M EUR para 15,5 M EUR (+17,9%). Em conjunto, estes dois países representam atualmente a esmagadora maioria do valor das importações da UE neste produto.
| Fornecedor | Valor 2015 (EUR) | Valor 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Argentina | 32 276 123 | 39 277 833 | +21,7% |
| Uruguai | 13 116 232 | 15 467 317 | +17,9% |
| Canadá | 18 871 681 | 19 809 | −99,9% |
| Brasil | 5 498 519 | 166 043 | −97,0% |
| Austrália | 2 417 586 | 163 972 | −93,2% |
| Reino Unido | 3 387 041 | 1 491 739 | −56,0% |
| Islândia | 71 | 880 490 | +1 235 104% |
Fonte: Principais parceiros por valor — importações
1.2. Colapso das importações do Canadá, Brasil e Austrália
A contrapartida desta consolidação é a quase eliminação de fornecedores que, em 2015, representavam fluxos substanciais. O Canadá, com quase 19 M EUR em 2015, desceu para menos de 20 mil EUR em 2025 (−99,9%). O Brasil passou de 5,5 M EUR para 166 mil EUR (−97,0%) e a Austrália de 2,4 M EUR para 164 mil EUR (−93,2%). Estas quebras abruptas sugerem alterações regulatórias, sanitárias ou comerciais que terão efetivamente encerrado ou restringido o acesso destes países ao mercado europeu para este código pautal.
1.3. Aumento da concentração do mercado importador
A concentração do mercado importador, medida pelo índice HHI, duplicou ao longo do período: de 2 371 em 2015 para 5 403 em 2025 (+127,8%). Este aumento substancial reflete diretamente a concentração das compras em poucos fornecedores sul-americanos. Em termos de volume, a subida do HHI é ainda mais pronunciada (+171,3%). Do ponto de vista da segurança de abastecimento, este cenário de elevada concentração representa um risco acrescida, uma vez que a UE ficou significativamente mais dependente de um reduzido número de países exportadores.
| Indicador HHI | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 2 371 | 5 403 | +127,8% |
| Importações (volume) | 2 011 | 5 457 | +171,3% |
| Exportações (valor) | 4 861 | 7 107 | +46,2% |
| Exportações (volume) | 2 286 | 6 100 | +166,8% |
2. Colapso da produção europeia e erosão do volume total comercializado
A segunda grande dinâmica do período é a redução drástica da produção europeia de carne equina, que se repercute tanto nas importações como nas exportações, traduzindo-se numa diminuição global do volume de carne de equídeo a circular no mercado da UE.
2.1. Queda acentuada da produção europeia
Os dados de produção da UE para o código CN 0205 revelam uma contração dramática. A quantidade produzida internamente caiu de 51 816 toneladas (2015) para 20 778 toneladas (2025), uma redução de 59,9%. Em termos de valor, a produção desceu de 211,7 M EUR para 123,0 M EUR (−41,9%). Este declínio reflete provavelmente a combinação de fatores como a diminuição do consumo doméstico de carne equina na Europa, a pressão regulatória e sanitária, e a crescente urbanização que afeta a atividade de reprodução de equídeos.
| Indicador de produção | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Quantidade (kg) | 51 816 212 | 20 778 160 | −59,9% |
| Valor (EUR) | 211 687 877 | 122 959 000 | −41,9% |
2.2. Diminuição simultânea do volume importado e exportado
O encolhimento da base produtiva europeia tem correspondência direta na evolução dos fluxos comerciais. As importações caíram de 21 832 toneladas para 11 624 toneladas (−46,8%), enquanto as exportações registaram uma queda ainda mais acentuada, de 3 877 toneladas para 1 188 toneladas (−69,4%). O défice comercial da UE, embora permaneça estrutural, reduziu-se de 64,6 M EUR para 42,7 M EUR (melhoria de 33,8%), em resultado da redução simultânea de ambos os lados da balança.
| Fluxo | Volume 2015 (t) | Volume 2025 (t) | Variação (%) | Valor 2015 (EUR) | Valor 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Importações | 21 832 | 11 624 | −46,8% | 83 573 529 | 57 481 900 | −31,2% |
| Exportações | 3 877 | 1 188 | −69,4% | 18 992 841 | 14 753 810 | −22,3% |
| Saldo | — | — | — | −64 580 688 | −42 728 091 | +33,8% |
2.3. Desigualdade interna: especialização e declínio produtivo
A análise de especialização dos Estados-Membros revela que a produção europeia está concentrada num punhado de países. Em 2025, a Roménia (RSCA de 0,71) e a Polónia (0,54) lideram em termos de vantagem comparativa, seguidas da Bélgica (0,48) e Espanha (0,42). Em contraste, países como a Alemanha (RSCA de −0,99), a Irlanda (−1,997), a República Checa (−0,9995) e Portugal (−0,997) apresentam RSCA extremamente negativos, indicando uma quase inexistência de produção relevante de carne equina. Esta distribuição altamente desigual reflete diferenças culturais profundas no consumo de carne de cavalo na Europa, mas também sugere vulnerabilidades adicionais na cadeia de abastecimento interna.
3. Transição para exportações de nicho: valorização do preço e redução do volume
A terceira dinâmica dominante é a profunda transformação da posição exportadora da UE, que passou de um modelo de volume relativamente amplo para um modelo focado em segmentos de alto valor, nomeadamente a Suíça e o Japão.
3.1. Valorização excecional dos preços de exportação
O preço médio de exportação da UE para este produto mais do que duplicou ao longo da década, passando de 4 899 EUR/tonelada em 2015 para 12 421 EUR/tonelada em 2025 (+153,6%). Este aumento é consistente com uma transição para um modelo de exportação de nicho, em que a UE se concentra em mercados exigentes e dispostos a pagar um prémio elevado por carne equina de qualidade superior. Em contraste, o preço médio de importação subiu de forma mais moderada, de 3 828 EUR/t para 4 945 EUR/t (+29,2%), sugerindo que o abastecimento importado se mantém orientado para segmentos mais acessíveis.
| Indicador de preço | 2015 (EUR/t) | 2025 (EUR/t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Preço médio de exportação | 4 899 | 12 421 | +153,6% |
| Preço médio de importação | 3 828 | 4 945 | +29,2% |
3.2. Mercados de destino das exportações: consolidação na Suíça e no Japão
A análise dos destinos das exportações revela uma concentração crescente em dois mercados principais. A Suíça manteve-se como principal destino, com 12,2 M EUR em 2025 (−4,8% face a 2015), enquanto o Japão manteve um valor estável de 2,6 M EUR (+3,1%). Em contrapartida, os fluxos para o Vietname (−90,6%), o Cazaquistão (−97,5%) e o Reino Unido (−96,3%) colapsaram quase totalmente. Nota-se igualmente o crescimento exponencial das exportações para Hong Kong, que passaram de 2 541 EUR para 178 312 EUR (+6 917%), embora em valores ainda modestos.
| Destino | Valor 2015 (EUR) | Valor 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Suíça | 12 783 236 | 12 169 741 | −4,8% |
| Japão | 2 490 605 | 2 566 753 | +3,1% |
| Vietname | 1 123 963 | 105 870 | −90,6% |
| Cazaquistão | 2 077 477 | 51 400 | −97,5% |
| Reino Unido | 395 951 | 14 509 | −96,3% |
| Hong Kong | 2 541 | 178 312 | +6 917% |
| Austrália | 132 427 | 86 189 | −34,9% |
3.3. Aumento da propensão exportadora da UE
Um dos indicadores mais marcantes do período é a propensão exportadora da UE, que subiu de 0,97% para 13,36% (+1 280,5%). Em paralelo, a intensidade comercial cresceu de forma mais moderada, de 38,6% para 42,0% (+8,9%). O crescimento exponencial da propensão exportadora, apesar da queda nos volumes absolutos, confirma que a UE está a dedicar uma fração crescente da sua produção (remanescente) a mercados externos, em segmentos premium. A dependência líquida de importações diminuiu de 37,6% para 26,5% (−29,5%), refletindo simultaneamente a redução do consumo e o reforço da orientação exportadora.
| Indicador de autonomia | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações | 37,6% | 26,5% | −29,5% |
| Intensidade comercial | 38,6% | 42,0% | +8,9% |
| Propensão exportadora | 0,97% | 13,36% | +1 280,5% |
Conclusão
O mercado europeu de carnes de equídeos (CN 0205) sofreu, entre 2015 e 2025, uma transformação profunda e multidimensional. Três grandes tendências definem este período: (1) a consolidação das importações em dois fornecedores sul-americanos — Argentina e Uruguai — com a consequente duplicação do índice de concentração HHI e o aumento da vulnerabilidade a choques de abastecimento; (2) o colapso da produção europeia, que perdeu quase 60% da sua base em volume, refletindo um declínio estrutural do consumo e da atividade produtiva interna; e (3) a transição da UE para uma posição exportadora de nicho, com preços de exportação que mais do que duplicaram, a propensão exportadora a crescer exponencialmente e os fluxos a concentrarem-se em mercados premium como a Suíça e o Japão.
A volatilidade dos fluxos comerciais é elevada, como evidenciado pelos coeficientes de variação dos principais parceiros (volatilidade e choques de abastecimento). O choque de preços mais significativo registado ocorreu em 2022 com a Argentina, com uma anormalidade de 4,8 e uma variação de 17%, refletindo provavelmente o impacto dos choques energéticos e inflacionários desse ano (evento de choque).
Em suma, a UE consolidou-se simultaneamente como um importador mais dependente de menos fornecedores e como um exportador de nicho orientado para o segmento premium, num mercado estruturalmente mais pequeno mas de valor unitário significativamente mais elevado.