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Evolução do mercado: Carnes curadas (CN 0210) — 2015–2025

Introdução

O código NC 0210 abrange carnes e miudezas comestíveis, salgadas ou em salmoura, secas ou fumadas (defumadas), bem como farinhas e pós comestíveis de carnes ou miudezas. Trata-se de uma agregação setorial que inclui múltiplos subprodutos — desde pernas e paletas de suíno (021011) e toucinhos entremeados (021012), até carnes de bovino curadas (021020) e outras preparações cárneas e de miudezas (021099). O período 2015–2025 foi marcado por três dinâmicas simultâneas: uma forte inflação dos preços unitários, uma reconfiguração geográfica dos parceiros comerciais e uma consolidação estrutural em torno da carne suína processada. A UE permaneceu ao longo de todo o período como exportador líquido — com um superávit que cresceu de 573,5 milhões para 857,1 milhões de euros (+49,4%) — mas as causas subjacentes desta evolução são mais complexas do que o número final sugere, uma vez que os volumes transacionados caíram acentuadamente tanto do lado das exportações (–25,9%) como das importações (–32,5%).


1. A revolução dos preços: crescimento nominal puxado pela escalada de preços unitários

1.1 A queda sistemática dos volumes transacionados

O período em análise evidencia uma erosão consistente dos volumes físicos trocados entre a UE e o resto do mundo. Do lado das exportações, o volume caiu de 315 915 toneladas em 2015 para 234 046 toneladas em 2025, uma redução de 25,9%. Do lado das importações, a contração foi ainda mais acentuada: de 240 747 toneladas para 162 545 toneladas (–32,5%).

O declínio não foi linear. As exportações mantiveram-se relativamente estáveis entre 2015 e 2019 (a rondar as 310 000–315 000 t), sofrendo uma queda abrupta em 2020–2021 (para cerca de 254 000 t), antes de uma estabilização em patamares mais baixos. As importações apresentaram um padrão distinto: já tinham registado uma quebra significativa em 2017–2018 (de ~250 000 t para ~165 000–170 000 t), antes de um parcial recuo e uma nova descida até 2025.

Indicador 2015 2019 2022 2025 Variação 2015→2025
Exportações — volume (mil t) 315,9 311,5 260,3 234,0 –25,9%
Importações — volume (mil t) 240,7 188,6 183,1 162,5 –32,5%
Exportações — valor (mil M€) 1 198,5 ~1 201,5 ~1 375,9 1 470,8 +22,7%
Importações — valor (mil M€) 625,0 ~463,4 ~563,6 613,8 –1,8%
Superávit comercial (M€) 573,5 ~738,1 ~812,3 857,1 +49,4%

Fonte: Quadro geral de comércio

1.2 A escalada dos preços unitários como motor do crescimento nominal

A aparente contradição entre volumes decrescentes e valores crescentes explica-se inteiramente pela evolução dos preços unitários. O preço médio de exportação subiu de 3 794 €/t em 2015 para 6 284 €/t em 2025, uma variação de +65,6%. Do lado das importações, a subida foi de 2 596 €/t para 3 776 €/t (+45,4%).

A divergência entre a inflação exportadora e a inflação importadora é particularmente relevante: os preços exportados subiram 20 pontos percentuais mais do que os importados, o que constitui uma melhoria implícita dos termos de troca. Isto sugere que a UE se especializou progressivamente em segmentos de maior valor acrescentado, ou que os seus produtos curados beneficiaram de um diferencial de preço face a concorrentes de países terceiros.

Os segmentos que mais contribuíram para esta escalada de preços incluem:

Segmento de exportação Preço 2015 (€/t) Preço 2022 (€/t) Preço 2025 (€/t) Variação 2015→2025
021019 — Suíno (excl. pernas/barrigas) 3 976 4 905 6 022 +51,5%
021012 — Barrigas entremeadas 3 773 5 640 6 159 +63,2%
021011 — Pernas e paletas com osso 9 173 11 912 14 193 +54,7%
021020 — Bovino curado 3 406 12 396 21 100 +519,4%
021099 — Outras carnes/miudezas curadas 2 254 2 377 4 058 +80,0%

Fonte: Análise por segmento de produto

O caso mais extremo é o da carne bovina curada (021020), cujo preço de exportação se multiplicou por mais de seis (+519%), ao mesmo tempo que o volume desabou de 13 390 t para 1 581 t (–88,2%). Este padrão sugere uma transição para exportações de nicho de altíssimo valor (como a bresaola italiana ou produtos de charcutaria premium), abandonando a exportação de produtos de menor valor unitário.

1.3 A intensificação da intensidade comercial e a ligeira erosão da propensão exportadora

A intensidade comercial (trade intensity) da UE neste setor subiu de 10,4% para 12,1% (+16,8%), indicando que o comércio internacional se tornou mais relevante relativamente à produção total. Em contraste, a propensão exportadora ligeiramente diminuiu de 10,1% para 9,3% (–8,0%). Esta combinação sugere que, embora a UE tenha mantido o seu papel como exportador líquido, a produção doméstica cresceu a um ritmo superior ao das exportações — de facto, a produção da UE cresceu 18,1% em volume e 67,4% em valor entre 2015 e 2025.


2. Do Atlântico Norte ao Pacífico: a reconfiguração geográfica do comércio externo

2.1 A perda de centralidade do Reino Unido nas exportações e a ascensão dos Estados Unidos

O parceiro exportador dominante da UE ao longo de todo o período foi o Reino Unido, mas o seu peso relativo diminuiu de forma marcada. Em 2015, o RU absorvia 814,1 milhões de euros em exportações da UE (67,9% do total). Em 2025, esse valor desceu para 727,9 milhões (49,5% do total), uma redução de 10,6% em valor absoluto. Embora o RU continue longe como principal destino, a sua quota reduziu-se significativamente.

A contrapartida mais visível foi o crescimento exponencial das exportações para os Estados Unidos (+113,8%, de 115,0 para 245,8 milhões de euros), o México (+150,9%, de 16,7 para 42,0 milhões) e o Chile (+126,6%, de 5,9 para 13,4 milhões). A Suíça também cresceu de forma sólida (+49,9%, de 46,4 para 69,6 milhões), enquanto o Japão registou uma ligeira contração (–20,7%).

Principais destinos de exportação (M€) 2015 2025 Variação
Reino Unido 814,1 727,9 –10,6%
Estados Unidos 115,0 245,8 +113,8%
Suíça 46,4 69,6 +49,9%
México 16,7 42,0 +150,9%
Japão 38,6 30,6 –20,7%
Austrália 20,4 26,5 +30,2%
Chile 5,9 13,4 +126,6%

Fonte: Parceiros de exportação

2.2 Importações: o domínio persistente do Brasil e a ascensão da Tailândia

No lado das importações, o Brasil manteve-se ao longo de todo o período como o principal fornecedor extra-UE, embora com uma redução de 17,6% (de 329,2 para 271,4 milhões de euros). A Tailândia tornou-se progressivamente o segundo parceiro mais relevante, com um crescimento de 39,5% (de 181,5 para 253,2 milhões), tendo em 2025 ultrapassado largamente o terceiro classificado.

O caso do Reino Unido como fornecedor é notável: após o Brexit, as suas exportações para a UE caíram 55,6% (de 71,0 para 31,5 milhões), uma redução que reflete provavelmente as novas barreiras alfandegárias e regulatórias. Outros fornecedores registaram flutuações mais extremas: as importações da Noruega caíram 82,7%, as do Chile desapareceram praticamente (–100%), enquanto a Ucrânia mostrou um crescimento muito elevado em percentagem (+158,2%, de 0,7 para 1,9 milhões), ainda que de base muito reduzida.

Principais fornecedores extra-UE (M€) 2015 2025 Variação
Brasil 329,2 271,4 –17,6%
Tailândia 181,5 253,2 +39,5%
Reino Unido 71,0 31,5 –55,6%
Suíça 36,6 50,7 +38,7%
Ucrânia 0,7 1,9 +158,2%
Noruega 4,1 0,7 –82,7%

Fonte: Parceiros de importação

2.3 A diversificação exportadora e a redução da concentração (HHI)

Um dos desenvolvimentos mais estruturalmente significativos do período foi a redução da concentração das exportações, medida pelo índice Herfindahl-Hirschman (HHI). O HHI das exportações em valor caiu de 4 795 para 2 841 (–40,8%), saindo de um nível de elevada concentração para um patamar intermédio. Em volume, a redução foi de 7 050 para 5 489 (–22,1%).

Esta evolução reflecte a deslocação descrita acima: a UE deixou de depender tão fortemente do Reino Unido como destino, redistribuindo as suas exportações por mercados geograficamente mais distantes (EUA, México, Austrália, Chile). Do lado das importações, o HHI manteve-se relativamente estável (~3 782 para 3 760, –0,6%), indicando que a estrutura de fornecimento permaneceu dominada pelos mesmos parceiros-chave (Brasil e Tailândia).

2.4 Volatilidade e choques de preços em 2022

O ano de 2022 foi marcado por dois choques de preços de importação de grande magnitude. As importações provenientes do Brasil sofreram um aumento de preço de +52,6% (anormalidade de 28,5 desvios-padrão), e as da Tailândia de +61,1% (anormalidade de 8,1). Estes choques ocorreram no contexto mais amplo de inflação global, perturbações nas cadeias de abastecimento pós-COVID e do aumento dos custos dos cereais e rações após a invasão da Ucrânia.

A volatilidade das importações, medida pelo coeficiente de variação (CV), é mais elevada nos fornecedores de volume reduzido (Chile: CV 1,30; Ucrânia: CV 1,01), enquanto os dois maiores fornecedores — Brasil (CV 0,24) e Tailândia (CV 0,20) — apresentam flutuações relativamente contidas em termos de valor anual. Do lado das exportações, os mercados mais estáveis são a Suíça (CV 0,07), a Austrália (CV 0,10) e o Reino Unido (CV 0,16), enquanto a Tailândia como destino exportador apresenta elevada volatilidade (CV 1,41).


3. O domínio da carne suína curada e a emergência de novos líderes europeus

3.1 A assimetria estrutural entre as composições de importação e exportação

Uma das características mais marcantes deste setor é a forte assimetria entre a composição dos fluxos de importação e de exportação. Do lado das exportações, o segmento 021019 (carne de suíno curada, excl. pernas, paletas e barrigas — incluindo bacon, lombos, etc.) dominou ao longo de todo o período, representando em 2025 cerca de 81,8% do valor exportado (1 203,3 milhões de euros). Em segundo lugar surge o segmento 021012 (barrigas entremeadas, 7,6%) e 021011 (pernas e paletas com osso, 6,0%).

Do lado das importações, o quadro é completamente distinto: o segmento 021099 (outras carnes e miudezas curadas, excl. suíno e bovino — incluindo aves, caprino, etc.) representou em 2025 86,1% do valor importado (528,3 milhões de euros). Este segmento alimenta-se sobretudo de fornecedores como o Brasil e a Tailândia, grandes exportadores mundiais de carne de aves e miudezas processadas.

Segmento Participação nas exportações (valor, 2025) Participação nas importações (valor, 2025)
021019 — Suíno (excl. pernas/barrigas) 81,8% 3,6%
021099 — Outras carnes/miudezas curadas 2,3% 86,1%
021020 — Bovino curado 2,3% 9,0%
021012 — Barrigas entremeadas 7,6% 0,4%
021011 — Pernas e paletas com osso 6,0% 0,9%

Fonte: Análise por segmento de produto

Esta configuração revela uma especialização clara: a UE importa grandes volumes de proteína curada de baixo custo (sobretudo aves e miudezas) e exporta produtos de suíno curado de valor significativamente superior. O preço médio de exportação do segmento 021019 em 2025 era de 6 022 €/t, enquanto o preço médio de importação do segmento 021099 era de 3 478 €/t — uma diferença de 73% que reflecte o posicionamento da charcutaria europeia no segmento premium.

3.2 A ascensão ibérica e a erosão da presença centro-europeia

A análise por Estado-Membro exportador revela uma redistribuição interna significativa. A Itália consolidou-se como o principal exportador da UE, crescendo 47,6% (de 308,2 para 455,0 milhões de euros), reflectindo a crescente procura internacional por prosciutto, pancetta e outros produtos de charcutaria italiana. A Espanha registou a subida mais espetacular: +160,6% (de 121,6 para 317,0 milhões), impulsionada pela internacionalização do jamón ibérico e de outros produtos suínos curados espanhóis.

Em contraste, a Polónia — que em 2015 exportava 103,8 milhões — caiu para 7,1 milhões em 2025 (–93,1%), e a Alemanha desceu de 114,8 para 30,3 milhões (–73,6%). A Irlanda, por sua vez, apresentou um crescimento excecional de +655,6% (de 6,5 para 49,1 milhões), embora de base muito reduzida.

Principais exportadores da UE (M€) 2015 2025 Variação
Itália 308,2 455,0 +47,6%
Países Baixos 327,8 374,3 +14,2%
Espanha 121,6 317,0 +160,6%
Dinamarca 175,0 158,9 –9,2%
Polónia 103,8 7,1 –93,1%
Alemanha 114,8 30,3 –73,6%
Irlanda 6,5 49,1 +655,6%

Fonte: Exportadores da UE

Do lado das importações, os Países Baixos dominam como porta de entrada (494,3 milhões em 2025, +24,8%), provavelmente em função do papel do porto de Roterdão como principal hub logístico europeu. A Alemanha reduziu drasticamente as suas importações (–81,2%, de 94,8 para 17,8 milhões), e a Itália quase as eliminou (–92,6%).

3.3 Especialização produtiva: o eixo mediterrânico como polo de vantagem comparativa

Os dados de especialização revelam um claro eixo mediterrânico de vantagem comparativa. A Itália (RSCA de 0,56) e a Espanha (RSCA de 0,55) lideram com folga, seguidas pela Croácia (RSCA de 0,29) e pelos Países Baixos (RSCA de 0,27). Em contraste, países como a Bulgária (RSCA de –0,98), a Grécia (–0,97) e a Eslováquia (–0,96) apresentam uma vantagem comparativa revelada fortemente negativa, com uma produção marginal.

Estado-Membro RSCA RCA Quota produtiva
Itália 0,563 3,58 28,6%
Espanha 0,547 3,42 19,8%
Croácia 0,290 1,81 0,7%
Países Baixos 0,269 1,73 25,2%
Áustria –0,039 0,93 3,1%

Fonte: Especialização dos Estados-Membros

Esta distribuição é consistente com as tradições gastronómicas dos países do sul da Europa (presunto, jamón, bresaola) e com a capacidade industrial dos Países Baixos no setor agroalimentar.


Conclusão

O período 2015–2025 transformou profundamente o comércio extra-UE de carnes curadas (CN 0210), embora de forma mais subtis do que os agregados macroscópicos sugerem. A UE consolidou-se como exportador líquido estrutural — com um superávit que atingiu 857,1 milhões de euros em 2025 — mas esta evolução resultou essencialmente de uma explosão dos preços unitários que compensou e ultrapassou uma redução acentuada dos volumes transacionados. A produção europeia cresceu robustamente (+67,4% em valor), mas as exportações perderam fôlego em termos físicos, o que sugere uma crescente absorção doméstica ou uma reorientação para produtos de valor mais elevado.

A reconfiguração geográfica foi simultaneamente uma oportunidade e uma adaptação. A redução do peso do Reino Unido — por via do Brexit e da concorrência — foi compensada pela conquista de mercados transatlânticos, com destaque para os EUA e o México. A concentração exportadora caiu significativamente, conferindo ao setor maior resiliência a choques específicos de parceiros. No entanto, as importações permanecem dominadas por dois fornecedores (Brasil e Tailândia), cujo peso combinado sugere vulnerabilidades residuais que os choques de preços de 2022 tornaram visíveis.

Internamente, o setor é cada vez mais dominado por dois polos ibéricos — a Itália e a Espanha — cujas tradições de charcutaria lhes conferem uma vantagem comparativa crescente. A erosão da presença exportadora da Polónia e da Alemanha, por seu lado, representa um sinal de concentração geográfica interna que merece acompanhamento. Num contexto de preços persistentemente elevados e de volumes estruturalmente em baixa, o desafio futuro para o setor europeu de carnes curadas residirá na manutenção do seu posicionamento premium face a uma procura global que se reequilibra.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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