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Evolução do mercado: Carnes de aves (CN 0207) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor de carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 0105 (CN 0207) no período 2015–2025. Esta posição aduaneira abrange uma vasta gama de produtos avícolas — desde aves inteiras (frescas ou congeladas) até pedaços, miudezas e fígados gordos de galinhas, perus, patos, gansos e pintadas — agregando 19 subposições a seis dígitos.

A UE é estruturalmente um exportador líquido de carne de aves: ao longo de todo o período analisado, a balança comercial permaneceu positiva, variando entre €2 090 M e €2 732 M. Em termos de confiança nas importações líquidas, a ratio situou-se entre -5,7 % e -8,6 %, confirmando esta posição de excedente estrutural. O período em análise é particularmente relevante por abranger a saída do Reino Unido da UE, a pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia e o subsequente choque inflacionário de 2022–2023, todos com impactos mensuráveis nos fluxos comerciais do setor.


1. Transformação dos parceiros comerciais: a ascensão da Ucrânia e o declínio do Reino Unido como fornecedor

1.1. A Ucrânia torna-se o principal fornecedor extra-UE

Uma das dinâmicas mais marcantes do período é a explosão das importações provenientes da Ucrânia: de €65 M em 2015 para €457 M em 2025, um crescimento de 607 %. Esta trajetória reflete a liberalização comercial da UE com a Ucrânia (Acordo de Associação em plena aplicação desde 2017 e suspensão de direitos aduaneiros após 2022) e a capacidade de exportação do setor avícola ucraniano, que se tornou competitivo em segmentos congelados de elevado volume.

Parceiro Importações 2015 (€ M) Importações 2025 (€ M) Variação (%)
Reino Unido 319,2 123,2 -61,4
Ucrânia 64,7 457,4 +606,9
Brasil 169,0 242,3 +43,4
Chile 14,1 7,3 -48,4
Tailândia 10,2 25,5 +150,4
Argentina 4,1 17,5 +321,7
Noruega 4,2 11,0 +162,8

1.2. O Reino Unido perde relevância como fornecedor mas consolida-se como destino

Paradoxalmente, enquanto o Reino Unido deixou de ser o maior fornecedor extra-UE (de €319 M para €123 M, uma queda de 61 %), consolidou-se como destino dominante das exportações da UE: de €1 332 M para €1 982 M (+49 %). O Reino Unido representou, em 2025, 54,5 % do valor total das exportações da UE para países terceiros, uma concentração elevada que pode constituir um factor de vulnerabilidade.

1.3. Redirecionamento das exportações para África Subsariana

À medida que as exportações para destinos tradicionais como a Arábia Saudita (de €231 M para €82 M, -65 %) e a África do Sul (de €185 M para €19 M, -90 %) diminuíram drasticamente, novos mercados africanos ganharam relevância: Gana (+201 %), República Democrática do Congo (+341 %) e Benim (-50 %, mas ainda com €84 M). Este redirecionamento sugere uma adaptação das cadeias de exportação europeias face a perdas de quota em mercados do Médio Oriente e África Austral.


2. A reconfiguração produtiva e exportadora dentro da UE: a ascensão da Polónia

2.1. A Polónia torna-se o principal exportador intra-UE

A dinâmica interna mais relevante é a ascensão da Polónia como principal exportador de carne de aves da UE para países terceiros: de €407 M em 2015 para €1 191 M em 2025 (+193 %). A Polónia ultrapassou os Países Baixos e a França, tornando-se responsável por 32,8 % do valor total das exportações em 2025.

Estado-Membro Exportações 2015 (€ M) Exportações 2025 (€ M) Variação (%)
Países Baixos 906,6 993,3 +9,6
Polónia 407,1 1 191,3 +192,6
França 580,9 262,4 -54,8
Bélgica 219,8 198,9 -9,5
Alemanha 161,5 144,6 -10,5
Hungria 113,7 157,7 +38,7
Espanha 108,9 155,4 +42,7

2.2. A França perde protagonismo exportador

A redução das exportações francesas (-55 %) é particularmente notável. A França, que em 2015 era o segundo maior exportador, desceu para o terceiro lugar, reflectindo possivelmente os desafios estruturais do sector avícola francês (custos de produção mais elevados, doenças aviárias e pressão sobre o foie gras). O índice de especialização (RSCA) confirma que a Polónia (RSCA = 0,67) apresenta a maior vantagem comparativa revelada entre os Estados-Membros, seguida da Letónia (0,34), Bulgária (0,27) e Hungria (0,25).

2.3. Crescimento da produção europeia

A produção europeia de carne de aves cresceu significativamente ao longo do período: em volume, de 8,8 mil milhões de kg para 15,7 mil milhões de kg (+79 %), e em valor, de €16,3 mil milhões para €40,5 mil milhões (+149 %). Este crescimento reflecte a consolidação industrial do sector nos Estados-Membros do Leste e uma procura interna resiliente.

2.4. A concentração das exportações aumenta

O índice de concentração HHI das exportações subiu de 2 376 para 3 284 (+38 %), indicando que os fluxos de exportação se tornaram mais concentrados em poucos parceiros e Estados-Membros. Em contraste, o HHI das importações diminuiu de 3 867 para 3 492 (-10 %), sugerindo uma diversificação das fontes de abastecimento externas — consistente com a ascensão da Ucrânia e a redução da dependência do Reino Unido.


3. Inflação, volatilidade e alterações na composição dos produtos

3.1. Forte aumento dos preços médios de importação e exportação

Uma tendência marcante do período é a escalada dos preços médios. Os preços de exportação subiram de €1 637/t para €2 200/t (+34 %), enquanto os preços de importação subiram de €1 567/t para €2 335/t (+49 %). Esta inflação mais acentuada nas importações do que nas exportações sugere pressão sobre os custos de abastecimento externo, em linha com o choque energético e de matérias-primas de 2022.

3.2. Choques de preço detectados

A análise de volatilidade e choques identificou dois eventos de anomalia significativa:

Evento Tipo Fluxo Anomalia Variação (%) Ano Quota (%)
Brasil Preço Importações 9,9 +60,8 2022 25,9
África do Sul Preço Exportações 4,1 +28,6 2023 3,0

O choque de preço nas importações do Brasil em 2022 é particularmente relevante, dado que o Brasil é o terceiro maior fornecedor extra-UE. O coeficiente de variação dos parceiros com maior volatilidade inclui Moldávia (1,74), África do Sul (1,68) e Israel (1,24) nas importações, e África do Sul (0,93), Hong Kong (0,73) e Filipinas (0,67) nas exportações.

3.3. A composição dos segmentos importados e exportados revela assimetrias

Os dados de segmentação por produto evidenciam padrões distintos entre importações e exportações:

Importações — Top segmentos em 2025 (valor):

CN 6 dígitos Descrição Valor 2025 (€ M) Preço 2025 (€/t)
020714 Pedaços e miudezas, congelados (galinhas) 560,8 3 049
020713 Pedaços e miudezas, frescos ou refrigerados (galinhas) 265,3 1 564
020727 Pedaços e miudezas, congelados (perus) 32,8 4 778
020712 Não cortadas em pedaços, congeladas (galinhas) 35,2 1 850

Exportações — Top segmentos em 2025 (valor):

CN 6 dígitos Descrição Valor 2025 (€ M) Preço 2025 (€/t)
020713 Pedaços e miudezas, frescos ou refrigerados (galinhas) 1 560,9 4 801
020714 Pedaços e miudezas, congelados (galinhas) 985,0 1 110
020712 Não cortadas em pedaços, congeladas (galinhas) 341,9 1 643
020727 Pedaços e miudezas, congelados (perus) 189,7 2 013

Os dados revelam que as exportações da UE estão fortemente orientadas para produtos frescos/refrigerados de alto valor (CN 020713 a €4 801/t), enquanto as importações são dominadas por produtos congelados de menor preço unitário (CN 020714 a €3 049/t). Esta assimetria reflecte a estrutura competitiva do sector: a UE exporta produtos de maior valor acrescentado (frescos, cortados, refrigerados) e importa produtos de elevado volume e menor preço (congelados), sobretudo da Ucrânia e do Brasil.

3.4. Redução da intensidade comercial face ao PIB

Os indicadores de intensidade comercial e de propensão para exportar registaram uma descida ao longo do período: a intensidade comercial desceu de 12,0 % para 9,8 % (-18,5 %) e a propensão para exportar de 9,1 % para 8,1 % (-10,8 %). Estes valores sugerem que, apesar do crescimento nominal das exportações, o sector avícola europeu está progressivamente a reorientar a sua produção para o mercado interno, em parte devido ao crescimento da procura doméstica e em parte à crescente concorrência internacional nos mercados de exportação.


Conclusão

O período 2015–2025 foi marcado por uma profunda reconfiguração do comércio externo da UE em carnes de aves. Em termos de valor total, as exportações cresceram 27 % (de €2 871 M para €3 636 M) e as importações 53 % (de €591 M para €904 M), mantendo-se a UE como exportador líquido com uma balança positiva de €2 732 M em 2025. Contudo, o crescimento mais rápido das importações face às exportações — impulsionado sobretudo pela Ucrânia — merece acompanhamento atento.

As principais conclusões são:

  • A Ucrânia emergiu como o principal fornecedor extra-UE, ultrapassando o Reino Unido e ameaçando a posição do Brasil, com um crescimento de +607 % em valor.
  • A Polónia consolidou-se como o principal exportador europeu (+193 %), ultrapassando a França, que registou um declínio acentuado (-55 %).
  • Os preços aumentaram significativamente em ambos os sentidos, mas mais nas importações (+49 %) do que nas exportações (+34 %).
  • A UE continua a exportar produtos de alto valor (frescos/refrigerados) e a importar produtos congelados de menor preço, reflectindo vantagens competitivas distintas.
  • A concentração das exportações aumentou (HHI +38 %), enquanto a das importações diminuiu (-10 %), sugerindo uma diversificação das fontes mas uma maior dependência dos destinos.

Estes padrões sugerem um sector em transformação, onde a integração com a Ucrânia, a consolidação da produção polaca e a reconfiguração dos destinos africanos estão a redefinir a posição da UE na cadeia de valor global da carne de aves.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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