Evolução do mercado: Toucinho (CN 0209) — 2015–2025
Introdução
O código CN 0209 abrange o toucinho sem partes magras e as gorduras de porco e de aves de capoeira, não fundidas nem extraídas de outro modo, em diversas formas de apresentação (fresco, refrigerado, congelado, salgado, em salmoura, seco ou fumado). Inclui dois segmentos: o toucinho de porco (020910), que representa a esmagadora maioria do comércio, e a gordura de aves (020990), de volume muito inferior.
No período 2015–2025, a UE consolidou-se como exportador líquido de grandes proporções neste produto. As exportações totais para países terceiros cresceram 76,4 % em valor — de 131,2 milhões EUR em 2015 para 231,5 milhões EUR em 2025 —, embora o volume tenha registado uma ligeira queda de 5,0 % (de 222 963 t para 211 888 t). As importações, por seu lado, Colapso: diminuíram 63,3 % em valor e 87,7 % em volume. A balança comercial, já fortemente excedentária em 2015 (127,0 milhões EUR), atingiu 229,9 milhões EUR em 2025, um aumento de 81,1 %.
Três grandes dinâmicas estruturam este período: (1) o choque provocado pela peste suína africana na China em 2018–2019, que provocou um pico exportador sem precedentes, seguido de uma retração e reorientação geográfica; (2) a transformação interna dos fluxos exportadores da UE, com a ascensão de Espanha e o declínio da Alemanha; e (3) o fortalecimento da autonomia produtiva europeia, reflectido na queda das importações e na manutenção de uma produção interna robusta.
1. O choque da peste suína africana e a reconfiguração das rotas asiáticas
A epidemia de peste suína africana (PSA) que atingiu a China a partir de agosto de 2018 constitui o acontecimento mais determinante do período analisado. Com a destruição de milhões de suínos chineses, a procura de gorduras de porco importadas disparou, transformando o mercado global e elevando a UE — o maior produtor de suínos do mundo — a fornecedor principal.
1.1 O pico exportador de 2019–2020 e o choque de preço
O painel de choques de abastecimento identifica um choque de preço de grande magnitude nas exportações para a China centrado em 2019, com uma anormalidade de 18,3, uma variação de 85,4 % no preço e uma quota de 33,9 % no valor total das exportações nesse ano. Um segundo choque, nas exportações para o Vietname (anormalidade 6,0, variação de 60,4 %, quota de 6,5 %), reforça o carácter sistémico deste impulso asiático.
Os dados gerais de comércio ilustram a amplitude do fenómeno. O preço médio de exportação subiu de 623,77 EUR/t em 2018 para 1 068,38 EUR/t em 2019 — um aumento de 71 % num só ano — e continuou a subir até atingir o máximo do período em 1 416,00 EUR/t. O valor total das exportações atingiu o pico de 335,9 milhões EUR (e 296 045 t em volume) em 2020, contra apenas 131,2 milhões EUR em 2015. A China, sozinha, representou uma quota de exportação máxima avaliada em 192,2 milhões EUR.
| Ano (aprox.) | Valor exportações (EUR) | Volume exportações (t) | Preço médio (EUR/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 131 183 412 | 222 963 | 588 |
| 2018 | s/d (mín.) | s/d | ~624 ¹ |
| 2019–2020 | máx. 335 899 680 | máx. 296 045 | ~1 068–1 134 ¹ |
| 2025 | 231 460 408 | 211 888 | 1 092 |
¹ Preços extraídos da decomposição por segmento para o segmento 020910.
1.2 O colapso das exportações para a China e a viragem para o Sudeste Asiático
Após o pico, as exportações da UE para a China sofreram uma queda acentuada: de um máximo de 192,2 milhões EUR para apenas 4,0 milhões EUR em 2025, uma redução de 81,4 %. A variação acumulada negativa reflecte a recuperação do efetivo suíno chinês, os direitos aduaneiros e outros obstáculos comerciais.
| Parceiro (exportações) | Valor 2015 (EUR) | Valor 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 21 591 088 | 4 019 048 | −81,4 % |
| Filipinas | 19 411 920 | 82 014 760 | +322,5 % |
| Vietname | 620 983 | 33 749 722 | +5 334,9 % |
| Ucrânia | 27 310 172 | 18 194 855 | −33,4 % |
| Reino Unido | 6 918 932 | 16 768 482 | +142,4 % |
| Geórgia | 15 509 561 | 4 619 642 | −70,2 % |
| Sérvia | 1 757 481 | 6 547 120 | +272,5 % |
Fonte: Top parceiros por valor.
Destaca-se a ascensão estrondosa das Filipinas, que de parceiro marginal em 2015 (19,4 milhões EUR) passou a principal destino das exportações europeias em 2025 (82,0 milhões EUR, +322,5 %), e do Vietname, cujas compras cresceram de 0,6 milhões EUR para 33,7 milhões EUR (+5 334,9 %). Estes dois mercados parecem ter absorvido parcialmente a quota entretanto perdida pela China, reflectindo tanto a procura endógena do Sudeste Asiático como eventuais reexportações para a China continental.
O Reino Unido, apesar do Brexit, manteve-se como destino estável (16,8 milhões EUR em 2025, +142,4 % versus 2015), enquanto a Geórgia — outrora importante destino — registou uma queda de 70,2 %.
1.3 Volatilidade e instabilidade das relações com parceiros asiáticos
De acordo com o painel de volatilidade, as exportações para a China apresentam o maior coeficiente de variação (CV) entre os principais parceiros: 1,03, indicando uma flutuação extrema que reflecte o ciclo de boom e bust ligado à PSA. As exportações para o Vietname também se revelam altamente voláteis (CV = 0,86), enquanto as Filipinas — já o principal destino — exibem uma volatilidade muito mais baixa (CV = 0,28), sugerindo uma relação comercial mais estruturada e previsível. O Reino Unido apresenta a menor volatilidade entre os grandes parceiros (CV = 0,19), reforçando a sua função de mercado estável.
| Parceiro (exportações) | Coeficiente de variação |
|---|---|
| China | 1,03 |
| Vietname | 0,86 |
| Uzbequistão | 0,80 |
| Bielorrússia | 0,68 |
| Geórgia | 1,00 |
| Sérvia | 0,41 |
| Ucrânia | 0,40 |
| Coreia do Sul | 0,44 |
| Japão | 0,49 |
| Uruguai | 0,21 |
| Filipinas | 0,28 |
| Reino Unido | 0,19 |
2. A transformação do mapa exportador europeu: Espanha ascende, Alemanha recua
O período 2015–2025 não apenas alterou os destinos das exportações da UE, mas transformou profundamente a distribuição intra-europeia das exportações de toucinho. A combinação de fatores como a estrutura produtiva, os custos energéticos e a orientação comercial de cada Estado-Membro resultou num reposicionamento significativo.
2.1 Espanha torna-se o principal exportador da UE
Em 2015, a Espanha exportava 15,8 milhões EUR em toucinho para países terceiros, ocupando uma posição secundária. Em 2025, esse valor atingiu 87,0 milhões EUR, um aumento de 451,0 %, que a converteu, de longe, no principal exportador europeu do produto. A análise de especialização confirma este protagonismo: em 2025, a Espanha apresenta uma vantagem comparativa revelada simétrica (RSCA) de 0,49 e um RCA de 2,95, com uma quota de 17,1 % na produção europeia de 0209.
O crescimento espanhol é simultaneamente um reflexo do boom do setor suíno ibérico e das suas fortes ligações comerciais com o Sudeste Asiático e a América Latina.
2.2 O refluxo da Alemanha e a ascensão dos Países Baixos e da França
A Alemanha, que em 2015 era o maior exportador da UE com 44,7 milhões EUR, registou uma queda acumulada de 72,8 %, atingindo apenas 12,2 milhões EUR em 2025. A Alemanha foi particularmente afetada pelas restrições de exportação impostas por terceiros países em resultado de surtos de PSA no seu próprio território a partir de 2020, que restringiram o acesso a mercados-chave.
| Estado-Membro (exportações) | Valor 2015 (EUR) | Valor 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Espanha | 15 796 657 | 87 037 442 | +451,0 % |
| Países Baixos | 10 432 077 | 33 845 681 | +224,4 % |
| Polónia | 22 483 682 | 30 270 028 | +34,6 % |
| França | 8 435 116 | 18 173 240 | +115,4 % |
| Dinamarca | 11 353 822 | 14 577 973 | +28,4 % |
| Alemanha | 44 693 441 | 12 162 244 | −72,8 % |
| Itália | 3 061 062 | 4 262 411 | +39,2 % |
Fonte: Principais Estados-Membros exportadores.
Os Países Baixos (+224,4 %), a França (+115,4 %) e a Polónia (+34,6 %) reforçaram igualmente as suas posições, contribuindo para uma redistribuição geográfica do poder exportador dentro da UE. A Polónia, com RSCA de 0,22 e RCA de 1,58, mantém uma especialização relevante, embora menos acentuada que a espanhola.
2.3 Concentração crescente das exportações, concentração decrescente das importações
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) para as exportações (por valor) subiu de 1 148 para 1 647 (+43,5 %), sinalizando uma concentração crescente dos destinos — nomeadamente o peso crescente das Filipinas. Apesar desta subida, o nível absoluto permanece moderado, indicando que as exportações europeias continuam relativamente diversificadas.
Quanto às importações, o HHI desceu drasticamente de 8 555 para 2 900 (−61,4 %). Esta queda aparente de concentração resulta, na verdade, do colapso das importações provenientes do Reino Unido (de 6,4 milhões EUR em máximo para 0,7 milhões EUR em 2025, −81,6 %), que era a fonte dominante. Com a redução drástica do volume total, os parceiros residuais — Noruega (0,5 milhões EUR, +34,1 %) e, em menor grau, as Filipinas e a Geórgia — passaram a ter um peso relativo mais distribuído, sem que tal signifique uma verdadeira diversificação das fontes de abastecimento.
3. Uma UE cada vez mais autónoma: produção robusta e importações residuais
A terceira grande dinâmica do período é o fortalecimento da posição estrutural da UE como produtor e exportador líquido de toucinho. A produção interna manteve-se resiliente, as importações encolheram até se tornarem quase residuais, e os indicadores de autonomia comercial consolidaram a trajetória.
3.1 Uma produção europeia em crescimento sustentado
De acordo com os dados de produção PRODCOM, a produção europeia de toucinho e gorduras de porco/aves cresceu de 850 564 t em 2015 para 922 120 t em 2025 (+8,4 % em volume). Mais significativo ainda, o valor da produção subiu de 323,3 milhões EUR para 1 140,0 milhões EUR — um aumento de 252,6 % —, reflectindo tanto a subida dos preços internacionais como a valorização acrescida do produto. Note-se que em 2015 a UE já era um produtor de escala considerável, com um valor de produção mais do triplo do valor exportado, confirmando que o comércio externo é complementar — e não substituto — de um mercado interno de grande dimensão.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Produção (volume, t) | 850 564 | 922 120 | +8,4 % |
| Produção (valor, EUR) | 323 345 663 | 1 140 000 000 | +252,6 % |
3.2 Importações em colapso, com o Reino Unido a perder protagonismo
As importações da UE de toucinho junto de países terceiros passaram de 4,2 milhões EUR (9 577 t) em 2015 para apenas 1,5 milhões EUR (1 174 t) em 2025 — reduções de 63,3 % e 87,7 %, respetivamente. A queda é estrutural e reflecte a suficiência produtiva interna.
O Reino Unido, outrora o principal fornecedor (máximo de 6,4 milhões EUR), caiu para 0,7 milhões EUR em 2025 (−81,6 %). Os restantes fornecedores mantiveram volumes residuais: a Noruega cresceu ligeiramente (de 338 mil para 453 mil EUR), enquanto as importações da Geórgia e das Filipinas (provavelmente reexportações) permaneceram pontuais. As importações da China — que atingiram um máximo de 376 mil EUR em determinado ano — caíram para apenas 2 271 EUR (−94,3 %).
| Parceiro (importações) | Valor 2015 (EUR) | Valor 2025 (EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 3 618 780 | 667 399 | −81,6 % |
| Noruega | 337 721 | 452 833 | +34,1 % |
| Suíça | 172 126 | 79 205 | −54,0 % |
| China | 40 023 | 2 271 | −94,3 % |
| Geórgia | 98 002 | 110 537 | +12,8 % |
| Filipinas | 18 070 | 145 394 | +704,6 % |
3.3 A UE consolidou-se como exportador líquido estrutural
O indicador de dependência líquida nas importações confirma a posição de autossuficiência da UE: os valores negativos ao longo de todo o período indicam que a UE é exportador líquido. O valor passou de −50,4 % em 2015 para −22,8 % em 2025 (uma melhoria de 54,7 %), mas esta aparente convergência com a autossuficiência decorre sobretudo da redução das exportações após o pico da PSA, e não de um crescimento das importações.
A propensão exportadora (exportações como proporção da produção) desceu de 34,0 % para 21,7 % (−36,4 %), atingindo o mínimo em 2025. A intensidade comercial seguiu trajetórias semelhantes, passando de 34,4 % para 24,0 % (−30,2 %). Estes indicadores sugerem que o mercado de toucinho da UE, embora profundamente enraizado no comércio internacional, se orienta crescentemente para o consumo interno — ou, alternativamente, que a base exportadora, embora ainda relevante, perdeu intensidade relativamente a uma produção que continuou a crescer.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida nas importações | −50,4 % | −22,8 % | +54,7 % |
| Intensidade comercial | 34,4 % | 24,0 % | −30,2 % |
| Propensão exportadora | 34,0 % | 21,7 % | −36,4 % |
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma estrutura trifásica no mercado europeu de toucinho (CN 0209). A primeira fase (2015–2018) caracterizou-se por um crescimento moderado e equilibrado. A segunda (2019–2020) foi dominada pelo choque exógeno da peste suína africana na China, que provocou um aumento explosivo dos preços (+71 % num ano) e elevou as exportações para máximos históricos (335,9 milhões EUR). A terceira fase (2021–2025) testemunhou a retração das exportações para a China e a reorientação para mercados do Sudeste Asiático — sobretudo as Filipinas (82,0 milhões EUR) e o Vietname (33,7 milhões EUR) — enquanto o Reino Unido manteve a sua função de mercado estável.
Do lado da estrutura europeia, observou-se uma transformação profunda: Espanha tornou-se o principal exportador da UE (+451 %), ultrapassando largamente a Alemanha (−72,8 %), cuja posição foi afetada por surtos de PSA domésticos e restrições comerciais de terceiros países. A produção europeia cresceu robustamente (8,4 % em volume, 252,6 % em valor), enquanto as importações se reduziram a valores residuais.
No final do período, a UE é um exportador líquido estrutural e consolidado de toucinho, com uma base produtiva sólida e diversificada. Os riscos residuais concentram-se na dependência de um número reduzido de mercados de destino — com as Filipinas a representar uma quota significativa — e na exposição a novos surtos sanitários que possam tanto afetar a procura externa como a capacidade exportadora europeia.