Evolução do mercado: Peixes e mariscos (CN 03) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no setor dos peixes, crustáceos, moluscos e outros invertebrados aquáticos (posição aduaneira CN 03) ao longo do período 2015–2025. Trata-se de um dos setores alimentares mais globalizados e estrategicamente relevantes para o bloco, dada a extensão das suas costas marítimas, a importância das suas frotas pesqueiras e a crescente procura interna por proteína aquática.
O período em análise foi marcado por transformações profundas: a saída do Reino Unido da UE (Brexit), a pandemia de COVID-19, a invasão da Ucrânia e a subsequente crise energética e inflacionista. Estes fatores, conjugados com mudanças estruturais na produção e nos padrões de consumo, moldaram de forma decisiva os fluxos comerciais do setor. O panorama que emerge é o de um mercado que cresceu fortemente em valor nominal, impulsionado sobretudo pela escalada de preços, enquanto os volumes se mantiveram relativamente estáveis. Simultaneamente, registou-se uma reconfiguração significativa das parcerias comerciais e um fortalecimento notável da produção interna europeia.
Para uma visão geral do âmbito e das definições deste produto, consulte a visão geral do painel.
1. Valor em forte expansão: a escalada de preços como motor principal do crescimento comercial
1.1. O valor do comércio externo da UE cresceu muito acima da variação dos volumes físicos
Ao longo da década 2015–2025, o valor total das importações da UE em CN 03 cresceu 47,4%, passando de 17 594 M€ para 25 934 M€, enquanto o volume importado aumentou apenas 8,9% (de 4,26 Mt para 4,64 Mt). Do lado das exportações, observou-se um padrão ainda mais assimétrico: o valor subiu 31,8% (de 4 187 M€ para 5 519 M€), mas o volume desceu 10,6% (de 1,60 Mt para 1,43 Mt).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações — valor | 17 594 M€ | 25 934 M€ | +47,4% |
| Importações — volume | 4 258 kt | 4 636 kt | +8,9% |
| Exportações — valor | 4 187 M€ | 5 519 M€ | +31,8% |
| Exportações — volume | 1 597 kt | 1 428 kt | −10,6% |
| Saldo comercial | −13 407 M€ | −20 415 M€ | −52,3% |
Fonte: dados gerais de comércio
Esta desconexão entre valor e volume revela que o crescimento nominal do comércio foi largamente conduzido por fatores de preço — sejam eles inflacionários, de escassez relativa ou de deslocação para produtos de maior valor acrescentado — e não por um aumento real da quantidade de produto a circular.
1.2. Os preços unitários registaram aumentos generalizados, com destaque para os segmentos secos e salgados e para os moluscos
Os preços médios de importação (EUR/t) subiram em praticamente todos os segmentos ao longo do período, com particular intensidade a partir de 2021–2022, coincidindo com a crise pós-COVID e os efeitos da guerra na Ucrânia.
| Segmento CN | Descrição | Preço 2015 (€/t) | Preço 2025 (€/t) | Variação |
|---|---|---|---|---|
| 0305 | Peixes secos, salgados, fumados | 5 485 | 9 709 | +77,0% |
| 0307 | Moluscos | 3 792 | 6 318 | +66,6% |
| 0303 | Peixes congelados | 2 230 | 3 198 | +43,4% |
| 0304 | Filetes de peixe | 3 866 | 5 317 | +37,5% |
| 0302 | Peixes frescos/refrigerados | 4 364 | 5 825 | +33,5% |
| 0306 | Crustáceos | 7 060 | 6 864 | −2,8% |
Fonte: segmentação por produto — importações
Destaca-se o segmento CN 0305 (peixes secos, salgados e fumados), cujo preço médio de importação quase duplicou (+77,0%), passando de 5 485 €/t para 9 709 €/t. Os moluscos (CN 0307) seguiram de perto, com uma subida de 66,6%. Curiosamente, o segmento dos crustáceos (CN 0306) — que regista os preços absolutos mais elevados (6 864 €/t em 2025) — apresentou uma ligeira descida de 2,8%, sugerindo uma relativa estabilização deste segmento premium. No lado das exportações, os preços subiram de forma ainda mais acentuada nos filetes de peixe (CN 0304), que passaram de 6 617 €/t para 10 853 €/t (+64,0%).
1.3. O défice comercial agravou-se, atingindo mais de 20 mil milhões de euros em 2025
O saldo comercial da UE em CN 03 agravou-se significativamente, passando de −13 407 M€ em 2015 para −20 415 M€ em 2025, uma deterioração de 52,3%. Este défice reflete a posição estrutural da UE como importador líquido de produtos da pesca e aquacultura, agravada pela disparidade entre o ritmo de crescimento das importações (+47,4% em valor) e o das exportações (+31,8%). Com um mínimo histórico de −20 914 M€ registado em 2022 — ano de máximos de preços —, o défice parcialmente recuperou em 2023–2024, mas manteve-se historicamente elevado.
2. Reconfiguração das parcerias comerciais: Brexit, novos polos e crescente diversificação
2.1. A Noruega consolidou-se como o principal fornecedor externo da UE, com crescimento de 53%
A Noruega permaneceu, ao longo de todo o período, como o maior fornecedor extra-UE de produtos CN 03, com importações que cresceram de 5 194 M€ para 7 961 M€ (+53,3%), atingindo um máximo de 8 435 M€ em 2024. Esta posição dominante reflete a importância do salmão norueguês e de outros produtos do Atlântico Norte na dieta europeia.
| Parceiro | Importações 2015 (M€) | Importações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Noruega | 5 194 | 7 961 | +53,3% |
| China | 1 209 | 1 241 | +2,7% |
| Reino Unido | 1 425 | 1 416 | −0,6% |
| EUA | 785 | 895 | +13,9% |
| Islândia | 614 | 1 388 | +125,8% |
| Marrocos | 626 | 1 199 | +91,3% |
| Rússia | 450 | 740 | +64,7% |
Fonte: principais parceiros por valor
Para além da Noruega, destacam-se dois parceiros cujo crescimento foi espetacular: a Islândia (+125,8%) e Marrocos (+91,3%). A Islândia, fornecedor tradicional de peixe congelado e produtos de bacalhau, mais do que duplicou o seu valor exportado para a UE. Marrocos, por sua vez, reforçou a sua posição como fornecedor de conservas e produtos transformados, beneficiando da proximidade geográfica e de acordos comerciais preferenciais.
2.2. O Brexit provocou um colapso histórico das exportações da UE para o Reino Unido, com queda de 70%
A saída do Reino Unido do mercado único europeu teve impactos profundos e assimétricos nos fluxos comerciais de CN 03. As exportações da UE para o Reino Unido desabaram de 1 123 M€ em 2015 para apenas 339 M€ em 2025 (−69,8%), com o mínimo a ser registado em 2022 (299 M€). Este colapso reflete as novas barreiras alfandegárias, os custos de conformidade sanitária e fitossanitária, e a reconfiguração das cadeias de abastecimento pós-Brexit. O Reino Unido, que em 2015 representava o maior destino das exportações da UE em CN 03, caiu para uma posição significativamente menos relevante.
| Parceiro | Exportações 2015 (M€) | Exportações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 1 123 | 339 | −69,8% |
| Nigéria | 233 | 222 | −4,8% |
| China | 288 | 760 | +164,0% |
| Egipto | 139 | 79 | −43,4% |
| Ucrânia | 41 | 137 | +238,2% |
| Marrocos | 140 | 160 | +13,9% |
| Noruega | 89 | 222 | +148,2% |
Fonte: principais parceiros por valor — exportações
Curiosamente, o Reino Unido manteve-se como fornecedor estável para a UE (1 425 M€ → 1 416 M€, −0,6%), o que sugere que a assimetria do impacto se deve à diferença de regimes regulatórios e à dependência do mercado britânico em relação a fornecedores alternativos.
2.3. A China emergiu como destino de exportação crescente, enquanto os fluxos intra-UE reconfiguraram-se
A China tornou-se o segundo maior destino das exportações da UE em CN 03, crescendo de 288 M€ para 760 M€ (+164,0%). Este crescimento reflete a procura chinesa crescente por produtos de valor acrescentado europeus, nomeadamente filetes de peixe e produtos transformados. A Ucrânia (+238,2%) e a Noruega (+148,2%) foram os outros destinos com maior crescimento percentual.
Internamente, os fluxos entre Estados-Membros também sofreram alterações notáveis. A Polónia emergiu como potência exportadora, crescendo 189,9% (de 124 M€ para 359 M€), enquanto a Suécia registou um colapso de 92,3% nas suas exportações (de 360 M€ para 28 M€) — possivelmente refletindo uma reorientação dos seus fluxos para dentro da UE ou mudanças na sua base produtiva. Os Países Baixos (36,9%), a Dinamarca (64,0%) e a Espanha (58,4%) consolidaram as suas posições como principais exportadores intra-UE para terceiros países.
Fonte: principais países-reporter — exportações
Quanto à concentração dos parceiros, o índice HHI das importações por valor manteve-se relativamente estável (1 121 → 1 167, +4,1%), indicando que a estrutura de fornecedores não se alterou significativamente. Já o HHI das exportações desceu 30,1% (de 1 000 para 698), refletindo uma diversificação crescente dos destinos de exportação — um sinal positivo de redução da dependência de mercados individuais.
3. Produção interna em aceleração e redução da vulnerabilidade externa
3.1. A produção europeia de pescado mais do que triplicou em volume e sextuplicou em valor
Um dos desenvolvimentos mais marcantes do período foi o crescimento excecional da produção interna da UE. A produção em volume passou de 680 kt para 2 136 kt (+214,1%), enquanto o valor se elevou de 2 557 M€ para 16 109 M€ (+530,1%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Produção — volume | 680 kt | 2 136 kt | +214,1% |
| Produção — valor | 2 557 M€ | 16 109 M€ | +530,1% |
Este crescimento espetacular reflete, em parte, o dinamismo da aquacultura europeia — nomeadamente de salmão na Noruega (cuja produção é contabilizada no espaço económico europeu) e de espécies como o robalo e a dourada no Mediterrâneo — bem como possíveis efeitos de reclassificação estatística. O crescimento do valor (+530%) muito acima do volume (+214%) sugere que a produção se deslocou para segmentos de maior valor unitário ou que os preços de produção aumentaram significativamente.
3.2. A dependência líquida de importações reduziu-se para metade, sinalizando maior autonomia
Em paralelo com o crescimento da produção, a dependência líquida de importações diminuiu drasticamente, passando de 60,7% em 2015 para 29,7% em 2025 (−51,0%). Este indicador atingiu o seu máximo em 2018 (68,8%), antes de iniciar uma tendência descendente acentuada.
| Indicador de vulnerabilidade | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações | 60,7% | 29,7% | −51,0% |
| Intensidade comercial | 82,9% | 59,9% | −27,8% |
| Propensão para exportar | 48,3% | 30,6% | −36,7% |
Fonte: indicadores de vulnerabilidade
A redução simultânea da intensidade comercial e da propensão para exportar indica que a UE se tornou menos dependente do comércio internacional em relação ao seu mercado interno. Contudo, o défice comercial nominal continua a crescer, o que sugere que, em termos absolutos, a UE continua a importar volumes e valores crescentes — a diferença é que a base de comparação (produção interna + consumo) cresceu ainda mais rapidamente.
3.3. Choques de preço em 2022 expuseram vulnerabilidades pontuais, mas o setor demonstrou resiliência estrutural
O ano de 2022 registou os maiores choques de preço do período, com três eventos particularmente relevantes:
| Parceiro | Tipo de choque | Anomalia | Desvio | Ano | Quota de valor |
|---|---|---|---|---|---|
| China | Preço (importação) | 48,5 | +30,2% | 2022 | 7,5% |
| Índia | Preço (importação) | 19,0 | +31,3% | 2022 | 4,6% |
| Ilhas Feroé | Preço (importação) | 18,8 | +73,4% | 2022 | 2,9% |
Estes choques refletem a confluência de fatores no biênio 2021–2022: a recuperação pós-pandemia, a disrupção das cadeias logísticas, a escalada dos custos energéticos e dos fretes marítimos, e os efeitos indiretos da guerra na Ucrânia. A China, a Índia e as Ilhas Feroé registaram aumentos de preço anormalmente elevados, com desvios de 30–73% face à tendência histórica.
Fonte: volatilidade dos parceiros
Do lado da volatilidade estrutural, os parceiros com maior coeficiente de variação nas importações foram o Equador (CV = 0,36), a Rússia (0,16) e o Vietname (0,18), indicando fluxos mais instáveis e potencialmente vulneráveis a disrupções. Nas exportações, o Reino Unido apresentou a volatilidade mais elevada (CV = 0,62), refletindo a instabilidade do fluxo pós-Brexit.
Conclusão
A análise do comércio externo da UE em CN 03 entre 2015 e 2025 revela um setor em profunda transformação. Três grandes dinâmicas definem este período:
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A inflação do valor comercial: o crescimento nominal de 47,4% nas importações e de 31,8% nas exportações foi largamente conduzido pela escalada de preços (+35% nas importações e +47% nas exportações), e não pelo aumento de volumes. Os segmentos de maior valor acrescentado — moluscos, peixes secos e salgados, e filetes — foram os que registaram as subidas mais acentuadas de preço.
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A reconfiguração geográfica do comércio: o Brexit provocou um colapso das exportações para o Reino Unido (−70%), enquanto novos destinos como a China (+164%) e a Ucrânia (+238%) absorveram parte desse redirecionamento. No lado das importações, a Noruega consolidou a sua liderança, mas a Islândia e Marrocos ganharam relevância significativa. A diversificação das exportações (HHI −30%) é um sinal positivo de resiliência.
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O fortalecimento da base produtiva interna: a produção europeia triplicou em volume e sextuplicou em valor, conduzindo a uma redução da dependência líquida de importações de 60,7% para 29,7%. Este é, sem dúvida, o desenvolvimento estrutural mais relevante do período, sugerindo que a UE está a construir maior autonomia num setor historicamente dependente de fornecedores externos.
Os desafões que se avizinham incluem a necessidade de monitorizar a concentração das importações (com a Noruega a representar uma quota crescente), a volatilidade dos preços em contexto geopolítico instável, e a sustentabilidade ambiental de uma produção em crescimento acelerado. A capacidade da UE para manter esta trajetória de autonomia crescente dependerá, em grande medida, das políticas comuns de pescas e aquacultura, bem como da evolução dos acordos comerciais com terceiros países.