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Evolução do mercado: Peixes congelados (CN 0303) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativamente à posição aduaneira CN 0303 — Peixes congelados, exceto os filetes (filés) de peixes e outra carne de peixes da posição 0304 — no período compreendido entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025. Esta posição abrange uma vasta gama de espécies congeladas, desde bacalhau, atum e arenques até espécies menos conhecidas como verdinhos e carapaus, constituindo um dos segmentos mais relevantes do comércio piscícola da UE (ver âmbito e definições).

A análise baseia-se em dados de comércio extra-UE e centra-se em três dinâmicas fundamentais que marcaram a última década: a escalada dos preços como motor do crescimento do valor comercial, a reconfiguração geográfica das parcerias comerciais e a aceleração da volatilidade associada a choques de oferta ocorridos em 2022.


1. A inflação dos preços como motor do crescimento do valor comercial

Ao longo da década em análise, o valor total das exportações e importações da UE cresceu significativamente, mas esse crescimento foi inteiramente sustentado pela subida dos preços unitários, uma vez que os volumes físicos apresentaram uma trajetória estável ou em ligeiro declínio. Esta desconexão entre valor e volume constitui a tendência estrutural mais marcante do período.

1.1. Importações: crescimento de valor puxado por preços, com volumes em estagnação

O valor das importações de peixes congelados provenientes de países terceiros subiu de 1 747 945 985 € (2015) para 2 410 347 239 € (2025), uma variação positiva de 37,9%. Contudo, o volume importado caiu ligeiramente de 783 741 t para 753 814 t (−3,8%), tendo atingido o mínimo de 731 198 t em 2023 (ver evolução geral). A explicação reside na subida do preço médio de importação, que passou de 2 230 €/t para 3 198 €/t (+43,4%).

Indicador 2015 2025 Variação
Valor (mil milhões €) 1,75 2,41 +37,9%
Volume (mil t) 784 754 −3,8%
Preço médio (€/t) 2 230 3 198 +43,4%

O segmento do bacalhau-do-atlântico (CN 030363) ilustra esta dinâmica de forma particularmente nítida: as importações em volume caíram de 128 328 t para 66 721 t (−48,0%), mas o preço unitário mais do que duplicou, subindo de 2 815 €/t para 5 922 €/t (ver segmentação por produto).

1.2. Exportações: valor crescente apesar da contração dos volumes

Do lado das exportações, o padrão é semelhante. O valor exportado subiu de 1 539 433 266 € para 1 734 471 978 € (+12,7%), mas o volume desceu acentuadamente de 1 123 793 t para 940 692 t (−16,3%). O preço médio de exportação subiu de 1 370 €/t para 1 844 €/t (+34,6%), compensando parcialmente a perda de volume.

1.3. O défice comercial alarga-se significativamente

A UE é estruturalmente importadora líquida de peixes congelados. O saldo comercial deteriorou-se ao longo do período, passando de −208 512 719 € em 2015 para −675 875 261 € em 2025, uma variação de −224,1%. O ponto mais negativo registou-se em 2022, com um saldo de −729 539 659 €, coincidindo com os choques de preços desse ano. A dependência líquida das importações situou-se em 28,6% em 2025, ligeiramente abaixo dos 31,5% de 2015, mas com uma amplitude muito significativa ao longo do período (mínimo de −4,7% e máximo de 40,0%) (ver dependência das importações).


2. Reconfiguração geográfica das parcerias comerciais

A segunda grande dinâmica do período diz respeito à alteração do mapa de fornecedores e destinos da UE, com uma crescente importância de parceiros nórdicos e do Atlântico Norte no lado das importações, e uma viragem para a Ásia e a África Subsariana no lado das exportações.

2.1. Importações: a ascensão da Gronelândia e das Ilhas Feroé, e a instabilidade da Rússia

Os sete principais fornecedores de peixes congelados à UE mantiveram-se relativamente estáveis ao longo do período, mas com ritmos de crescimento muito diferenciados:

Fornecedor Valor 2015 (M€) Valor 2025 (M€) Variação
Noruega 238,4 327,4 +37,4%
Reino Unido 100,0 131,6 +31,6%
Rússia 151,1 189,1 +25,2%
Gronelândia 136,1 333,2 +144,9%
Marrocos 41,4 85,3 +105,9%
Ilhas Feroé 67,8 144,1 +112,6%
Estados Unidos 184,9 203,6 +10,1%

Destaca-se o crescimento excecional da Gronelândia (+144,9%), que passou do quarto ao segundo maior fornecedor em valor, e das Ilhas Feroé (+112,6%), refletindo a crescente procura de bacalhau e outras espécies do Atlântico Norte. A Rússia, apesar de manter uma posição relevante, apresentou uma trajetória muito instável, com o valor a atingir um máximo de 371,6 M€ em 2022 antes de recuar para 189,1 M€ em 2025 — provável reflexo das sanções e perturbações logísticas decorrentes do conflito na Ucrânia (ver parceiros de importação).

2.2. Exportações: a China como destino emergente e a retração em África

O destino das exportações da UE sofreu uma transformação notável. A China tornou-se o segundo maior mercado, com o valor a subir de 191,7 M€ para 451,3 M€ (+135,4%), ultrapassando a Nigéria como principal destino em termos de crescimento. A Ucânia (+196,1%) e o Equador (+123,0%) também registaram aumentos expressivos. Em contrapartida, several destinos africanos tradicionais sofreram contrações acentuadas:

Destino Valor 2015 (M€) Valor 2025 (M€) Variação
Nigéria 232,2 220,3 −5,1%
China 191,7 451,3 +135,4%
Egipto 133,5 78,0 −41,6%
Ucrânia 33,7 99,8 +196,1%
Equador 32,9 73,4 +123,0%
Seicheles 49,4 19,8 −59,9%
Costa do Marfim 63,6 31,2 −50,9%

(ver parceiros de exportação)

2.3. Especialização produtiva dos Estados-Membros

A produção interna de peixes congelados na UE cresceu 24,5% em volume (de 352 155 t para 438 409 t) e 71,6% em valor (de 898 M€ para 1 541 M€) (ver volumes de produção). A especialização produtiva concentra-se fortemente no Norte da Europa e na Península Ibérica:

Estado-Membro RSCA (2025) RCA (2025)
Dinamarca 0,771 7,735
Portugal 0,762 7,405
Espanha 0,529 3,243
Suécia 0,488 2,905
Estónia 0,466 2,746

(ver especialização)

A Dinamarca e Portugal lideram com RSCA (Revealed Symmetric Comparative Advantage) muito superiores a zero, refletindo tradições pesqueiras consolidadas e indústrias de transformação orientadas para a exportação. Os Estados-Membros do Leste da Europa (Hungria, Roménia, Chequia) apresentam RSCA fortemente negativos, indicando uma quase total dependência das importações.


3. Volatilidade, choques de 2022 e riscos de concentração

O período 2015–2025 foi marcado por uma volatilidade crescente nos fluxos comerciais, com o ano de 2022 a registar os choques de preço mais acentuados da série, e uma concentração geográfica das importações que se reforçou ao longo da década.

3.1. Os choques de preço de 2022

O ano de 2022 destacou-se como um ponto de rutura na evolução dos preços. Os eventos de choque mais significativos detetados foram:

Evento Tipo Fluxo Anomalia Variação Quota de valor
Seicheles Preço Importações 33,7 +55,8% 2,4%
Rússia Preço Importações 33,0 +46,5% 14,0%
Seicheles Preço Exportações 18,5 +37,0% 3,6%

(ver choques de oferta)

O choque nas importações da Rússia é particularmente relevante dada a sua quota de 14,0% no valor total das importações. A subida de 46,5% dos preços russos em 2022 reflete tanto as perturbações logísticas e os efeitos das sanções económicas como a pressão global sobre as cadeias de abastecimento de produtos alimentares. O choque nas Seicheles, embora de menor dimensão em termos de quota de mercado, atingiu uma anomalia ainda superior (33,7), sugerindo uma disrupção específica numa cadeia de abastecimento de atum.

3.2. Padrões de volatilidade por parceiro

Os coeficientes de variação (CV) revelam padrões distintos entre importações e exportações. Nas importações, os parceiros mais voláteis são as Ilhas Feroé (CV 0,26), Marrocos (0,21) e os Estados Unidos (0,21), todos a registar flutuações significativas tanto em volume como em preço (ver volatilidade).

Do lado das exportações, a volatilidade é substancialmente mais elevada em destinos africanos e insulares: Reino Unido (CV 0,60), Seicheles (0,47), Costa do Marfim (0,46) e Equador (0,36). A elevada volatilidade do Reino Unido como destino de exportação (CV de 0,60) é notável e pode estar relacionada com as incertezas regulatórias e aduaneiras pós-Brexit.

3.3. Concentração crescente do comércio

O índice de concentração HHI (Herfindahl-Hirschman) confirma uma tendência de concentração progressiva, tanto do lado das importações como das exportações:

HHI (valor) 2015 2025 Variação
Importações 576,8 666,6 +15,6%
Exportações 685,0 996,7 +45,5%

(ver concentração)

O aumento mais pronunciado do HHI nas exportações (+45,5%) reflete a concentração do crescimento em poucos destinos (China, Ucrânia), ao mesmo tempo que vários mercados africanos tradicionais contraíram. Do lado das importações, o aumento mais moderado (+15,6%) mascara uma redistribuição interna: a perda de quota da Rússia compensou-se com a ascensão da Gronelândia e das Ilhas Feroé, mantendo a concentração geográfica global em níveis moderados (inferior a 1 000, limiar habitualmente considerado como mercado não concentrado).

3.4. Dinâmica dos segmentos de produto na importação e exportação

A composição do comércio por sub-produto revela padrões distintos entre importações e exportações. Nas importações, o bacalhau (030363) permaneceu o segmento de maior valor durante a maior parte do período, mas em 2025 foi ultrapassado pelas cavalinhas (030354) e pelos peixes congelados n.e.s. (030389):

Produto importado Valor 2015 (M€) Valor 2025 (M€) Variação
Bacalhau (030363) 361,2 395,1 +9,4%
Cavalinhas (030354) 118,6 305,8 +157,8%
Atum-albacora-laje (030342) 184,5 195,7 +6,1%
Peixes n.e.s. (030389) 217,4 315,1 +44,9%
Arenques (030351) 47,3 52,6 +11,2%
Sardinhas (030353) 27,8 66,8 +140,3%
Pescadas/merluzas (030366) 104,1 126,7 +21,7%

(ver segmentação por produto)

Nas exportações, as cavalinhas (030354) e os arenques (030351) dominam em volume, enquanto os verdinhos (030368) e o bonito-listrado (030343) ganharam relevância em valor. A quota de carapaus (030355) nas exportações sofreu uma queda acentuada, com o volume a descer de 143 167 t para 47 961 t, refletindo provavelmente mudanças na procura dos mercados africanos.


Conclusão

O mercado europeu de peixes congelados (CN 0303) entre 2015 e 2025 foi dominado por três tendências fundamentais: a inflação estrutural dos preços, que sustentou o crescimento do valor comercial apesar da estagnação ou queda dos volumes físicos; a reconfiguração geográfica das parcerias, com a ascensão de fornecedores do Atlântico Norte (Gronelândia, Ilhas Feroé) e a crescente importância da China como destino de exportação; e a intensificação da volatilidade, agravada pelos choques de 2022, que evidenciaram a vulnerabilidade da UE a disrupções em cadeias de abastecimento concentradas.

O alargamento do défice comercial (de −209 M€ para −676 M€) e o aumento da concentração das exportações (HHI +45,5%) sinalizam riscos crescentes de dependência. Em contrapartida, a robustez da produção interna da UE (crescimento de 24,5% em volume e 71,6% em valor) e a manutenção de uma base diversificada de fornecedores oferecem algum colchão contra futuros choques de oferta. Os decisores políticos deverão monitorizar de perto a evolução dos preços — em particular do bacalhau, cujo preço unitário mais do que duplicou — e a crescente concentração das exportações em poucos mercados, que poderia vulnerabilizar as indústrias transformadoras europeias perante eventuais restrições comerciais ou flutuações cambiais.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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