Evolução do mercado: Peixes secos e fumados (CN 0305) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no âmbito do código combinado 0305 — Peixes secos, salgados ou em salmoura; peixes fumados (defumados), mesmo cozidos antes ou durante a defumação, no período compreendido entre 2015 e 2025. Trata-se de uma posição aduaneira abrangente, que inclui desde o bacalhau seco e salgado até salmões fumados, arenques, anchovas em salmoura e filetes de peixe secos, entre outros produtos transformados de forma tradicional.
O período em análise foi marcado por profundas transformações: a escalada de preços internacionais — agravada por choques pandémicos e geopolíticos —, uma reconfiguração significativa das cadeias de abastecimento, e uma notável expansão da capacidade produtiva europeia. Os dados revelam que a UE passou de uma posição de elevada dependência das importações para uma condição de muito maior autonomia, ao mesmo tempo que os seus volumes exportados permaneceram estáveis em tonelagem mas cresceram fortemente em valor. Nas secções que se seguem, decompõem-se e interpretam-se as principais dinâmicas observadas.
1. Inflação dos preços e desacoplamento valor-volume
A primeira e mais marcante dinâmica do período é o acentuado desacoplamento entre a evolução dos valores e dos volumes comercializados. Tanto nas importações como nas exportações, os valores cresceram muito significativamente, enquanto as quantidades se mantiveram estáveis ou até recuaram — um padrão que reflete a forte pressão inflacionária sobre os preços unitários dos produtos da CN 0305.
As importações perderam volume mas ganharam valor
O volume total de importações da UE em peixes secos, salgados e fumados passou de 156 791 toneladas em 2015 para 126 912 toneladas em 2025, uma queda de 19,1%. Contudo, o valor total subiu de 860 milhões de euros para 1 232 milhões de euros, um aumento de 43,3%. O preço médio de importação subiu de 5 485 €/t para 9 709 €/t (+77,0%), atingindo o seu máximo histórico em 2025.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Volume (t) | 156 791 | 126 912 | −19,1% |
| Valor (€) | 860 M | 1 232 M | +43,3% |
| Preço médio (€/t) | 5 485 | 9 709 | +77,0% |
As exportações mantiveram o volume e duplicaram o valor
Do lado das exportações, o panorama é ainda mais expressivo em termos de valorização. O volume exportado manteve-se praticamente estável: de 39 103 toneladas para 39 313 toneladas (+0,5%). Porém, o valor disparou de 339 milhões de euros para 552 milhões de euros (+62,8%), impulsionado por um aumento do preço médio de exportação de 8 665 €/t para 14 033 €/t (+61,9%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Volume (t) | 39 103 | 39 313 | +0,5% |
| Valor (€) | 339 M | 552 M | +62,8% |
| Preço médio (€/t) | 8 665 | 14 033 | +61,9% |
A escalada de preços reflete múltiplos fatores estruturais e conjunturais
O aumento generalizado dos preços unitários — tanto de importação como de exportação — é um fenómeno transversal a praticamente todos os segmentos de produto. Nos segmentos de importação, o bacalhau salgado/seco (CN 030562) passou de 4 870 €/t para 10 322 €/t (+112%), e o bacalhau seco (CN 030551) de 7 377 €/t para 14 965 €/t (+103%). Nos segmentos de exportação, os salmões fumados (CN 030541) passaram de 16 105 €/t para 20 649 €/t, e o bacalhau seco exportado (CN 030551) de 6 727 €/t para 14 282 €/t.
Estes aumentos refletem a confluência de vários fatores: a inflação dos custos de energia e transporte (especialmente acentuada em 2021–2022), a escassez de oferta de determinadas espécies devido a quotas de pesca mais restritivas, e eventuais choques de oferta detectados em 2022 nos principais eventos de choque — incluindo anomalias de preço nas exportações para o Reino Unido (abnormalidade de 138,8, com desvio de +45,8%) e para o Brasil (abnormalidade de 6,5, desvio de +47,1%), ambas centradas em 2022.
2. Transformação da base produtiva europeia e redução drástica da dependência importadora
A segunda grande narrativa do período é a extraordinária expansão da produção europeia de peixes secos, salgados e fumados, que se traduziu numa redução radical da dependência líquida de importações e numa muito maior propensão exportadora da UE.
A produção europeia cresceu de forma exponencial
Os dados de produção europeia revelam um crescimento verdadeiramente extraordinário. A quantidade produzida subiu de 31 milhões de kg em 2015 para 386 milhões de kg em 2025, um aumento de 1 144%. Em valor, a produção passou de 138 milhões de euros para 4 889 milhões de euros (+3 447%), atingindo um máximo de 5 046 milhões de euros. Este crescimento exponencial sugere uma profunda reconfiguração do setor, possivelmente associada à consolidação industrial, à expansão da aquicultura (nomeadamente de salmão e truta), e à valorização de cadeias de transformação dentro da UE.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Produção (kg) | 31 019 036 | 385 789 124 | +1 144% |
| Produção (€) | 138 M | 4 889 M | +3 447% |
A dependência líquida de importações desceu de 47% para 10%
Consequência direta da expansão produtiva, a dependência líquida de importações da UE caiu de forma dramática: de 47,1% em 2015 para apenas 9,9% em 2025 (−79,1%). Este indicador atingiu o seu mínimo em 2024 (9,5%), sinalizando que a UE se aproximou da autossuficiência nesta posição aduaneira — um resultado notável para um setor historicamente dependente de fornecedores terceiros, sobretudo nórdicos.
A intensidade comercial (proporção do comércio extra-UE relativamente ao total de produção + importações) desceu de 49,4% para 28,6% (−42,1%), confirmando que o peso do comércio internacional na composição da oferta disponível diminuiu significativamente.
A propensão exportadora quadruplicou
Em paralelo, a propensão exportadora (exportações como proporção da produção) disparou de 2,9% em 2015 para 12,1% em 2025 (+317%). Este indicador é o que apresenta maior saliência no conjunto de métricas de vulnerabilidade (salience score de 354,9 versus 63,5 para a intensidade comercial), sugerindo que a transformação mais estrutural do período reside na capacidade da UE converter a sua crescente produção em exportações para mercados terceiros.
A especialização setorial concentra-se nos Estados bálticos e nórdicos
Os membros da UE mais especializados na produção e comércio de peixes secos e fumados são, em 2025, a Lituânia (RSCA de 0,81), a Polónia (0,69), a Suécia (0,59), a Letónia (0,59) e a Dinamarca (0,54). A Polónia destaca-se pelo crescimento explosivo das suas exportações: de 21 milhões de euros em 2015 para 142 milhões de euros em 2025 (+574%), tornando-se o quarto maior exportador da UE. Nos países menos especializados, encontram-se a Eslováquia, a Hungria, a Eslovénia e a Itália — países predominantemente consumidores e importadores.
3. Reconfiguração geográfica: parceiros, fluxos e choques de abastecimento
A terceira dinâmica central do período é a reconfiguração geográfica dos fluxos comerciais, tanto no lado das importações como no das exportações, com alterações significativas na composição dos principais parceiros e na concentração do comércio.
Noruega e Islândia consolidam a liderança nas importações; Reino Unido perde peso
Do lado das importações por parceiro, a Noruega manteve-se como o principal fornecedor, passando de 424 milhões de euros para 565 milhões de euros (+33,1%). A Islândia cresceu de 169 milhões para 245 milhões de euros (+44,6%). As Ilhas Faroé registaram o maior crescimento percentual entre os principais fornecedores: +143,6% (de 50 M€ para 121 M€). A Rússia também apresentou um crescimento acentuado (+212,8%, de 13 M€ para 40 M€), embora com elevada volatilidade (CV de 0,60).
A evolução mais notável, porém, é a do Reino Unido: enquanto em 2015 era o quinto maior fornecedor com 65 milhões de euros, em 2025 desceu para 30 milhões de euros (−54,2%). Esta quebra é consistente com as perturbações comerciais pós-Brexit e com a elevada volatilidade registada (CV de 0,55). Em contraste, os fornecedores nórdicos tradicionais (Noruega, Islândia, Ilhas Faroé) apresentaram volatilidade muito mais baixa (CV entre 0,11 e 0,14), confirmando a sua fiabilidade como parceiros de longo prazo.
| Parceiro de importação | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação | CV |
|---|---|---|---|---|
| Noruega | 424 M | 565 M | +33,1% | 0,12 |
| Islândia | 169 M | 245 M | +44,6% | 0,11 |
| Ilhas Faroé | 50 M | 121 M | +143,6% | 0,14 |
| China | 36 M | 52 M | +44,7% | 0,11 |
| Reino Unido | 65 M | 30 M | −54,2% | 0,55 |
| Rússia | 13 M | 40 M | +212,8% | 0,60 |
Os EUA tornam-se o principal destino de exportação
No que respeita às exportações por parceiro, a transformação mais significativa ocorreu no mercado norte-americano: as exportações da UE para os EUA passaram de 70 milhões de euros para 190 milhões de euros (+170,9%), consolidando os EUA como o principal destino extra-UE. A Austrália registou também um crescimento muito significativo (+116%, de 34 M€ para 73 M€). A Suíça, parceiro tradicional, cresceu de forma mais moderada (+42,4%, de 66 M€ para 94 M€).
| Parceiro de exportação | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação | CV |
|---|---|---|---|---|
| EUA | 70 M | 190 M | +170,9% | 0,33 |
| Suíça | 66 M | 94 M | +42,4% | 0,06 |
| Austrália | 34 M | 73 M | +116,0% | 0,18 |
| Reino Unido | 52 M | 39 M | −25,4% | 0,20 |
| Albânia | 17 M | 24 M | +36,5% | 0,17 |
| Brasil | 18 M | 6 M | −67,7% | 0,40 |
A Suíça destaca-se pela sua estabilidade como destino de exportação (CV de apenas 0,06), enquanto o Brasil apresentou a maior contração (−67,7%) e elevada volatilidade (CV de 0,40).
A concentração das importações diminuiu; a das exportações aumentou
O índice de concentração HHI para as importações em valor desceu de 2 954 para 2 649 (−10,3%), indicando uma ligeira diversificação das fontes de abastecimento. Em volume, a redução foi ainda mais acentuada (de 2 805 para 2 183, −22,2%). Em contraste, o HHI das exportações subiu de 1 236 para 1 802 (+45,9%), refletindo uma maior concentração nos principais mercados de destino — sobretudo os EUA, que passaram a representar uma proporção crescente das exportações totais.
A dinâmica interna da UE: Países Baixos como hub logístico, Polónia como campeão de exportação
Os principais importadores intra-UE revelam a centralidade dos Países Baixos, cujas importações de países terceiros passaram de 188 milhões de euros para 466 milhões de euros (+148,1%), e cujas exportações cresceram de 69 M€ para 113 M€ (+64,5%). Esta evolução é consistente com o papel de hub logístico e de transformação dos Países Baixos no setor piscícola. Portugal registou um crescimento acentuado das importações (de 33 M€ para 130 M€, +293,3%), refletindo a forte tradição de consumo de bacalhau no mercado português, mas as suas exportações diminuíram (de 34 M€ para 19 M€, −42,9%).
A Dinamarca apresentou um padrão inverso: as suas importações de países terceiros caíram 48,2%, enquanto as exportações cresceram 63,8%, sugerindo uma reorientação da sua balança comercial. A Polónia, como referido, emergiu como o caso mais notável de crescimento exportador (+574%), acompanhando a expansão da sua base produtiva e a sua crescente especialização setorial.
O salmão fumado domina as exportações; o bacalhau domina as importações
A segmentação por produto confere um retrato claro da estrutura setorial. Do lado das exportações, os salmões fumados (CN 030541) são de longe o segmento dominante, passando de 210 milhões de euros em 2015 para 431 milhões de euros em 2025 — representando cerca de 78% do valor total das exportações. Em volume, as exportações de salmão cresceram de 13 018 t para 20 873 t (+60%), evidenciando um crescimento real e não apenas nominal.
| Segmento exportação | Valor 2015 (€) | Valor 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| 030541 — Salmões fumados | 210 M | 431 M | +106% |
| 030563 — Biqueirões | 30 M | 34 M | +14% |
| 030551 — Bacalhau seco | 35 M | 15 M | −57% |
| 030543 — Trutas fumadas | 13 M | 28 M | +112% |
Do lado das importações, o bacalhau salgado/seco (CN 030562) e o bacalhau seco (CN 030551) dominam, representando em conjunto cerca de 62% do valor total em 2025 (432 M€ e 325 M€, respetivamente). As importações de peixes da família Gadidae (CN 030532) ascenderam a 184 milhões de euros. Os volumes importados de bacalhau seco (CN 030551) diminuíram de 35 562 t para 21 720 t (−38,9%), o que, combinado com a subida de preço, sugere uma pressão tanto do lado da oferta (quotas de pesca) como da procura.
Conclusão
A análise do comércio da UE em peixes secos, salgados e fumados (CN 0305) entre 2015 e 2025 revela um setor em profunda transformação. A conclusão mais relevante é que a UE passou de uma posição de elevada dependência das importações (47% em 2015) para uma posição de quase autossuficiência (10% em 2025), graças a uma expansão produtiva sem precedentes — com a produção europeia a crescer mais de dez vezes em quantidade e mais de 35 vezes em valor ao longo do período.
Simultaneamente, registou-se uma forte inflação dos preços, que fez com que os valores comerciais crescessem muito mais do que os volumes. As importações perderam 19% em tonelagem mas ganharam 43% em valor; as exportações mantiveram o volume mas cresceram 63% em valor. O salmão fumado consolidou-se como o produto-estrela das exportações europeias (78% do valor total), enquanto o bacalhau — seco, salgado e em salmoura — permaneceu como o pilar das importações, embora com volumes em declínio.
No plano geográfico, os fornecedores nórdicos (Noruega, Islândia, Ilhas Faroé) reforçaram a sua fiabilidade, enquanto o Reino Unido perdeu peso significativo tanto nas importações como nas exportações. Os EUA emergiram como o principal destino de exportação, e a Polónia surgiu como a principal história de crescimento exportador intra-UE. Estas dinâmicas sugerem um setor europeu cada vez mais competitivo a nível internacional, mas também crescentemente exposto à concentração de mercados de destino e à volatilidade dos preços internacionais.