Evolução do mercado: Outros produtos de origem animal (CN 05) — 2015–2025
Introdução
O capítulo 05 da Nomenclatura Combinada (CN) abrange um conjunto heterogéneo de produtos de origem animal não especificados noutros capítulos, incluindo tripas e estômagos (CN 0504), ossos e núcleos córneos (CN 0506), penas e penugem (CN 0505), bem como substâncias de origem animal utilizadas em produtos farmacêuticos (CN 0510). Trata-se de um setor com relevância estratégica para a indústria alimentar, têxtil e farmacêutica da União Europeia.
No período compreendido entre 2015 e 2025, as exportações da UE para países terceiros cresceram 19,0 % em valor (de 1 044 M€ para 1 242 M€), enquanto as importações aumentaram 24,3 % (de 1 336 M€ para 1 660 M€). Contudo, os volumes comercializados seguiram trajetórias descendentes em ambos os sentidos, evidenciando uma dinâmica de mercado cada vez mais orientada pela valorização dos preços. Este relatório analisa as principais tendências estruturais, geográficas e de volatilidade que moldaram o comércio externo da UE neste setor ao longo da última década.
1. Crescimento do valor comercial puxado pela subida dos preços, com contração dos volumes
O valor das exportações cresceu 19 % apesar da queda de 3,9 % nos volumes
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de produtos abrangidos pelo capítulo 05 evoluíram de 1 044 M€ para 1 242 M€ (+19,0 %), enquanto as quantidades exportadas diminuíram de 629 850 t para 605 314 t (−3,9 %). O preço médio de exportação subiu de 1 657 €/t para 2 051 €/t (+23,8 %), sinalizando uma progressiva valorização dos produtos exportados.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor exportações (M€) | 1 044 | 1 242 | +19,0 % |
| Volume exportações (t) | 629 850 | 605 314 | −3,9 % |
| Preço médio exportação (€/t) | 1 567 | 2 051 | +23,8 % |
As importações cresceram ainda mais em valor, mas os volumes recuaram quase 10 %
Do lado das importações, o padrão é semelhante mas mais pronunciado: o valor subiu de 1 336 M€ para 1 660 M€ (+24,3 %), ao passo que os volumes desceram de 857 513 t para 773 247 t (−9,8 %). O preço médio de importação registou o maior crescimento, de 1 558 €/t para 2 145 €/t (+37,7 %), indicando uma pressão inflacionária mais intensa nos bens importados do que nos exportados.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor importações (M€) | 1 336 | 1 660 | +24,3 % |
| Volume importações (t) | 857 513 | 773 247 | −9,8 % |
| Preço médio importação (€/t) | 1 558 | 2 145 | +37,7 % |
Os segmentos de tripas (0504) e penas (0505) registaram as maiores valorizações de preço
A decomposição por subproduto revela dinamismos diferenciados:
| Subproduto (importações 2025) | Valor (M€) | Preço 2015 (€/t) | Preço 2025 (€/t) | Δ Preço |
|---|---|---|---|---|
| 0504 — Tripas, bexigas, estômagos | 925 | 7 500 | 8 921 | +19,0 % |
| 0511 — Outros produtos de origem animal | 430 | 478 | 797 | +66,7 % |
| 0505 — Peles e penas de aves | 206 | 2 317 | 6 938 | +199,4 % |
| 0510 — Substâncias para produtos farmacêuticos | 30 | 1 657 | 6 808 | +310,8 % |
| 0508 — Coral, conchas, carapaças | 19 | 1 885 | 1 043 | −44,7 % |
| 0507 — Marfim, chifres, cascos | 13 | 610 | 791 | +29,7 % |
| 0506 — Ossos e núcleos córneos | 6 | 204 | 111 | −45,7 % |
Os preços do segmento 0505 (penas e penugem) triplicaram no período, refletindo a crescente procura global de penugem de qualidade para a indústria têxtil e de vestuário, em particular por parte de mercados asiáticos. O segmento 0510 (substâncias farmacêuticas de origem animal) quadruplicou os seus preços, ainda que em volumes residuais, refletindo a crescente escassez e valorização destes insumos especializados.
2. Reconfiguração geográfica das parcerias comerciais e alteração do padrão de comércio intra-UE
A China consolida-se como parceiro dominante, tanto em importações como em exportações
A estrutura geográfica do comércio da UE com países terceiros apresentou alterações significativas:
| Parceiro | Importações 2015 (M€) | Importações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 551 | 739 | +34,1 % |
| Reino Unido | 123 | 84 | −32,0 % |
| Brasil | 62 | 96 | +54,4 % |
| Noruega | 60 | 49 | −18,2 % |
| Suíça | 24 | 21 | −13,3 % |
| Ilhas Faroé | 5 | 8 | +59,6 % |
| Islândia | 9 | 5 | −42,3 % |
| Parceiro | Exportações 2015 (M€) | Exportações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 238 | 233 | −2,3 % |
| Reino Unido | 120 | 109 | −9,0 % |
| EUA | 60 | 138 | +128,2 % |
| Vietname | 49 | 107 | +118,7 % |
| Hong Kong | 151 | 28 | −81,3 % |
| Noruega | 24 | 73 | +198,4 % |
| Liechtenstein | 10 | 28 | +168,1 % |
A China representa em 2025 cerca de 44,5 % das importações da UE neste capítulo, consolidando a sua posição como fornecedor dominante. Do lado das exportações, os EUA e o Vietname registaram os crescimentos mais expressivos (+128,2 % e +118,7 %, respetivamente), refletindo a reorientação das exportações europeias para mercados com procura crescente. A queda acentuada das exportações para Hong Kong (−81,3 %, de 151 M€ para 28 M€) pode indicar uma reconfiguração das rotas comerciais asiáticas, possivelmente ligada a alterações nos padrós de reexportação e à reclassificação do comércio direto com a China continental.
O Reino Unido perde peso em ambos os lados do comércio após o Brexit
O Reino Unido, que em 2015 era o segundo maior destino das exportações da UE (120 M€) e o segundo maior fornecedor (123 M€), perdeu relevância relativa em ambos os sentidos: as importações caíram 32,0 % e as exportações recuaram 9,0 %. Esta evolução é consistente com as barreiras comerciais introduzidas após a saída do Reino Unido da UE, concluída em 2020.
A concentração das importações aumentou, enquanto a das exportações se diversificou
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 1 933 para 2 205 (+14,0 %), refletindo o aumento do peso da China como fornecedor. Em contrapartida, o HHI das exportações desceu de 1 009 para 758 (−24,9 %), sinalizando uma diversificação dos mercados de destino das exportações europeias.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| HHI importações (valor) | 1 933 | 2 205 | +14,0 % |
| HHI exportações (valor) | 1 009 | 758 | −24,9 % |
Espanha, Polónia e Itália emergem como os Estados-Membros com maior crescimento exportador
No ranking interno da UE, os Estados-Membros com maior crescimento das exportações foram:
| Estado-Membro | Exportações 2015 (M€) | Exportações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Polónia | 58 | 153 | +162,8 % |
| Espanha | 125 | 191 | +53,4 % |
| Itália | 44 | 86 | +96,7 % |
| Dinamarca | 61 | 104 | +70,6 % |
| Alemanha | 244 | 182 | −25,4 % |
| Países Baixos | 226 | 194 | −14,4 % |
A Polónia destacou-se com um crescimento de 162,8 % nas exportações, elevando-se de 58 M€ para 153 M€. A Alemanha, apesar de continuar entre os maiores exportadores, registou uma quebra de 25,4 %, perdendo a sua posição de liderança. Do lado das importações, Espanha (+102,2 %) e Polónia (+48,0 %) registaram os maiores aumentos entre os principais importadores.
3. Fortalecimento da base produtiva europeia e redução da dependência externa
A produção europeia cresceu 60 % em volume e 134 % em valor
A produção da UE de produtos do capítulo 05 registou um crescimento expressivo: a quantidade subiu de 2 697 milhões de kg para 4 313 milhões de kg (+59,9 %), e o valor passou de 691 M€ para 1 615 M€ (+133,6 %). O pico produtivo foi atingido em 2022, com 4 635 milhões de kg e 2 232 M€ em valor.
| Indicador | 2015 | Pico | 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Produção (milhões kg) | 2 697 | 4 635 (2022) | 4 313 | +59,9 % |
| Valor produção (M€) | 691 | 2 232 (2022) | 1 615 | +133,6 % |
A dependência líquida de importações caiu de 42 % para 14 %
Uma das tendências mais marcantes do período é a redução da dependência líquida da UE em relação a importações de países terceiros. Este indicador desceu de 42,1 % em 2015 para 14,0 % em 2025, com um mínimo de 10,4 % registado num ano intermédio. A queda de 66,7 % reflete a combinação do forte crescimento da produção interna com o crescimento moderado das exportações.
| Ano | Dependência líquida (%) |
|---|---|
| 2015 | 42,1 |
| 2020 | ~18 (estimativa com base na trajetória) |
| 2025 | 14,0 |
A propensão exportadora da UE duplicou, sinalizando maior competitividade externa
O índice de propensão exportadora subiu de 36,2 % para 58,2 % (+60,9 %), indicando que uma parte crescente da produção europeia é destinada a mercados externos. A intensidade comercial manteve-se estável em torno dos 76 % (face a 69,5 % em 2015), confirmando que o setor permanece aberto ao comércio internacional.
Dinamarca, Polónia e Espanha lideram a especialização europeia
Segundo o índice de vantagem comparativa revelada (RSCA) para 2025, os Estados-Membros mais especializados na produção/exportação do capítulo 05 são:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota produção |
|---|---|---|---|
| Dinamarca | 0,453 | 2,657 | 4,6 % |
| Chipre | 0,337 | 2,016 | 0,1 % |
| Polónia | 0,248 | 1,659 | 11,0 % |
| Portugal | 0,148 | 1,346 | 1,9 % |
| Espanha | 0,141 | 1,330 | 7,7 % |
A Dinamarca apresenta a maior especialização (RSCA de 0,453), refletindo a sua forte indústria de subprodutos animais, enquanto a Polónia destaca-se pelo seu peso absoluto na produção (11,0 % do total da UE).
Choques de preço pontuais em fornecedores periféricos, mas a volatilidade agregada é moderada
A análise de volatilidade revela que os parceiros com maior variabilidade nos fluxos de importação são as Ilhas Faroé (CV = 0,72) e a Islândia (CV = 0,62), refletindo a natureza sazonal e concentrada destes pequenos fornecedores. Do lado das exportações, a Noruega apresenta o maior coeficiente de variação (0,91), seguida do Equador (0,73) e das Filipinas (0,72).
Os principais choques detetados incluem:
| Evento | Tipo | Ano | Variação | Grau de anormalidade |
|---|---|---|---|---|
| Preço das importações do Brasil | Preço | 2022 | +58,2 % | 32,6 |
| Preço das importações das Ilhas Faroé | Preço | 2023 | +90,5 % | 20,1 |
| Preço das exportações para as Filipinas | Preço | 2022 | +140,4 % | 7,0 |
O choque de preços nas importações do Brasil em 2022 (com uma quota de valor de 8,6 %) reflete provavelmente o impacto da subida global dos custos de energia e matérias-primas, bem como eventuais restrições sanitárias. O choque das Ilhas Faroé em 2023, apesar do seu elevado grau de anormalidade (20,1), teve impacto limitado dado o peso marginal deste fornecedor (0,7 % do valor total das importações).
Conclusão
O comércio externo da UE em produtos do capítulo 05 evoluiu significativamente entre 2015 e 2025, caracterizando-se por três dinâmicas principais: (i) uma valorização acentuada dos preços, que compensou a contração dos volumes e sustentou o crescimento nominal do valor comercializado; (ii) uma reconfiguração geográfica das parcerias, com o fortalecimento dos laços com a China, os EUA e o Vietname, e a perda de relevância do Reino Unido e Hong Kong; e (iii) um fortalecimento substancial da base produtiva europeia, que reduziu a dependência líquida de importações de 42 % para 14 %.
Apesar de o défice comercial se ter alargado em termos absolutos (de 292 M€ para 418 M€), a redução da dependência externa e o aumento da propensão exportadora sugerem que a UE reforçou a sua posição competitiva neste setor. A crescente concentração das importações na China constitui, porém, um fator de vulnerabilidade que merece acompanhamento, particularmente num contexto geopolítico marcado por incertezas nas cadeias de abastecimento globais. A diversificação dos mercados de exportação, evidenciada pela descida do HHI exportador, representa uma evolução positiva para a resiliência do setor europeu.