Evolução do mercado: Marfim e chifres (CN 0507) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia para a posição aduaneira 0507, que abrange marfim, carapaças de tartaruga, barbas de baleia ou outros mamíferos marinhos, chifres, galhadas, cascos, unhas, garras e bicos — em bruto ou simplesmente preparados — bem como os seus pós e desperdícios (Descrição detalhada do produto).
Trata-se de uma posição aduaneira abrangente e heterogénea, que inclui dois subprodutos principais:
| Código | Descrição |
|---|---|
| 050790 | Carapaças de tartaruga, barbas de baleia, chifres, galhadas, cascos, unhas, garras e bicos (exceto marfim) |
| 050710 | Marfim: pó e desperdícios de marfim |
O período em análise (2015–2025) abrange uma década marcada por alterações regulatórias significativas no domínio do comércio de produtos de origem animal, transformações nas cadeias de abastecimento globais, e um redirecionamento substancial dos fluxos comerciais da UE tanto em termes de parceiros como de composição de produto.
1. A erosão do valor exportado apesar da estabilidade volumétrica: o colapso dos preços
A dinâmica mais marcante do período é a divergência acentuada entre a evolução das exportações em volume e em valor. Enquanto as quantidades exportadas se mantiveram relativamente estáveis, o valor total das exportações sofreu uma redução dramática, refletindo uma queda estrutural dos preços médios.
1.1. Exportações: volume constante, valor em queda livre
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (€) | 40 087 787 | 16 682 378 | -58,4% |
| Quantidade (t) | 1 645 | 1 744 | +6,0% |
| Preço médio (€/t) | 24 365 | 9 565 | -60,7% |
O preço médio de exportação da UE para o CN 0507 caiu de 24 365 €/t em 2015 para 9 565 €/t em 2025 — o valor mais baixo registado no período (Visão geral do comércio). Esta descida acentuada de 60,7% indica uma transformação profunda na composição das exportações.
1.2. O caso do subproduto 050710 (marfim): de produto de alto valor a resíduo marginal
A análise por segmento de produto revela que o colapso dos preços médios é explicado em grande medida pelo esvaziamento do comércio de marfim (050710):
| Ano | Exportações 050710 — Valor (€) | Exportações 050710 — Preço (€/t) | Exportações 050790 — Preço (€/t) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 4 798 780 | 479 628 | 21 581 |
| 2018 | 216 548 | 502 412 | 15 879 |
| 2020 | 152 973 | 1 365 820 | 15 726 |
| 2021 | 550 | 7 970 | 15 190 |
| 2025 | 5 416 | 5 631 | 9 567 |
As exportações de marfim em pó e desperdícios (050710) passaram de 4,8 milhões de euros em 2015 para apenas 5 416 € em 2025 — uma redução de 99,9% (Comparação de segmentos de produto). A quantidade exportada desceu de 10 toneladas para menos de 1 tonelada. Este declínio é consistente com o apertado quadro regulamentar europeu e internacional relativo ao comércio de marfim, que restringiu progressivamente a comercialização destes produtos.
A exportação de marfim representava em 2015 cerca de 12% do valor total das exportações do CN 0507, contribuindo significativamente para o preço médio elevado. A sua quase eliminação das estatísticas explica grande parte da queda do preço médio agregado.
1.3. Importações estáveis em volume, com pressão inflacionária nos preços
Em contraste com as exportações, as importações apresentaram uma evolução mais moderada:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (€) | 10 121 285 | 12 761 262 | +26,1% |
| Quantidade (t) | 16 585 | 16 130 | -2,7% |
| Preço médio (€/t) | 610 | 791 | +29,6% |
O preço médio de importação subiu de 610 €/t para 791 €/t, um aumento de 29,6%, refletindo quer pressões inflacionárias globais, quer uma possível subida da qualidade ou especificidade dos produtos importados. A maior parte das importações diz respeito ao subproduto 050790 (chifres, cascos, garras, etc.), que constitui mais de 95% das quantidades importadas (Segmentos de produto).
2. Reconfiguração geográfica: o redirecionamento dos parceiros comerciais
O período 2015–2025 assistiu a uma profunda reconfiguração das rotas comerciais da UE para este produto, tanto no que respeita às exportações como às importações, com consequências diretas na estrutura de concentração do mercado.
2.1. Exportações: do domínio asiático para a viragem anglo-saxónica
A transformação mais visível nas exportações da UE é o colapso dos destinos tradicionais na Ásia e a ascensão de mercados anglo-saxónicos:
| Parceiro | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Hong Kong | 20 907 170 | 162 922 | -99,2% |
| Taiwan | 12 538 212 | 2 781 148 | -77,8% |
| China | 3 539 147 | 2 212 378 | -37,5% |
| Suíça | 973 282 | 1 824 760 | +87,5% |
| Reino Unido | 266 940 | 2 052 763 | +669,0% |
| Estados Unidos | 357 700 | 4 997 036 | +1 297% |
| Canadá | 295 906 | 1 734 374 | +486,1% |
(Parceiros de exportação por valor)
Em 2015, Hong Kong sozinho absorvia mais de metade (52%) do valor total das exportações da UE para este produto. Em 2025, a sua quota caiu para menos de 1%. Taiwan, o segundo maior destino, perdeu igualmente três quartos do seu valor. Esta evolução é consistente com as restrições ao comércio de marfim impostas na China e em Hong Kong a partir de 2018, que eliminaram virtualmente a procura de marfim na região.
Em contrapartida, os Estados Unidos tornaram-se o principal destino das exportações da UE, com um crescimento de 1 297%, passando de 357 700 € para quase 5 milhões de euros. O Reino Unido (+669%), o Canadá (+486,1%) e a Suíça (+87,5%) completam a nova geografia das exportações. Estes destinos são consistentes com um mercado de chifres, cascos e outros subprodutos animais para fins industriais (botões, instrumentos musicais, artesanato tradicional) que se manteve robusto no mundo ocidental.
2.2. Importações: consolidação em torno da Índia e do Brasil
Do lado das importações, observa-se uma concentração crescente em torno de dois fornecedores principais:
| Parceiro | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Índia | 2 421 312 | 3 976 664 | +64,2% |
| Brasil | 1 996 262 | 3 394 203 | +70,0% |
| Paquistão | 1 181 815 | 771 319 | -34,7% |
| Nigéria | 555 648 | 488 581 | -12,1% |
| Egipto | 412 688 | 220 438 | -46,6% |
(Parceiros de importação por valor)
A Índia e o Brasil reforçaram a sua posição como principais fornecedores, com crescimentos de 64,2% e 70,0% respetivamente. Estes dois países juntos representam agora mais de metade do valor total das importações da UE. Os fornecedores africanos (Nigéria, Egipto) e o Paquistão perderam quota, refletindo possivelmente dificuldades logísticas, instabilidade ou mudanças nas cadeias de abastecimento.
2.3. Aumento da concentração das importações e diversificação das exportações
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) confirma a divergência na evolução da concentração entre importações e exportações (Concentração HHI):
| Fluxo | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 1 247 | 1 914 | +53,5% |
| Exportações (valor) | 3 826 | 1 743 | -54,4% |
O HHI das importações subiu de 1 247 para 1 914, indicando uma concentração crescente — a UE tornou-se mais dependente de um número menor de fornecedores (principalmente Índia e Brasil). Em contrapartida, o HHI das exportações desceu drasticamente de 3 826 para 1 743, refletindo a passagem de um modelo de exportação altamente concentrado em Hong Kong e Taiwan para uma base de destino mais diversificada.
3. Da dependência à autonomia: a transformação do balanço comercial da UE
A evolução mais estrutural do período é a alteração radical da posição da UE no comércio global deste produto, passando de uma posição de dependência líquida de importações para uma posição de excedente comercial.
3.1. O colapso do excedente nominal e a inversão da dependência
O balanço comercial da UE em valor apresentou a seguinte evolução:
| Ano | Saldo comercial (€) |
|---|---|
| 2015 | +29 966 502 |
| 2020 | — |
| 2025 | +3 921 116 |
Apesar de a UE ter mantido um saldo positivo ao longo de todo o período, o excedente reduziu-se em 86,9%, de quase 30 milhões para menos de 4 milhões de euros. Contudo, a métrica de dependência líquida de importações revela uma história mais subtil:
| Ano | Dependência líquida de importações |
|---|---|
| 2015 | +24,6% |
| 2025 | -6,8% |
Em 2015, a dependência líquida de importações era positiva (24,6%), significando que as importações excediam as exportações em proporção do consumo aparente. Em 2025, esta métrica tornou-se negativa (-6,8%), indicando que a UE passou a ser um exportador líquido. A variação de -127,5% neste indicador é particularmente reveladora.
3.2. O aumento da propensão exportadora como motor da autonomia
A análise dos indicadores de intensidade comercial e propensão exportadora confirma a trajetória de crescente autonomia:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Intensidade comercial | 60,9% | 64,7% | +6,3% |
| Propensão exportadora | 34,5% | 49,5% | +43,2% |
A propensão exportadora — a razão entre as exportações e a produção doméstica — subiu de 34,5% para 49,5%, um aumento de 43,2%. Este indicador apresenta a maior saliência entre os dois, sugerindo que o crescimento da produção interna da UE, combinado com a reorientação das exportações para mercados ocidentais, foi o principal motor da redução da dependência externa.
3.3. Produção interna em crescimento sustentado
Os dados de produção da UE confirmam um crescimento significativo:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Quantidade (kg) | 1 870 000 390 | 3 300 000 000 | +76,5% |
| Valor (€) | 204 000 000 | 600 000 000 | +194,1% |
A produção de subprodutos animais no âmbito do CN 0507 cresceu 76,5% em volume e 194,1% em valor, refletindo uma expansão substancial da indústria de transformação de subprodutos animais na UE. O crescimento do valor (194%) muito superior ao crescimento da quantidade (77%) sugere uma valorização acrescida dos produtos, possivelmente associada a uma maior transformação ou a mercados de nicho de elevado valor acrescentado.
3.4. Especialização regional: Hungria e Polónia como hubs de exportação
A análise da especialização por Estado-Membro em 2025 revela padrões interessantes:
| Estado-Membro | RSCA | RCA | Quota produção | Quota exportação |
|---|---|---|---|---|
| Hungria | 0,763 | 7,450 | 20,0% | 2,7% |
| Polónia | 0,484 | 2,873 | 19,1% | 6,6% |
| Áustria | 0,450 | 2,636 | 8,7% | 3,3% |
| Croácia | 0,366 | 2,154 | 0,9% | 0,4% |
| Espanha | 0,322 | 1,950 | 11,3% | 5,8% |
A Hungria apresenta o maior índice de vantagem comparativa revelada (RCA de 7,45), apesar de a sua quota nas exportações totais da UE ser relativamente modesta (2,7%). A Polónia combina uma elevada quota de produção (19,1%) com uma quota de exportação significativa (6,6%). Em contraste, os países do norte da Europa (Suécia, Irlanda, Luxemburgo) apresentam valores de especialização praticamente nulos, confirmando a natureza regional e setorial da atividade.
3.5. Volatilidade e choques: os picos de preço como sinais de reconfiguração
A análise de volatilidade e choques identificou três eventos significativos:
| Evento | Tipo | Fluxo | Anomalia | Desvio (%) | Valor envolvido |
|---|---|---|---|---|---|
| Reino Unido, 2017 | Preço | Exportação | 128,7 | +122,5% | 15,3% |
| Suíça, 2019 | Preço | Exportação | 15,3 | +82,2% | 8,6% |
| Brasil, 2022 | Preço | Importação | 15,0 | +71,6% | 37,4% |
O choque de preço nas exportações para o Reino Unido em 2017, com uma anomalia de 128,7 e um desvio de +122,5%, pode estar relacionado com o período pré-Brexit e a antecipação de alterações regulatórias. O pico de preços nas importações do Brasil em 2022, envolvendo 37,4% do valor das importações desse ano, reflete possivelmente a conjugação de restrições de oferta na América do Sul com a recuperação pós-pandemia.
Do lado das exportações, Hong Kong apresenta o maior coeficiente de variação (1,61), confirmando a extrema instabilidade associada ao colapso daquele mercado. A Noruega (2,34) e a Rússia (2,57) apresentam volatilidades ainda mais elevadas, embora envolvendo volumes muito reduzidos (Volatilidade por parceiro).
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação profunda no comércio da UE para a posição aduaneira 0507. Três tendências estruturais dominam a análise:
Em primeiro lugar, o desaparecimento virtual do comércio de marfim (050710) — de quase 5 milhões de euros em exportações para valores residuais — reconfigurou completamente o perfil de preços das exportações, reduzindo o preço médio de exportação em mais de 60%.
Em segundo lugar, a geografia do comércio foi profundamente alterada: os mercados asiáticos tradicionais (Hong Kong, Taiwan) foram substituídos por destinos anglo-saxónicos (Estados Unidos, Reino Unido, Canadá), enquanto as importações se concentraram na Índia e no Brasil. Esta reconfiguração reduziu a concentração das exportações (HHI de 3 826 para 1 743) mas aumentou a concentração das importações (HHI de 1 247 para 1 914).
Em terceiro lugar, a UE reforçou a sua autonomia neste setor, passando de uma posição de dependência líquida de importações (24,6%) para uma posição de exportador líquido (-6,8%), sustentada por um crescimento de 76,5% na produção interna e de 43,2% na propensão exportadora.
O mercado do CN 0507 é, em 2025, um mercado dominado pelo subproduto 050790 (chifres, cascos, garras e outros subprodutos animais), com uma base geográfica de exportação mais diversificada, parceiros de importação mais concentrados, e uma indústria europeia de transformação em franca expansão. A crescente especialização de países como a Hungria e a Polónia sugere que a Europa Central está a emergir como hub de processamento e exportação de subprodutos animais, num contexto global onde as restrições regulatórias ao marfim continuam a moldar a estrutura do mercado.