Evolução do mercado: Coral e conchas (CN 0508) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia relativamente ao código aduaneiro 0508 — que abrange coral e matérias semelhantes em bruto, conchas e carapaças de moluscos, crustáceos ou equinodermes, ossos de chocos, bem como os seus pós e desperdícios — no período compreendido entre 2015 e 2025. Trata-se de um setor de nicho, de base marítima e extrativa, com forte dependência de cadeias de abastecimento globais. A análise incide sobre as tendências de valor, volume e preço, a estrutura geográfica das trocas comerciais e os episódios de volatilidade que marcaram a última década.
1. Uma década de contração do valor comercial, apesar do crescimento do volume importado
1.1. O valor das exportações da UE caiu 37% e das importações 24%
Ao longo do período 2015–2025, tanto as exportações como as importações da UE para fora do bloco apresentaram uma trajetória descendente em termos nominais. As exportações caíram de €11,86 milhões (2015) para €7,45 milhões (2025), uma descida de 37,2%. As importações recuaram de €24,55 milhões para €18,75 milhões (-23,6%). O valor mínimo das exportações foi atingido em €5,14 milhões e o das importações em €15,75 milhões.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) | Mínimo | Máximo |
|---|---|---|---|---|---|
| Exportações (€) | 11,86 M€ | 7,45 M€ | -37,2% | 5,14 M€ | 11,86 M€ |
| Importações (€) | 24,55 M€ | 18,75 M€ | -23,6% | 15,75 M€ | 24,55 M€ |
| Saldo comercial (€) | -12,69 M€ | -11,30 M€ | +11,0% | -14,67 M€ | -9,11 M€ |
O déficit comercial da UE permaneceu estrutural ao longo de todo o período, passando de -€12,69 milhões para -€11,30 milhões, com uma ligeira melhoria de 11%.
1.2. O volume importado cresceu 38% enquanto o volume exportado recuou 14%
Uma dinâmica particularmente relevante é a divergência entre a evolução do valor e a evolução das quantidades. Enquanto o valor das importações diminuiu, os volumes importados cresceram de 13 000 toneladas para 17 965 toneladas (+38,2%), com um pico de 24 761 toneladas. Em contrapartida, o volume exportado recuou ligeiramente de 9 964 toneladas para 8 527 toneladas (-14,4%), com mínimo de 7 480 toneladas.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações (t) | 9 964 t | 8 527 t | -14,4% |
| Importações (t) | 13 000 t | 17 965 t | +38,2% |
1.3. Os preços unitários desceram acentuadamente, refletindo uma desvalorização estrutural
O preço médio unitário das exportações da UE caiu de €1 189/t para €873/t (-26,6%), enquanto o preço médio das importações desceu de €1 885/t para €1 043/t (-44,7%). O preço mínimo das importações atingiu €652/t. Esta descida generalizada de preços — mais acentuada nas importações — sugere um enfraquecimento do poder de barganha dos fornecedores e/ou uma alteração da composição do cabaz importado para produtos de menor valor unitário.
Tendências de comércio (valor, volume, preço)
2. Reconfiguração geográfica: perda de peso da Rússia, ascensão das Ilhas Faroé e consolidação da Turquia
2.1. O Reino Unido mantém-se como principal parceiro, mas com crescimento marginal
O Reino Unido é o principal parceiro comercial da UE neste setor, tanto em importações como em exportações. As importações da União vindas do Reino Unido cresceram apenas 3,9% (de €4,38 milhões para €4,56 milhões), enquanto as exportações da UE para o Reino Unido aumentaram 34,3% (de €896 mil para €1,20 milhões). A relativa estabilidade das vendas importadoras do Reino Unido, conjugada com a queda global dos valores, confere-lhe um peso relativo crescente.
| Parceiro (importações UE) | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 4 384 383 | 4 556 389 | +3,9% |
| Turquia | 2 594 441 | 3 809 184 | +46,8% |
| China | 736 762 | 1 109 768 | +50,6% |
| Filipinas | 1 373 035 | 669 186 | -51,3% |
| Noruega | 176 660 | 380 778 | +115,5% |
| Ilhas Faroé | 1 | 119 561 | n.d. |
| Rússia | 12 301 | 130 | -98,9% |
2.2. A Rússia desapareceu como fornecedor e as Ilhas Faroé emergiram
A evolução mais marcante nas importações é o quase desaparecimento das compras à Federação Russa — de €12 301 para apenas €130 (-98,9%) —, com valor máximo histórico de €388 267 registado anteriormente. Esta dinâmica é consistente com as sanções e restrições comerciais impostas após 2022. Em contrapartida, as Ilhas Faroé passaram de um valor residual de €1 em 2015 para €119 561 em 2025, um crescimento percentual de quase 9 milhões por cento. Trata-se de um parceiro de dimensão pequena mas revelador da procura de fontes alternativas de abastecimento.
2.3. A Turquia consolidou-se como segundo fornecedor da UE
A Turquia registou um crescimento de 46,8% nas exportações para a UE (de €2,59 milhões para €3,81 milhões), consolidando-se como o segundo maior fornecedor extra-UE. A Turquia é simultaneamente um destino crescente das exportações da UE, ainda que com elevada volatilidade (coeficiente de variação de 1,47), o que denota uma relação comercial dinâmica mas instável.
| Parceiro (exportações UE) | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 895 755 | 1 203 358 | +34,3% |
| Suíça | 365 173 | 408 245 | +11,8% |
| Noruega | 63 670 | 353 575 | +455,3% |
| Egito | 13 136 | 169 512 | +1 190% |
| Líbano | 67 343 | 163 111 | +142,2% |
| EUA | 396 848 | 380 454 | -4,1% |
| Bósnia e Herzegovina | 138 619 | 1 193 581 | +761% |
2.4. A Bósnia e Herzegovina e o Egito tornaram-se destinos de exportação relevantes
Entre os destinos de exportação, os crescimentos mais espetaculares registaram-se na Bósnia e Herzegovina (+761%, de €139 mil para €1,19 milhões) e no Egito (+1 190%, de €13 mil para €170 mil). A Bósnia e Herzegovina emerge mesmo como o segundo maior destino em 2025, atrás apenas do Reino Unido. Estes crescimentos refletem provavelmente o crescimento da procura em mercados dos Balcãs e Médio Oriente.
3. Volatilidade persistente, com especial relevância dos choques de preço no comércio com o Reino Unido
3.1. Os fluxos de importação apresentam elevada volatilidade em parceiros periféricos
O coeficiente de variação (CV) das importações revela que os fluxos mais estáveis provêm do Reino Unido (CV = 0,19) e da Noruega (CV = 0,36), enquanto os mais voláteis incluem as Ilhas Faroé (CV = 1,15), a Federação Russa (CV = 0,79), o Vietname (CV = 0,60) e a Ucrânia (CV = 0,58). A elevada volatilidade destes parceiros reflete interrupções comerciais, alterações regulatórias ou episódios de procura pontual.
| Parceiro (importações UE) | CV |
|---|---|
| Reino Unido | 0,19 |
| Noruega | 0,36 |
| Sérvia | 0,32 |
| Filipinas | 0,43 |
| China | 0,50 |
| Ucrânia | 0,58 |
| Turquia | 0,79 (Rússia) / 0,57 (Turquia) |
| Ilhas Faroé | 1,15 |
3.2. Os destinos de exportação mais estáveis são a Suíça e o Reino Unido; os mais voláteis são a Arábia Saudita e a Turquia
Do lado das exportações, a Suíça (CV = 0,05) e o Reino Unido (CV = 0,12) apresentam relações comerciais mais estáveis. Em contraste, a Arábia Saudita (CV = 1,79), a Turquia (CV = 1,47) e a Bósnia e Herzegovina (CV = 0,62) exibem elevada imprevisibilidade. Um padrão de CV baixo em parceiros europeus desenvolvidos e alto em mercados emergentes ou politicamente instáveis.
3.3. Foi detetado um choque de preço significativo no comércio com o Reino Unido em 2021
O sistema de deteção de choques identificou um evento relevante: um choque de preço nas exportações da UE para o Reino Unido em 2021, com uma anomalia de 3,7 desvios-padrão e uma descida de -18,4% no preço unitário. Este evento teve uma quota de valor de 60,1% no comércio total da UE com esse parceiro nesse ano. Aproximando este choque ao contexto geopolítico e logístico da época, é plausível associar este episódio às disrupções pós-Brexit e/ou aos efeitos da pandemia COVID-19 nas cadeias de abastecimento e na procura por matérias-primas naturais.
| Evento de choque | Parceiro | Tipo | Ano | Anomalia (σ) | Variação (%) | Quota de valor |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Exportações UE → RU | Reino Unido | Preço | 2021 | 3,7 | -18,4% | 60,1% |
Volatilidade por parceiro · Choques de oferta detetados
Conclusão
O mercado europeu de coral, conchas e matérias semelhantes (CN 0508) atravessou, entre 2015 e 2025, uma fase de contração do valor comercial, com uma descida de 37% nas exportações e 24% nas importações. Contudo, a análise das quantidades revela um quadro mais complexo: o volume importado cresceu 38%, o que, combinado com a queda dos preços unitários (-45% nas importações), sugere uma redução generalizada do valor unitário dos produtos transacionados, possivelmente associada a mudanças na composição do cabaz, à pressão deflacionária global e aos efeitos residuais da pandemia.
Geograficamente, verificou-se uma reconfiguração notável: a Federação Russa praticamente desapareceu como fornecedor, as Ilhas Faroé emergiram e a Turquia consolidou a sua posição. Do lado das exportações, a Bósnia e Herzegovina tornou-se um dos principais destinos da UE, ultrapassando parceiros tradicionais. A concentração das trocas comerciais (medida pelo HHI) diminuiu ligeiramente, sugerindo uma diversificação geográfica gradual.
Finalmente, a volatilidade persiste como uma característica estrutural deste setor de nicho, com fluxos periféricos a apresentar coeficientes de variação muito superiores aos das relações comerciais consolidadas. O choque de preço detetado no comércio com o Reino Unido em 2021 ilustra a vulnerabilidade do setor a disrupções exógenas, nesse caso provavelmente associadas ao Brexit e à pandemia. A manutenção de cadeias de abastecimento diversificadas e a monitorização da volatilidade em parceiros emergentes são recomendáveis para mitigar riscos futuros.