Evolução do mercado: Equídeos vivos (CN 0101) — 2015–2025
Introdução
O código combinado nomenclatura (CN) 0101 abrange todos os equídeos vivos — cavalos, asininos e muares — comercializados entre a União Europeia e o resto do mundo. Inclui quatro subcategorias: reprodutores de raça pura (010121), cavalos não reprodutores (010129), asininos (010130) e mulas/bardotos (010190). A UE é simultaneamente um grande exportador e importador de equídeos vivos, reflectindo a relevância das indústrias hípica, de corridas e de criação em países como a Irlanda, os Países Baixos, a Alemanha e a França.
O período 2015–2025 foi marcado por transformações estruturais significativas: crescimento robusto das exportações, consolidação do superávit comercial, alterações notórias nos padrões de preço por unidade e uma reconfiguração geográfica das relações comerciais. Este relatório analisa essas dinâmicas com base nos dados disponíveis no Painel de Comércio.
1. Fortalecimento do superávit comercial: exportações a crescer a ritmo muito superior às importações
A balança comercial duplicou ao longo da década
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de equídeos vivos para países terceiros cresceram 63,7%, passando de 808,0 milhões de euros para 1.322,4 milhões de euros. No mesmo período, as importações cresceram apenas 18,3%, de 403,7 milhões para 477,4 milhões de euros. Consequentemente, o excedente comercial da UE mais do que duplicou, atingindo 845,0 milhões de euros em 2025, contra 404,3 milhões em 2015 — um crescimento de 109,0%.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor, M€) | 808,0 | 1.322,4 | +63,7% |
| Importações (valor, M€) | 403,7 | 477,4 | +18,3% |
| Saldo comercial (M€) | 404,3 | 845,0 | +109,0% |
| Exportações (toneladas) | 10.248 | 14.585 | +42,3% |
| Importações (toneladas) | 3.793 | 6.541 | +72,4% |
| Preço médio exportação (€/t) | 78.845 | 90.667 | +15,0% |
| Preço médio importação (€/t) | 106.407 | 72.993 | -31,4% |
(Fonte: Dados gerais de comércio)
Crescimento físico e divergência de preços
O volume físico das exportações cresceu 42,3% (de 10.248 t para 14.585 t), enquanto o das importações cresceu 72,4% (de 3.793 t para 6.541 t). Apesar do crescimento mais acentuado das importações em peso, o valor das exportações cresceu muito mais em termos absolutos, o que se explica pela divergência nas tendências de preço: o preço médio de exportação subiu 15,0% (para 90.667 €/t), enquanto o preço médio de importação desceu 31,4% (para 72.993 €/t). Isto sugere que a UE tem vindo a exportar equídeos de maior valor unitário (ou a valorizar melhor os que exporta), ao passo que as importações se deslocaram para segmentos de menor preço por tonelada.
O pico de 2022–2023 e a estabilização subsequente
As exportações atingiram o valor máximo do período em 2022, com 1.403,8 milhões de euros e 15.139 toneladas, impulsionadas por um forte aumento nas remessas para o Reino Unido e os EUA. Desde então, verificou-se uma ligeira contracção, com o valor de 2025 a situar-se 5,8% abaixo do pico. As importações, pelo contrário, atingiram o seu máximo em 2025 (477,4 milhões de euros), reflectindo um crescimento mais recente e sustentado, conforme documentado no painel de comércio.
2. Transformação do segmento reprodutor: mais unidades a preços muito mais baixos
Cavalos dominam a estrutura do comércio
Os cavalos (subcategorias 010121 e 010129) representam esmagadoramente a quase totalidade do comércio da UE em equídeos vivos. Em 2025, os reprodutores de raça pura (010121) e os cavalos não reprodutores (010129) responderam conjuntamente por 99,9% do valor das exportações e 99,8% do valor das importações. Os asininos (010130) e as mulas/bardotos (010190) têm peso residual, embora os asininos tenham registado um crescimento percentual significativo em termos absolutos.
| Segmento (exportações) | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| 010121 — Reprodutores de raça pura | 427,0 | 546,7 | +28,0% |
| 010129 — Cavalos (excl. reprodutores) | 376,3 | 774,8 | +105,9% |
| 010190 — Mulas e bardotos | 4,7 | 0,7 | -84,8% |
| 010130 — Asininos | 0,016 | 0,243 | +1.453% |
| Segmento (importações) | Valor 2015 (M€) | Valor 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| 010121 — Reprodutores de raça pura | 338,1 | 400,2 | +18,4% |
| 010129 — Cavalos (excl. reprodutores) | 63,9 | 76,9 | +20,3% |
| 010190 — Mulas e bardotos | 1,2 | 0,2 | -81,3% |
| 010130 — Asininos | 0,044 | 0,100 | +129,3% |
(Fonte: Dados por segmento de produto)
O segmento dos cavalos não reprodutores foi o motor do crescimento
O crescimento mais dinâmico registou-se no segmento 010129 (cavalos excluindo reprodutores de raça pura), cujas exportações mais do que duplicaram em valor (de 376,3 milhões para 774,8 milhões de euros, +105,9%). Em peso, as exportações deste segmento cresceram 36,8% (de 6.616 t para 9.044 t), o que implica que o aumento de valor foi sustentado tanto por maiores volumes como por preços mais elevados — o preço médio por tonelada subiu de 56.868 €/t em 2015 para 85.662 €/t em 2025 (+50,6%). Este segmento ultrapassou os reprodutores de raça pura como principal componente das exportações a partir de 2021, reflectindo provavelmente o crescimento do mercado de cavalos de desporto, lazer e competição internacional.
A anomalia dos reprodutores de raça pura: explosão de unidades, colapso do preço unitário
Uma das dinâmicas mais notáveis dos dados reside no segmento 010121 (reprodutores de raça pura) do lado das exportações. O número de unidades exportadas (unidade suplementar) disparou de 7.679 em 2015 para 86.423 em 2025 — um aumento de mais de 1.000% —, enquanto o valor total cresceu apenas 28,0%. Consequentemente, o preço médio por unidade suplementar desabou de 55.606 euros para apenas 6.325 euros (-88,6%).
| Indicador 010121 (exportações) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor (M€) | 427,0 | 546,7 | +28,0% |
| Peso (toneladas) | 3.475 | 5.488 | +58,0% |
| Unidades (p/st) | 7.679 | 86.423 | +1.025% |
| Preço/unidade supl. (€/p/st) | 55.606 | 6.325 | -88,6% |
Esta discrepância sugere uma alteração significativa na composição do que é declarado como "reprodutor de raça pura": a explosão do número de unidades, sem aumento proporcional do peso nem do valor, aponta para a inclusão de volumes crescentes de animais de menor porte (pónis de raça, por exemplo) ou, alternativamente, para uma mudança nos critérios de classificação aduaneira. Em contraste, o segmento 010129 apresenta uma evolução mais coerente, com o preço médio por unidade suplementar a subir de 26.074 euros para 40.698 euros (+56,1%), acompanhando um crescimento moderado de unidades (14.430 para 19.037).
3. Geografia do comércio: domínio anglo-saxónico, concentração moderada e choques de preço pontuais
O Reino Unido é o principal parceiro em ambos os lados
O Reino Unido é, de longe, o parceiro comercial mais relevante da UE em equídeos vivos, tanto nas importações como nas exportações. Em 2025, as importações da UE provenientes do Reino Unido atingiram 361,8 milhões de euros (75,8% do total das importações extra-UE), e as exportações da UE para o Reino Unido totalizaram 496,2 milhões de euros (37,5% do total das exportações). Esta centralidade reflecte a forte integração das indústrias hípicas irlandesa e britânica, particularmente no sector das corridas de cavalos e da reprodução de raça pura.
| Parceiro (importações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 311,0 | 361,8 | +16,3% |
| EUA | 61,3 | 72,8 | +18,9% |
| Suíça | 11,6 | 11,6 | -0,2% |
| Islândia | 6,1 | 8,9 | +45,4% |
| Noruega | 2,3 | 5,3 | +128,5% |
| Parceiro (exportações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 280,7 | 496,2 | +76,8% |
| EUA | 327,6 | 453,1 | +38,3% |
| Suíça | 39,6 | 79,4 | +100,5% |
| México | 22,9 | 47,9 | +109,6% |
| Emirados Árabes Unidos | 17,7 | 38,2 | +115,3% |
| Japão | 16,4 | 11,5 | -29,7% |
| China | 9,4 | 20,3 | +116,3% |
(Fonte: Dados por parceiro)
A Irlanda é o Estado-Membro dominante nas importações
Do lado dos importadores intra-UE, a Irlanda ocupa uma posição de destaque, com 326,6 milhões de euros em importações de equídeos em 2025 (68,4% do total dos sete maiores importadores da UE), crescendo 14,7% desde 2015. A relevância da Irlanda está directamente ligada à sua indústria de criação e corridas de cavalos de raça pura. Os Países Baixos registaram o crescimento mais expressivo (+374,1%, de 9,4 milhões para 44,6 milhões de euros), reflectindo possivelmente o fortalecimento do seu papel como entreposto comercial. No lado das exportações, os Países Baixos (352,4 milhões de euros, +46,0%) e a Irlanda (376,1 milhões, +56,5%) lideram, seguidos da Alemanha (216,9 milhões, +98,1%) e França (202,8 milhões, +84,9%).
(Fonte: Dados por Estado-Membro)
Concentração moderada e ligeiramente decrescente
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) do valor das importações situou-se em 6.278 em 2015 e desceu para 6.008 em 2025 (-4,3%), enquanto o das exportações passou de 2.997 para 2.854 (-4,8%). Estes valores indicam uma concentração moderada nas importações (dominadas pelo Reino Unido) e relativamente baixa nas exportações, que se distribuem de forma mais diversificada por múltiplos destinos. A ligeira descida do HHI sugere uma diversificação gradual, embora limitada.
(Fonte: Dados de concentração HHI)
Choques de preço pontuais em destinos periféricos
A análise de volatilidade revelou choques de preço significativos em três mercados de exportação periféricos. O mais acentuado ocorreu nos Emirados Árabes Unidos em 2023, com uma anomalia de preço de 356,5 e uma variação de +122,3%, possivelmente associada a uma compra pontual de cavalos de elevado valor para o sector desportivo equestre do Golfo. Choques semelhantes, mas de menor magnitude, foram detetados nas exportações para a Noruega em 2022 (+162,7%) e para o Quirguistão em 2023 (+175,4%). Estes eventos, embora espectaculares em termos percentuais, tiveram peso reduzido no valor total das exportações (2,2%, 1,2% e 0,1%, respetivamente).
Por outro lado, os parceiros de importação com maior volatilidade (medida pelo coeficiente de variação) são a Ucrânia (CV = 1,12) e o Canadá (CV = 1,09), reflectindo flutuações acentuadas num comércio de volume reduzido e sensível a factores conjunturais. Entre os parceiros principais, a Islândia apresenta o maior CV nas importações (0,40) e os Emirados Árabes Unidos nas exportações (0,47).
(Fonte: Dados de volatilidade e choques)
Conclusão
O mercado da UE de equídeos vivos com países terceiros evoluiu de forma robusta entre 2015 e 2025, com um superávit comercial que mais do que duplicou para 845 milhões de euros. O crescimento foi impulsionado sobretudo pelas exportações de cavalos não reprodutores (010129), cujo valor mais do que duplicou, e pela consolidação do Reino Unido e dos EUA como principais destinos. A Irlanda permanece como o centro nevrálgico das importações europeias, em linha com a sua tradição na criação de cavalos de corrida.
A dinâmica mais inesperada reside na subcategoria 010121 (reprodutores de raça pura), onde o número de unidades exportadas cresceu mais de dez vezes sem crescimento proporcional do valor, sugerindo uma mudança na composição dos animais declarados ou nos critérios de classificação. Este fenómeno merece acompanhamento adicional, pois pode distorcer a leitura das estatísticas de comércio.
Finalmente, embora a concentração geográfica do comércio se mantenha moderada e ligeiramente em descida, os choques de preço pontuais em mercados periféricos e a elevada volatilidade em parceiros como a Ucrânia e o Canadá sinalizam que o mercado de equídeos vivos continua exposto a flutuações abruptas, típicas de um bem transaccionado em volumes reduzidos e elevado valor unitário.