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Evolução do mercado: Outros animais vivos (CN 0106) — 2015–2025

Introdução

O código aduaneiro 0106 abrange uma categoria residual de animais vivos que exclui os principais grupos pecuários — equinos, bovinos, suínos, ovinos, caprinos, aves domésticas, peixes, crustáceos e moluscos — incluindo primatas, mamíferos diversos, répteis, aves ornamentais e de rapina, insetos, camelídeos, coelhos e outras espécies. Trata-se de um segmento heterogéneo, mas de relevância comercial crescente na União Europeia.

No período compreendido entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE neste setor registou uma trajetória de crescimento robusto, com o valor das exportações a aumentar 51,7 % (de 174,8 milhões € para 265,2 milhões €) e o das importações a subir 59,0 % (de 85,1 milhões € para 135,4 milhões €). O saldo comercial manteve-se estruturalmente positivo e quase duplicou, passando de 89,7 milhões € para 129,8 milhões €. Este relatório analisa as dinâmicas subjacentes a estes números, com ênfise na evolução dos parceiros comerciais, nos segmentos de produto, na volatilidade das trocas e na estrutura de mercado.


1. Crescimento puxado pela valorização: preços em forte alta, volumes mais moderados

A primeira constatação-chave do período é a divergência entre a evolução dos volumes transacionados e a evolução dos valores. Enquanto as exportações cresceram em quantidade (36,0 %, de 4 289 para 5 832 toneladas) e em valor (51,7 %), as importações apresentaram um crescimento de volume residual (2,5 %, de 2 190 para 2 245 toneladas) apesar de o valor ter quase duplicado (+59,0 %). Isto significa que a dinâmica importadora foi quase inteiramente conduzida pelo efeito-preço.

1.1. A disparidade de preços entre importações e exportações

Indicador 2015 2025 Variação
Preço médio exportações (€/t) 40 755 45 456 +11,5 %
Preço médio importações (€/t) 38 865 60 273 +55,1 %
Volume exportações (t) 4 289 5 832 +36,0 %
Volume importações (t) 2 190 2 245 +2,5 %

O preço médio das importações subiu significativamente mais do que o das exportações (+55,1 % vs. +11,5 %). Isto sugere uma alteração na composição das importações, com deslocação para animais de maior valor unitário — como primatas e insetos de laboratório — ou simplesmente uma subida generalizada dos preços de aquisição no mercado internacional, potenciada por constrangimentos de oferta.

1.2. A primazia das importações de primatas

O segmento de primatas (010611) é o que mais contribui para a subida do preço médio das importações. O valor das importações deste subproduto cresceu de 12,2 milhões € para 39,1 milhões € (+219 %), enquanto o preço unitário suplementar (por cabeça) passou de 2 055 €/un. para 11 982 €/un. — um aumento de 483 % que reflete, em parte, a escassez crescente e as restrições regulatórias à importação de primatas para investigação biomédica. O volume em unidades caiu de 5 946 para 3 262 (–45 %), o que confirma que a subida do valor é inteiramente um fenómeno de preço.

1.3. O peso crescente dos insetos nas exportações

No lado das exportações, o segmento de insectos (excl. abelhas) (010649) emergiu como o motor principal de crescimento. O valor exportado passou de 11,9 milhões € para 65,6 milhões € (+450 %), com o volume a crescer de 507 para 1 773 toneladas (+250 %). Este crescimento reflete a expansão da entomologia aplicada — insetos como alimento (insect farming), como agentes de polinização e como ferramenta de controlo biológico na agricultura — setores nos quais a UE (em especial a Holanda e a Bélgica) se especializou.


2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros, novas dependências

A segunda grande dinâmica do período é a reconfiguração do mapa de parceiros comerciais da UE, com destaque para o crescimento das exportações para a América do Norte e para o Norte de África, e para a alteração das fontes de importação.

2.1. Os Estados Unidos como principal destino das exportações

Os Estados Unidos tornaram-se, em 2025, o maior destino das exportações da UE de animais do CN 0106, ultrapassando o Reino Unido. O valor exportado cresceu de 21,0 milhões € para 53,5 milhões € (+154,4 %). O Canadá seguiu uma trajetória semelhante (+155,1 %), passando de 9,6 milhões € para 24,4 milhões €. Em conjunto, a América do Norte absorveu cerca de 29 % do valor total das exportações da UE em 2025, contra 17 % em 2015.

Parceiro (exportações) 2015 (milhões €) 2025 (milhões €) Variação
Estados Unidos 21,0 53,5 +154,4 %
Reino Unido 24,6 39,6 +60,5 %
Canadá 9,6 24,4 +155,1 %
Japão 7,8 12,7 +63,2 %
Suíça 12,8 18,1 +41,3 %
Marrocos 3,5 13,0 +274,2 %
Rússia 2,8 5,2 +84,5 %

O caso de Marrocos (+274,2 %) é particularmente notável e pode refletir o crescimento do investimento agrícola marroquino, com a UE a fornecer insetos para polinização e controlo biológico, ou aves ornamentais e outros animais associados ao comércio de fauna.

2.2. Instabilidade das importações: o caso do Chile e a ascensão da Bielorrússia

Do lado das importações, a reconfiguração é mais complexa. O Chile, que em 2022 registou um pico de 4,0 milhões € em importações de camelídeos (um choque de preço com uma variação de +1 826 %, como adiante se discutirá), colapsou para apenas 5 733 € em 2025 (–99,1 %). Em contraste, a Bielorrússia passou de 17 195 € para 1,3 milhões € (+7 493 %), registando inclusive picos acima dos 3,5 milhões €. A Ucrânia, por outro lado, registou uma quebra de –62,1 %, provavelmente refletindo o impacto do conflito armado iniciado em 2022.

Parceiro (importações) 2015 (milhões €) 2025 (milhões €) Variação
Estados Unidos 23,8 25,1 +5,2 %
Reino Unido 13,2 15,5 +16,9 %
China 7,5 7,1 –5,1 %
Bielorrússia 0,02 1,3 +7 493 %
Ucrânia 0,7 0,3 –62,1 %
Chile 0,7 0,006 –99,1 %

2.3. A concentração das exportações aumentou, a das importações diminuiu

O índice de concentração HHI das exportações subiu de 741 para 934 (+26,0 %), indicando que as vendas se tornaram mais dependentes de um número reduzido de destinos — sobretudo os EUA e o Reino Unido. Em sentido inverso, o HHI das importações desceu de 1 341 para 1 171 (–12,7 %), refletindo uma ligeira diversificação das fontes de abastecimento. No entanto, as importações continuam significativamente mais concentradas do que as exportações, o que torna a UE mais vulnerável a perturbações no lado da oferta de determinados parceiros.


3. Volatilidade, choques e a especialização dos Estados-Membros

A terceira dinâmica identificada é a elevada volatilidade registada em determinados parceiros e segmentos, com três choques de preço significativos a marcarem o período, e uma estrutura de especialização interna que explica a arquitetura do comércio da UE.

3.1. Três choços de preço relevantes

A análise de volatilidade e choques identificou três eventos principais:

Choque Parceiro Fluxo Ano Variação de preço Grau de anormalidade
1 Canadá Importações 2020 +43,8 % 149,6
2 Israel Importações 2020 +328,0 % 53,9
3 Chile Importações 2022 +1 826,1 % 41,4

O choque do Canadá em 2020 (anormalidade de 149,6) é o mais significativo em termes de desvio relativamente ao padrão histórico. Coincide com o início da pandemia COVID-19, que provocou disrupções logísticas generalizadas e restrições ao transporte de animais vivos. O choque de Israel em 2020 (+328 %) pode estar relacionado com flutuações pontuais nas importações de primatas ou outros animais de investigação. O choque do Chile em 2022, apesar do desvio percentual gigantesco (+1 826 %), é menos relevante em termes absolutos (quota de 1,6 % do valor total das importações) e está associado a importações esporádicas de camelídeos (alpacas, lhamas) com volumes muito reduzidos.

3.2. Volatilidade estrutural dos parceiros de importação

Os coeficientes de variação confirmam a instabilidade das importações da UE:

  • Chile (CV = 2,58) — o mais volátil, com fluxos intermitentes e extremamente irregulares.
  • Bielorrússia (CV = 0,90) e Rússia (CV = 0,97) — alta volatilidade, refletindo sensibilidade a fatores geopolíticos.
  • Israel (CV = 1,06) — volatilidade elevada, com transações esporádicas de elevado valor.
  • China (CV = 0,08) — o parceiro mais estável, com fluxos de insetos e outros animais de forma consistente.

Do lado das exportações, a volatilidade é em geral inferior, com a Suíça (CV = 0,06) e o Japão (CV = 0,12) a registarem os fluxos mais previsíveis. A China como destino exportador é, curiosamente, o mais volátil (CV = 0,90), sugerindo transações pontuais de elevado valor.

3.3. Especialização interna: Dinamarca e Portugal lideram

A análise de especialização revela que os Estados-Membros mais especializados na exportação do CN 0106 em 2025 são:

Estado-Membro RSCA RCA Quota na produção do setor
Dinamarca 0,574 3,695 6,4 %
Portugal 0,534 3,288 4,5 %
Bélgica 0,328 1,974 16,7 %
Países Baixos 0,325 1,962 28,5 %
França 0,298 1,849 14,5 %

Os Países Baixos são, em termos absolutos, o maior exportador da UE neste setor (97,0 milhões € em 2025, +97,4 % face a 2015), dominando o comércio de insetos e outros animais vivos. A Espanha registou a maior taxa de crescimento das exportações (+240,4 %), passando de 10,3 milhões € para 35,0 milhões €.

Por outro lado, os Estados-Membros menos especializados (RSCA negativo) incluem Eslovénia, Estónia e Áustria, que praticamente não exportam animais deste código para fora da UE.

3.4. A evolução dos segmentos de produto: insetos e abelhas em forte crescimento

A segmentação por subproduto confirma uma transformação estrutural na composição do comércio:

Exportações (valor, milhões €):

Subproduto 2015 2025 Variação
010649 — Insetos (excl. abelhas) 11,9 65,6 +450 %
010641 — Abelhas 1,4 15,4 +1 013 %
010690 — Outros animais vivos 50,1 58,8 +17,2 %
010619 — Mamíferos (outros) 49,8 54,6 +9,7 %
010639 — Aves (outras) 31,5 23,0 –27,1 %
010613 — Camelídeos 0,3 0,4 +37,5 %
010614 — Coelhos e lebres 1,1 1,6 +44,4 %

O segmento das abelhas (010641) é o que mais cresce em termos percentuais: de 1,4 milhões € para 15,4 milhões € (+1 013 %), com o volume a subir de 133 para 1 554 toneladas. Este crescimento espetacular reflete a crise global de polinização e a crescente procura europeia de abelhas para apicultura e serviços de polinização, sobretudo nos EUA, Canadá e Norte de África.

Os insetos (010649) consolidam-se como o maior segmento exportador, com os Países Baixos a liderarem o comércio europeu de insetos comestíveis e de controlo biológico. O preço médio de exportação dos insetos manteve-se relativamente estável (em torno de 37 000 €/t), o que sugere um crescimento baseado em volume, e não em especulação de preços.

Importações (valor, milhões €):

Subproduto 2015 2025 Variação
010611 — Primatas 12,2 39,1 +219 %
010649 — Insetos (excl. abelhas) 14,1 38,9 +176 %
010619 — Mamíferos (outros) 23,1 29,0 +25,4 %
010690 — Outros animais vivos 27,9 22,8 –18,3 %
010620 — Répteis 4,2 2,8 –32,8 %
010614 — Coelhos e lebres 0,9 1,4 +61,2 %
010613 — Camelídeos 0,2 0,06 –74,7 %

As importações de primatas dominam o panorama importador em valor, refletindo a dependência da indústria farmacêutica europeia de primatas para investigação pré-clínica. A queda do volume (de 5 946 para 3 262 unidades) aliada à subida do preço unitário (de 2 055 para 11 982 €/un.) aponta para um mercado cada vez mais restrito e dispendioso, possivelmente devido à regulamentação mais apertada e à diminuição das populações disponíveis em países de origem.

As importações de répteis (010620) declinaram de forma consistente (de 4,2 milhões € para 2,8 milhões €), com o volume em unidades a descer de 1 013 460 para 584 288. Esta quebra pode refletir o endurecimento das Convenções CITES e o crescente escrutínio do comércio internacional de espécies ameaçadas.


Conclusão

O mercado europeu de animais vivos abrangidos pelo CN 0106 evoluiu significativamente entre 2015 e 2025, sustentado por três megatendências: (1) a industrialização do setor dos insetos, que transformou um nicho num mercado de dezenas de milhões de euros; (2) a pressão regulatória e biológica sobre as importações de primatas, que elevou drasticamente os preços; e (3) a expansão das exportações europeias para a América do Norte e para mercados periféricos como Marrocos e Japão.

O saldo comercial permaneceu estruturalmente positivo e crescente (de 89,7 para 129,8 milhões €), consolidando a posição da UE como exportador líquido. Contudo, esta posição depende crescentemente de dois mercados de destino — os EUA e o Reino Unido — cuja quota conjunta nas exportações supera os 35 %. A concentração crescente das exportações (HHI de 741 para 934) constitui um risco de dependência.

Do lado da oferta, a UE demonstrou alguma diversificação (HHI importações em baixa), mas as importações continuam marcadas por uma elevada volatilidade, com parceiros como o Chile, a Bielorrússia e a Rússia a registarem coeficientes de variação extremos. Os três choços de preço detetados (Canadá 2020, Israel 2020, Chile 2022) sublinham a vulnerabilidade do lado importador a perturcações pontuais.

Em síntese, o CN 0106 é um setor em transição: de mercado marginal a nicho industrial com valor acrescentado, impulsionado pela bioeconomia, pela entomologia e pela investigação biomédica, mas ainda sujeito a flutuações acentuadas que exigem uma monitorização contínua por parte dos operadores e decisores políticos.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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