Evolução do mercado: Produtos químicos diversos (CN 38) — 2015–2025
Introdução
O capítulo 38 da Nomenclatura Combinada (CN 38) — Produtos Diversos das Indústrias Químicas — abrange uma vasta gama de produtos, desde inseticidas e herbicidas (3808) até biodiesel (3826), passando por ácidos gordos industriais (3823), resíduos industriais (3825), aditivos para combustíveis (3811) e preparações catalíticas (3815). Este relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia com países terceiros no período 2015–2025, com base nos dados gerais de comércio. A análise revela um setor que cresceu significativamente em valor, impulsionado sobretudo por uma valorização dos preços de exportação, enquanto a UE reforçou a sua posição de superávit comercial e diversificou as suas cadeias de abastecimento.
1. Crescimento sustentado do valor comercial num contexto de volumes estáveis
O valor das exportações cresceu mais de 50% enquanto os volumes se mantiveram praticamente inalterados
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE de produtos CN 38 passou de 26,3 mil milhões EUR para 39,9 mil milhões EUR, registando um aumento de +51,5%. Contudo, o volume exportado manteve-se estável — de 9,52 milhões de toneladas para 9,40 milhões de toneladas (–1,2%). Isto significa que o crescimento do valor foi inteiramente conduzido pela subida dos preços unitários de exportação, que evoluíram de 2 765 EUR/t para 4 240 EUR/t (+53,3%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor exportações | 26,3 mil M EUR | 39,9 mil M EUR | +51,5% |
| Volume exportações | 9,52 M t | 9,40 M t | –1,2% |
| Preço médio exportação | 2 765 EUR/t | 4 240 EUR/t | +53,3% |
| Valor importações | 16,1 mil M EUR | 25,7 mil M EUR | +60,0% |
| Volume importações | 6,46 M t | 10,39 M t | +60,7% |
| Preço médio importação | 2 483 EUR/t | 2 472 EUR/t | –0,5% |
| Saldo comercial | 10,3 mil M EUR | 14,2 mil M EUR | +38,3% |
As importações cresceram tanto em volume como em valor, sem aumento de preços
Ao contrário das exportações, as importações da UE cresceram em volume de forma muito significativa: de 6,46 milhões para 10,39 milhões de toneladas (+60,7%). O valor acompanhhou esta trajetória (+60,0%), mas o preço médio das importações manteve-se estável (ligeira queda de 2 483 para 2 472 EUR/t). Isto sugere que a UE aumentou a sua dependência de fornecedores externos em termos de quantidade, mas a inflação nos preços de importação foi contida.
O superávit comercial da UE reforçou-se ao longo da década
A UE manteve um superávit comercial consistente ao longo de todo o período, que passou de 10,3 mil milhões EUR em 2015 para 14,2 mil milhões EUR em 2025 (+38,3%). O ponto mais baixo registou-se em 2022 (5,2 mil milhões EUR), provavelmente devido ao choque energético e às disrupções das cadeias de abastecimento pós-pandemia, mas o saldo recuperou fortemente em 2023–2025. O valor máximo do saldo atingiu 14,5 mil milhões EUR em 2024.
2. Reconfiguração geográfica: diversificação das importações e perda de peso da Rússia nas exportações
As importações desviaram-se de fornecedores tradicionais para novos parceiros asiáticos e sul-americanos
A análise por parceiro comercial revela uma profunda reconfiguração geográfica nas importações:
| Parceiro (importações) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 3 946 M EUR | 3 300 M EUR | –16,4% |
| Estados Unidos | 4 706 M EUR | 7 003 M EUR | +48,8% |
| China | 815 M EUR | 2 222 M EUR | +172,6% |
| Indonésia | 352 M EUR | 1 242 M EUR | +252,8% |
| Malásia | 720 M EUR | 1 411 M EUR | +95,9% |
| Argentina | 65 M EUR | 536 M EUR | +728,6% |
| Noruega | 210 M EUR | 316 M EUR | +50,2% |
Os parceiros que mais cresceram foram a Argentina (+728,6%), a Indonésia (+252,8%) e a China (+172,6%). Este crescimento acentuado de fornecedores asiáticos e sul-americanos é particularmente relevante no caso da Indonésia e Malásia, países produtores de óleo de palma — matéria-prima essencial para o biodiesel (CN 3826) e os ácidos gordos industriais (CN 3823). O Reino Unido, apesar de continuar como principal parceiro, viu as suas exportações para a UE diminuírem, refletindo provavelmente os efeitos do Brexit.
A concentração das importações diminuiu significativamente
O índice de concentração HHI para as importações caiu de 1 708 para 1 201 (–29,7%), indicando uma diversificação substancial das fontes de abastecimento. Em 2015, as importações estavam concentradas em poucos parceiros (Reino Unido e Estados Unidos); em 2025, a distribuição é significativamente mais pluralista. Em contraste, o HHI das exportações manteve-se estável (556 → 589, +6%), refletindo uma base de clientes já diversificada.
A Rússia perdeu peso enquanto destino de exportação da UE
Nas exportações, o destaque negativo vai para a Rússia, que passou de 1 505 milhões EUR em 2015 para apenas 621 milhões EUR em 2025 (–58,7%). Esta queda acentuada — particularmente visível a partir de 2022 — reflete claramente as sanções comerciais impostas no contexto do conflito na Ucrânia. Em contrapartida, os principais destinos de exportação cresceram robustamente:
| Parceiro (exportações) | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 3 675 M EUR | 4 475 M EUR | +21,8% |
| Estados Unidos | 3 169 M EUR | 6 010 M EUR | +89,7% |
| China | 1 604 M EUR | 3 786 M EUR | +136,0% |
| Turquia | 1 068 M EUR | 1 878 M EUR | +75,9% |
| Suíça | 1 069 M EUR | 1 712 M EUR | +60,1% |
| Noruega | 498 M EUR | 682 M EUR | +36,9% |
| Rússia | 1 505 M EUR | 621 M EUR | –58,7% |
Os Estados Unidos tornaram-se o principal destino das exportações da UE (6,0 mil milhões EUR), ultrapassando o Reino Unido.
Os Estados membros mais especializados são a Irlanda e a Bélgica
De acordo com o índice de especialização RSCA, a Irlanda (RSCA = 0,278) e a Bélgica (RSCA = 0,251) lideram a especialização da UE neste setor em 2025. A Alemanha, apesar de ser o maior exportador absoluto (13,6 mil milhões EUR em 2025), não aparece entre os mais especializados, refletindo a diversificação da sua base industrial. Entre os menos especializados destacam-se Malta (RSCA = –0,997), Eslováquia (–0,690) e Roménia (–0,678).
3. Choques de preço, dinâmicas por segmento e crescente integração comercial
O período foi marcado por choques de preço em parceiros-chave
A análise de volatilidade e choques identificou três eventos de choque significativos:
| Evento | Parceiro | Tipo | Ano | Desvio (%) | Peso no valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Choque de preço nas importações | Israel | Preço | 2018 | +3 235% | 2,4% |
| Choque de preço nas importações | China | Preço | 2021 | +142% | 17,2% |
| Choque de preço nas exportações | Canadá | Preço | 2022 | +71% | 1,2% |
O choque de 2018 em Israel, embora espetacular em termos percentuais, teve um peso limitado no valor total (2,4%). Mais relevante foi o choque de preços das importações da China em 2021 (+142%), que, dado o peso de 17,2% no valor total das importações, teve um impacto macroeconómico considerável. Este fenómeno coincide com a escalada dos preços das matérias-primas energéticas no pós-COVID. O coeficiente de variação mais elevado nas importações regista-se na Argentina (0,711) e em Israel (1,987), refletindo elevada instabilidade nesses fornecedores.
Os segmentos de biodiesel (3826) e resíduos industriais (3825) dominam as importações em volume
A decomposição por segmento de produto permite identificar os principais motores do comércio:
Importações — principais segmentos (2025):
| Segmento | Volume (t) | Valor (EUR) | Preço (EUR/t) |
|---|---|---|---|
| 3825 – Resíduos industriais | 2 802 656 | 57 751 888 | 20,6 |
| 3826 – Biodiesel | 1 567 418 | 1 997 768 780 | 1 274,6 |
| 3823 – Ácidos gordos | 2 006 538 | 2 536 519 050 | 1 250,6 |
| 3824 – Produtos químicos diversos | 1 622 546 | 4 311 377 164 | 2 657,1 |
| 3808 – Agroquímicos | 257 853 | 1 918 760 439 | 7 441,2 |
O biodiesel (3826) é particularmente volátil: as importações em volume cresceram de 696 000 t em 2015 para 3,6 milhões de toneladas em 2018 (pico), antes de recuarem para 1,6 milhão de toneladas em 2025. Esta dinâmica está diretamente ligada às políticas europeias de biocombustíveis e às quotas de mistura obrigatória, bem como às flutuações nos preços do petróleo. O segmento 3823 (ácidos gordos) cresceu de forma mais estável, refletindo a procura contínua de matérias-primas bioquímicas.
A produção europeia deslocou-se de volumes para valor
Os dados de produção mostram uma tendência notável: a quantidade produzida na UE caiu 14,5% (de 752 mil milhões kg de substância ativa para 643 mil milhões), mas o valor da produção aumentou 157,4% (de 40,7 mil milhões EUR para 104,8 mil milhões EUR). Isto indica uma clara deslocação para produtos de maior valor acrescentado — consistentes com a subida dos preços de exportação (+53,3%) apesar da estagnação dos volumes exportados.
A integração comercial da UE no setor químico diversificado intensificou-se
Os indicadores de vulnerabilidade e autonomia revelam uma transformação estrutural:
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Intensidade comercial | 21,1% | 51,8% | +145,3% |
| Propensão exportadora | 13,7% | 39,4% | +187,4% |
| Dependência líquida de importações | –4,5% | –15,6% | — |
A intensidade comercial duplicou (de 21% para 52%), e a propensão exportadora triplicou aproximadamente (de 14% para 39%). A dependência líquida de importações permaneceu negativa ao longo de todo o período (a UE é exportador líquido), mas acentuou-se de –4,5% para –15,6%, o que reforça a posição da UE como exportador líquido estrutural neste setor.
Conclusão
O mercado europeu de produtos químicos diversos (CN 38) apresentou, entre 2015 e 2025, uma evolução marcada por três dinâmicas principais: (i) uma valorização acentuada dos preços, que sustentou o crescimento do valor comercial num contexto de volumes estáveis; (ii) uma profunda reconfiguração geográfica, com diversificação das importações (a favor da Ásia e América do Sul) e reorientação das exportações (de Rússia para Estados Unidos e China); e (iii) uma crescente integração comercial, com a UE a reforçar a sua posição de superávit e a deslocar a sua produção para bens de maior valor acrescentado. A queda do índice HHI nas importações (–29,7%) sugere que a UE mitigou com sucesso os riscos de dependência excessiva, embora os choques de preço registados em 2018 e 2021 — e a elevada volatilidade em fornecedores como Argentina e Israel — indiquem que a exposição a flutuações externas permanece uma vulnerabilidade relevante.