Evolução do mercado: Proteinas, amidos, colas, enzimas (CN 35) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para o código Nomenclatura Combinada 35 — que abrange matérias albuminoides, produtos à base de amidos ou féculas modificados, colas e enzimas — ao longo do período 2015–2025. Trata-se de um setor diversificado, que integra desde produtos de base agroalimentar (caseínas, gelatinas, albuminas) até insumos industriais de elevado valor acrescentado (enzimas, adesivos especializados). O período em análise é particularmente relevante por incluir choques como a pandemia de COVID-19, a escalada de preços de matérias-primas em 2022 e as consequências geopolíticas do conflito na Ucrânia. A UE revela-se um exportador líquido estrutural neste setor, com um saldo comercial que cresceu de €3 324 milhões em 2015 para €5 562 milhões em 2025 (Visão geral do comércio).
1. Valorização acelerada: o comércio cresce sobretudo em preço
O crescimento das exportações é impulsionado pelo valor unitário, não pelo volume
O valor total das exportações da UE no setor CN 35 passou de €5 249 milhões em 2015 para €8 486 milhões em 2025, representando um crescimento de 61,7%. Contudo, o volume exportado cresceu apenas 5,4% (de 1 542 mil toneladas para 1 625 mil toneladas). A explicação reside na forte subida do preço médio de exportação, que passou de €3 405/t para €5 223/t (+53,4%). Este desfasamento evidencia uma dinâmica de valorização — os produtores europeus estão a exportar quantidades semelhantes a preços significativamente mais elevados, o que pode refletir inflação de custos, mas também uma aposta em produtos de maior valor acrescentado.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor (€ mil milhões) | 5,25 | 8,49 | +61,7% |
| Exportações — volume (mil t) | 1 542 | 1 625 | +5,4% |
| Exportações — preço médio (€/t) | 3 405 | 5 223 | +53,4% |
| Importações — valor (€ mil milhões) | 1,92 | 2,92 | +51,9% |
| Importações — volume (mil t) | 428 | 523 | +22,2% |
| Importações — preço médio (€/t) | 4 496 | 5 586 | +24,3% |
A produção europeia duplicou em valor, sinal de subida generalizada de preços
A produção industrial da UE para este setor, medida em euros, cresceu 102,3% (de €7 361 milhões para €14 888 milhões), enquanto o volume produzido cresceu apenas 8,9% (de 6 091 mil milhões de kg para 6 633 milhões de kg). Este cenário reforça a leitura de que o período foi marcado por uma inflação de preços acentuada nos produtos do setor, provavelmente ligada à subida dos custos de energia e matérias-primas pós-2021, à quebra nas cadeias de abastecimento durante a pandemia e à subsequente escalada de preços agrícolas em 2022 (Produção — volumes).
A dependência líquida de importações reforça o estatuto exportador da UE
A dependência líquida de importações (net import reliance) agravou-se de -16,8% em 2015 para -52,1% em 2025. O sinal negativo indica que a UE é exportadora líquida, e o aprofundamento deste valor significa que o superavit comercial cresceu desproporcionalmente face ao mercado interno. A propensão exportadora subiu de 31,3% para 52,0%, e a intensidade comercial passou de 41,3% para 59,2%, sinal de um setor cada vez mais orientado para os mercados externos (Dependência líquida de importações).
2. Reconfiguração geográfica: novos parceiros ganham peso
A China e a Turquia emergem como parceiros cada vez mais relevantes
No que diz respeito às importações, destaca-se o crescimento exponencial das compras à China (+131,4%, de €186 milhões para €429 milhões) e, sobretudo, à Turquia (+616,8%, de €17 milhões para €124 milhões). A Turquia tornou-se assim um fornecedor de dimensão significativa, ultrapassando parceiros tradicionais como a Nova Zelândia (-19,3%) e a Tailândia (-14,7%). Do lado das exportações, a China tornou-se o destino que mais cresceu (+145,7%, de €383 milhões para €941 milhões), tornando-se o terceiro maior mercado de destino da UE, atrás apenas do Reino Unido e dos Estados Unidos.
| Parceiro (importações UE) | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 335 | 454 | +35,6% |
| Suíça | 263 | 293 | +11,4% |
| China | 186 | 429 | +131,4% |
| Estados Unidos | 569 | 809 | +42,0% |
| Turquia | 17 | 124 | +616,8% |
| Nova Zelândia | 128 | 103 | -19,3% |
| Parceiro (exportações UE) | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 616 | 901 | +46,4% |
| Estados Unidos | 870 | 1 264 | +45,2% |
| China | 383 | 941 | +145,7% |
| Turquia | 259 | 393 | +51,8% |
| Rússia | 365 | 185 | -49,2% |
| Japão | 304 | 348 | +14,5% |
O Reino Unido mantém-se como parceiro central, após o Brexit
O Reino Unido é simultaneamente o maior destino de exportações da UE (€901 milhões em 2025) e o maior fornecedor extra-UE (€454 milhões). Apesar da incerteza inicial associada ao Brexit, os fluxos mantiveram-se robustos e cresceram, reflectindo a proximidade geográfica, as cadeias de valor integradas e a relevância dos setores alimentar e farmacêutico em ambos os lados do Canal da Manicha. A volatilidade das exportações para o Reino Unido é das mais baixas (CV de 0,045), o que confirma a estabilidade desta relação comercial (Volatilidade).
A Rússia perde relevância como destino de exportação
As exportações da UE para a Rússia caíram 49,2%, de €365 milhões para €185 milhões, reflectindo o impacto das sanções e contra-sanções após 2022, bem como a reorientação das cadeias comerciais. O coeficiente de variação das exportações para a Rússia é de 0,43 — o mais elevado entre os principais parceiros de exportação — confirmando a elevada instabilidade deste fluxo. Adicionalmente, detetaram-se choques de preço significativos em 2022 para exportações para a Argélia (anomalia de 26,5, com subida de preço de 55,7%), Austrália (anomalia 9,1, +28,2%) e Indonésia (anomalia 7,7, +69,6%), sugerindo que a onda inflacionária de 2022 atingiu de forma desigual os diferentes mercados de destino (Choques de abastecimento).
Os Estados Unidos consolidam-se como o principal destino extra-UE
Os Estados Unidos foram sempre o maior destino de exportações da UE para este setor, atingindo €1 264 milhões em 2025 (+45,2% face a 2015). Do lado das importações, os EUA são igualmente o maior fornecedor extra-UE (€809 milhões em 2025), o que reflete uma relação comercial bidirecional intensa, particularmente nos segmentos de enzimas e proteínas de elevada especialização.
3. Dinâmicas setoriais divergentes: enzimas e proteínas lideram a transformação
As enzimas (CN 3507) constituem o segmento de maior valor nas exportações
O segmento de enzimas (CN 3507) é o que apresenta o maior valor de exportação em 2025, com €2 238 milhões, crescendo 47,1% face a 2015 (€1 521 milhões). O preço médio de exportação subiu de €11 150/t para €14 607/t, confirmando o carácter de elevado valor acrescentado deste segmento. Do lado das importações, as enzimas atingiram €680 milhões em 2025, com preço médio de €14 854/t — o mais elevado de todos os subprodutos. O saldo comercial do segmento é claramente superavitário, reforçando a competitividade europeia na produção enzimática, setor onde empresas como a Novozymes (Dinamarca) e a DSM têm presença global dominante (Comparação por subproduto).
| Subproduto (exportações) | 2015 (€ M) | 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| 3507 — Enzimas | 1 521 | 2 238 | +47,1% |
| 3506 — Colas e adesivos | 1 305 | 2 062 | +58,0% |
| 3504 — Peptonas e proteínas | 337 | 913 | +170,7% |
| 3502 — Albuminas | 382 | 860 | +124,9% |
| 3505 — Amidos modificados | 624 | 858 | +37,5% |
| 3501 — Caseínas | 554 | 655 | +18,3% |
| 3503 — Gelatinas | 292 | 300 | +2,9% |
Os derivados proteicos e as albuminas registam o maior crescimento relativo
As exportações de peptonas e matérias proteicas (CN 3504) cresceram 170,7% (de €337 milhões para €913 milhões), enquanto as albuminas (CN 3502) cresceram 124,9% (de €382 milhões para €860 milhões). Estes dois segmentos registaram também os maiores aumentos de preço: as albuminas passaram de €7 327/t para €10 111/t e as peptonas de €5 258/t para €10 276/t. Esta evolução sugere uma procura crescente por proteínas de alta pureza para aplicações na indústria farmacêutica, nutricional e de nutrição animal, tendências estruturais que se aceleraram nos últimos anos.
O segmento de caseínas (CN 3501) apresenta sinais de contração
Em contraste, o segmento de caseínas e caseinatos (CN 3501) é o único que evidencia uma dinâmica de contração clara: as importações caíram de €139 milhões para €69 milhões (-50,5%) e os volumes importados reduziram-se de 23 153 t para 10 702 t. No lado das exportações, apesar de o valor ter crescido ligeiramente (de €554 milhões para €655 milhões), o preço apresentou grande volatilidade, atingindo um pico de €11 461/t em 2022 antes de recuar para €7 102/t em 2025. Este padrão sugere um mercado sujeito a flutuações de oferta da Nova Zelândia e de outros produtores do hemisfério sul, com a UE a perder quota enquanto fornecedor.
A concentração do comércio diminui, sinal de diversificação
O índice de concentração HHI (Herfindahl-Hirschman) das importações da UE em valor desceu de 1 566 para 1 431 (-8,6%), enquanto o das exportações baixou de 701 para 664 (-5,3%). Estes valores indicam uma diversificação progressiva dos parceiros comerciais, tanto do lado da oferta como da procura. No que diz respeito à especialização interna, a Dinamarca é o Estado-membro mais especializado neste setor (RSCA de 0,69, RCA de 5,37), reflectindo a posição dominante da indústria enzimática dinamarquesa. Seguem-se a Lituânia, a Finlândia, a Irlanda e os Países Baixos. Nos últimos lugares encontram-se Malta, Eslováquia e Roménia, com RCA muito abaixo de 1, indicando ausência de vantagem comparativa (Especialização).
Conclusão
O setor CN 35 da UE demonstrou ao longo de 2015–2025 uma notável capacidade de valorização. A principal dinâmica observada é o crescimento sustentado do valor comercial — impulsionado sobretudo por aumentos de preço e não por expansão de volumes — que elevou o superavit comercial para €5 562 milhões em 2025. Geograficamente, verificou-se uma reconfiguração significativa: a China e a Turquia ganharam peso como parceiros, a Rússia perdeu relevância e o Reino Unido manteve a sua centralidade apesar do Brexit. Setorialmente, as enzimas e os derivados proteicos lideram a transformação, enquanto as caseínas apresentam sinais de maturidade ou contração. A redução da concentração HHI e o fortalecimento da propensão exportadora sugerem um setor cada vez mais internacionalizado e diversificado. Os principais riscos residem na volatilidade dos preços das matérias-primas e na exposição a eventuais perturbações geopolíticas, como demonstrado pelos choques detetados em 2022.