Evolução do mercado: Caseína (CN 3501) — 2015–2025
Introdução
O código CN 3501 abrange as caseínas (350110), os caseinatos e outros derivados das caseínas, bem como as colas de caseína (350190). Trata-se de um setor estrategicamente relevante para a indústria lacticínia europeia, com aplicações na alimentação, nutrição esportiva, farmacêutica e adesivos. A produção da União Europeia de CN 3501 cresceu de 214 746 toneladas em 2015 para 341 750 toneladas em 2025 (+59,1 %), enquanto o valor da produção passou de 900 milhões de euros para 1 613 milhões de euros (+79,2 %).
Este relatório analisa o comércio extra-União Europeia de CN 3501 ao longo do período 2015–2025, identificando três dinâmicas fundamentais: a consolidação da UE como exportador líquido dominante, a reorientação geográfica dos fluxos comerciais e o impacto do choque de preços de 2022 na estrutura do mercado.
| Ano | Exportações (€ M) | Exportações (t) | Preço exp. (€/t) | Importações (€ M) | Importações (t) | Preço imp. (€/t) | Saldo comercial (€ M) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2015 | 554 | 87 138 | 6 356 | 139 | 23 153 | 5 995 | 415 |
| 2016 | 499 | 92 139 | 5 418 | 125 | 25 175 | 4 956 | 374 |
| 2017 | 547 | 92 197 | 5 929 | 125 | 22 471 | 5 551 | 422 |
| 2018 | 416 | 81 555 | 5 097 | 93 | 18 399 | 5 053 | 323 |
| 2019 | 496 | 88 431 | 5 604 | 104 | 19 373 | 5 372 | 392 |
| 2020 | 591 | 86 829 | 6 809 | 104 | 18 524 | 5 626 | 487 |
| 2021 | 743 | 99 073 | 7 497 | 126 | 17 104 | 7 367 | 617 |
| 2022 | 1 022 | 89 149 | 11 461 | 163 | 16 487 | 9 911 | 859 |
| 2023 | 845 | 82 445 | 10 252 | 102 | 11 643 | 8 770 | 743 |
| 2024 | 639 | 85 591 | 7 468 | 76 | 12 363 | 6 149 | 563 |
| 2025 | 655 | 92 287 | 7 102 | 69 | 10 702 | 6 409 | 587 |
Fonte: cálculos próprios com base nos dados do Trade Dashboard.
1. A União Europeia consolida-se como exportador líquido dominante de caseína
1.1. O saldo comercial reforçou-se significativamente ao longo da década
A UE é estruturalmente um exportador líquido de CN 3501 e essa posição acentuou-se ao longo do período analisado. O saldo comercial passou de 415 milhões de euros em 2015 para 587 milhões de euros em 2025, um aumento de 41,4 %. O ponto mais alto registou-se em 2022, com 859 milhões de euros de saldo positivo, impulsionado pelo pico de preços das exportações. A dependência líquida de importações passou de −14,1 % para −62,4 %, o que confirma o papel cada mais relevante da UE como fornecedor líquido ao mercado global.
1.2. As importações sofreram uma contração acentuada
As importações extra-UE de CN 3501 diminuíram de forma consistente ao longo do período, tanto em volume como em valor:
| Período | Valor das importações | Volume das importações | Preço médio |
|---|---|---|---|
| 2015 | 139 M€ | 23 153 t | 5 995 €/t |
| 2018 | 93 M€ | 18 399 t | 5 053 €/t |
| 2022 | 163 M€ | 16 487 t | 9 911 €/t |
| 2025 | 69 M€ | 10 702 t | 6 409 €/t |
| Variação 2015–2025 | −50,6 % | −53,8 % | +6,9 % |
O volume de importações caiu 53,8 %, passando de 23 153 toneladas para apenas 10 702 toneladas. Esta queda reflete o aumento da capacidade produtiva interna e uma progressiva substituição de importações. Note-se que, apesar do volume ter diminuído continuamente, o valor das importações atingiu um máximo pontual de 163 milhões de euros em 2022, devido ao forte aumento dos preços nesse ano — evidenciando que a pressão inflacionária no mercado global de lacticínios compensou parcialmente a redução quantitativa.
1.3. As exportações mantiveram-se resilientes em volume, com crescimento moderado
O volume total de exportações cresceu apenas 5,9 % ao longo da década (de 87 138 para 92 287 toneladas), mas este crescimento modesto escondeu dinâmicas internas muito distintas entre os dois subprodutos. O valor das exportações aumentou 18,3 %, atingindo 655 milhões de euros em 2025 — embora este valor fique bem abaixo do pico de 1 022 milhões registado em 2022. A propensão para exportar aumentou de 33,1 % para 44,4 %, sinalizando uma crescente orientação da produção europeia para os mercados externos.
2. Reorientação geográfica: a ascensão da China e a diversificação dos mercados
2.1. A China tornou-se o principal motor de crescimento das exportações
A transformação mais marcante na geografia comercial das exportações de CN 3501 foi o crescimento explosivo das exportações para a China. O valor das vendas para o mercado chinês passou de 13 milhões de euros em 2015 para 83 milhões de euros em 2025, um aumento de 519 %. Este crescimento reflete a procura crescente da China por proteínas lácteas, alimentada pela expansão do setor alimentar e de nutrição esportiva asiático, bem como por eventuais restrições à importação de origem oceânica. A China passou assim de destino marginal a um dos cinco principais mercados de exportação da UE para este produto.
2.2. A Nova Zelândia perdeu relevância como fornecedor
Do lado das importações, a Nova Zelândia — historicamente o principal fornecedor extra-UE de caseínas — registou uma quebra acentuada. O valor das importações provenientes da Nova Zelândia diminuiu de 90 milhões de euros para 33 milhões de euros (−63,7 %), refletindo simultaneamente o aumento da produção interna europeia e a reorientação das exportações neozelandesas para mercados asiáticos. A Ucrânia, segundo maior fornecedor, também viu as suas exportações para a UE diminuírem de 27 para 18 milhões de euros (−31,8 %), embora a Bielorrússia tenha registado um ligeiro crescimento (+37,0 %).
2.3. A concentração das parcerias comerciais diminuiu
A concentração do comércio (HHI) diminuiu tanto nas importações como nas exportações, confirmando uma tendência de diversificação:
| Dimensão | HHI 2015 | HHI 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 4 666 | 3 446 | −26,1 % |
| Exportações (valor) | 1 482 | 937 | −36,8 % |
O HHI das importações desceu de um nível de elevada concentração (4 666) para uma concentração moderada (3 446), enquanto o das exportações se manteve sempre abaixo do limiar de concentração (1 500), tornando-se ainda mais disperso (937). Isto indica que os fluxos de exportação da UE estão repartidos por uma base geográfica cada vez mais ampla, reduzindo a dependência de qualquer destino individual.
2.4. A Irlanda emerge como a potência exportadora europeia
Dentro da UE, a distribuição dos fluxos de exportação reconfigurou-se de forma significativa:
| Estado-Membro | Exportações 2015 (€ M) | Exportações 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Irlanda | 177 | 312 | +76,5 % |
| França | 97 | 148 | +52,2 % |
| Alemanha | 105 | 72 | −31,1 % |
| Polónia | 30 | 46 | +54,8 % |
| Países Baixos | 141 | 47 | −66,3 % |
| Espanha | 0,4 | 15 | +3 501 % |
Fonte: Top exporters within EU.
A Irlanda tornou-se o maior exportador europeu de CN 3501, com 312 milhões de euros em 2025 e um índice de vantagem comparativa revelada (RCA) de 16,7, refletindo a forte especialização do setor lacticínio irlandês. Em contraste, os Países Baixos — que em 2015 eram o segundo maior exportador — registaram uma queda de 66,3 %, passando de 141 para 47 milhões de euros. A Alemanha também perdeu quota (−31,1 %), enquanto a Espanha surgiu como um novo ator relevante, crescendo de valores residuais para 15 milhões de euros. A propensão para exportar da UE como um todo subiu de 33,1 % para 44,4 %, confirmando a crescente internacionalização do setor.
2.5. Os destinos de exportação tornaram-se mais estáveis e diversificados
Embora os Estados Unidos se tenham mantido como principal destino de exportação (150 milhões de euros em 2025, praticamente estável em relação a 2015), outros mercados ganharam importância:
| Destino | Exportações 2015 (€ M) | Exportações 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 152 | 150 | −1,3 % |
| México | 37 | 64 | +73,4 % |
| China | 13 | 83 | +519 % |
| Reino Unido | 23 | 36 | +60,6 % |
| Federação Russa | 14 | 18 | +25,4 % |
| Coreia do Sul | 18 | 25 | +43,1 % |
Fonte: Top partners.
Do lado das importações, a redução da dependência da Nova Zelândia foi parcialmente compensada por uma ligeira diversificação, embora o Reino Unido (−81,1 %), a Índia (−80,0 %) e os Estados Unidos (−62,7 %) tenham também perdido relevância como fornecedores para a UE.
3. O choque de preços de 2022 e a reconfiguração do mix produtivo
3.1. O ano de 2022 marcou um pico de preços sem precedentes
O ano de 2022 foi marcado por uma escalada acentuada dos preços no mercado global de caseína, impulsionada por fatores como a crise energética europeia, as disrupções nas cadeias de abastecimento pós-COVID e o conflito na Ucrânia. Os choques de preço detetados nos dados incluem:
| Destino | Tipo de choque | Ano | Desvio (anomalia) | Variação de preço | Quota do valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Estados Unidos | Preço | 2022 | 14,3 | +68,8 % | 33,6 % |
| Tailândia | Preço | 2022 | 10,0 | +71,0 % | 3,3 % |
| Tunísia | Preço | 2022 | 16,6 | +55,0 % | 2,2 % |
O preço médio de exportação das caseínas (350110) atingiu 10 955 €/t em 2022, face a 6 591 €/t em 2015 — um aumento de 66 %. Os caseinatos (350190) registaram uma subida ainda mais acentuada, de 6 124 para 12 605 €/t (+106 %). Este pico inflou o valor total das exportações para 1 022 milhões de euros em 2022 — o máximo da série — apesar de o volume ter sido inferior ao de 2021. Os preços entretanto normalizaram-se em 2024–2025, situando-se em torno de 6 887 €/t para caseínas e 7 734 €/t para caseinatos nas exportações.
3.2. As exportações de caseinatos sofreram uma redução estrutural
Uma das dinâmicas mais significativas do período foi a divergência entre os dois subprodutos no que respeita às exportações:
| Ano | Caseínas (350110) — Exportações (t) | Caseinatos (350190) — Exportações (t) | Quota das caseínas |
|---|---|---|---|
| 2015 | 43 244 | 43 894 | 50 % |
| 2017 | 45 446 | 46 751 | 49 % |
| 2018 | 55 008 | 26 547 | 67 % |
| 2020 | 62 445 | 24 384 | 72 % |
| 2022 | 61 788 | 27 361 | 69 % |
| 2025 | 68 924 | 23 362 | 75 % |
Fonte: Segment breakdown.
Até 2017, os dois subprodutos tinham volumes de exportação praticamente idênticos (~45 000 t cada). A partir de 2018, verificou-se uma queda abrupta nas exportações de caseinatos, que caíram para cerca de 26 000–27 000 toneladas, enquanto as caseínas cresceram para 55 000–69 000 toneladas. Em 2025, as caseínas representavam já 75 % do volume exportado. Em valor, a disparidade é ainda mais acentuada: as exportações de caseínas passaram de 285 para 475 milhões de euros (+66,5 %), enquanto as de caseinatos desceram de 269 para 181 milhões de euros (−32,7 %).
Do lado das importações, a redução foi generalizada mas mais pronunciada nos caseinatos: o volume de importações de caseinatos (350190) despenhou de 4 721 toneladas em 2015 para apenas 1 168 toneladas em 2025 (−75,3 %), enquanto as importações de caseínas caíram de 18 431 para 9 534 toneladas (−48,2 %).
3.3. A volatilidade dos preços varia significativamente entre parceiros
O coeficiente de variação (CV) dos preços revela padrões distintos de volatilidade consoante o parceiro comercial:
Exportações — Menor volatilidade (mercados estáveis):
| Destino | CV |
|---|---|
| Reino Unido | 0,12 |
| Estados Unidos | 0,13 |
| Coreia do Sul | 0,15 |
| Japão | 0,17 |
Importações — Maior volatilidade (fornecedores instáveis):
| Origem | CV |
|---|---|
| Austrália | 1,53 |
| Reino Unido | 1,20 |
| China | 1,18 |
| México | 1,39 |
| Japão | 1,33 |
Os mercados de destino das exportações da UE tendem a apresentar preços mais estáveis, com destaque para o Reino Unido (CV = 0,12) e os Estados Unidos (CV = 0,13), o que sugere relações comerciais consolidadas e previsíveis. Em contraste, as importações apresentam volatilidade muito superior, com fornecedores como a Austrália (CV = 1,53) e o Reino Unido (CV = 1,20) a registarem flutuações de preço muito acentuadas — possivelmente refletindo menor volume de transações e maior sensibilidade a fatores conjunturais.
Conclusão
O mercado europeu de caseína (CN 3501) evoluiu de forma marcante entre 2015 e 2025. A UE consolidou-se como um exportador líquido cada vez mais dominante, com um saldo comercial que atingiu 587 milhões de euros em 2025 e uma dependência líquida de importações de −62,4 %. A produção interna cresceu 59 % em volume e 79 % em valor, alimentando uma base exportadora robusta.
Três dinâmicas estruturais definiram a década: (i) a acentuada queda das importações (−53,8 % em volume), particularmente da Nova Zelândia; (ii) a reorientação geográfica das exportações, com a China a tornar-se o principal motor de crescimento (+519 %); e (iii) o pico de preços de 2022, que elevou temporariamente o valor das exportações para mais de mil milhões de euros. A nível interno, a Irlanda emergiu como a principal potência exportadora europeia, enquanto os Países Baixos e a Alemanha perderam quota significativa.
A reconfiguração do mix produtivo — com as caseínas a passarem de 50 % para 75 % do volume de exportações em detrimento dos caseinatos — constitui uma mudança estrutural que merece monitorização, uma vez que pode refletir alterações na procura global, na estratégia de valorização da matéria-prima ou na regulamentação alimentar. A crescente diversificação dos parceiros comerciais (HHI em descida) é um fator positivo de resiliência, embora a concentração das importações permaneça num nível moderadamente elevado.