Evolução do mercado: Dextrinas e amidos modificados (CN 3505) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro 3505 abrange dextrinas e outros amidos e féculas modificados (incluindo amidos pré-gelatinizados ou esterificados), bem como colas à base de amidos, féculas ou dextrinas. Trata-se de um setor com aplicações industriais diversificadas — desde a indústria alimentar e papelera até adesivos e têxteis. A União Europeia é, historicamente, uma potência exportadora líquida nestes produtos.
O período analisado, de 2015 a 2025, foi marcado por transformações profundas: a pandemia de COVID-19, a escalada de preços das matérias-primas energéticas e agrícolas em 2021–2022, o conflito na Ucrânia e o Brexit. Este relatório descreve e interpreta as principais dinâmicas comerciais observadas nos dados, organizando a análise em três eixos: a evolução dos volumes e preços, a reconfiguração das parcerias geográficas e a volatilidade e choques registados nos últimos anos.
Visão geral do mercado no Trade Dashboard
1. Valor em forte crescimento apesar da estagnação dos volumes: a inflação dos preços como motor principal
A União Europeia consolidou a sua posição de superávite comercial
Entre 2015 e 2025, o saldo comercial da UE no setor CN 3505 passou de 511,4 milhões EUR para 723,3 milhões EUR, um crescimento de 41,4%. Este superávite estrutural reflecte o papel dominante da UE como exportador global de amidos e féculas modificados. O valor das exportações cresceu de 624,2 milhões EUR para 858,1 milhões EUR (+37,5%), enquanto o valor das importações aumentou de 112,7 milhões EUR para 134,8 milhões EUR (+19,6%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor, milhões EUR) | 624,2 | 858,1 | +37,5% |
| Importações (valor, milhões EUR) | 112,7 | 134,8 | +19,6% |
| Saldo comercial (milhões EUR) | 511,4 | 723,3 | +41,4% |
A dependência líquida de importações passou de -19,6% para -48,0%, confirmando que a UE se tornou ainda mais exportadora líquida ao longo da década.
Os volumes permaneceram praticamente estáveis ou em ligeiro declínio
Contrariamente ao crescimento do valor, os volumes comercializados apresentaram uma trajetória de estagnação ou ligeiro recuo. As exportações em tonelagem caíram de 681.102 t para 596.296 t (-12,5%), enquanto as importações diminuíram de 90.667 t para 86.911 t (-4,1%).
| Fluxo | Volume 2015 (t) | Volume 2025 (t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Exportações | 681.102 | 596.296 | -12,5% |
| Importações | 90.667 | 86.911 | -4,1% |
Isto significa que todo o crescimento do valor comercial foi gerado por aumentos de preços, não por expansão real de volumes.
Os preços unitários subiram significativamente, reflectindo pressões inflacionárias
O preço médio de exportação subiu de 916 EUR/t para 1.439 EUR/t (+57,0%), enquanto o preço médio de importação aumentou de 1.243 EUR/t para 1.551 EUR/t (+24,7%). O pico de preços de exportação foi atingido em 2023, com 1.740 EUR/t, antes de recuar parcialmente em 2025.
| Preço médio (EUR/t) | 2015 | Pico | 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Exportação | 916 | 1.740 (2023) | 1.439 | +57,0% |
| Importação | 1.243 | 1.748 (2022) | 1.551 | +24,7% |
O segmento de dextrinas e amidos modificados (350510), que domina o comércio, apresentou um preço de exportação que subiu de 920 EUR/t em 2015 para 1.820 EUR/t no pico de 2023, antes de descer para 1.496 EUR/t em 2025. O segmento de colas (350520) mostrou uma evolução semelhante mas com preços mais baixos (de 854 EUR/t para 1.079 EUR/t no pico de 2023 e 925 EUR/t em 2025).
A produção interna da UE cresceu em valor muito acima do crescimento em volume
A produção industrial da UE cresceu apenas 5,9% em quantidade (de 1.846 milhões kg para 1.956 milhões kg), mas duplicou em valor (de 1.122 milhões EUR para 2.333 milhões EUR, +107,9%). Este desfasamento confirma que a inflação de preços das matérias-primas e dos custos de produção foi o principal driver da evolução nominal do setor.
A propensão exportadora subiu de 27,9% para 39,3% (+41,1%), sugerindo que uma parte crescente da produção europeia é destinada a mercados externos.
2. Reconfiguração geográfica do comércio: colapso da Rússia, ascensão da Turquia e da Ucrânia e diversificação das importações
A Rússia deixou de ser um destino relevante para as exportações da UE
A transformação mais marcante no mapa comercial do CN 3505 foi o virtual desaparecimento das exportações da UE para a Federação Russa. De 51,7 milhões EUR em 2015, as exportações caíram para apenas 1,7 milhões EUR em 2025 (-96,6%). O valor máximo registado no período foi de 78,0 milhões EUR, o que evidencia a magnitude da ruptura. Esta queda abrupta é consistente com as sanções comerciais impostas após 2022 e a reorientação estratégica das relações económicas UE-Rússia.
| Parceiro (exportações) | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 88,7 | 129,0 | +45,3% |
| Turquia | 58,2 | 72,9 | +25,4% |
| China | 60,3 | 56,1 | -7,0% |
| Federação Russa | 51,7 | 1,7 | -96,6% |
| Japão | 45,0 | 57,3 | +27,3% |
| Estados Unidos | 52,7 | 75,8 | +43,9% |
| Coreia do Sul | 21,5 | 42,9 | +99,2% |
Principais parceiros por valor — exportações
A Turquia e a Ucrânia tornaram-se fornecedores relevantes do lado das importações
Do lado das importações, a evolução mais notável foi a ascensão da Turquia e da Ucrânia como parceiros. As importações da Turquia cresceram de 0,7 milhões EUR para 10,1 milhões EUR (+1.325,5%), enquanto as da Ucrânia passaram de valores residuais (560 EUR) para 10,3 milhões EUR. A China também aumentou significativamente a sua presença, de 1,6 milhões EUR para 10,1 milhões EUR (+521,5%).
| Parceiro (importações) | 2015 (M EUR) | 2025 (M EUR) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Tailândia | 23,1 | 20,1 | -12,8% |
| Reino Unido | 42,5 | 23,2 | -45,4% |
| Estados Unidos | 31,8 | 36,4 | +14,3% |
| Turquia | 0,7 | 10,1 | +1.325,5% |
| Ucrânia | 0,0006 | 10,3 | — |
| Sérvia | 1,3 | 5,9 | +365,2% |
| China | 1,6 | 10,1 | +521,5% |
Principais parceiros por valor — importações
O Reino Unido perdeu peso como fornecedor mas ganhou importância como cliente
O Brexit teve impactos assimétricos. Do lado das importações, o Reino Unido passou de 42,5 milhões EUR para 23,2 milhões EUR (-45,4%), reflectindo provavelmente a introdução de barreiras alfandegárias e procedimentos aduaneiros adicionais. No entanto, como destino de exportações, o Reino Unido consolidou a sua posição: de 88,7 milhões EUR para 129,0 milhões EUR (+45,3%), tendo atingido um pico de 195,0 milhões EUR em 2022. Isto sugere que, apesar das novas barreiras, a proximidade geográfica e a interdependência industrial continuaram a sustentar o comércio, mas com uma assimetria crescente a favor das exportações da UE.
O comércio tornou-se mais diversificado, tanto nas importações como nas exportações
O índice de concentração HHI das importações caiu de 2.664 para 1.473 (-44,7% em valor), indicando uma diversificação significativa das fontes de abastecimento. Nas exportações, o HHI diminuiu de 724 para 570 (-21,2%), sugerindo uma ligeira dispersão dos destinos.
A especialização produtiva europeia concentra-se no Noroeste
Os Estados-Membros mais especializados na produção de CN 3505 são a Lituânia (RSCA de 0,54), os Países Baixos (0,37), a França (0,32), a Finlândia (0,31) e a Suécia (0,28). Os Países Baixos e a Alemanha dominam as exportações intra-UE e extra-UE, com os Países Baixos a representarem sozinhos 282,5 milhões EUR em exportações em 2025 (+50,0% face a 2015) e a Alemanha 237,1 milhões EUR (+32,3%). Do lado das importações, a Alemanha é o principal importador intra-UE (55,3 milhões EUR em 2025).
3. Volatilidade e choques de preço: o biênio 2022–2023 como ponto de rutura
O biênio 2022–2023 concentrou os maiores choques de preço do período
A análise de eventos de choque revelou três eventos principais, todos de natureza inflacionária:
| Evento | Tipo | Fluxo | Anomalia | Variação (%) | Participação no valor (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Turquia, 2022 | Preço | Importações | 55,7 | +48,5% | 7,0% |
| Coreia do Sul, 2023 | Preço | Exportações | 12,2 | +47,3% | 4,8% |
| Estados Unidos, 2022 | Preço | Exportações | 9,8 | +27,2% | 11,8% |
O choque mais intenso registou-se nas importações da Turquia em 2022, com uma anomalia de 55,7 desvios-padrão e uma subida de preço de 48,5%. Este evento é consistente com a escalada de custos energéticos e de matérias-primas na Europa e na região do Médio Oriente em 2022, bem como com a desvalorização da lira turca, que pode ter alterado as condições de oferta.
A volatilidade das importações é superior à das exportações
O coeficiente de variação (CV) das importações é consistentemente mais elevado do que o das exportações para a maioria dos parceiros. Os parceiros com maior volatilidade nas importações são a Turquia (CV de 0,93) e a Ucrânia (CV de 0,88), o que reflecte a natureza recente e instável destes fluxos comerciais emergentes.
Do lado das exportações, a Federação Russa apresenta a maior volatilidade (CV de 0,70), reflexo direto da interrupção abrupta do comércio. As exportações para o Reino Unido (CV de 0,05) e o Japão (CV de 0,12) são as mais estáveis, sugerindo relações comerciais maduras e previsíveis.
| Parceiro | CV Importações | CV Exportações |
|---|---|---|
| Turquia | 0,93 | 0,24 |
| Ucrânia | 0,88 | 0,14 |
| Reino Unido | 0,56 | 0,05 |
| China | 0,48 | 0,28 |
| Estados Unidos | 0,15 | 0,15 |
| Federação Russa | — | 0,70 |
O segmento de colas (350520) ganhou peso relativo nas importações
Uma dinâmica menos visível mas relevante é o crescimento do segmento de colas à base de amidos (350520) nas importações. Em volume, as importações de colas passaram de 3.817 t em 2015 para 14.174 t em 2025, um crescimento de 271%. Em valor, passaram de 3,2 milhões EUR para 13,8 milhões EUR (+329%). Em contraste, as importações de dextrinas e amidos modificados (350510) diminuíram de 86.850 t para 72.737 t (-16,2%). Esta evolução sugere uma procura crescente de colas importadas, possivelmente ligada à indústria de embalagens ou construção, enquanto o fornecimento interno de amidos modificados se manteve robusto.
Nas exportações, o segmento 350510 permanece esmagadoramente dominante (802,5 milhões EUR em 2025, contra 55,6 milhões EUR para 350520), embora o volume exportado de amidos modificados tenha descido de 639.012 t para 536.216 t (-16,1%).
Conclusão
O mercado europeu de dextrinas e amidos modificados (CN 3505) entre 2015 e 2025 é uma história de resiliência nominal face a transformações estruturais. Apesar de os volumes comercializados terem permanecido estáveis ou em ligeiro declínio, o valor do comércio cresceu significativamente, impulsionado por uma subida acentuada dos preços — particularmente no biênio 2022–2023, quando os choques inflacionários globais se fizeram sentir em cheio no setor.
Do ponto de vista geográfico, a reconfiguração foi profunda. A perda da Rússia como destino de exportação (de 51,7 milhões EUR para 1,7 milhões EUR) foi parcialmente compensada pelo crescimento noutras parcerias — Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão e Reino Unido absorveram parte significativa da capacidade exportadora europeia. Do lado das importações, a emergência da Turquia, Ucrânia, Sérvia e China como fornecedores contribuiu para uma diversificação saudável das fontes de abastecimento.
A UE consolidou a sua posição como exportador líquido estrutural, com o superávite comercial a atingir 723 milhões EUR em 2025 e a dependência líquida de importações a aprofundar-se para -48%. A especialização produtiva concentra-se nos Países Baixos, Alemanha, França e países nórdicos, que respondem pela maior parte da produção e das exportações do bloco. A principal incerteza para o período 2025–2030 prende-se com a evolução dos preços das matérias-primas energéticas e agrícolas, que continuarão a condicionar a competitividade do setor a nível global.