Evolução do mercado: Obras de madeira (CN 44) — 2015–2025
Introdução
O código Nomenclatura Combinada 44 abrange um leque alargado de produtos — desde a madeira em bruto e o carvão vegetal até painéis, obras de marcenaria e embalagens de madeira. A União Europeia, enquanto bloco, assume uma posição líquida de exportador neste setor: ao longo do período 2015–2025, a balança comercial manteve-se estruturalmente positiva, variando entre os ~5,8 mil milhões de EUR (mínimo) e os ~9,9 mil milhões de EUR (mínimo/máximo conforme o ano). Este relatório analisa a evolução das trocas comerciais da UE com países terceiros, com destaque para a divergência entre volumes e valores, a reconfiguração geopolítica dos fornecedores e a dinâmica por segmento de produto.
Tabela de dados gerais — CN 44
1. A grande divergência: volumes em queda e valores em forte crescimento
1.1. As exportações cresceram em valor mas recuaram em quantidade
Entre 2015 e 2025, o valor das exportações da UE de produtos da CN 44 para países terceiros subiu de 15,2 mil milhões de EUR para 19,9 mil milhões de EUR (+30,6%). No entanto, o volume exportado desceu de 33,3 milhões de toneladas para 31,1 milhões de toneladas (-6,5%). Isto significa que o crescimento nominal do valor foi inteiramente impulsionado pela subida dos preços médios de exportação, que passaram de 457 EUR/t para 639 EUR/t (+39,7%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor exportações (mil M EUR) | 15,2 | 19,9 | +30,6 |
| Volume exportações (milhões t) | 33,3 | 31,1 | −6,5 |
| Preço médio exportação (EUR/t) | 457 | 639 | +39,7 |
1.2. As importações sofreram uma contração de volume ainda mais acentuada
Do lado das importações, o padrão é semelhante mas mais pronunciado: o valor cresceu 17,4% (de 9,2 mil M EUR para 10,8 mil M EUR), mas o volume caiu 37,8% (de 36,8 milhões de t para 22,9 milhões de t). O preço médio de importação praticamente duplicou (+88,9%), passando de 250 EUR/t para 471 EUR/t. Esta escalada de preços reflete tanto a inflação de matérias-primas como o efeito de substituição de fornecedores tradicionais de baixo custo.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor importações (mil M EUR) | 9,2 | 10,8 | +17,4 |
| Volume importações (milhões t) | 36,8 | 22,9 | −37,8 |
| Preço médio importação (EUR/t) | 250 | 471 | +88,9 |
1.3. O pico de 2021–2022 marca a transição entre ciclos
O valor máximo das exportações foi atingido em 2022 (25,3 mil M EUR) e o das importações em 2022 (15,9 mil M EUR), correspondendo ao choque de preços pós-COVID e ao início do conflito na Ucrânia. A partir de 2023, tanto importações como exportações recuaram em valor, embora os preços médios se tenham mantido em patamares historicamente elevados — sugerindo que a "normalização" se deu mais pelo lado do volume do que pelo lado dos preços.
2. Reconfiguração geopolítica: o colapso das importações da Rússia e Bielorrússia
2.1. A Rússia e a Bielorrússia passaram de fornecedores-chave a fornecedores residuais
A transformação mais marcante do período foi o desaparecimento quase total das importações de madeira provenientes da Rússia e da Bielorrússia. Em 2015, a Rússia era o maior fornecedor extra-UE de madeira (1,5 mil M EUR) e a Bielorrússia o terceiro (430 M EUR). Em 2025, as importações da Rússia caíram para 197 mil EUR (−100%) e as da Bielorrússia para 11 mil EUR (−100%). Esta queda abrupta está diretamente ligada às sanções europeias impostas após a invasão da Ucrânia em 2022.
| Fornecedor | 2015 (mil M EUR) | Máximo | Ano máx. | 2025 (mil M EUR) | Var. 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Rússia | 1,50 | 3,16 | 2021 | 0,0002 | −100% |
| Bielorrússia | 0,43 | 1,37 | 2019 | 0,00001 | −100% |
| Ucrânia | 0,76 | 1,84 | 2021 | 1,37 | +80,4% |
| Noruega | 0,48 | 1,03 | 2025 | 1,03 | +111,5% |
| Brasil | 0,43 | 1,09 | 2021 | 0,70 | +61,6% |
Evolução dos parceiros de importação
2.2. A Noruega, a Ucrânia e o Brasil preencheram o vazio
Os parceiros que mais cresceram como fornecedores foram a Noruega (de 485 M EUR para 1.025 M EUR, +111,5%), a Ucrânia (que, apesar da guerra, manteve um papel relevante com 1.372 M EUR em 2025) e o Brasil (de 434 M EUR para 701 M EUR, +61,6%). A elevada volatilidade associada à Rússia (coeficiente de variação de 0,71) e à Bielorrússia (CV de 0,73) confirma a instabilidade destas relações comerciais, contrastando com a relativa estabilidade da Noruega (CV de 0,11) e da Suíça (CV de 0,11).
Volatilidade dos parceiros comerciais
2.3. As exportações mantiveram parceiros mais estáveis, com destaque para os EUA
Do lado das exportações, o Reino Unido (de 3,6 mil M EUR para 4,7 mil M EUR, +32,2%) e a Suíça (de 1,5 mil M EUR para 2,1 mil M EUR, +38,7%) mantiveram-se como os maiores mercados de destino. O crescimento mais espetacular foi o dos Estados Unidos (+172,6%), que passaram de 934 M EUR para 2.547 M EUR. A China cresceu 42,9% mas com elevada volatilidade (CV de 0,59), refletindo a sensibilidade deste comércio às flutuações cambiais e às políticas comerciais.
3. Dinâmicas por segmento de produto: a madeira serrada domina, mas o mix está a mudar
3.1. A madeira serrada (CN 4407) é o segmento dominante no comércio externo da UE
A CN 4407 — madeira serrada ou fendida longitudinalmente é, de longe, o maior segmento nas exportações (8,0 mil M EUR em 2025, representando ~40% do total) e o maior nas importações (1,7 mil M EUR). No entanto, as importações de madeira serrada caíram drasticamente em volume — de 6,1 milhões de t em 2015 para 2,3 milhões de t em 2025 (−62%), com o preço médio a duplicar (de 367 EUR/t para 741 EUR/t). Esta contração reflete fortemente a perda do fornecimento russo e bielorrusso.
3.2. A madeira em bruto (CN 4403) viveu um ciclo de exportação explosivo seguido de normalização
A CN 4403 — madeira em bruto testemunhou a dinâmica mais impressionante em exportações: o volume passou de 3,9 milhões de t (2015) para um pico de 16,2 milhões de t (2021), antes de recuar para 4,8 milhões de t em 2025. Este ciclo reflete a procura excecional de matéria-prima durante e após a pandemia, seguida de normalização. O valor das exportações deste segmento subiu de 504 M EUR (2015) para um pico de 2.317 M EUR (2021), fixando-se em 1.032 M EUR em 2025 — ainda assim, mais do dobro do valor inicial.
3.3. Os painéis (CN 4410, 4411, 4412) e as obras de marcenaria (CN 4418) mostram resiliência
Os segmentos de maior valor acrescentado — painéis de partículas/OSB (CN 4410), painéis de fibras (CN 4411), contraplacados (CN 4412) e obras de marcenaria/carpintaria (CN 4418) — mantiveram volumes de exportação relativamente estáveis ao longo da década, mas registaram subidas de preço significativas. Por exemplo, as exportações da CN 4418 passaram de 2.670 M EUR em 2015 para 3.142 M EUR em 2025, com volumes estáveis (~1,1–1,4 milhões de t) mas preços a subir de 2.044 EUR/t para 2.691 EUR/t. A CN 4412 (contraplacados) exportada apresentou preços de 1.181 EUR/t em 2015, subindo para 1.912 EUR/t no pico de 2022, fixando-se em 1.814 EUR/t em 2025.
3.4. A especialização produtiva da UE concentra-se nos Estados bálticos e na Finlândia
Em termos de vantagem comparativa revelada (RSCA), os Estados-Membros mais especializados na produção/exportação de produtos da CN 44 são a Letónia (RSCA de 0,856), a Estónia (0,840), a Croácia (0,656), a Lituânia (0,629) e a Finlândia (0,609). Do lado oposto, Malta, Chipre e a Irlanda apresentam os índices de especialização mais baixos. Dentro da UE, a Alemanha é simultaneamente o maior importador (1,4 mil M EUR em 2025) e o maior exportador (3,4 mil M EUR), refletindo o seu papel de centro de transformação e reexportação. A Suécia é o segundo maior exportador (3,0 mil M EUR) e os Países Baixos o segundo maior importador (1,4 mil M EUR).
Países da UE mais especializados na CN 44
Conclusão
O mercado europeu do comércio externo de madeira e obras de madeira (CN 44) atravessou, entre 2015 e 2025, uma transformação estrutural profunda. Embora a UE se tenha mantido como exportador líquido ao longo de todo o período — com uma balança comercial que cresceu 50,8%, atingindo ~9,1 mil M EUR em 2025 —, a composição e a geografia deste comércio alteraram-se radicalmente. A perda quase total dos fornecimentos da Rússia e da Bielorrússia (que representavam, em conjunto, mais de 2 mil M EUR em 2015) forçou uma reconfiguração das cadeias de abastecimento, com ganhos para a Noruega, o Brasil e, em certa medida, a Ucrânia. Simultaneamente, a divergência entre volumes (em queda) e valores (em crescimento) evidencia um efeito-preço dominante: os preços médios de importação subiram 88,9% e os de exportação 39,7%, refletindo tanto a inflação global como a pressão sobre a oferta de matéria-prima. A crescente propensão exportadora da UE (de 7,7% para 18,8% do valor de produção) e a intensificação do comércio com países terceiros (de 11,7% para 26,4%) sugerem que o setor madeireiro europeu se tornou significativamente mais internacionalizado e exposto a dinâmicas geopolíticas externas.