Evolução do mercado: Lenha (CN 4401) — 2015–2025
Introdução
O código NC 4401 abrange um conjunto alargado de produtos de madeira de baixa transformação: lenha, madeira em estilhas ou partículas, serradura, desperdícios e resíduos de madeira — incluindo os seus aglomerados sob a forma de pellets, briquetes e toros. Trata-se de uma posição aduaneira estrategicamente relevante para a transição energética europeia, uma vez que os pellets de madeira se consolidaram como uma alternativa aos combustíveis fósseis no aquecimento residencial e na produção de energia.
Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE nesta posição foi marcado por três grandes dinâmicas: (i) a consolidação dos pellets como produto dominante, em detrimento de estilhas e resíduos; (ii) uma profunda reconfiguração das cadeias de abastecimento de importação, sobretudo após as sanções impostas à Rússia e à Bielorrússia em 2022; e (iii) uma escalada acentuada dos preços, impulsionada pela crise energética e por choques de oferta. O perfil geral do produto no Trade Dashboard permite contextualizar estes dados.
No total, o valor das importações da UE (extra-UE) subiu de 759 M€ em 2015 para 1 340 M€ em 2025 (+76,6%), enquanto o das exportações passou de 376 M€ para 662 M€ (+75,9%). Apesar do crescimento em valor, as quantidades importadas diminuíram 14,1% (de 9,99 Mt para 8,58 Mt), refletindo uma subida de preços muito superior à do volume — a tonelada média importada passou de 76 € para 156 € (+105,5%).
1. A ascensão dos pellets e a transformação da estrutura segmentar do mercado
1.1. Os pellets tornaram-se o segmento dominante nas importações
A decomposição por subprodutos revela uma mudança estrutural profunda na composição das importações da UE. Em 2015, as estilhas de coníferas (NC 440121) representavam a maior categoria em volume, com 2,27 Mt, seguidas pelos pellets de madeira (NC 440131) com 2,56 Mt. Em 2025, os pellets dominam claramente, com 4,45 Mt — um crescimento de 74% — enquanto as estilhas de coníferas colapsaram para 0,51 Mt (−77,5%).
| Segmento | Descrição | Volume importado 2015 (t) | Volume importado 2025 (t) | Variação |
|---|---|---|---|---|
| NC 440131 | Pellets de madeira | 2 555 534 | 4 447 086 | +74,0% |
| NC 440121 | Estilhas de coníferas | 2 268 162 | 510 385 | −77,5% |
| NC 440122 | Estilhas de não coníferas | 1 452 119 | 1 296 558 | −10,7% |
| NC 440139 | Desperdícios aglomerados (excl. pellets/briquetes) | 2 028 582 | 23 327 | −98,9% |
| NC 440149 | Desperdícios não aglomerados | s.d. (desde 2022) | 1 145 830 | — |
Fonte: Segmentação por produto — importações
1.2. O crescimento dos pellets reflete a procura energética e a produção europeia
A produção interna da UE de lenha e produtos associados cresceu de 49,7 Mt para 60,9 Mt em quantidade (+22,6%) e de 3 264 M€ para 6 649 M€ em valor (+103,7%). Contudo, a procura interna de pellets ultrapassou a capacidade de produção doméstica, obrigando a importações crescentes. Os Estados Bálticos e os países nórdicos especializaram-se fortemente na produção e exportação: a Letónia, a Estónia e a Croácia apresentam os maiores índices de vantagem comparativa revelada (RCA de 33,4, 29,8 e 12,0, respetivamente), como se pode verificar na análise de especialização.
1.3. A queda dos resíduos aglomerados e a reclassificação dos desperdícios
Uma tendência menos evidente, mas igualmente significativa, é o quase desaparecimento das importações de desperdícios de madeira aglomerados em toros (NC 440139): de 2,03 Mt em 2015 para apenas 23 327 t em 2025. Em contrapartida, a categoria de desperdícios não aglomerados (NC 440149) — com dados disponíveis a partir de 2022 — atingiu 1,15 Mt em 2025, sugerindo uma reclassificação estatística e/ou uma mudança nas formas de comercialização destes resíduos.
2. Choques geopolíticos e a reconfiguração radical das origens de importação
2.1. Rússia e Bielorrússia: do papel central à marginalização quase total
A dinâmica mais marcante do período é a eliminação das importações provenientes da Rússia e da Bielorrússia. Em 2015, a Rússia era o principal fornecedor extra-UE, com 191 M€ em valor, tendo atingido um máximo de 426 M€ antes de colapsar para praticamente zero em 2022–2025 (10 € em 2025). A Bielorrússia seguiu uma trajetória semelhante, de 60 M€ em 2015 para valores residuais (10 385 € em 2025). Este colapso está diretamente associado às sanções europeias à importação de madeira e produtos lenhosos russos e bielorrussos, adotadas no contexto do conflito na Ucrânia.
| País fornecedor | Valor importação 2015 (M€) | Valor importação 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Federação Russa | 191 | ~0 | −100,0% |
| Bielorrússia | 60 | ~0 | −100,0% |
| Estados Unidos | 127 | 379 | +197,8% |
| Brasil | 23 | 165 | +612,0% |
| Ucrânia | 63 | 159 | +151,1% |
| Noruega | 31 | 67 | +118,0% |
| Uruguai | 64 | 63 | −1,4% |
Fonte: Principais parceiros — importações
2.2. Estados Unidos e Brasil preenchem o vazio deixado pela Rússia
Os Estados Unidos tornaram-se o maior fornecedor extra-UE, com importações a subir de 127 M€ para 379 M€ (+197,8%), atingindo um máximo de 681 M€ em 2023. O Brasil registou o crescimento mais espetacular: de 23 M€ para 165 M€ (+612%), com um pico de 206 M€ em 2023. A Ucrânia, apesar do conflito armado em curso, manteve e até ampliou o seu fornecimento à UE (de 63 M€ para 159 M€), refletindo a reorientação do comércio ucraniano para oeste após a perda de acesso a mercados orientais.
2.3. Os Estados-membros importadores também se reconfiguraram
Do lado dos importadores dentro da UE, as mudanças foram igualmente pronunciadas. A Dinamarca e os Países Baixos tornaram-se os maiores importadores (239 M€ e 233 M€, respetivamente), enquanto a Finlândia — historicamente um importador relevante — reduziu as suas importações de 82 M€ para 4 M€ (−95,5%). A Bélgica passou de 153 M€ para 37 M€ (−75,9%). A França registou o crescimento mais acentuado, de 6 M€ para 272 M€ (+4 379%), refletindo provavelmente uma combinação de maior procura de pellets e reorientação logística.
| Estado-membro | Valor importação 2015 (M€) | Valor importação 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Dinamarca | 61 | 239 | +290,0% |
| Países Baixos | 18 | 233 | +1 182% |
| França | 6 | 272 | +4 379% |
| Bélgica | 153 | 37 | −75,9% |
| Itália | 110 | 117 | +6,4% |
| Finlândia | 82 | 4 | −95,5% |
Fonte: Principais Estados-membro — importações
2.4. As exportações da UE concentram-se no Reino Unido e na Europa não-UE
No lado das exportações, o Reino Unido é de longe o principal destino, com 421 M€ em 2025 (63,6% do total), crescendo 97,5% face a 2015. A Suíça (95 M€), a Noruega (69 M€) e os Balcãs Ocidentais (Sérvia, Macedónia do Norte) ganharam relevância. Em contraste, as exportações para a Turquia despenharam de 33 M€ para 1 M€ (−96,9%). A Letónia tornou-se o maior exportador da UE, com 294 M€ em 2025, ultrapassando a Alemanha (87 M€).
3. Escalada de preços, volatilidade e sustentabilidade da dependência externa
3.1. Uma subida de preços sem precedentes, agravada em 2022
Os preços médios do comércio externo de lenha dispararam ao longo do período, mas a subida mais acentuada ocorreu em 2021–2022, coincidindo com a crise energética europeia e o início do conflito na Ucrânia. O preço médio de importação subiu de 76 €/t em 2015 para um máximo de 167 €/t em 2022, antes de estabilizar em 156 €/t em 2025. Os preços de exportação seguiram uma trajetória semelhante, de 133 €/t para 197 €/t.
| Ano | Preço médio importação (€/t) | Preço médio exportação (€/t) |
|---|---|---|
| 2015 | 76,0 | 133,4 |
| 2018 | 92,7 | 154,1 |
| 2020 | 85,3 | 165,1 |
| 2022 | 166,7 | 233,7 |
| 2023 | 145,1 | 212,7 |
| 2025 | 156,1 | 197,2 |
Fonte: Visão geral do comércio
3.2. Choques de preços identificados em 2022: Ucrânia, Reino Unido e Brasil
A análise de choques de oferta detetou três eventos de anomalia significativa em 2022:
| Fluxo | Parceiro | Tipo de choque | Anomalia | Variação (%) |
|---|---|---|---|---|
| Importação | Ucrânia | Preço | 134,7 | +104,0% |
| Exportação | Reino Unido | Preço | 82,9 | +56,3% |
| Importação | Brasil | Preço | 15,7 | +55,4% |
O choque de preços nas importações ucranianas (anomalia de 134,7) é o mais extremo do período e reflete tanto a destruição de infraestruturas logísticas como a escassez de oferta que elevou os preços de forma abrupta. No entanto, a volatilidade histórica das importações ucranianas é relativamente baixa (CV de 0,08), sugerindo que o fornecimento era estável antes do choque. Em contraste, as importações do Vietnã apresentam a maior volatilidade (CV de 1,66), embora em volumes menores.
3.3. A dependência externa manteve-se controlada graças à produção interna
Apesar das disrupções no comércio, a dependência líquida de importações da UE manteve-se moderada: de 10,9% em 2015 para 10,3% em 2025, com um máximo de 16,9% durante o período de maior pressão. A intensidade comercial situou-se entre 21% e 27%, enquanto a propensão para exportar rondou os 7%. Estes indicadores sugerem que a UE, apesar de ser estruturalmente importadora líquida de lenha (défice de 678 M€ em 2025), dispõe de uma base produtiva interna robusta que limita a vulnerabilidade a choques externos.
O HHI de concentração das importações em valor manteve-se estável (1 317 → 1 331), indicando que as importações permanecem dispersas por múltiplos fornecedores. Já o HHI das exportações é significativamente mais elevado (3 567 → 4 390), refletindo a forte concentração das exportações da UE no mercado britânico.
Conclusão
O mercado europeu da lenha (CN 4401) atravessou uma transformação profunda entre 2015 e 2025. Os pellets de madeira consolidaram-se como o produto central desta posição aduaneira, impulsionando tanto o crescimento das importações em valor como a expansão da produção interna europeia. A dependência de fornecedores russos e bielorrussos — dominantes antes de 2022 — foi eliminada por via de sanções, gerando uma rápida reorientação para os Estados Unidos, o Brasil e a Ucrânia.
A escalada de preços observada, particularmente em 2022, reflete a convergência de fatores energéticos e geopolíticos, mas a UE demonstrou uma capacidade de adaptação notável: a dependência líquida de importações manteve-se abaixo de 11%, sustentada por uma produção doméstica em crescimento. Contudo, a crescente concentração das exportações no Reino Unido (63,6% do total exportado em 2025) constitui um risco de dependência que merece acompanhamento.
No horizonte, a trajetória do mercado dependerá da evolução da procura de biomassa para energia, da estabilidade do fornecimento ucraniano e da capacidade dos novos fornecedores (EUA, Brasil, Uruguai) de preencher de forma sustentável o espaço deixado pela Rússia.