Evolução do mercado: Papel e cartão (CN 48) — 2015–2025
Introdução
O código aduaneiro CN 48 abrange o papel e cartão em bruto e transformado, incluindo produtos tão diversos como papel de jornal, papel para escrita e impressão, papel kraft para embalagens, papel higiénico, caixas de cartão ondulado, etiquetas, e uma vasta gama de artigos acabados de pasta de celulose. Trata-se de um sector estrategicamente relevante para a União Europeia, que se posiciona como exportador líquido estrutural — a sua dependência líquida de importações situou-se entre −9,7 % e −15,7 % ao longo de todo o período analisado.
O período 2015–2025 foi marcado por transformações profundas: uma escalada acentuada dos preços — impulsionada pela pandemia, pela crise energética europeia de 2022 e pela inflação generalizada —, uma reconfiguração geopolítica das parcerias comerciais (com o colapso do comércio com a Rússia e o crescimento da China e da Turquia), e uma mudança estrutural na composição dos fluxos, com o declínio acentuado dos papéis gráficos e a ascensão das embalagens. Este relatório analisa estas três dinâmicas com base nos dados disponíveis.
1. A grande divergência: volumes em queda, valores em alta
Uma das características mais marcantes do período foi o desacoplamento entre a evolução dos volumes comercializados e a evolução dos valores. Os preços médios dispararam, especialmente a partir de 2021, fazendo com que o valor total do comércio se mantivesse elevado mesmo com uma quebra significativa de toneladas.
1.1. As exportações da UE perderam quase 20 % em volume, mas cresceram em valor
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de papel e cartão passaram de 24,6 milhões de toneladas para 19,7 milhões de toneladas, uma queda de −19,8 %. Contudo, o valor total das exportações subiu de €24,6 mil milhões para €25,5 mil milhões (+3,5 %). A explicação reside na escalada do preço médio de exportação, que subiu de €1 000/t para €1 291/t (+29,1 %), atingindo um pico de €1 446/t em 2022.
| Indicador | 2015 | 2022 (pico) | 2025 | Variação 2015–2025 |
|---|---|---|---|---|
| Volume (Mt) | 24,6 | 22,5 | 19,7 | −19,8 % |
| Valor (€ mil M) | 24,6 | 31,3 | 25,5 | +3,5 % |
| Preço médio (€/t) | 1 000 | 1 446 | 1 291 | +29,1 % |
1.2. As importações cresceram acentuadamente em valor, apesar de volumes praticamente estáveis
O padrão das importações revela um desequilíbrio ainda mais pronunciado. O volume importado subiu apenas 1,9 % (de 6,7 para 6,8 milhões de toneladas), mas o valor das importações cresceu 36,6 %, passando de €7,7 mil milhões para €10,6 mil milhões. O preço médio das importações subiu de €1 157/t para €1 551/t (+34,0 %), tendo atingido um máximo de €1 775/t em 2022 — o que sugere que os fornecedores externos à UE conseguiram transmitir os custos acrescidos com maior intensidade.
1.3. O excedente comercial mantém-se robusto, mas em erosão
A UE manteve um excedente comercial estrutural ao longo de todo o período, mas este sofreu uma erosão: passou de €16,9 mil milhões em 2015 para €14,9 mil milhões em 2025 (−11,6 %). O mínimo foi registado em 2023 (€14,8 mil milhões). A combinação de volumes exportados em queda com importações que crescem em valor — puxadas sobretudo por fornecedores asiáticos — explica esta compressão. A intensidade comercial da UE neste sector subiu de 17,9 % para 22,2 %, e a propensão exportadora de 13,8 % para 16,8 %, sinalizando uma maior abertura do sector ao comércio internacional.
2. Reconfiguração geopolítica das parcerias comerciais
O período 2015–2025 assistiu a uma profunda reconfiguração geográfica dos fluxos comerciais da UE em papel e cartão, com o desaparecimento quase total da Rússia como parceiro e a ascensão acentuada da China e da Turquia, tanto do lado das importações como — no caso da China — das exportações.
2.1. O colapso do comércio com a Rússia
A Rússia passou de parceiro comercial significativo a residual no espaço de dois a três anos. Do lado das importações, o valor caiu de €356 milhões em 2015 para apenas €2,9 milhões em 2025 (−99,2 %). Do lado das exportações, o colapso foi igualmente dramático: de €1 420 milhões para €131 milhões (−90,8 %). A volatilidade associada a este parceiro é a mais elevada de todos os principais parceiros, com um coeficiente de variação de 0,66 nas importações e 0,67 nas exportações. Este movimento reflete claramente as sanções impostas após a invasão da Ucrânia em 2022 e a subsequente desvinculação económica.
2.2. A ascensão da China e da Turquia
Em contraste com a Rússia, a China tornou-se uma presença dominante no fornecimento de papel e cartão à UE. As importações provenientes da China cresceram 139,8 % em valor, passando de €1 402 milhões para €3 362 milhões — tornando a China a maior fonte de importações extra-UE, ultrapassando o Reino Unido. A Turquia apresentou um crescimento ainda mais espetacular (+183,9 %), de €306 milhões para €868 milhões. Do lado das exportações da UE, a China também cresceu como destino (+14,8 %), passando a €877 milhões em 2025.
| Parceiro | Importações 2015 (€ M) | Importações 2025 (€ M) | Variação | Exportações 2015 (€ M) | Exportações 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|---|---|---|
| China | 1 402 | 3 362 | +139,8 % | 764 | 877 | +14,8 % |
| Turquia | 306 | 868 | +183,9 % | 1 336 | 1 556 | +16,5 % |
| Rússia | 356 | 3 | −99,2 % | 1 420 | 131 | −90,8 % |
| Reino Unido | 1 938 | 1 640 | −15,4 % | 5 605 | 4 935 | −12,0 % |
| EUA | 1 086 | 932 | −14,2 % | 2 312 | 3 286 | +42,1 % |
2.3. Concentração crescente nas importações, mas diversificação das exportações
A concentração das importações, medida pelo índice HHI (Herfindahl-Hirschman), aumentou de 1 366 para 1 525 (+11,6 %), sinalizando uma maior dependência de um número mais reduzido de fornecedores — em particular a China. Em contraste, o HHI das exportações diminuiu de 808 para 737 (−8,8 %), indicando que a UE diversificou os seus mercados de destino. A concentração por volume das importações, porém, baixou de 1 157 para 1 015 (−12,3 %), sugerindo que, em termos físicos, a UE procurou fontes mais diversificadas. Entre os Estados-Membros mais especializados na exportação de papel e cartão destacam-se a Finlândia (RSCA = 0,71) e a Suécia (RSCA = 0,55), refletindo a tradição nórdica na indústria papeleira. A Alemanha continua a ser o maior exportador em valor absoluto (€5,6 mil milhões em 2025), seguida da Suécia (€3,9 mil milhões) e da Finlândia (€2,8 mil milhões).
3. A transformação dos segmentos produto: do papel gráfico para as embalagens
Por trás dos agregados macro, esconde-se uma transformação estrutural profunda na composição do comércio. Os segmentos ligados à impressão e escrita entram em declínio acentuado, enquanto as embalagens de papel e cartão ganham peso crescente.
3.1. O declínio irreversível do papel gráfico e do papel de jornal
O segmento CN 4801 (papel de jornal) sofreu um desmoronamento nas exportações: o volume passou de 1,3 milhões de toneladas em 2015 para apenas 267 mil toneladas em 2025 (−79,5 %), e o valor caiu de €574 milhões para €144 milhões (−74,9 %). Este declínio reflete a transição digital dos media e a redução da procura de papel para impressão jornalística em todo o mundo. O CN 4802 (papel para escrita e impressão) apresentou uma trajetória semelhante, com uma queda de 29,2 % nas exportações em volume (de 3,8 para 2,3 milhões de toneladas). Do lado das importações, o CN 4801 também perdeu relevância (−17,5 % em volume), embora com recuperação parcial em 2022–2023, possivelmente ligada a perturbações no abastecimento.
3.2. O crescimento consistente das embalagens e do papel revestido
Em contraste, o CN 4819 (caixas, sacos e embalagens de papel e cartão) tornou-se o segmento dominante nas importações. O volume importado subiu de 571 mil toneladas para 790 mil toneladas (+38,3 %), e o valor cresceu 61,5 %, passando de €1 392 milhões para €2 247 milhões. Em 2022, o valor atingiu um pico de €2 768 milhões, refletindo a pressão inflacionista e o aumento da procura de embalagens sustentáveis. O CN 4810 (papel e cartão revestidos de caulim), principal segmento de exportação da UE, perdeu 40,8 % em volume (de 8,2 para 4,9 milhões de toneladas), mas manteve o seu peso em valor relativo graças à escalada de preços — o preço médio subiu de €742/t para €1 042/t.
| Segmento (CN) | Exportações Vol. 2015 (kt) | Exportações Vol. 2025 (kt) | Var. Vol. | Importações Vol. 2015 (kt) | Importações Vol. 2025 (kt) | Var. Vol. |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 4801 — Papel de jornal | 1 301 | 267 | −79,5 % | 913 | 753 | −17,5 % |
| 4802 — Papel para escrita | 3 766 | 2 313 | −38,6 % | 773 | 680 | −12,1 % |
| 4804 — Kraft | 2 395 | 3 056 | +27,6 % | 1 267 | 670 | −47,1 % |
| 4805 — Outro papel não revestido | 3 214 | 4 588 | +42,7 % | 827 | 832 | +0,6 % |
| 4810 — Revestido de caulim | 8 217 | 4 866 | −40,8 % | 1 032 | 1 145 | +11,0 % |
| 4811 — Papel revestido (outros) | 1 680 | 1 418 | −15,6 % | 342 | 387 | +13,3 % |
| 4819 — Embalagens | 1 128 | 1 077 | −4,5 % | 571 | 790 | +38,3 % |
3.3. Choques de preço em 2022 e a resiliência da produção europeia
O ano de 2022 foi um ponto de rutura em termos de preços. Foram detetados choques de preço significativos nas exportações para a Ucrânia (anomalia de 106,7, com um salto de +30,2 % nos preços), nas importações da Noruega (anomalia de 34,5, +39,9 %) e nas exportações para os EUA (anomalia de 32,4, +38,7 %). Estes episódios refletem a crise energética europeia subsequente à invasão da Ucrânia, que afetou os custos de produção de pasta e papel na UE. Apesar destas perturbações, a produção europeia de papel e cartão revelou resiliência: a produção cresceu em termos de valor de €97,9 mil milhões para €152,1 mil milhões (+55,3 %), refletindo a subida generalizada de preços. A propensão exportadora subiu de 13,8 % para 16,8 %, indicando que a indústria europeia manteve a sua orientação para os mercados externos mesmo num contexto adverso.
Conclusão
O mercado europeu de papel e cartão (CN 48) entre 2015 e 2025 passou por uma tripla transformação. Em primeiro lugar, registou-se uma divergência acentuada entre volumes e valores: os preços subiram entre 29 % e 34 %, mascarando uma contração real de quase 20 % nos volumes exportados. Em segundo lugar, a geografia do comércio foi redesenhada: a Rússia praticamente desapareceu como parceiro comercial (−99 % nas importações), enquanto a China consolidou a sua posição como principal fornecedor extra-UE (com importações a duplicar), e os EUA se tornaram o segundo maior destino de exportação da UE. Em terceiro lugar, a composição produto deslocou-se decisivamente do papel gráfico — em declínio estrutural acelerado — para as embalagens e papéis técnicos, que ganharam peso crescente, tanto em importações como em valor acrescentado.
A UE mantém a sua posição de exportador líquido estrutural, com um excedente de €14,9 mil milhões em 2025. No entanto, a crescente concentração das importações (HHI em subida) e a dependência crescente de fornecedores asiáticos representam riscos de vulnerabilidade que merecem acompanhamento. A crise de 2022 demonstrou que os preços do papel e cartão são altamente sensíveis a choques energéticos e geopolíticos, com implicações diretas para os custos das embalagens em toda a cadeia de valor europeia.