Evolução do mercado: Papel Kraft (CN 4804) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativamente à posição pautal CN 4804 — "Papel e cartão, Kraft, não revestidos, em rolos ou em folhas, exceto os das posições 4802 e 4803" — no período compreendido entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025. Esta posição abrange uma família alargada de produtos, incluindo kraftliner, papel kraft para sacos (sack kraft), e diversos tipos de papel e cartão kraft não revestidos, conforme detalhado na secção de âmbito e definições. O período em análise é particularmente relevante por incluir múltiplos choques estruturais — desde a pandemia de COVID-19 até às sanções comerciais impostas à Rússia e à crise energética europeia de 2022 — cujos efeitos se refletem de forma visível nos fluxos comerciais do papel kraft.
1. A consolidação da UE como potência exportadora líquida de papel kraft
1.1. Exportações em crescimento sustentado ao longo de toda a década
As exportações da UE de papel kraft para países terceiros apresentaram uma trajetória de crescimento quase ininterrupta ao longo do período analisado. Em valor, as exportações passaram de €1.700,9 milhões (2015) para €2.579,0 milhões (2025), uma variação positiva de +51,6% (Dados gerais de comércio). Em volume, o crescimento foi de 2.394,5 mil toneladas para 3.055,5 mil toneladas (+27,6%), o que indica que parte significativa do crescimento em valor resultou de aumentos de preço, e não apenas de maiores volumes exportados.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor exportações (€ M) | 1.700,9 | 2.579,0 | +51,6% |
| Volume exportações (mil t) | 2.394,5 | 3.055,5 | +27,6% |
| Preço médio exportação (€/t) | 710,3 | 844,0 | +18,8% |
O pico de exportações em valor ocorreu em 2022, com €3.125,0 milhões, impulsionado sobretudo pela escalada de preços registada nesse ano. Em volume, o máximo situou-se em 2024, com 3.216,6 mil toneladas, sugerindo uma recuperação de mercado pós-pandemia que culminou nesse ano.
1.2. Queda acentuada das importações: retração em volume e reorientação geográfica
Em contraste claro com as exportações, as importações da UE de papel kraft sofreram uma contração significativa. O valor das importações desceu de €734,5 milhões (2015) para €514,3 milhões (2025), uma queda de -30,0%. O declínio em volume foi ainda mais expressivo: de 1.266,8 mil toneladas para 670,5 mil toneladas (-47,1%).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Valor importações (€ M) | 734,5 | 514,3 | -30,0% |
| Volume importações (mil t) | 1.266,8 | 670,5 | -47,1% |
| Preço médio importação (€/t) | 579,8 | 767,1 | +32,3% |
O preço médio das importações subiu 32,3% (de €580/t para €767/t), o que atenuou parcialmente a queda em valor face à muito maior contração verificada em volume. Isto sugere que a UE passou a importar menos papel kraft, mas sobretudo de fornecedores com preços mais elevados ou de segmentos de maior valor acrescentado.
1.3. Uma balança comercial estruturalmente superavitária
A combinação do crescimento das exportações com a contração das importações resultou numa melhoria substancial da balança comercial. O excedente passou de €966,4 milhões em 2015 para €2.064,7 milhões em 2025, mais que duplicando (+113,6%). O máximo registado foi em 2022, com €2.350,1 milhões, refletindo o efeito combinado de exportações recorde e importações comprimidas.
O índice de dependência líquida de importações confirma esta dinâmica: a UE passou de um valor de -14,5% em 2015 para -41,4% em 2025 (valores negativos indicam posição exportadora líquida). A dependência mínima registou-se em 2023 (-43,8%), evidenciando que a posição exportadora da UE se acentuou fortemente na segunda metade da década.
2. O choque de preços de 2022 e a sua propagação nos segmentos de produto
2.1. Um pico de preços generalizado, mas desigual entre subprodutos
O ano de 2022 marcou uma descontinuidade marcante na evolução dos preços de praticamente todos os subprodutos abrangidos pela CN 4804. A análise dos eventos de choque de abastecimento identifica três choques de preço nas exportações em 2022:
| Destino | Tipo de choque | Anormalidade | Variação | Participação no valor |
|---|---|---|---|---|
| Estados Unidos | Preço | 62,1 | +52,6% | 6,3% |
| México | Preço | 39,8 | +58,2% | 5,0% |
| Argélia | Preço | 15,7 | +53,8% | 2,5% |
Estes choques refletem o contexto macroeconómico de 2022: a crise energética europeia, a inflação generalizada das matérias-primas e as disrupções nas cadeias de abastecimento pós-COVID elevaram significativamente os custos de produção, transmitidos para os preços de exportação. O coeficiente de variação (CV) das exportações para os EUA (0,28) e para a China (0,33) é moderado, sugerindo relações comerciais estáveis apesar da volatilidade pontual, enquanto as importações de fornecedores como a Austrália (CV 1,42) ou a Arábia Saudita (CV 1,18) apresentaram uma volatilidade muito superior, indicando fluxos comerciais mais esporádicos e sensíveis a choques (Volatilidade).
2.2. Divergência de impacto entre subprodutos nas importações
O impacto do choque de preços de 2022 variou significativamente entre subprodutos. Nos segmentos de importação, o subproduto 480421 (papel kraft para sacos, cru) registou o maior pico, com um preço médio de importação de €1.228,6/t em 2022 — mais do dobro dos €655,3/t de 2015. Este subproduto foi particularmente afetado por fornecedores como a Rússia e a África do Sul, cujos fluxos se alteraram drasticamente.
Por outro lado, o subproduto 480439 (papel kraft de peso ≤ 150 g/m², não cru) registou preços de importação persistentemente elevados — €1.795,0/t em 2022 — mas este segmento já apresentava preços significativamente acima da média desde o início do período (€1.247,0/t em 2015), refletindo a sua natureza de produto mais especializado.
| Subproduto | Preço importação 2015 (€/t) | Preço importação 2022 (€/t) | Preço importação 2025 (€/t) |
|---|---|---|---|
| 480411 (Kraftliner cru) | 505,8 | 810,4 | 628,5 |
| 480419 (Kraftliner, não cru) | 607,2 | 834,2 | 785,2 |
| 480421 (Sack kraft, cru) | 655,3 | 1.228,6 | 899,5 |
| 480439 (Kraft ≤150 g/m²) | 1.247,0 | 1.795,0 | 1.489,6 |
| 480441 (Kraft 150-225 g/m², cru) | 621,0 | 832,0 | 909,2 |
Após o pico de 2022, os preços recuaram em 2023-2024, mas em 2025 mantinham-se ainda claramente acima dos níveis pré-choque, sugerindo que parte da subida de custos se tornou estrutural.
2.3. Os preços de exportação acompanharam o choque, mas com recuperação mais rápida
Nos preços de exportação, o padrão foi semelhante mas com uma recuperação mais pronunciada após 2022. O preço médio de exportação do kraftliner cru (480411) atingiu €763,0/t em 2022, face a €497,4/t em 2015, mas recuou para €567,3/t em 2025 — muito abaixo do pico. Em contraste, o papel kraft para sacos (480421) manteve preços de exportação elevados (€911,0/t em 2025), sugerindo procura resiliente deste segmento junto dos parceiros comerciais extra-UE.
3. Reestruturação geográfica: novos parceiros, novas vulnerabilidades
3.1. A perda da Rússia como fornecedor e a diversificação das importações
A transformação mais marcante no mapa das importações da UE de papel kraft ao longo do período foi a eliminação quase total da Rússia como fornecedor. Em 2015, a Rússia era o segundo maior fornecedor de papel kraft da UE, com importações no valor de €137,3 milhões. Em 2025, esse valor desceu para €3,2 mil — uma queda de -100% (Principais parceiros por valor). Este colapso reflete as sanções comerciais impostas no contexto do conflito Rússia-Ucrânia e evidencia a exposição que a UE tinha a este fornecedor.
| Fornecedor | Importações 2015 (€ M) | Importações 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 362,5 | 257,2 | -29,1% |
| Rússia | 137,3 | 0,003 | -100,0% |
| Brasil | 34,6 | 74,0 | +114,1% |
| África do Sul | 64,0 | 28,7 | -55,2% |
| Reino Unido | 36,3 | 54,5 | +50,2% |
| Bósnia e Herzegovina | 27,9 | 42,8 | +53,5% |
| Canadá | 19,7 | 12,2 | -38,3% |
Para compensar a perda da Rússia, a UE reforçou as importações do Brasil (+114,1%), do Reino Unido (+50,2%) e da Bósnia e Herzegovina (+53,5%). Contudo, os EUA mantiveram-se como o principal fornecedor, com €257,2 milhões em 2025, embora com uma redução de -29,1% face a 2015. A concentração das importações por valor (HHI) manteve-se relativamente estável em torno de 2.949, um valor que indica uma concentração moderada — significativamente superior à concentração das exportações (HHI de 557), refletindo uma base de fornecedores mais estreita.
3.2. Reino Unido e Turquia como destinos de crescimento nas exportações
Do lado das exportações, o crescimento geográfico foi liderado por parceiros estratégicos distintos. O Reino Unido manteve-se como o principal destino, com exportações a crescerem de €299,6 milhões para €437,0 milhões (+45,9%), refletindo a proximidade geográfica e a intensificação das relações comerciais pós-Brexit.
| Destino | Exportações 2015 (€ M) | Exportações 2025 (€ M) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 299,6 | 437,0 | +45,9% |
| Turquia | 113,9 | 240,9 | +111,5% |
| Egito | 67,8 | 108,2 | +59,7% |
| China | 81,3 | 72,9 | -10,3% |
| EUA | 66,5 | 166,0 | +149,6% |
| Índia | 54,8 | 92,7 | +69,1% |
| México | 56,8 | 120,5 | +112,3% |
Os crescimentos mais expressivos verificaram-se nos EUA (+149,6%), Turquia (+111,5%) e México (+112,3%), sugerindo que a indústria europeia de papel kraft reforçou a sua presença em mercados com elevada procura de embalagens e papel para sacos. A China, apesar de ter sido um destino crescente no período 2015-2021, registou uma ligeira queda de -10,3% em 2025, possivelmente refletindo a desaceleração económica chinesa e o crescimento da capacidade produtiva doméstica.
3.3. Especialização produtiva e papel dos Estados-Membros
A análise de especialização revela uma concentração geográfica acentuada da produção e exportação de papel kraft dentro da UE. Os cinco Estados-Membros mais especializados em 2025 foram:
| País | RCA | RSCA | Quota na produção EU |
|---|---|---|---|
| Finlândia | 10,99 | 0,833 | 11,0% |
| Suécia | 10,73 | 0,829 | 25,8% |
| Áustria | 4,26 | 0,620 | 14,1% |
| Portugal | 3,04 | 0,505 | 4,2% |
| Chéquia | 2,53 | 0,434 | 12,2% |
A Suécia e a Finlândia dominam as exportações da UE: em 2025, a Suécia exportou €847,0 milhões e a Finlândia €436,7 milhões, representando juntas quase metade do total das exportações da UE (Principais exportadores por valor). A Alemanha registou o crescimento mais espetacular entre os exportadores, passando de €79,2 milhões em 2015 para €460,6 milhões em 2025 (+481,8%), consolidando-se como terceiro maior exportador da UE.
3.4. Autonomia crescente e menor vulnerabilidade estrutural
A evolução conjunta dos indicadores de propensão exportadora e intensidade comercial indica uma europeização crescente da cadeia de valor do papel kraft. A propensão exportadora da UE subiu de 28,4% (2015) para 36,9% (2025) — com um máximo de 37,5% em 2024 — enquanto a intensidade comercial manteve-se estável em torno de 41,4%. A produção total da UE cresceu de 6.288,3 mil toneladas para 8.463,2 mil toneladas (+34,6%) em volume, e de €3.666,6 milhões para €6.887,2 milhões (+87,8%) em valor, evidenciando uma expansão produtiva que sustentou o crescimento das exportações.
Em termos de vulnerabilidade, a posição da UE é de forte autonomia: o índice de dependência líquida de importações de -41,4% em 2025 significa que a UE exporta significativamente mais papel kraft do que importa. A perda do fornecedor russo, embora significativa em termos nominais, foi largamente compensada pela capacidade produtiva interna e pela reorientação para fornecedores alternativos, sem que se tenham verificado disrupções graves no abastecimento.
Conclusão
A análise do período 2015–2025 revela que o mercado europeu de papel kraft (CN 4804) passou por uma transformação estrutural profunda. A UE consolidou a sua posição como potência exportadora líquida, com um excedente comercial que mais do duplicou, atingindo €2.064,7 milhões em 2025. Esta evolução foi sustentada por três fatores principais: o crescimento contínuo da capacidade produtiva interna (especialmente nos países nórdicos e na Alemanha), a retração das importações (acentuada pela perda total do fornecedor russo após 2022) e a diversificação dos mercados de destino, com destaque para a Turquia, o México e os EUA.
O choque de preços de 2022 constituiu um ponto de inflexão que, embora tenha sido parcialmente revertido, deixou marcas duradouras na estrutura de preços do mercado. Os preços em 2025 permanecem significativamente acima dos níveis de 2015, tanto em importação como em exportação, refletindo uma nova realidade de custos energéticos e de matérias-primas mais elevados.
Do ponto de vista da estrutura do mercado, a UE beneficiou de uma concentração geográfica da produção que lhe conferiu vantagens competitivas claras (o HHI das exportações, de apenas 557, é muito inferior ao das importações, de 2.949), ao mesmo tempo que a crescente propensão exportadora e a redução da dependência externa reforçam a resiliência do setor face a potíveis choques futuros. Os principais riscos residem na concentração residual das importações em poucos fornecedores (sobretudo os EUA, que representam a maior quota) e na dependência das exportações para mercados geograficamente distantes e politicamente sensíveis.