Explorar dados em tempo real

Evolução do mercado: papel tissue (CN 4803) — 2015–2025

Introdução

O presente relatório analisa a evolução do comércio da União Europeia com países terceiros para o código pautal 4803, que abrange o papel do tipo utilizado para papel higiénico, toalhitas, toalhas, guardanapos e produtos semelhantes de uso doméstico, higiênico ou toucador, incluindo pasta (ouate) de celulose e mantas de fibras de celulose (Definições e âmbito do produto CN 4803). O período em análise, de 2015 a 2025, abrange um ciclo comercial completo, incluindo a pandemia de COVID-19, a escalada dos preços de energia na Europa e as sanções decorrentes do conflito na Ucrânia. A UE é simultaneamente um grande produtor e consumidor de papel tissue, com uma produção que atingiu os 2.245 milhões de toneladas em 2025 e um valor de produção de 3.148 milhões de euros. O panorama comercial ao longo desta década revelou transformações estruturais significativas, com destaque para o aumento da dependência de importações e a reconfiguração das cadeias de abastecimento.


1. O virar da balança: de excedente estrutural a défice comercial

1.1. A inversão do saldo comercial da UE

A dinâmica mais marcante do período é a transformação radical da posição comercial da UE em papel tissue. Em 2015, a UE registou um excedente comercial de 113,4 milhões de euros face ao resto do mundo. Em 2025, esse excedente converteu-se num défice de 24,7 milhões de euros — uma variação de -121,7%. Esta inversão resultou do crescimento muito mais rápido das importações relativamente às exportações.

Indicador 2015 2025 Variação
Exportações (valor) 296,3 M€ 408,5 M€ +37,9%
Importações (valor) 182,9 M€ 433,2 M€ +136,8%
Saldo comercial +113,4 M€ -24,7 M€ -121,7%

(Evolução do comércio UE)

1.2. Volume vs. valor: a questão dos preços

O crescimento das importações foi ainda mais impressionante em termos de volume: de 151.419 toneladas em 2015 para 369.112 toneladas em 2025, uma variação de +143,8%. As exportações cresceram de 221.222 toneladas para 289.269 toneladas (+30,8%). Curiosamente, enquanto o preço médio das exportações subiu 5,4% (de 1.340 €/t para 1.412 €/t), o preço médio das importações desceu 2,8% (de 1.208 €/t para 1.174 €/t). Este diferencial de preços sugere que as importações se orientaram progressivamente para fornecedores com custos mais competitivos, enquanto as exportações da UE mantiveram um posicionamento de valor acrescentado relativamente mais elevado.

1.3. Dependência líquida de importações: de exportador líquido a equilíbrio precário

O indicador de dependência líquida de importações (net import reliance) confirmou esta tendência, passando de -7,3% em 2015 para -0,55% em 2025, com o ponto mínimo de -10,4% registado noutro momento do período. Valores negativos indicam que a UE era exportadora líquida; a convergência para zero revela uma quase igualdade entre importações e exportações (Dependência líquida de importações).


2. Reconfiguração geográfica: a ascensão de novos fornecedores e destinos

2.1. A revolução nas importações: Indonésia e Turquia lideram o crescimento

A geografia das importações da UE em papel tissue sofreu uma profunda mutação. Os dois maiores fornecedores em 2025 — Turquia (137,4 M€, +204,4%) e Indonésia (129,1 M€, +5.364,1%) — eram marginalmente relevantes no início do período. A Turquia passou de 45,2 M€ para 137,4 M€, consolidando-se como principal fornecedor. Mas o caso mais notável é o da Indonésia, que partiu de apenas 2,4 M€ em 2015 para atingir 129,1 M€ — uma multiplicação por mais de cinquenta vezes. A Ucrânia também registou um crescimento excecional: de 3,2 M€ para 24,6 M€ (+664,4%), refletindo provavelmente a integração comercial progressiva e os acordos de associação com a UE.

Fornecedor 2015 2025 Variação
Turquia 45,2 M€ 137,4 M€ +204,4%
Indonésia 2,4 M€ 129,1 M€ +5.364,1%
Reino Unido 36,1 M€ 19,0 M€ -47,3%
Suíça 17,2 M€ 23,2 M€ +34,5%
Rússia 3,1 M€ 0 M€ -100,0%

(Principais parceiros comerciais por valor)

2.2. O desaparecimento das importações da Rússia

As importações da Rússia praticamente cessaram ao longo do período, passando de 3,1 M€ para apenas 52 euros em 2025 — uma queda de 100%. O pico registou-se noutro momento do período, atingindo os 36,9 M€. Este colapso está diretamente associado às sanções comerciais impostas após 2022, ilustrando como fatores geopolíticos podem reconfigurar rapidamente as cadeias de abastecimento de bens de consumo corrente. O elevado coeficiente de variação (0,89) das importações russas confirma a instabilidade extrema deste fluxo comercial (Volatilidade dos parceiros).

2.3. Exportações: o Reino Unido como âncora, Israel como revelação

Do lado das exportações, o Reino Unido manteve-se como destino dominante, crescendo de 130,0 M€ para 206,0 M€ (+58,4%), representando cerca de metade do valor total das exportações da UE em 2025. Os Estados Unidos foram o segundo maior mercado (45,9 M€, +38,7%). Contudo, o crescimento mais espetacular registou-se em Israel, que passou de 4,0 M€ para 29,8 M€ (+652,8%), e na Bósnia e Herzegovina (de 2,4 M€ para 6,5 M€, +169,3%). A Ucrânia enquanto destino exportador cresceu 225,4%, de 5,0 M€ para 16,1 M€.

Destino 2015 2025 Variação
Reino Unido 130,0 M€ 206,0 M€ +58,4%
Estados Unidos 33,1 M€ 45,9 M€ +38,7%
Israel 4,0 M€ 29,8 M€ +652,8%
Sérvia 16,6 M€ 19,6 M€ +17,8%
Ucrânia 5,0 M€ 16,1 M€ +225,4%

(Principais parceiros por valor)

2.4. Os Estados-Membros: o crescimento assimétrico dos importadores

A análise por Estados-Membros revela disparidades acentuadas. Na frente das importações, Polónia e Roménia registaram crescimentos extraordinários — de 6,3 M€ para 96,6 M€ (+1.438,8%) e de 4,2 M€ para 51,6 M€ (+1.115,6%), respetivamente. A Grécia quase triplicou as suas importações (de 32,1 M€ para 94,7 M€, +194,9%), e a Bulgária também cresceu significativamente (de 6,6 M€ para 24,7 M€, +273,8%). Em contraste, a Alemanha reduziu as importações de 36,6 M€ para 20,7 M€ (-43,4%). Estes dados sugerem uma reconfiguração das rotas de abastecimento dentro e para a Europa de Leste (Principais Estados-Membros por valor).

No que respeita às exportações dos Estados-Membros, a Itália manteve-se como maior exportador (78,5 M€ → 85,0 M€), seguida da Alemanha (47,7 M€ → 49,3 M€). Contudo, os crescimentos mais dinâmicos registaram-se em Portugal (de 1,4 M€ para 12,8 M€, +793,8%) e Grécia (de 10,8 M€ para 43,2 M€, +301,8%), sugerindo uma expansão da capacidade de produção tissue no sul da Europa.


3. Choques, volatilidade e concentração: um mercado sob pressão

3.1. O choque de preços de 2022

O ano de 2022 emergiu como o momento de maior perturbação no período analisado, com três choques de preços significativos detetados (Choques de abastecimento):

Entidade Tipo Fluxo Anomalia Variação
Reino Unido Preço Exportações 172,1 +53,8%
Indonésia Preço Importações 105,9 +76,1%
Sérvia Preço Exportações 105,7 +59,6%

Estes choques coincidiram com a crise energética europeia, que elevou drasticamente os custos de produção de papel, uma indústria intensiva em energia. O choque no preço das exportações para o Reino Unido — com uma anomalia de 172,1 e uma variação de +53,8% — é particularmente relevante dado que este mercado representa a fatia mais significativa das exportações da UE (valor share de 63%). O preço médio das exportações da UE atingiu o seu máximo histórico de 1.760 €/t num dos anos do período, face ao mínimo de 1.169 €/t, refletindo a volatilidade extrema dos custos.

3.2. Padrões de volatilidade por parceiro

O coeficiente de variação (CV) das importações e exportações revela que alguns parceiros comerciais apresentam fluxos muito mais instáveis do que outros. Do lado das importações, a Sérvia (CV = 0,91), a Rússia (0,89) e a Indonésia (0,75) foram os mais voláteis. Do lado das exportações, Israel (CV = 1,40) e México (1,09) apresentaram a maior instabilidade — ambos parceiros com crescimentos recentes muito rápidos e possivelmente baseados em contratos esporádicos (Volatilidade por parceiro).

3.3. Concentração crescente do mercado

O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) revelou um aumento da concentração tanto nas importações como nas exportações. Nas importações, o HHI por valor subiu de 1.428 para 2.097 (+46,9%), e por volume de 1.350 para 2.362 (+74,9%). Nas exportações, o HHI subiu de 2.149 para 2.791 (+29,9%). O aumento da concentração nas importações reflete a emergência de poucos fornecedores dominantes (Turquia e Indonésia), que passaram a representar uma fatia crescente do mercado importador da UE (Concentração HHI). Esta crescente concentração implica um risco acrescido de vulnerabilidade a disrupções em poucos fornecedores.

3.4. Intensidade comercial e abertura do mercado

A intensidade comercial da UE em papel tissue (trade intensity) aumentou de 16,3% para 24,8% (+52,1%), com o máximo do período a atingir 29,5%. A propensão exportadora (export propensity) subiu de 12,0% para 14,4% (+20,1%). A intensidade comercial foi identificada como o indicador mais saliente (salience score de 77,3), indicando que o mercado tissue da UE se tornou significativamente mais integrado no comércio internacional ao longo da década (Intensidade comercial e propensão exportadora).

3.5. Especialização produtiva: quem produz e quem depende?

A análise da vantagem comparativa revelada (RCA) em 2025 mostra que a Suécia (RCA = 5,35), a Grécia (4,26) e a Itália (4,09) são os Estados-Membros mais especializados na produção de papel tissue, enquanto Chipre (0,005), a Dinamarca (0,017) e o Luxemburgo (0,017) são os menos especializados. A especialização da Suécia reflete a tradição da indústria papeleira nórdica, enquanto a posição da Grécia — simultaneamente um dos maiores importadores e um especialista produtor — sugere uma estrutura de mercado onde parte da produção é exportada e parte do consumo é satisfeita por importações (Especialização dos Estados-Membros).


Conclusão

O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural profunda no mercado europeu de papel tissue. A UE passou de uma posição de excedente comercial confortável (+113 M€) para um défice ligeiro (-25 M€), impulsionado por um crescimento excecional das importações, que mais do que duplicaram em valor (+136,8%) e volume (+143,8%). Esta evolução foi alimentada pela emergência de novos fornecedores — com destaque para a Turquia e a Indonésia — e pelo crescimento das importações nos Estados-Membros da Europa de Leste, como Polónia e Roménia.

O ano de 2022 constituiu um ponto de inflexão, com choques de preços significativos associados à crise energética europeia, que afetaram tanto os custos de produção como os preços de transação. A concentração das importações aumentou substancialmente, o que, em simultâneo com a redução da dependência de fornecedores tradicionais (como a Rússia, cujas importações cessaram), criou uma nova configuração de riscos de abastecimento.

A intensidade comercial crescente (de 16,3% para 24,8%) confirma que o mercado tissue europeu se tornou mais aberto e integrado internacionalmente. Contudo, esta abertura traz consigo uma maior exposição a disrupções externas, como demonstraram os choques de 2022 e a elevada volatilidade registada em parceiros como Israel e México. Os decisores políticos e os operadores económicos devem monitorizar atentamente a evolução desta dependência, particularmente face à concentração crescente das fontes de abastecimento.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

Se precisar de aconselhamento sobre a política comercial europeia, ou de representação dos seus interesses em Bruxelas, contacte-me através do endereço support@tradedashboard.eu. Encontrará o meu CV neste endereço.