Evolução do mercado: Papel canelado (CN 4808) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para a posição aduaneira CN 4808, que abrange papel e cartão canelados (ondulados), encrespados, plissados, gofrados, estampados ou perfurados, em rolos ou folhas. Esta posição inclui três subprodutos principais: papel e cartão canelados/ondulados (480810), papel Kraft encrespado ou plissado (480840), e uma categoria residual de papel e cartão crepados, gofrados ou perfurados (480890). O período analisado cobre os anos de 2015 a 2025, abrangendo eventos económicos e geopolíticos marcantes — desde o referendo do Brexit (2016) até à pandemia de COVID-19 (2020–2021) e à invasão da Ucrânia (2022). Com base nos dados disponíveis na visão geral do produto CN 4808, o relatório estrutura-se em três eixos: a dinâmica de preços e volumes, as transformações geográficas do comércio, e a evolução da base produtiva e da autonomia estratégica da UE.
1. Menos toneladas, mais euros: a economia do papel canelado em transformação
A evolução mais marcante do período 2015–2025 é a divergência clara entre volumes e valores. Enquanto os volumes comercializados diminuíram significativamente, os valores em euros cresceram de forma robusta — um padrão que reflete tanto a inflação de preços das matérias-primas como uma eventual valorização acrescida dos produtos transacionados.
1.1. Exportações: crescimento nominal puxado pela escalada de preços
As exportações da UE para países terceiros registaram uma queda acentuada em volume, passando de 173 541 toneladas em 2015 para 115 721 toneladas em 2025, uma redução de 33,3%. No entanto, o valor total das exportações subiu 21,3%, de €156 milhões para €189 milhões. A explicação reside na evolução dos preços médios de exportação, que praticamente duplicaram: de €899/tonelada em 2015 para €1 636/tonelada em 2025 (+81,8%). O pico de valor exportado foi atingido em 2022, com €202,9 milhões, coincidindo com o período de pressão inflacionária global pós-pandemia e após a eclosão do conflito na Ucrânia.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Volume exportado (t) | 173 541 | 115 721 | −33,3% |
| Valor exportado (€) | 156 085 545 | 189 272 090 | +21,3% |
| Preço médio (€/t) | 899 | 1 636 | +81,8% |
Fonte: visão geral do comércio.
1.2. Importações: crescimento mais acentuado no valor
As importações seguiram um padrão semelhante, mas com um crescimento proporcionalmente mais forte em valor. O volume importado desceu 19,4%, de 78 552 para 63 324 toneladas, enquanto o valor cresceu 49,0%, passando de €89 milhões para €133 milhões. O preço médio de importação subiu de €1 134/t para €2 096/t (+84,9%), ultrapassando significativamente o preço médio de exportação — o que sugere que a UE importa produtos de maior valor acrescentado por unidade, ou que os fornecedores externos exercem poder de mercado crescente em certos segmentos.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Volume importado (t) | 78 552 | 63 324 | −19,4% |
| Valor importado (€) | 89 066 135 | 132 739 469 | +49,0% |
| Preço médio (€/t) | 1 134 | 2 096 | +84,9% |
1.3. Saldo comercial: excedente em erosão
A UE manteve-se exportador líquido de papel canelado ao longo de todo o período, mas o excedente comercial sofreu uma erosão notável: de €67,0 milhões em 2015 para €56,5 milhões em 2025 (−15,6%). O ponto mais baixo foi registado em 2022 (€30,8 milhões), ano em que a subida acentuada dos custos de energia na Europa comprimiu margens e as importações dispararam em valor. O índice de dependência líquida de importações permaneceu negativo ao longo de todo o período (indicando posição exportadora líquida), oscilando entre −1,72% (máximo de autonomia em 2020) e −0,34% (mínimo em 2022), situando-se em −0,53% em 2025.
1.4. O papel ondulado como motor dos preços
A análise por subproduto revela dinâmicas diferenciadas. O papel e cartão canelados/ondulados (480810) dominaram em volume, representando entre 45% e 57% das importações e entre 54% e 76% das exportações ao longo do período. No entanto, os preços deste subproduto foram os que mais cresceram: em exportação, passaram de €597/t para €1 075/t (+80%); em importação, de €809/t para €1 664/t (+106%). O subproduto 480840 (papel Kraft encrespado), embora mais pequeno em volume (8 806 t de importações em 2025), apresentou consistentemente os preços mais elevados — €3 650/t em importações em 2025 — e registou o maior crescimento em valor importado, de €13,2 milhões para €20,6 milhões (+56,3%). A categoria residual 480890 manteve volumes estáveis mas com preços em forte subida. Estes dados sugerem uma migração para produtos de maior valor no interior da posição 4808.
2. Geografia do comércio: consolidação, riscos e novos polos
A estrutura geográfica do comércio de papel canelado da UE passou por transformações significativas entre 2015 e 2025, tanto em termos de parceiros externos como de especialização interna dos Estados-Membros.
2.1. O Reino Unido como parceiro dominante — e desafio estrutural
O Reino Unido consolidou-se como o principal parceiro comercial da UE em papel canelado, tanto em importações como em exportações. Em 2025, as exportações para o Reino Unido atingiram €39,2 milhões (20,7% do total) e as importações ascenderam a €50,9 milhões (38,3% do total). A concentração nas importações é particularmente significativa: quase dois quintos de todo o valor importado pela UE provém de um único parceiro. Esta dependência tornou-se mais pronunciada após o Brexit, uma vez que as importações do Reino Unido passaram de €34,3 milhões (2015) para €50,9 milhões (2025), com um pico de €62,3 milhões em 2023. O índice de concentração HHI das importações por valor (2 835 em 2025) confirma um nível moderado-alto de concentração, tendo diminuído ligeiramente face a 2015 (2 980), apesar do crescimento do peso do Reino Unido. O shock de preços detetado nas importações do Reino Unido em 2021 (+61,8%) reflete o efeito combinado das novas barreiras alfandegárias pós-Brexit e da subida global de custos, conforme registado na análise de choques.
2.2. A Suíça como parceiro estável e a ascensão da China e da Sérvia
A Suíça figura consistentemente como segundo parceiro, com €46,2 milhões em importações e €22,3 milhões em exportações em 2025. A relação é estável (coeficiente de variação de apenas 11,9% nas importações e 6,9% nas exportações). Contudo, as transformações mais notáveis ocorreram noutros parceiros:
- China mais que triplicou as suas exportações para a UE: de €4,3 milhões em 2015 para €12,7 milhões em 2025 (+199,2%), com um pico de €15,2 milhões em 2022. Em paralelo, as exportações da UE para a China também cresceram 61,4%, atingindo €9,5 milhões.
- Sérvia emergiu como fornecedor relevante, com importações a UE a crescerem de €1,8 milhões para €5,2 milhões (+196,7%), refletindo o aprofundamento das relações económicas UE-Balcãs Ocidentais.
- Rússia registou uma queda acentuada nas exportações para a UE (−62,4%, de €1,7 milhões para €0,6 milhões), consistente com o isolamento económico resultante das sanções pós-2022.
- Turquia cresceu 71,5% nas exportações para a UE, atingindo €2,7 milhões em 2025.
No ranking dos principais parceiros, o padrão que emerge é o de uma diversificação geográfica moderada nas exportações (HHI de 898 em 2025), contrastando com uma concentração superior nas importações.
2.3. Quem produz e quem consome: a disparidade interna da UE
A análise de especialização dos Estados-Membros revela assimetrias profundas. Os países com maior vantagem comparativa revelada (RSCA) na produção de papel canelado são os Estados Bálticos e a Dinamarca — Letónia (RSCA = 0,655), Lituânia (0,422) e Dinamarca (0,414) —, embora estes representem frações pequenas da produção total da UE. A Alemanha, com um RSCA de 0,294, domina absolutamente a produção europeia com 38,8% do valor total de produção em 2025, consolidando o seu papel como o hub industrial do setor.
Do lado dos importadores, os maiores consumidores de papel canelado de países terceiros em 2025 foram Itália (€26,2 milhões, +30,9% face a 2015), Irlanda (€26,9 milhões, +125,6%) e Alemanha (€17,3 milhões). A Irlanda e a Grécia (+192,9%) registaram os crescimentos mais espetaculares em importações. Nos principais exportadores da UE, a Alemanha (€45,2 milhões), a França (€44,8 milhões) e a Itália (€21,6 milhões) lideram em valor, com a Suécia a registar o maior crescimento relativo (+67,4%).
3. Autonomia estratégica, volatilidade e caminhos para o futuro
O terceiro eixo de análise incide na capacidade da UE de manter autonomia neste setor, na volatilidade das relações comerciais e nas tendências estruturais de produção.
3.1. Produção europeia em crescimento robusto
A produção interna da UE de papel canelado cresceu de forma impressionante ao longo da década. Em volume, passou de 6,79 mil milhões de kg em 2015 para 9,67 mil milhões de kg em 2025 (+42,5%), atingindo um pico de 10,91 mil milhões de kg em 2023. Em valor, o crescimento foi ainda mais acentuado: de €4,0 mil milhões para €7,0 mil milhões (+76,2%), com pico de €9,5 mil milhões em 2022, refletindo a subida de preços. Estes dados, disponíveis na análise de volumes de produção, indicam que o setor europeu não só manteve como expandiu a sua capacidade produtiva, o que explica em parte a redução da intensidade comercial (de 4,45% para 2,06%, −53,6%) e da propensão exportadora (de 2,58% para 1,30%, −49,6%).
3.2. Choques de preços e volatilidade por parceiro
A análise de volatilidade revela disparidades acentuadas entre parceiros comerciais. Nos indicadores de volatilidade, as importações da Noruega apresentam o coeficiente de variação mais elevado (CV = 1,28), acompanhado de um shock de preços extremo em 2021 (+643,5%), embora com peso reduzido no valor total (0,7%). As importações dos Estados Unidos (CV = 1,10) e exportações para a China (CV = 0,84) e para o Reino Unido (CV = 0,75) também apresentam elevada instabilidade. Em contraste, as relações com a Suíça (CV de 11,9% nas importações, 6,9% nas exportações) e com a Bósnia e Herzegovina (7,3%) revelam-se muito estáveis.
O shock mais relevante em termos sistémicos foi o registado nas exportações para os Estados Unidos em 2022 (+36,9%), com uma quota de 14,9% no valor total das exportações, refletindo a pressão inflacionária e os constrangimentos logísticos do pós-pandemia. A recuperação do mercado norte-americano é notável: as exportações da UE para os EUA praticamente duplicaram ao longo do período, de €12,9 milhões para €25,6 milhões (+98,5%), tornando os EUA num destino cada vez mais relevante.
3.3. Concentração e resiliência das exportações
O índice HHI das exportações por valor manteve-se estável e baixo ao longo do período (de 889 em 2015 para 898 em 2025), indicando uma base exportadora diversificada e, em teoria, resiliente. Curiosamente, o HHI em volume das exportações desceu acentuadamente de 2 381 para 1 019 (−57,2%), sugerindo que a concentração volumétrica se reduziu significativamente — as exportações tornaram-se mais dispersas geograficamente em termos de toneladas, embora o valor se mantenha mais concentrado em poucos parceiros de alto valor. Para as importações, o HHI em volume subiu de 2 498 para 2 935 (+17,5%), confirmando uma maior dependência volumétrica de um conjunto mais restrito de fornecedores — o que, em contexto de Brexit e tensões geopolíticas, representa um fator de vulnerabilidade potencial.
Conclusão
O mercado europeu do papel canelado (CN 4808) vivenciou, entre 2015 e 2025, uma profunda transformação estrutural. Os volumes comercializados com países terceiros diminuíram — exportações caíram 33,3% em toneladas, importações 19,4% —, mas os valores em euros cresceram substancialmente (+21,3% e +49,0%, respetivamente), impulsionados por uma escalada de preços que praticamente duplicou em ambos os fluxos. Esta dinâmica reflete tanto a pressão inflacionária global como a valorização dos produtos transacionados.
A UE reforçou simultaneamente a sua base produtiva interna (+42,5% em volume de produção), o que se traduziu numa menor dependência relativa do comércio internacional (intensidade comercial reduzida para metade). O excedente comercial, embora preservado, encontra-se em erosão, tendo atingido o seu mínimo em 2022, ano em que a crise energética europeia e os choques pós-pandemia comprimiram margens.
Do ponto de vista geográfico, o Reino Unido consolidou-se como parceiro dominante, representando 38,3% das importações da UE em valor — uma dependência que, no contexto pós-Brexit, exige monitorização atenta. A China e os Balcãs Ocidentais emergiram como parceiros cada vez mais relevantes, enquanto a Rússia perdeu relevância. As exportações europeias mantiveram-se geograficamente diversificadas, com os EUA a tornarem-se um destino crescentemente estratégico.
Em suma, o setor europeu do papel canelado demonstrou resiliência produtiva e capacidade de adaptação a um período turbulento, mas enfrenta desafios de concentração nas importações, de pressão contínua nos preços e de necessidade de consolidação das cadeias de valor num contexto geopolítico em mutação.