Evolução do mercado: Papel gráfico (CN 4802) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) relativamente à posição pautal CN 4802 — Papel e cartão não revestidos, do tipo utilizado para escrita, impressão ou outros fins gráficos, no período compreendido entre 2015 e 2025. Esta posição engloba um vasto leque de subprodutos, desde papel feito à mão (480210) até papel para fotossensibilização (480220), passando pelas diversas categorias de papel para escrita e impressão em função do gramagem e formato (480254 a 480269).
A análise baseia-se exclusivamente em dados estatísticos do comércio internacional e abrange as exportações e importações da UE com países terceiros, a evolução dos preços unitários, a estrutura geográfica das trocas, os choques de preços detetados e os indicadores de vulnerabilidade e especialização produtiva. O período em análise é particularmente relevante por abringer transformações profundas no setor: a digitalização acelerada dos meios de comunicação, a crise pandémica de 2020, a crise energética europeia de 2022 e as alterações geopolíticas decorrentes do Brexit e das sanções à Rússia.
1. Queda estrutural de volumes e encarecimento persistente do papel gráfico
1.1. Os volumes de exportação da UE registaram uma contração acentuada ao longo da década
O declínio mais marcante no comércio de papel gráfico da UE é observável no lado das exportações. Entre 2015 e 2025, o volume exportado passou de 3 766 152 toneladas para 2 312 631 toneladas, uma redução de -38,6 %. Este declínio foi particularmente pronunciado a partir de 2019, com o mínimo a ser atingido em 2023 (2 281 989 t), antes de uma ligeira recuperação em 2024–2025.
| Indicador | 2015 | 2020 | 2025 | Variação 2015→2025 |
|---|---|---|---|---|
| Exportações (valor, mil M€) | 3,20 | 2,22 | 2,59 | -19,0 % |
| Exportações (volume, kt) | 3 766 | 2 588 | 2 313 | -38,6 % |
| Importações (valor, mil M€) | 0,65 | 0,52 | 0,62 | -4,3 % |
| Importações (volume, kt) | 773 | 632 | 680 | -12,1 % |
| Saldo comercial (mil M€) | 2,55 | 1,59 | 1,97 | -22,8 % |
Fonte: Visão geral do comércio
As importações também diminuíram, mas de forma significativamente mais moderada (-12,1 % em volume), o que sugere que a procura interna da UE por papel gráfico de origem externa se manteve relativamente resiliente face à contração da produção e exportação domésticas. O saldo comercial permaneceu robustamente positivo (€1,97 mil milhões em 2025), mas a sua redução de -22,8 % reflete o estreitamento da vantagem competitiva europeia no setor.
1.2. Os preços unitários subiram de forma persistente, atenuando parcialmente a perda de volume
Se os volumes diminuíram de forma significativa, o mesmo não se verificou com os preços. O preço médio de exportação da UE subiu de €850/t em 2015 para €1 120/t em 2025, uma valorização de +31,8 %. O pico foi registado em 2023, com €1 274/t — coincidindo com o período pós-crise energética.
Os preços de importação também subiram, mas de forma mais tímida (+8,8 %, de €836/t para €910/t), o que resultou numa reversão do diferencial de preços: em 2015, os preços de exportação e importação eram praticamente idênticos; em 2025, o preço de exportação da UE era 23 % superior ao preço de importação. Esta evolução sugere que os produtores europeus, confrontados com custos de energia e matéria-prima mais elevados, transmitiram esses encargos para os preços de exportação.
1.3. A produção da UE em declínio quantitativo, mas com valor nominal estável
A produção interna da UE de papel gráfico registou uma queda de -14,0 % em quantidade (de 11,3 mil milhões de kg para 9,8 mil milhões de kg), atingindo o seu mínimo histórico em 2025. Contudo, o valor da produção manteve-se essencialmente estável (€10,15 mil milhões em ambos os anos), o que implica uma valorização significativa do preço unitário da produção — em linha com a subida observada nos preços de comércio externo.
Estes dados apontam para uma dinâmica estrutural típica de um setor em maturação/declínio: a redução da procura (impulsionada pela digitalização) leva à saída de capacidade produtiva, mas os operadores remanescentes conseguem manter receitas através de aumentos de preço, ainda que à custa de volumes.
2. Reconfiguração geográfica das parcerias comerciais: Brexit, sanções e ascensão asiática
2.1. O Reino Unido permanece como principal destino, mas com erosão acentuada das exportações da UE
O Reino Unido continuou a ser o maior destino das exportações de papel gráfico da UE ao longo de todo o período, mas com uma perda substancial: o valor passou de €897 milhões (2015) para €595 milhões (2025), uma redução de -33,6 %. Esta evolução reflete simultaneamente o impacto do Brexit (com a introdução de formalidades aduaneiras e potenciais barreiras não pautais) e a contração estrutural do mercado de impressão no Reino Unido.
Do lado das importações, a redução foi ainda mais drástica: as importações da UE provenientes do Reino Unido caíram de €175 milhões para apenas €53 milhões (-69,9 %), consolidando o Reino Unido como um parceiro em claro declínio relativo no fornecimento de papel gráfico à UE.
2.2. A Indonésia e a China tornaram-se fornecedores de peso crescente
Em contraste com o declínio do Reino Unido, dois parceiros asiáticos registaram crescimentos excecionalmente pronunciados:
| Parceiro | Importações 2015 (M€) | Importações 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Indonésia | 53,4 | 192,7 | +260,6 % |
| China | 17,8 | 62,5 | +251,3 % |
| Noruega | 133,0 | 126,0 | -5,3 % |
| Canadá | 24,2 | 45,0 | +85,4 % |
Fonte: Principais parceiros por valor
A Indonésia tornou-se, em 2025, o segundo maior fornecedor de papel gráfico à UE (a seguir à Noruega), com €193 milhões — mais do triplo do valor de 2015. A China, por sua vez, passou de €18 milhões para €63 milhões. Estas evoluções sugerem que os produtores asiáticos, beneficiando de custos de produção mais baixos (incluindo energia e mão de obra), estão a capturar quota de mercado no abastecimento da UE, num contexto em que a capacidade produtiva europeia se reduz.
2.3. A queda abrupta das importações da Rússia e a concentração crescente das fontes de abastecimento
As importações da UE provenientes da Rússia sofreram um colapso total, passando de €34 milhões em 2015 para praticamente zero em 2025 (apenas €105), uma redução de -100 %. Esta evolução é diretamente atribuível às sanções económicas impostas pela UE à Rússia após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.
A perda desta fonte de abastecimento contribuiu para um aumento da concentração das importações: o índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações em valor subiu de 1 478 para 1 704 (+15,3 %), refletindo uma maior dependência de um número mais reduzido de fornecedores. Em volume, o aumento foi ainda mais acentuado (+40,6 %, de 1 577 para 2 217), sinal de que a composição dos fornecedores se tornou mais desequilibrada.
Em contrapartida, o HHI das exportações diminuiu de 1 041 para 913 (-12,3 %), indicando uma diversificação dos mercados de destino, com destaque para o crescimento das exportações para a Ucrânia (+25,8 %, de €67 milhões para €84 milhões).
3. O choque de preços de 2022, a crescente propensão exportadora e a especialização produtiva da UE
3.1. O ano de 2022 marcou um choque de preços sem precedentes no comércio de papel gráfico
A análise de volatilidade e choques revela que o ano de 2022 foi marcado por três eventos de choque de preços de grande magnitude:
| Fluxo | Parceiro | Tipo de choque | Desvio (abnormality) | Variação de preço | Quota de valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Exportações | Reino Unido | Preço | 354,2 | +44,2 % | 31,1 % |
| Importações | Indonésia | Preço | 266,4 | +57,7 % | 23,2 % |
| Exportações | México | Preço | 189,6 | +90,9 % | 3,4 % |
O choque mais relevante em termos de impacto ocorreu nas exportações para o Reino Unido, que representavam 31,1 % do valor total das exportações da UE: o preço médio de exportação subiu 44,2 % num único ano, um desvio estatístico extremo (abnormalidade de 354,2). Paralelamente, o preço de importação de papel proveniente da Indonésia subiu 57,7 %.
Estes choques são consistentes com a crise energética europeia de 2022, desencadeada pela invasão russa da Ucrânia e pelo subsequente corte no fornecimento de gás natural à Europa. O setor papeleiro, intensivo em energia, foi particularmente afetado, com os custos de produção a dispararem e a serem transmitidos para os preços de exportação. Os dados mostram que os preços de exportação da UE para praticamente todos os principais parceiros atingiram o pico em 2022, antes de começarem a corrigir em 2023–2025.
No que respeita à volatilidade histórica, os parceiros com maior coeficiente de variação (CV) nas importações foram a Austrália (1,24), os Emirados Árabes Unidos (1,09) e os Estados Unidos (0,78), refletindo fluxos comerciais de menor dimensão e maior irregularidade. Do lado das exportações, os parceiros mais estáveis foram o Marrocos (CV de 0,08), a Ucrânia (0,11) e a Turquia (0,13), sugerindo relações comerciais consolidadas e previsíveis.
3.2. A UE tornou-se mais dependente das exportações e mais intensiva no comércio externo
Um dos desenvolvimentos mais relevantes do período é o aumento da propensão exportadora da UE neste setor. Este indicador, que mede a quota das exportações na produção total, subiu de 19,6 % em 2015 para 28,6 % em 2025 — um aumento de +46,0 %. Em simultâneo, a intensidade comercial (comércio total como proporção da produção) subiu de 24,5 % para 33,1 % (+35,2 %).
| Indicador de vulnerabilidade | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Dependência líquida de importações | -15,1 % | -28,0 % | -85,4 % |
| Intensidade comercial | 24,5 % | 33,1 % | +35,2 % |
| Propensão exportadora | 19,6 % | 28,6 % | +46,0 % |
Fonte: Autonomia e vulnerabilidade
A dependência líquida de importações tornou-se mais negativa (de -15,1 % para -28,0 %), o que indica que a UE intensificou a sua posição de exportador líquido em relação à produção interna. Isto aparenta ser paradoxal face à queda dos volumes absolutos de exportação, mas explica-se pelo facto de a produção interna ter diminuído a um ritmo mais rápido do que as exportações em termos proporcionais. Em termos práticos, a indústria papeleira europeia está a tornar-se mais orientada para a exportação, mesmo que em números absolutos os volumes diminuam.
3.3. A especialização produtiva da UE concentra-se nos países nórdicos e em Portugal
A análise da vantagem comparativa revelada (RCA) evidencia uma concentração geográfica acentuada da produção de papel gráfico na UE. Em 2025, os cinco Estados-Membros mais especializados foram:
| País | RSCA | RCA | Quota na produção da UE |
|---|---|---|---|
| Portugal | 0,79 | 8,64 | 11,9 % |
| Suécia | 0,75 | 6,94 | 16,7 % |
| Finlândia | 0,62 | 4,28 | 4,3 % |
| Eslováquia | 0,58 | 3,78 | 8,0 % |
| Áustria | 0,13 | 1,29 | 4,3 % |
No extremo oposto, países como Malta (RSCA de -1,00), a Irlanda (-0,97) e a Roménia (-0,96) apresentam uma especialização nula ou residual neste setor.
Os principais exportadores da UE por valor absoluto foram, em 2025: Portugal (€534 milhões), Alemanha (€503 milhões), Suécia (€343 milhões), Finlândia (€246 milhões) e Itália (€184 milhões). Todos registaram quedas significativas face a 2015, com destaque para a França (-64,0 %, de €327 milhões para €118 milhões) e a Áustria (-51,8 %, de €155 milhões para €75 milhões) como os declínios mais acentuados entre os grandes exportadores.
Do lado das importações intra-UE, os principais importadores de países terceiros foram a Bélgica (€126 milhões), a Suécia (€86 milhões), a Itália (€81 milhões) e a Espanha (€57 milhões). Destaca-se o crescimento excecional da Grécia (+184,4 %) e da Itália (+175,5 %) como importadores, sugerindo uma reconfiguração das cadeias de abastecimento internas.
No que respeita aos segmentos de produto, os principais produtos de exportação em volume são o papel em rolos com gramagem entre 40 e 150 g/m² (480255) e em folhas de formato standard (480256). Todos os segmentos registaram quedas de volume significativas, com o segmento 480256 (folhas standard A4/A3) a apresentar a maior contração nas exportações (-45 % em volume), refletindo diretamente a redução da procura de papel para impressão de escritórios. Curiosamente, as importações do mesmo segmento 480256 aumentaram (+13 % em volume, de 272 315 t para 307 956 t), o que sugere que os produtores extra-UE estão a capturar quota de mercado num segmento outrora dominado pela indústria europeia.
Conclusão
O período 2015–2025 foi marcado por uma transformação estrutural profunda no mercado europeu de papel gráfico (CN 4802). Os dados evidenciam três dinâmicas principais: (i) uma contração sustentada dos volumes de produção e comércio, alavancada pela digitalização e pela redução da procura de papel para escrita e impressão; (ii) uma reconfiguração geográfica significativa das parcerias comerciais, com o declínio do Reino Unido como parceiro, a ascensão da Indonésia e da China como fornecedores, e o colapso total do comércio com a Rússia; e (iii) um choque de preços em 2022, associado à crise energética europeia, que temporariamente elevou os preços de exportação para níveis historicamente elevados.
Apesar destes desafios, a UE mantém uma posição líquida exportadora robusta e uma base produtiva especializada, concentrada geograficamente na Península Ibérica (Portugal) e na Escandinávia (Suécia, Finlândia). A crescente propensão exportadora (+46 %) e a estabilidade nominal do valor da produção sugerem que o setor se está a adaptar — embora a um ritmo mais lento do que a contração da procura — através da concentração em segmentos de maior valor acrescentado e da manutenção de preços mais elevados.
Contudo, o aumento da concentração das importações (HHI +15 %) e a crescente quota de mercado de fornecedores asiáticos representam riscos potenciais de dependência externa, num contexto em que a capacidade produtiva europeia continua a diminuir. Os decisores de política comercial e industrial devem monitorizar atentamente estas tendências, particularmente no que respeita à competitivência dos produtores europeus face a custos energéticos estruturalmente mais elevados do que os dos concorrentes asiáticos e sul-americanos.