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Evolução do mercado: Outro papel e cartão (CN 4805) — 2015–2025

Introdução

O código combinado (CN) 4805 abrange uma gama residual de papel e cartão não revestido — desde papel para canelar (fluting paper), papel-teste (testliner), papel sulfite para embalagem, papel-filtro, até outros tipos classificados por peso (≤150 g/m², >150 g/m² e <225 g/m², ≥225 g/m²). Trata-se de uma posição do Sistema Harmonizado intimamente ligada ao sector da embalagem e direcionada majoritariamente ao comércio B2B. Apesar de a designação "outro" sugerir uma posição periférica, 4805 é, de facto, o maior bloco dentro da posição-pai 48 (Papel e Cartão), abarcando subprodutos essenciais para fabricação de cartão ondulado e outros materiais de acondicionamento.

O período em análise — 2015 a 2025 — é marcado por dois eventos estruturais: a pandemia de COVID-19 (2020), que causou uma breve contração da procura industrial, e a crise energética europeia de 2021-2022, desencadeada pelo conflito na Ucrânia, que alterou profundamente os custos de produção do sector papel na UE. Este relatório debruça-se sobre a maneira como estes e outros factores influenciaram o comércio extra-UE, identificando três grandes dinâmicas: o crescimento acelerado das exportações, a volatilidade de preços e a dependência de matérias-primas de origem extra-comunitária.


1. A União Europeia como fornecedor líquido crescente — exportações que triplicam em relação às importações

1.1. O saldo comercial duplicou, com um pico em 2022

O balanço comercial da UE em 4805 era já positivo em 2015, no valor de 1 279 M EUR (exportações de 1 704 M EUR contra importações de 425 M EUR). No entanto, registou um crescimento acentuado até 2022, atingindo o máximo de 2 465 M EUR, e estabilizou em 1 937 M EUR em 2025 — um aumento de +51,4% no período completo. A taxa de dependência líquida de importações (net import reliance) agravou-se de -4,3% em 2015 para -13,2% em 2025, sinalizando uma intensificação da posição de excedente exportador.

Ano Exportações (M EUR) Importações (M EUR) Saldo (M EUR)
2015 1 704 425 1 279
2018 2 299 549 1 750
2020 2 323 407 1 916
2022 3 238 773 2 465
2025 2 428 491 1 937

Fonte: General Overview – Trade

1.2. As exportações crescem 42,7% em volume; as importações ficam praticamente estagnadas em tonelagem

As exportações passaram de 3,21 Mt em 2015 para 4,59 Mt (+42,7%), atingindo o máximo de 4,71 Mt em 2024. Em contraste, as importações mantiveram-se quase estáveis em termos de volume numa faixa de ~800–1 007 kt, registando um crescimento marginal de apenas +0,6% no período completo.

Ano Exportações (kt) Importações (kt)
2015 3 214 827
2018 3 724 961
2020 4 707 861
2022 4 043 895
2025 4 588 832

Fonte: General Overview – Trade

A divergência entre o crescimento de volume exportado e a estagnação das importações explica-se parcialmente pelo crescimento da produção interna europeia: a produção de papel e cartão coberta pelas posições PRODCOM associadas a 4805 passou de 15,1 Mt para 28,4 Mt (+88,1% em quantidade), com um crescimento ainda mais expressivo em valor (+147,5%).

1.3. Um segundo pico de exportações em 2024 sugere reactivação da procura externa

O pico de exportações em valor coincidiu com a crise de 2022 (3 238 M EUR), impulsionado por um aumento generalizado de preços. No entanto, em 2024 as exportações voltaram a atingir 4,71 Mt em volume — ligeiramente acima de 2020 — embora o valor total tenha ficado em 2 464 M EUR, significativamente abaixo do pico nominal, refletindo a normalização dos preços. Esta dinâmica sugere que a procura externa de papel não revestido é resiliente a longo prazo, mas os picos de valor estão fortemente dependentes dos ciclos de preços de energia e matérias-primas.


2. A crise energética de 2022 como ponto de viragem — do choque de preços à consolidação pós-crise

2.1. Os preços quadruplicaram em dois anos antes de recuarem para patamares pré-pandémicos

O preço médio de exportação da UE em 4805 situava-se em 530 EUR/t em 2015 e permaneceu relativamente estável até 2019 (529 EUR/t). Com a pandemia, recuou para 494 EUR/t em 2020. Contudo, a escalada energética de 2021-2022 provocou uma subida abrupta: o preço atingiu 804 EUR/t em 2022, equivalente a +63% face a 2020. O preço de importação evoluiu de forma paralela, passando de 514 EUR/t em 2015 para 781 EUR/t em 2022.

Ano Preço exportação (EUR/t) Preço importação (EUR/t)
2015 530 514
2020 494 473
2021 600 659
2022 804 781
2023 573 539
2024 541 531
2025 529 591

Fonte: General Overview – Trade

2.2. Choques de preço pontuais em parceiros específicos evidenciam vulnerabilidades sectoriais

A análise de choques identificou três eventos anómalos principais no período:

Parceiro Fluxo Tipo de choque Ano central Desvio (abnormality) Variação
Estados Unidos Exportações Preço 2022 22,4 +59,7%
Turquia Importações Preço 2021 18,9 +50,9%
Brasil Exportações Preço 2022 18,2 +61,2%

Fonte: Volatility & Shocks – Top Shock Events

O choque na Turquia em 2021 é particularmente relevante: como a Turquia é o terceiro maior fornecedor extra-UE (contando com origens incluídas nos dados), e o seu peso nas importações chegou a 12% em valor, o aumento de +50,9% no preço unitário refletiu a subida generalizada dos custos de energia e celulose na região do Médio Oriente. No lado das exportações, os picos anómalos para os EUA e para o Brasil em 2022 coincidem com o cenário global de escassez de papel de embalagem e a procura elevada pela recuperação do e-commerce pós-pandémico.

2.3. Os subprodutos mais sensíveis ao ciclo de preços foram 480524 e 480519 em exportação

Observando a evolução dos preços por subproduto, destaca-se a amplitude de oscilação de certas categorias:

Subproduto (exportação) 2015 (EUR/t) 2020 (EUR/t) 2022 (EUR/t) 2025 (EUR/t)
480524 (testliner ≤150 g/m²) 415 343 671 419
480519 (outro fluting paper) 399 312 680 409
480511 (papel semiquímico para canelar) 515 509 801 609
480593 (≥225 g/m²) 587 486 902 745

Fonte: Product Segment Breakdown

Os subprodutos de fluting (480524 e 480519) registaram uma subida de preços de exportação de ~+91–115% entre 2020 e 2022, seguida de um recuo para praticamente o nível de 2015 em 2025. A 480593 (cartões de peso elevado ≥225 g/m²) manteve preços dois anos mais altos, sugerindo uma erosão mais gradual dos custos velados acumulados no período de crise.


3. Reconfiguração geográfica — saída da Rússia, consolidação do Reino Unido e ascensão do Norte de África

3.1. A Federação Russa desapareceu como fornecedor de importações — queda de 100%

Uma das metamorfoses mais marcantes no período foi a eliminação da Rússia como fornecedor de papel não revestido para a UE. Em 2015, a Federação Russa exportava 73 M EUR de CN 4805 para a UE, situando-se entre os maiores parceiros. Em 2025, esse valor caiu para 75 EUR — uma redução de -100%. A introdução de sanções comerciais contra a Rússia após 2022 explica integralmente este colapso. O índice HHI das importações por valor aumentou ligeiramente de 2 035 para 2 151 (+5,7%), indicando que a concentração de fornecedores de importação tornou-se um pouco mais elevada após a perda da Rússia, embora continue num nível considerado moderado.

3.2. Reino Unido e Suíça dominam em ambos os lados; a Turquia perde terreno como destino de exportação

O Reino Unido consolidou-se como o principal parceiro comercial da UE em 4805, tanto do lado das importações (136,5 M EUR em 2025, +1,7%) como das exportações (473,2 M EUR em 2025, +40,2%). A Suíça, por sua vez, posicionou-se como fornecedor principal nas importações (163,0 M EUR, +51,7%), refletindo a proximidade industrial e a integração logística Helvética.

A evolução da Turquia como destino de exportações da UE é notável: caiu de 160,9 M EUR em 2015 para 127,8 M EUR em 2025 (-20,5%), refletindo tanto a volatilidade cambial da lira turca como o crescimento da capacidade industrial doméstica turca. Em contraste, a Turquia como fornecedor para a UE cresceu +90,3% (28,4 M EUR → 54,1 M EUR), alimentando o choque de preços de 2021 já referido.

3.3. Os mercados do Norte de África e da Península Arábica tornaram-se destinos de elevado crescimento

A Algeria registou o crescimento mais expressivo entre os principais parceiros de exportação da UE: +111,8% (81,0 M EUR → 171,5 M EUR). O Marrocos também cresceu de forma acentuada (+126,0%), tornando-se a sétima maior destino. Estes aumentos refletem o crescente investimento no fabrico de cartão ondulado no Norte de África e na Península Arábica, alimentado por um aumento da procura de embalagens na região do Magrebe e do Golfo. A Arábia Saudita cresceu de forma mais moderada (+17,8%), mantendo-se entre os quatro maiores destinos de exportação da UE.

De notar a forte volatilidade nas relações com a China (cv de 0,95 em exportações) e com a Ucrânia (cv de 0,58 em importações), que refletem a instabilidade estrutural destes parceiros no período em análise, tanto por razões geopolíticas como de política comercial.

3.4. A Alemanha permanece como motor exportador, mas Espanha e Polónia ganham peso na balança extra-UE

Nos dados de reporter por valor de exportação (distribuição entre Estados-Membros da UE):

Estado-Membro Exportações 2015 (M EUR) Exportações 2025 (M EUR) Variação
Alemanha 557 591 +6,1%
Espanha 200 342 +71,2%
Bélgica 188 274 +46,0%
Finlândia 168 206 +22,2%
França 148 196 +32,0%
Itália 152 182 +19,5%
Polónia 79 174 +120,4%

Fonte: General Overview – Top Reporters

A Polónia mais do que duplicou as suas exportações de 4805 para parceiros extra-UE (+120,4%), impulsionada pela sua posição como hub logístico europeu e pela intensificação do fabrico de papel para embalagem na Europa de Leste. A Espanha, com um crescimento de +71,2%, reflete igualmente a consolidação do sector papel ibérico, particularmente em papel-testliner e fluting. A Itália, por sua vez, mostrou uma evolução mais moderada (+19,5%), mas mantém-se relevante em cartões de peso elevado (480593).


Conclusão

O período 2015-2025 foi, no seu conjunto, de consolidação do papel da União Europeia como exportador líquido de papel e cartão não revestido (CN 4805). O crescimento contínuo da produção intra-UE (+88,1% em peso), associado ao aumento das exportações (+42,7% em peso), confere à UE uma vantagem competitiva cada vez mais robusta face a parceiros como a Turquia e a Ucrânia. A crise energética de 2022 provocou um pico de preços que artificialmente inflou o valor das trocas (atingindo 3 238 M EUR em exportações), mas a estrutura subjacente — com base na escala produtiva, na proximidade geográfica de mercados do Norte de África e do Reino Unido, e na integração industrial intra-comunitária — permaneceu sólida. A saída completa da Rússia como fornecedor e a crescente especialização de Estados-Membros como Finlândia (RCA=3,34) e Alemanha (RCA=1,87) sugerem um sector que, embora sensível ao ciclo energético, tem capacidade para reorientar fluxos e assegurar o excedente exportador. Ressalve-se, contudo, a ligeira deterioração da concentração das importações (HHI: 2 035→2 151), que pode sinalizar uma necessidade de diversificação das fontes de abastecimento externo.

Gerado em 2026-08-09. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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