Evolução do mercado: Produtos gráficos e livros (CN 49) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia com países terceiros no setor dos produtos das indústrias gráficas, livros e publicações (posição aduaneira CN 49) ao longo do período 2015–2025. Esta posição engloba uma ampla gama de produtos — desde livros, brochuras e impressos até jornais, álbuns, materiais cartográficos, selos, calendários e matérias impressas diversas.
O período em análise é particularmente relevante por abranger múltiplas transformações estruturais: a aceleração da digitalização, a saída do Reino Unido da UE (Brexit), a pandemia de COVID-19 e as sanções comerciais impostas à Rússia. Estes fatores, combinados com alterações nos custos de produção e logística, moldaram profundamente o perfil comercial europeu neste setor.
Em termos gerais, os dados revelam um paradoxo central: embora o valor total das exportações se tenha mantido relativamente estável, as quantidades físicas sofreram um declínio acentuado, refletindo uma subida significativa dos preços unitários. Paralelamente, as importações cresceram em valor, impulsionadas sobretudo pela China, enquanto a composição geográfica dos parceiros comerciais se reconfigurou de forma substancial.
1. A inversão da balança comercial: volumes em queda, valores em subida
1.1. O colapso das quantidades exportadas contrasta com a relativa estabilidade do valor
O dado mais marcante do período é a redução de 57,6% na quantidade exportada pela UE — de 939 262 toneladas em 2015 para 397 887 toneladas em 2025 (dados gerais de comércio). No entanto, no mesmo período, o valor das exportações desceu apenas 6,8% — de 5 028 M€ para 4 684 M€. Esta aparente contradição explica-se pela evolução dos preços unitários de exportação, que subiram 119,9% (de 5 353 €/t para 11 771 €/t), atingindo o seu máximo histórico no último ano da série.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor exportações | 5 028 M€ | 4 684 M€ | −6,8% |
| Quantidade exportações | 939 262 t | 397 887 t | −57,6% |
| Preço unitário exportações | 5 353 €/t | 11 771 €/t | +119,9% |
1.2. As importações mantêm-se resilientes em valor apesar da contração dos volumes
As importações da UE apresentaram uma dinâmica distinta: o valor subiu 9,9% (de 3 173 M€ para 3 487 M€), enquanto a quantidade diminuiu 14,9% (de 437 110 t para 371 896 t). O preço médio das importações cresceu 29,2%, atingindo 9 375 €/t em 2025. Este crescimento mais moderado dos preços de importação em comparação com as exportações sugere que os fornecedores externos — sobretudo a China — mantiveram uma pressão competitiva significativa.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Valor importações | 3 173 M€ | 3 487 M€ | +9,9% |
| Quantidade importações | 437 110 t | 371 896 t | −14,9% |
| Preço unitário importações | 7 258 €/t | 9 375 €/t | +29,2% |
1.3. A erosão do excedente comercial europeu
O saldo comercial da UE (positivo) passou de 1 855 M€ em 2015 para 1 197 M€ em 2025, uma redução de 35,5%. Este excedente, apesar de se manter positivo, está a diminuir de forma consistente, refletindo simultaneamente a perda de competitividade europeia em volumes e o crescimento das importações asiáticas. O valor mínimo do excedente foi atingido precisamente em 2025, o que sugere uma tendência de convergência entre importações e exportações.
2. Reconfiguração geográfica: a ascensão da China, o colapso russo e o peso persistente do Reino Unido
2.1. A China torna-se o principal fornecedor extra-UE, ultrapassando o Reino Unido
A transformação mais relevante no lado das importações é a ascensão da China, cujas exportações para a UE no setor cresceram 78,5% — de 567 M€ para 1 011 M€ (parceiros principais por valor). A China passou assim de segundo para primeiro fornecedor. Por outro lado, o Reino Unido — historicamente o maior fornecedor extra-UE de produtos gráficos — viu as suas vendas para a UE recuar 25,7% (de 1 400 M€ para 1 040 M€). A queda britânica é parcialmente explicável pelo Brexit, que introduziu barreiras alfandegárias e administrativas a partir de 2021.
| Fornecedor | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| China | 567 M€ | 1 011 M€ | +78,5% |
| Reino Unido | 1 400 M€ | 1 040 M€ | −25,7% |
| Estados Unidos | 436 M€ | 514 M€ | +18,0% |
| Índia | 23 M€ | 47 M€ | +101,8% |
| Bósnia e Herzegovina | 15 M€ | 35 M€ | +139,7% |
| Hong Kong | 102 M€ | 47 M€ | −53,4% |
| Canadá | 83 M€ | 98 M€ | +17,4% |
2.2. As exportações europeias perdem terreno na Europa vizinha mas ganham nos EUA
Do lado das exportações, assistiu-se a uma reconfiguração significativa dos destinos. As exportações para o Reino Unido desceram 24,0% (de 1 013 M€ para 770 M€), enquanto as destinadas à Suíça recuaram 17,0% (de 1 172 M€ para 972 M€) e as da Noruega caíram 49,4% (de 364 M€ para 184 M€). O caso mais dramático é o da Rússia, cujas importações da UE desabaram 89,3% — de 180 M€ para apenas 19 M€ — como reflexo direto das sanções impostas após 2022.
Em contrapartida, as exportações para os Estados Unidos cresceram 64,5% (de 380 M€ para 625 M€), consolidando este mercado como o destino extra-europeu mais dinâmico. O Canadá (+14,3%) e o México também reforçaram a sua presença no perfil exportador europeu.
| Destino | 2015 | 2025 | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 1 013 M€ | 770 M€ | −24,0% |
| Suíça | 1 172 M€ | 972 M€ | −17,0% |
| Noruega | 364 M€ | 184 M€ | −49,4% |
| Estados Unidos | 380 M€ | 625 M€ | +64,5% |
| Rússia | 180 M€ | 19 M€ | −89,3% |
| Marrocos | 50 M€ | 43 M€ | −13,1% |
| Canadá | 122 M€ | 140 M€ | +14,3% |
2.3. Dentro da UE, a Polónia e Malta emergem como potências exportadoras, enquanto a Alemanha perde quota
A análise dos principais exportadores intra-UE revela transformações notáveis. A Alemanha, maior exportador europeu, reduziu as suas vendas extra-UE em 14,3% (de 1 587 M€ para 1 360 M€), tal como a França (−18,1%) e os Países Baixos (−28,3%). Em contraste, a Polónia registou um crescimento de 84,4% (de 195 M€ para 360 M€) e Malta um aumento surpreendente de 164% (de 123 M€ para 325 M€).
No lado das importações, a França (+44,2%), os Países Baixos (+46,7%) e a Irlanda (+48,3%) registaram os maiores crescimentos, sugerindo um desvio das rotas de entrada para estes mercados, possivelmente por razões logísticas e de reexportação. A Alemanha, embora mantenha a liderança, reduziu ligeiramente as suas importações (−9,1%).
3. Transformações na composição do produto e na estrutura do mercado
3.1. O declínio acentuado dos jornais e a ascensão relativa de materiais impressos especializados
A decomposição por segmento de produto revela padrões distintos entre importações e exportações. Nas exportações, a queda mais acentuada registou-se nos jornais e publicações periódicas (CN 4902), cuja quantidade exportada caiu de 165 204 t para 45 961 t (−72,2%) e o valor de 599 M€ para 262 M€ (−56,2%). Esta é a expressão mais clara da transição digital do setor jornalístico europeu.
Nas importações, o segmento de álbuns e livros para crianças (CN 4903) registou o maior crescimento, com a quantidade a subir de 33 238 t para 71 716 t (+115,8%) e o valor de 125 M€ para 272 M€ (+117,6%). Este crescimento é consistente com a internacionalização do mercado editorial infantil e com o aumento da produção na China. Os livros e brochuras (CN 4901) mantiveram-se como o segmento dominante em ambos os lados, embora com quantidades de exportação a descer de 268 637 t para 164 346 t.
| Segmento | Exportação Q. 2015 (t) | Exportação Q. 2025 (t) | Variação (%) |
|---|---|---|---|
| 4911 — Matéria impressa, n.e.s. | 450 759 | 166 404 | −63,1% |
| 4901 — Livros e brochuras | 268 637 | 164 346 | −38,8% |
| 4902 — Jornais e periódicos | 165 204 | 45 961 | −72,2% |
| 4903 — Álbuns/livros infantis | 5 722 | 3 340 | −41,6% |
3.2. Os preços unitários sobem em praticamente todos os segmentos, refletindo inflação e mix de produto
A subida dos preços unitários de exportação é transversal a todos os segmentos, mas atinge magnitudes particularmente elevados na matéria impressa n.e.s. (CN 4911), cuja média de preço subiu de 3 697 €/t para 11 175 €/t (+202,3%), e nos livros (CN 4901), de 6 644 €/t para 10 338 €/t (+55,6%). Esta evolução reflete tanto a inflação nos custos de produção (papel, energia, transporte) como uma possível alteração do mix de produto europeu para bens de maior valor acrescentado.
No segmento dos selos, papel-moeda e títulos (CN 4907) — incluído apenas nas exportações — o valor subiu de 366 M€ para 469 M€ (+28,0%), mantendo o preço unitário estável em torno de 48 000–52 000 €/t, o que reflete a natureza intrinsecamente de alto valor destes produtos.
3.3. A concentração do mercado diminui, mas persistem vulnerabilidades na volatilidade
O índice de concentração HHI das importações por valor desceu 17,4% (de 2 524 para 2 085), indicando uma diversificação das fontes de abastecimento, impulsionada em parte pelo crescimento da China e de fornecedores como a Índia e a Bósnia. O HHI das exportações também desceu 14,0% (de 1 112 para 957), refletindo a perda de peso dos destinos tradicionais europeus.
Contudo, a análise de volatilidade revela pontos de fragilidade. A Noruega apresenta o maior coeficiente de variação nas importações (0,816), e a Rússia nas exportações (0,832) — este último reflexo direto das sanções. Dois choques de preço significativos foram detetados: um em Marrocos (exportações, 2021, subida de preço de 78,6%) e outro nos Estados Unidos (importações, 2022, subida de 28,2%).
3.4. O perfil de especialização europeu revela heterogeneidade entre Estados-Membros
A análise de especialização (RSCA) para 2025 mostra que Malta (RSCA = 0,639), a Letónia (0,584) e a Estónia (0,389) são os Estados-Membros mais especializados neste setor, embora com quotas muito pequenas no total das exportações europeias. A Polónia (RSCA = 0,332) combina especialização significativa com um peso substancial nas exportações (13,2% do valor total), tornando-a o player mais relevante neste grupo. No extremo oposto, a Finlândia (RSCA = −0,810), a Irlanda (−0,745) e Portugal (−0,543) mostram uma especialização negativa, indicando que importam proporcionalmente mais do que exportam neste setor.
Conclusão
O setor dos produtos gráficos e livros na UE (CN 49) encontra-se num período de profunda transformação. A digitalização continua a exercer pressão sobre os segmentos tradicionais — sobretudo jornais e periódicos, cujo comércio externo sofreu uma erosão dramática. Simultaneamente, os livros, materiais impressos especializados e produtos para crianças mostram resiliência ou mesmo crescimento, sugerindo que o setor está a migrar para nichos de maior valor acrescentado.
Do ponto de vista geográfico, a reconfiguração é inequívoca: a China consolidou-se como o principal fornecedor extra-UE, o Reino Unido perdeu peso relevante (com o Brexit a agravar uma tendência pré-existente), a Rússia desapareceu quase por completo do mapa exportador europeu e os EUA tornaram-se o destino mais dinâmico para as exportações da UE. Dentro do bloco, a Polónia emerge como uma potência manufatureira crescente no setor.
A perda de 35,5% do excedente comercial constitui um sinal de alerta. Embora a UE mantenha um saldo positivo, a trajetória de convergência entre importações e exportações, aliada à crescente dependência da China, sugere que o setor enfrentará desafios acrescidos de competitividade nos próximos anos. A diversificação de fornecedores (evidenciada pela queda do HHI) e a aposta em produtos de maior valor acrescentado são, contudo, fatores positivos que poderão mitigar estas pressões.