Evolução do mercado: Seda (CN 50) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia no setor da seda (posição aduaneira CN 50) ao longo do período 2015–2025. A posição CN 50 abrange uma ampla gama de produtos, desde casulos e seda crua até fios e tecidos de seda, constituindo uma cadeia de valor com características distintas no panorama comercial europeu. O período em análise é particularmente relevante por abringer múltiplos choques económicos — desde a crise pandémica de 2020 até os desarranjos nas cadeias de abastecimento de 2022 — cujos efeitos se refletem de forma pronunciada num setor tão dependente de fornecedores extraeuropeus.
1. Um défice estrutural em consolidação: o declínio generalizado das trocas com o exterior
1.1. As exportações europeias registaram uma quebra acentuada em valor e volume
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE de seda para países terceiros sofreram uma redução significativa, passando de 203,9 milhões de euros e 1 537 toneladas para 124,9 milhões de euros e 795 toneladas, o que traduz quebras de –38,8 % e –48,3 %, respetivamente. O volume exportado atingiu o mínimo do período em 2020 (780 t), refletindo o impacto da pandemia, e embora tenha havido uma recuperação parcial, os níveis de 2025 situam-se ainda longe do ponto de partida.
1.2. As importações diminuíram em termos reais, mas mantiveram uma base elevada
Do lado das importações, a redução foi mais moderada: o valor caiu de 354,8 milhões de euros para 302,1 milhões de euros (–14,9 %), enquanto o volume recuou de 5 943 toneladas para 4 480 toneladas (–24,6 %). Apesar da contração, as importações mantêm-se em patamares substancialmente superiores às exportações, o que perpetua um défice comercial estrutural. O saldo negativo agravou-se ligeiramente, passando de –150,9 milhões de euros em 2015 para –177,2 milhões de euros em 2025, tendo atingido o ponto mais negativo em 2018 (–215,6 milhões de euros).
1.3. Os preços unitários divergiram: encarecimento das exportações e compressão da competitividade
Um aspeto relevante é a evolução oposta dos preços médios. Enquanto o preço médio de exportação subiu de 132 633 €/t para 157 061 €/t (+18,4 %), o preço médio de importação cresceu apenas de 59 670 €/t para 67 417 €/t (+13,0 %). Esta divergência sugere que a UE se está a concentrar em segmentos de maior valor acrescentado — designadamente tecidos (CN 5007), cujo preço médio de exportação atingiu 204 671 €/t em 2025 — ao mesmo tempo que importa sobretudo matéria-prima e semi-transformados a preços mais baixos. Contudo, o crescimento mais rápido dos preços de exportação poderá refletir também uma perda de competitividade em volumes, limitando a capacidade de recuperação do saldo comercial.
2. Dependência chinesa e concentração crescente das importações
2.1. A China domina de forma avassaladora o fornecimento de seda à UE
Ao longo de todo o período analisado, a China manteve-se como o principal fornecedor de seda à União Europeia, com importações que oscilaram entre 158,0 milhões de euros (2020) e 311,8 milhões de euros (2018), fechando 2025 nos 249,5 milhões de euros. A quota chinesa no total das importações extra-UE permaneceu consistentemente elevada, rondando os 70–80 % do valor total. Os restantes fornecedores — Índia, Brasil, Reino Unido, Vietname e Tunísia — apresentam volumes significativamente inferiores, com quebras acentuadas no período (a Índia recuou –43,7 % e o Vietname –54,2 %).
2.2. A concentração das importações agravou-se ao longo da década
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de 6 315 para 6 874 (+8,8 % em valor), o que reflete uma crescente concentração geográfica do abastecimento. Em volume, o aumento foi ainda mais pronunciado (de 6 594 para 7 874, +19,4 %). Este nível de concentração é elevado e indica uma estrutura de mercado fortemente dependente de um número reduzido de fornecedores, com a China a exercer uma posição dominante praticamente monopolista na matéria-prima.
2.3. A dependência líquida de importações triplicou, agravando a vulnerabilidade da UE
A dependência líquida de importações — medida como a razão entre o défice comercial e o consumo aparente — subiu de forma dramática de 8,3 % em 2015 para 24,9 % em 2025, um crescimento de quase 199 %. Este indicador atingiu o pico de 33,5 % em 2020, durante a pandemia, e embora tenha entretanto recuado, o nível atual é cerca de três vezes superior ao do início do período. A intensidade comercial cresceu de 46,5 % para 54,3 %, confirmando que o setor se tornou progressivamente mais exposto ao comércio internacional e, em particular, a interrupções no fornecimento chinês. Complementarmente, a propensão para exportar manteve-se praticamente estável em torno de 27 %, o que significa que o agravamento da vulnerabilidade resulta essencialmente da evolução assimétrica das importações.
3. Dinâmicas internas: produção crescente em volume, perda de valor e reconfiguração dos parceiros de exportação
3.1. A produção europeia de seda cresceu em volume, mas perdeu valor económico
Dados da produção industrial da UE revelam uma evolução paradoxal: a quantidade produzida subiu de 31,3 milhões de kg para 38,7 milhões de kg (+23,9 %), enquanto o valor da produção desceu de 724,5 milhões de euros para 466,0 milhões de euros (–35,7 %). Isto implica uma queda acentuada do preço médio de produção interna, sugerindo uma deslocação para segmentos de menor valor ou uma pressão competitiva exercida pelas importações asiáticas a baixo custo.
3.2. A especialização europeia está concentrada em poucos Estados-Membros, com destaque para a Itália
Em termos de especialização produtiva, a Roménia apresenta o maior índice RCA (16,6), seguida da Eslovénia (9,0) e da Itália (6,3). Contudo, é a Itália que domina em termos absolutos, representando 50,1 % da produção total da UE, seguida pela Roménia (27,7 %). Na exportação, a Itália é também o principal exportador da UE (96,2 milhões de euros em 2025), embora com uma quebra de –15,2 % face a 2015. A concentração da indústria sedoeira europeia em dois países — com tradições têxteis históricas — confere ao setor uma dimensão geográfica particularmente frágil.
3.3. Os destinos de exportação sofreram reconfigurações radicais
A estrutura das exportações da UE por parceiro comercial alterou-se significativamente ao longo da década. Os destinos tradicionais registaram quedas acentuadas:
| Destino | 2015 (€) | 2025 (€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Reino Unido | 25,8 M | 11,7 M | –54,7 % |
| Madagáscar | 44,5 M | 14,7 M | –66,9 % |
| Rússia | 9,0 M | 2,3 M | –74,4 % |
| Marrocos | 14,2 M | 6,2 M | –56,2 % |
| EUA | 22,5 M | 12,3 M | –45,3 % |
| Tunísia | 12,7 M | 23,5 M | +85,4 % |
Destaca-se a Tunísia como única exceção de crescimento robusto, tornando-se em 2025 o segundo maior destino de exportação da UE. Este crescimento pode refletir a integração da Tunísia nas cadeias de valor têxteis europeias, com a seda a ser exportada para transformação e posterior reimportação. Por outro lado, as quedas na Rússia (sanções e contexto geopolítico pós-2022) e no Reino Unido (efeitos do Brexit) evidenciam como fatores exógenos moldaram a geografia comercial do setor.
Conclusão
O setor da seda na União Europeia atravessou, entre 2015 e 2025, uma profunda transformação estrutural caracterizada por três tendências convergentes: (i) uma contração generalizada dos volumes de comércio externo, mais acentuada nas exportações; (ii) um agravamento significativo da dependência face à China, tanto em termos de quota de mercado como de concentração geográfica; e (iii) uma desconexão entre o crescimento da produção interna em volume e a perda de valor económico associada. A dependência líquida de importações de 24,9 % em 2025 — face a apenas 8,3 % em 2015 — constitui o indicador mais preocupante desta evolução, refletindo uma vulnerabilidade crescente a interrupções de abastecimento num setor onde a UE não dispõe de alternativas credíveis de fornecimento. Apesar do crescimento da Tunísia como parceiro de exportação e da manutenção de uma indústria têxtil italiana relativamente resiliente, as perspetivas de autonomia estratégica europeia no setor da seda permanecem limitadas, exigindo uma reflexão sobre políticas de diversificação de fornecedores e de valorização da cadeia de valor interna.