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Evolução do mercado: Produtos cerâmicos (CN 69) — 2015–2025

Introdução

O setor de produtos cerâmicos (CN 69) da União Europeia é um dos mais relevantes no comércio externo do bloco, abrangendo desde azulejos e ladrilhos até louça de porcelana, materiais refratários e artigos sanitários. Entre 2015 e 2025, o setor atravessou transformações profundas: as exportações mantiveram-se em superavit mas registaram uma redução acentuada de volumes; as importações cresceram fortemente em valor e quantidade; e a estrutura geográfica do comércio reconfigurou-se significativamente. Este relatório analisa as principais dinâmicas observadas, organizadas em três eixos: o crescimento das importações e a concentração em fornecedores asiáticos; a evolução das exportações com valorização unitária e perda de mercados tradicionais; e a reestruturação produtiva e a segmentação por produto que moldaram a competitividade do setor.

Fonte: Visão geral do comércio de Produtos Cerâmicos (CN 69)


1. O avanço das importações: crescimento acelerado e crescente concentração asiática

1.1. As importações quase duplicaram em valor e ultrapassaram os 4 milhões de toneladas

O valor total das importações da UE em produtos cerâmicos cresceu de 2.977 milhões de euros em 2015 para 4.835 milhões de euros em 2025, um aumento de 62,4%. Em termos de volume, a trajetória foi ainda mais expressiva: as importações passaram de 2.379 mil toneladas para 4.150 mil toneladas (+74,4%). Este crescimento reflete uma procura interna cada vez mais satisfeita por fornecedores externos, sobretudo em segmentos de elevado volume como azulejos e louça sanitária.

Indicador 2015 2025 Variação
Valor (milhões EUR) 2.977 4.835 +62,4%
Quantidade (mil t) 2.379 4.150 +74,4%
Preço médio (EUR/t) 1.251 1.165 −6,9%

O facto de o preço médio das importações ter diminuído (-6,9%) apesar do crescimento do valor sugere que a expansão se baseou sobretudo em volume, com fornecedores externos a oferecer preços competitivos. Ainda assim, a queda do preço médio foi limitada, indicando que parte do crescimento decorreu também de produtos de maior valor acrescentado.

1.2. A China consolidou-se como o principal fornecedor, mas a Índia emergiu como o caso mais dinâmico

A China manteve a posição de principal fornecedor externo de produtos cerâmicos à UE ao longo de todo o período, duplicando praticamente o valor das suas exportações para a UE: de 1.226 milhões de euros em 2015 para 2.238 milhões de euros em 2025 (+82,6%). Este crescimento, sustentado por volumes massivos de azulejos (CN 6907) e louça de mesa (CN 6911 e 6912), reflecte a capacidade de produção de baixo custo da indústria cerâmica chinesa.

No entanto, o crescimento mais espetacular registou-se nas importações provenientes da Índia, que passaram de 64 milhões de euros para 361 milhões de euros — um aumento de 467,5% — consolidando-a como terceiro maior fornecedor. Este crescimento está ligado à expansão da capacidade produtiva indiana, especialmente em azulejos e louça não porcelana, e a uma estratégia agressiva de preços.

Fornecedor 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação
China 1.226 2.238 +82,6%
Turquia 318 514 +61,5%
Índia 64 361 +467,5%
Sérvia 26 78 +199,8%
Reino Unido 224 215 −4,0%
Ucrânia 19 61 +229,1%
EAU 65 55 −15,8%

A Turquia, segundo maior fornecedor, cresceu 61,5% (de 318 para 514 milhões de euros), impulsionada sobretudo por azulejos. A Sérvia (+199,8%) e a Ucrânia (+229,1%) também ganharam peso relevante, embora a partir de bases mais pequenas. Esta dinâmica reflecte a integração da Europa de Leste nas cadeias de valor cerâmicas e, no caso ucraniano, um crescimento que persistiu mesmo após o início do conflito armado em 2022.

Fonte: Principais parceiros de importação por valor

1.3. A concentração das importações aumentou, com a China a dominar o índice HHI

O Índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações por valor subiu de 2.047 para 2.435 (+19,0%), sinalizando uma maior concentração das fontes de abastecimento. Este aumento reflecte o crescimento desproporcionado da China, que passou de representar cerca de 41% do valor total das importações em 2015 para aproximadamente 46% em 2025. A dependência de um único fornecedor dominante constitui um fator de vulnerabilidade, como evidenciado pelos choques de preço detetados em 2022 nas importações da Ucrânia (anormalidade de 50,7 e desvio de preço de +52,6%).

Fonte: Concentração HHI das importações


2. Exportações europeias: menos volume, mais valor — e uma reconfiguração geográfica

2.1. A UE manteve superavit comercial, mas com volumes em queda acentuada

O superavit comercial da UE em produtos cerâmicos manteve-se positivo ao longo de todo o período, passando de 4.811 milhões de euros em 2015 para 4.342 milhões de euros em 2025 (−9,8%). No entanto, esta aparente estabilidade esconde uma evolução estrutural significativa: as exportações perderam 25,2% em volume (de 12.307 mil toneladas para 9.206 mil toneladas), mas cresceram 17,8% em valor (de 7.788 para 9.177 milhões de euros), impulsionadas por um aumento de 57,5% no preço médio (de 633 para 997 EUR/t).

Indicador 2015 2025 Variação
Valor exportações (M EUR) 7.788 9.177 +17,8%
Quantidade exportações (mil t) 12.307 9.206 −25,2%
Preço médio export. (EUR/t) 633 997 +57,5%
Superavit (M EUR) 4.811 4.342 −9,8%

Esta dinâmica — queda de volume com aumento de valor unitário — sugere uma progressiva especialização europeia em produtos de maior valor acrescentado e qualidade, deslocando gradualmente a produção de bens cerâmicos de base para terceiros países.

Fonte: Visão geral do comércio

2.2. Os EUA tornaram-se o principal destino das exportações, substituindo o Reino Unido

A reconfiguração geográfica das exportações da UE foi marcante. O Reino Unido, que em 2015 era o maior destino (1.107 milhões de euros), perdeu essa posição para os Estados Unidos, cujas importações da UE cresceram de 1.157 para 1.862 milhões de euros (+61,0%). O Reino Unido, por seu lado, viu as exportações da UE recuarem 9,8% para 999 milhões de euros, refletindo parcialmente os efeitos do Brexit.

Destino 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação
Estados Unidos 1.157 1.862 +61,0%
Reino Unido 1.107 999 −9,8%
Suíça 410 524 +27,9%
Israel 180 321 +78,8%
Marrocos 111 203 +83,4%
Arábia Saudita 331 169 −48,9%
Rússia 446 158 −64,6%

Duas perdas particularmente relevantes foram a Rússia (de 446 para 158 milhões de euros, −64,6%) e a Arábia Saudita (de 331 para 169 milhões de euros, −48,9%). No caso russo, as sanções impostas após 2022 explicam grande parte do colapso. No caso saudita, a perda parece ligada à crescente capacidade produtiva local e à concorrência asiática.

Em contrapartida, os mercados de Israel (+78,8%), Marrocos (+83,4%) e Suíça (+27,9%) ganharam relevância, demonstrando uma diversificação para mercados vizinhos e de médio porte.

Fonte: Principais parceiros de exportação por valor

2.3. Itália, Espanha e Alemanha lideram as exportações, mas com trajetórias distintas

Os três maiores exportadores da UE em produtos cerâmicos em 2025 foram:

País exportador 2015 (M EUR) 2025 (M EUR) Variação
Espanha 1.964 2.588 +31,8%
Itália 2.184 2.504 +14,6%
Alemanha 1.393 1.580 +13,5%
Polónia 361 469 +29,9%
Portugal 249 286 +14,9%
França 315 380 +20,5%
Áustria 278 174 −37,5%

A Espanha ultrapassou a Itália como maior exportador da UE, com crescimento de 31,8% — sustentado sobretudo por azulejos (CN 6907). Portugal, o país mais especializado do setor (RSCA de 0,55), cresceu de forma moderada (+14,9%), mantendo uma quota estável. A Áustria, em contraste, sofreu uma contração de 37,5% nas suas exportações, sinal de possíveis dificuldades competitivas.

Fonte: Principais países da UE por valor de exportação


3. Reestruturação produtiva e segmentação: a valorização do produto europeu

3.1. A produção europeia perdeu volume mas ganhou valor — uma transição para gama superior

Os dados de produção da UE revelam uma transformação estrutural profunda. A quantidade produzida (em quilogramas) registou uma queda dramática de 64,1% — de 17.177 milhões de kg em 2015 para 6.163 milhões de kg em 2025. Em contrapartida, o valor da produção cresceu 74,4%, passando de 15.056 milhões de euros para 26.259 milhões de euros. Este descolamento entre volume e valor é consistente com uma deslocalização da produção de base para países com custos mais baixos (Turquia, Índia, China), enquanto a produção europeia se concentrou em produtos de maior valor unitário.

Indicador 2015 2025 Variação
Quantidade produzida (milhões kg) 17.177 6.163 −64,1%
Valor da produção (M EUR) 15.056 26.259 +74,4%

Fonte: Volume de produção

3.2. Os azulejos e o material sanitário dominam as importações; a louça de mesa de porcelana ganhou peso

A decomposição das importações por segmento revela a dominância clara de dois produtos:

Segmento (CN) Importações 2015 (M EUR) Importações 2025 (M EUR) Variação
6907 — Azulejos e ladrilhos 67 707 +956%
6910 — Material sanitário 372 815 +119%
6911 — Louça de porcelana 514 619 +20%
6912 — Louça (excl. porcelana) 371 707 +90%
6902 — Refratários de construção 153 226 +48%
6904 — Tijolos de construção 10 46 +359%
6905 — Telhas e ornamentos 21 52 +146%

O segmento 6907 (azulejos) apresenta o crescimento mais espetacular em valor (+956%), refletindo a massiva entrada de azulejos chineses, turcos e indianos no mercado europeu. Em volume, este segmento passou de 184 mil toneladas em 2015 para 2.093 mil toneladas em 2025, tornando-se de longe o maior segmento importado. O material sanitário (6910) dobrou o valor importado, mantendo preços médios elevados (1.772 EUR/t em 2025).

Do lado das exportações, os azulejos (6907) representam também o segmento dominante com 4.538 milhões de euros em 2025, seguidos pelos artigos refratários e técnicos (6909 com 1.197 milhões de euros) e o material sanitário (6910 com 449 milhões de euros).

Segmento (CN) Exportações 2015 (M EUR) Exportações 2025 (M EUR) Variação
6907 — Azulejos e ladrilhos 1.046 4.538 +334%
6909 — Artigos técnicos 969 1.197 +23%
6902 — Refratários 787 816 +4%
6910 — Material sanitário 491 449 −9%
6914 — Outros artigos cerâmicos 130 384 +195%
6904 — Tijolos 177 297 +68%
6905 — Telhas 152 159 +5%

3.3. A especialização geográfica consolidou os modelos comparativos do sul e centro da Europa

Os indicadores de especialização revelam uma clivagem geográfica persistente no setor. Portugal lidera o ranking com um RSCA (Revealed Symmetric Comparative Advantage) de 0,5545 e um RCA de 3,49, refletindo a tradição portuguesa em azulejos e cerâmica. Seguem-se Itália (RSCA 0,4688) e Espanha (RSCA 0,4452), confirmando a dominância do eixo ibérico-italiano na produção e exportação cerâmica europeia.

País RCA RSCA Quota na produção (CN 69)
Portugal 3,49 0,55 4,8%
Itália 2,76 0,47 22,2%
Espanha 2,60 0,45 15,1%
Bulgária 2,24 0,38 1,4%
Polónia 1,48 0,19 9,8%

Os países menos especializados incluem Irlanda (RSCA −0,99), Malta (−0,80) e Chipre (−0,77), mercados pequenos sem tradição produtiva relevante no setor. A concentração das exportações (HHI de 680 em 2025) é significativamente inferior à concentração das importações (2.435), confirmando que a base exportadora europeia é mais diversificada do que as suas fontes de abastecimento.

Fonte: Especialização dos países


Conclusão

O setor de produtos cerâmicos da UE atravessou, entre 2015 e 2025, uma profunda metamorfose estrutural. A análise dos dados permite identificar três tendências fundamentais:

  1. Importações crescentes e concentração asiática. As importações cresceram 62,4% em valor e 74,4% em volume, com a China, a Turquia e sobretudo a Índia a ganharem quota significativa. A crescente concentração das importações (HHI de 2.047 para 2.435) constitui um fator de vulnerabilidade que merece acompanhamento.

  2. Exportações de valor crescente, mas com perda de mercados. Apesar da redução de 25,2% nos volumes exportados, o valor cresceu 17,8%, impulsionado por um aumento de 57,5% no preço médio. A reconfiguração geográfica foi marcante: os EUA tornaram-se o principal destino, enquanto a Rússia e a Arábia Saudita perderam relevância.

  3. Transformação produtiva interna. A produção europeia perdeu 64,1% em volume mas ganhou 74,4% em valor, evidenciando uma transição clara para produtos de gama superior. A intensidade comercial com terceiros países quase duplicou (de 24,4% para 45,4%), enquanto a propensão exportadora cresceu de 16,8% para 35,5%.

A UE permanece um exportador líquido de produtos cerâmicos, mas a sua dependência relativa de importações intensificou-se. O desafio futuro reside em manter a competitividade dos segmentos de alto valor acrescentado — onde Itália, Espanha e Portugal possuem vantagens comparativas consolidadas — enquanto gere a crescente concorrência dos produtores asiáticos nos segmentos de maior volume.

Gerado em 2026-08-07. Os valores refletem os dados do Eurostat no momento da geração e não incluem revisões posteriores.

Gerado automaticamente: este relatório destina-se a acelerar, e não a substituir, a análise humana.

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