Evolução do mercado: Obras de ferro e aço (CN 73) — 2015–2025
Introdução
A posição CN 73 — «Obras de ferro fundido, ferro ou aço» — abrange um amplo leque de produtos metálicos, desde parafusos e acessórios para tubos (7318, 7307) até construções estruturais (7308), tubos sem costura (7304) e artigos diversos de ferro e aço (7325, 7326). Trata-se de um sector estrutural para a indústria europeia: em 2025, a produção da UE atingiu 112,6 mil milhões de kg, correspondendo a um valor estimado de 169,7 mil milhões de EUR — face a 86,2 mil milhões de kg e 55,0 mil milhões de EUR em 2015, um crescimento de 31% em volume mas de 209% em valor.
Entre 2015 e 2025, o comércio externo da UE com países terceiros nesta posição registou transformações profundas. Embora a UE se mantenha exportadora líquida — com um saldo comercial de 9,2 mil milhões de EUR em 2025 —, este superavit encolheu 42% face aos 16,0 mil milhões de EUR de 2015. As importações cresceram 69% em valor, muito acima das exportações (+21%), e a intensidade comercial do sector quase duplicou, de 20,6% para 39,0%, reflectindo uma crescente exposição ao comércio internacional.
Este relatório analisa três dinâmicas fundamentais que moldaram o mercado ao longo da última década: (i) a erosão do superavit comercial impulsionada pelo crescimento assimétrico das importações; (ii) a consolidação geográfica do abastecimento em torno de China e Turquia; e (iii) a transição para produtos de maior valor acrescentado, evidenciada pela divergência dos preços unitários de exportação e importação.
1. O superavit em erosão: crescimento acelerado das importações face a exportações estagnadas em volume
1.1 Um superavit que encolheu de 16 mil M€ para 9,2 mil M€
O saldo comercial da UE na posição CN 73 com países terceiros passou de 15 955 milhões de EUR em 2015 para 9 245 milhões de EUR em 2025, uma queda de 42,1%. O ponto mais baixo foi registado em 2022, com apenas 3 151 milhões de EUR, quando um surto de importações — impulsionado pela crise energética europeia e pela procura pós-pandemia — quase anulou a vantagem exportadora da UE.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações (valor) | 36,8 mil M€ | 44,5 mil M€ | +20,9% |
| Exportações (volume) | 12,1 Mt | 9,7 Mt | −19,9% |
| Preço médio exportação | 3 034 EUR/t | 4 578 EUR/t | +50,9% |
| Importações (valor) | 20,9 mil M€ | 35,3 mil M€ | +68,9% |
| Importações (volume) | 8,5 Mt | 12,9 Mt | +52,9% |
| Preço médio importação | 2 469 EUR/t | 2 728 EUR/t | +10,5% |
| Saldo comercial | 16,0 mil M€ | 9,2 mil M€ | −42,1% |
1.2 Volumes divergentes: a UE tornou-se importadora líquida em toneladas
A dinâmica mais marcante do período é a divergência nos volumes transacionados. Enquanto as exportações perderam quase 20% do seu volume (de 12,1 para 9,7 milhões de toneladas), as importações cresceram 53% (de 8,5 para 12,9 milhões de toneladas). Em termos de massa, a UE passou de uma posição de volume exportador líquido (+3,7 Mt em 2015) para uma posição de volume importador líquido (−3,2 Mt em 2025).
Contudo, apesar da quebra de volume, o valor das exportações cresceu 20,9%, sustentado por um aumento significativo dos preços unitários. A propensão para exportar quase duplicou (de 14,2% para 26,8%), sinal de que a indústria europeia mantém uma orientação exportadora forte, ainda que à custa de uma composição cada vez mais virada para o valor e não para o volume.
1.3 O colapso do comércio com a Rússia e os choques de 2022
A Rússia registou a rutura mais acentuada entre todos os parceiros comerciais. As importações provenientes da Rússia caíram de 220 milhões de EUR para apenas 4,4 milhões de EUR (−98,0%), enquanto as exportações para a Rússia desceram de 1 352 milhões de EUR para 133 milhões de EUR (−90,1%). O coeficiente de variação das importações russas (0,98) confirma a extrema volatilidade deste fluxo, directamente ligada às sanções da UE no contexto do conflito Rússia-Ucrânia.
O ano de 2022 foi igualmente marcado por choques de preço significativos: as importações do Reino Unido registaram uma subida anómala de 33,7% (abnormalidade de 23,4), representando 11,6% do valor total das importações — possivelmente reflectindo os efeitos combinados do Brexit e da crise energética europeia nos custos de produção britânicos.
2. Consolidação geográfica: a centralidade da China e da Turquia nas importações
2.1 A China como principal fornecedor, com crescimento de 113%
A China consolidou-se como a principal fonte de importações da UE na posição CN 73, com um crescimento de 112,5% ao longo do período — de 6 599 milhões de EUR em 2015 para 14 024 milhões de EUR em 2025, após um máximo de 15 510 milhões de EUR em 2022. Em 2025, a China representava aproximadamente 40% do valor total das importações da UE nesta posição, uma quota que reflecte a sobreprodução estrutural de aço chinês e a competitividade de preços dos seus produtores.
| Principais fornecedores (importações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 6 599 | 14 024 | +112,5% |
| Turquia | 1 632 | 4 489 | +175,0% |
| Reino Unido | 2 253 | 2 838 | +26,0% |
| Índia | 1 004 | 1 831 | +82,3% |
| Taiwan | 1 394 | 1 542 | +10,6% |
| Suíça | 1 696 | 1 641 | −3,2% |
| Rússia | 220 | 4 | −98,0% |
Ver parceiros de importação por valor
2.2 A ascensão da Turquia e o reforço da Índia
A Turquia registou o crescimento mais acentuado em termos percentuais (+175,0%), passando de 1 632 milhões de EUR para 4 489 milhões de EUR. A sua proximidade geográfica, custos de produção competitivos e capacidade siderúrgica em expansão explicam esta evolução. Em 2022, as importações turcas atingiram o máximo de 4 917 milhões de EUR. A Índia, por sua vez, cresceu 82,3% (de 1 004 M€ para 1 831 M€), consolidando-se como quarto fornecedor.
Juntos, China e Turquia representaram mais de metade do valor das importações da UE em 2025 — um grau de concentração que não existia em 2015, quando ambas somavam menos de 40%.
Do lado das exportações, os principais destinos mantiveram-se mais estáveis:
| Principais destinos (exportações) | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 5 399 | 8 051 | +49,1% |
| Reino Unido | 5 033 | 5 965 | +18,5% |
| Suíça | 2 583 | 3 570 | +38,2% |
| Noruega | 2 018 | 3 010 | +49,2% |
| Turquia | 1 187 | 1 876 | +58,1% |
| China | 2 220 | 2 492 | +12,3% |
| Rússia | 1 352 | 133 | −90,1% |
2.3 Crescente concentração das importações e risco de dependência
O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações subiu de forma significativa ao longo do período, tanto em valor como em volume:
| Métrica HHI | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 1 430 | 1 956 | +36,8% |
| Importações (volume) | 1 553 | 2 311 | +48,8% |
| Exportações (valor) | 618 | 793 | +28,4% |
| Exportações (volume) | 668 | 889 | +33,0% |
Os valores do HHI das importações situam-se agora numa zona de concentração moderada a elevada, com destaque para o indicador em volume (2 311), que se aproxima do limiar de mercado altamente concentrado (2 500). Em contraste, o HHI das exportações se mantém muito mais baixo, reflectindo uma carteira de destinos significativamente mais diversificada. A rede de dependência das importações concentrou-se, portanto, em poucos fornecedores, elevando a exposição da UE a potenciais disrupções comerciais.
3. Valorização e especialização: a transição europeia para produtos de maior preço
3.1 O prémio de preço das exportações da UE cresceu de 23% para 68%
Uma das tendências mais estruturais do período é a divergência acentuada entre os preços unitários de exportação e importação. Em 2015, a UE exportava a um preço médio de 3 034 EUR/t, 23% acima do preço médio de importação (2 469 EUR/t). Em 2025, este prémio atingiu 68%: as exportações situavam-se a 4 578 EUR/t face a 2 728 EUR/t nas importações.
| Métrica | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Preço médio exportação | 3 034 EUR/t | 4 578 EUR/t | +50,9% |
| Preço médio importação | 2 469 EUR/t | 2 728 EUR/t | +10,5% |
| Prémio exportação/importação | 23% | 68% | — |
Esta evolução reflecte uma transformação dupla: por um lado, os custos de produção na UE (energia, mão-de-obra, conformidade ambiental) aumentaram de forma sustentada, comprimindo a competitividade em segmentos de baixo valor; por outro, a indústria europeia reforçou a sua aposta em gamas de maior valor acrescentado, onde a diferenciação técnica e a qualidade justificam preços significativamente mais elevados. O resultado é uma UE que exporta menos toneladas mas a preços substancialmente mais altos, enquanto as importações — dominadas por produtos chineses e turcos — se concentram em gamas de preço mais baixas.
3.2 Construções metálicas (CN 7308): o segmento com maior crescimento nas importações
O segmento das construções e suas partes (CN 7308) registou o crescimento mais expressivo nas importações da UE: o volume praticamente triplicou (+196%, de 929 mil t para 2 752 mil t), e o valor mais do que triplicou (+253%, de 1 746 M€ para 6 169 M€). Este segmento inclui pontes, torres, pórticos, portas e janelas, e estruturas para telhados — produtos directamente ligados à actividade de construção civil e obras públicas.
Os principais segmentos de importação por valor em 2025 foram:
| Segmento | Descrição | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|---|
| 7326 | Outros artigos de ferro/aço n.e. | 4 046 | 7 258 | +79% |
| 7318 | Parafusos, porcas, rebites e afins | 4 568 | 6 575 | +44% |
| 7308 | Construções e suas partes | 1 746 | 6 169 | +253% |
| 7306 | Tubos soldados | 1 205 | 1 809 | +50% |
| 7304 | Tubos sem costura | 930 | 1 207 | +30% |
| 7321 | Fogões e aparelhos domésticos | 950 | 1 275 | +34% |
| 7325 | Artigos fundidos n.e. | 842 | 1 186 | +41% |
Do lado das exportações, o segmento 7308 é igualmente dominante, atingindo 9 785 M€ em 2025 (+39% face a 2015), mas com volumes estáveis em torno de 2,5 milhões de toneladas. O segmento 7318 (parafusos e afins) destaca-se pelo seu elevadíssimo valor unitário de exportação: 10 586 EUR/t em 2025, contra 3 590 EUR/t nas importações — um prémio de quase 3× que evidencia a aposta europeia em fixadores de alta precisão e desempenho.
3.3 Especialização dos Estados-Membros: Itália e Áustria no topo da vantagem comparativa
A análise de especialização revela que, entre as grandes economias da UE, a Itália apresenta a vantagem comparativa mais nítida neste sector (RCA de 1,65, RSCA de 0,245), contribuindo com 13,2% da produção total da UE. A Áustria (RCA 1,52) e a Estónia (RCA 2,07, a mais especializada em termos relativos) completam o grupo de economias com clara vantagem comparativa.
| Estado-Membro | RCA | RSCA | Quota produção UE |
|---|---|---|---|
| Estónia | 2,07 | 0,348 | 0,7% |
| Luxemburgo | 2,01 | 0,336 | 0,6% |
| Itália | 1,65 | 0,245 | 13,2% |
| Letónia | 1,59 | 0,228 | 0,5% |
| Áustria | 1,52 | 0,207 | 5,0% |
Em termos de valor absoluto de exportações, a Alemanha lidera com folga (12 696 M€ em 2025), seguida da Itália (6 887 M€), dos Países Baixos (3 996 M€, com o crescimento mais acentuado de +97,4%) e da França (3 699 M€, único grande Estado-Membro com quebra: −11,1%). No lado das importações, a Alemanha é igualmente o maior importador (7 741 M€, +42%), com destaque para o crescimento de Polónia (+127%, de 1 043 M€ para 2 363 M€) e Espanha (+101%, de 1 180 M€ para 2 371 M€) — ambas economias em forte expansão industrial e de infraestruturas.
A produção da UE reflecte esta dinâmica: o volume cresceu 31% (de 86,2 para 112,6 mil milhões de kg), mas o valor mais do que triplicou (+209%, de 55,0 mil M€ para 169,7 mil M€), atingindo um máximo de 184,6 mil M€ em 2022. Esta disparidade entre volume e valor confirma a transformação profunda da estrutura de preços no sector siderúrgico europeu.
Conclusão
Ao longo da década 2015–2025, o mercado da UE para obras de ferro e aço (CN 73) sofreu uma transformação estrutural significativa, marcada por três dinâmicas interligadas.
Em primeiro lugar, o superavit comercial encolheu 42% (de 16,0 mil M€ para 9,2 mil M€), atingindo um mínimo de 3,2 mil M€ em 2022. As importações cresceram 69% em valor e 53% em volume, enquanto as exportações cresceram apenas 21% em valor e perderam 20% em volume. A UE passou de exportador líquido em toneladas para importador líquido em massa.
Em segundo lugar, a concentração geográfica das importações acentuou-se: a China (+113%) e a Turquia (+175%) capturaram a maior parte do crescimento, elevando o HHI das importações de 1 430 para 1 956. A ruptura comercial com a Rússia (−98% nas importações, −90% nas exportações) reconfigurou as cadeias de abastecimento, mas o vazio foi preenchido sobretudo por fornecedores asiáticos e turcos, aprofundando a concentração.
Em terceiro lugar, a divergência de preços entre exportações e importações evidencia uma transição europeia para segmentos de maior valor acrescentado: o prémio de preço das exportações passou de 23% para 68%, e o segmento de parafusos de precisão (7318) atinge um valor unitário de exportação quase 3× superior ao das importações. A produção da UE, embora cresça modestamente em volume (+31%), mais do que triplicou em valor (+209%).
A intensidade comercial do sector quase duplicou (de 20,6% para 39,0%), sinal de uma integração profunda no comércio mundial. No entanto, a crescente dependência de fornecedores concentrados — sobretudo a China — constitui um factor de vulnerabilidade que merece acompanhamento, num contexto em que as políticas industriais europeias se orientam cada vez mais para a autonomia estratégica e a resiliência das cadeias de abastecimento.