Evolução do mercado: Níquel (CN 75) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) no que diz respeito ao código aduaneiro 75 — Níquel e suas obras — no período compreendido entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025. Este setor abrange desde produtos intermediários da metalurgia do níquel (mates, sinters) até formas brutas, pós, chapas, barras, tubos e obras acabadas de níquel.
Ao longo da década analisada, o mercado europeu do níquel passou por transformações estruturais profundas: alterações geopolíticas importantes, a crescente procura por baterias para veículos elétricos e as iniciativas europeias de autonomia estratégica em matérias-primas críticas moldaram significativamente as rotas comerciais, os volumes, os preços e o grau de dependência externa do bloco.
O défice comercial da UE em níquel situou-se nos -2 154 milhões de euros no início do período e reduziu-se para -1 829 milhões de euros em 2025, uma melhoria de 15,1%. No entanto, por detrás desta evolução agregada escondem-se dinâmicas muito distintas entre os diferentes segmentos de produto, parceiros comerciais e Estados-Membros.
1. A redução do défice comercial apesar da crescente dependência de importações de valor
O desempenho das exportações superou significativamente o crescimento das importações em termos de valor
Entre 2015 e 2025, as exportações da UE em níquel cresceram 81,2% em valor (de 1 779 para 3 225 milhões de euros) e 49,3% em volume (de 117 484 para 175 378 toneladas), segundo os dados gerais do comércio. Em contraste, as importações cresceram apenas 28,5% em valor (de 3 933 para 5 053 milhões de euros), e viram mesmo o seu volume diminuir 5,9% (de 325 570 para 306 338 toneladas).
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações — valor (milhões €) | 3 933 | 5 053 | +28,5% |
| Importações — volume (t) | 325 570 | 306 338 | -5,9% |
| Exportações — valor (milhões €) | 1 779 | 3 225 | +81,2% |
| Exportações — volume (t) | 117 484 | 175 378 | +49,3% |
| Saldo comercial (milhões €) | -2 154 | -1 829 | +15,1% |
A disparidade entre evolução de preço e volume revela pressões inflacionistas no sector
O preço médio de importação subiu 36,5% (de 12 081 para 16 495 €/t), enquanto o preço médio de exportação aumentou 21,4% (de 15 145 para 18 383 €/t). Esta assimetria indica que a UE viu os seus custos de abastecimento crescer mais rapidamente do que os preços que consegue obter nas suas exportações, exercendo pressão sobre as margens da cadeia de valor europeia.
O pico de importações em valor ocorreu em 2022, atingindo 7 622 milhões de euros — um aumento de 93,8% face a 2015 — impulsionado pela escalada de preços globais do níquel. As exportações também atingiram o seu máximo nesse mesmo ano, com 3 801 milhões de euros.
A produção interna da UE cresceu de forma exponencial
Um dos desenvolvimentos mais notáveis do período foi o crescimento da produção europeia de níquel: o volume subiu de 12 000 toneladas (2015) para 326 117 toneladas (2025), um aumento de 2 617,6%. Em termos de valor, a produção passou de 113 para 2 956 milhões de euros (+2 516,2%). Estes números refletem investimentos significativos na capacidade de refino e transformação de níquel no território europeu, em linha com a estratégia da UE para matérias-primas críticas.
2. Reconfiguração radical das rotas de abastecimento: do domínio russo à diversificação transatlântica
A Rússia permaneceu o principal fornecedor, mas registou uma quebra drástica face ao pico de 2022
Segundo os dados dos principais parceiros comerciais, as importações da UE provenientes da Federação Russa situaram-se em 974 milhões de euros em 2025, um aumento de 44,4% face a 2015. No entanto, em 2022 — ano imediatamente a seguir ao início do conflito na Ucrânia — as importações atingiram o pico de 3 157 milhões de euros, o que demonstra a dimensão da dependência prévia e a magnitude do subsequente reajustamento.
| Principais fornecedores (importações) | 2015 (milhões €) | 2025 (milhões €) | Variação |
|---|---|---|---|
| Federação Russa | 674 | 974 | +44,4% |
| Noruega | 496 | 588 | +18,5% |
| Reino Unido | 539 | 649 | +20,4% |
| Estados Unidos | 635 | 1 260 | +98,4% |
| Canadá | 118 | 418 | +253,2% |
| Austrália | 208 | 72 | -65,4% |
| Países não especificados | 415 | 51 | -87,6% |
Os Estados Unidos e o Canadá tornaram-se parceiros estratégicos de crescente importância
O crescimento mais expressivo registou-se no comércio transatlântico. As importações originárias dos Estados Unidos praticamente duplicaram (+98,4%), enquanto as do Canadá cresceram 253,2%. No lado das exportações, os EUA foram o principal destino em 2025 (717 milhões de euros), e as exportações para o Canadá cresceram 244,9%.
A Noruega emergiu como parceiro bidirecional de primeira ordem
Uma das transformações mais marcantes foi a dinâmica com a Noruega. Enquanto as importações norueguesas cresceram moderadamente (+18,5%), as exportações da UE para a Noruega dispararam 2 295,6% — de 17 para 395 milhões de euros. Este crescimento vertiginoso reflete provavelmente a integração da indústria norueguesa de baterias (com a fábrica da Morrow Batteries e outras iniciativas) na cadeia de valor europeia do níquel.
A concentração das importações aumentou, sinalizando risco de abastecimento
O índice Herfindahl-Hirschman (HHI) das importações em valor subiu de 1 253 para 1 447 (+15,5%), indicando uma maior concentração das fontes de abastecimento. Em volume, o aumento foi ainda mais pronunciado, de 1 209 para 1 838 (+52,0%). Em contrapartida, o HHI das exportações diminuiu 29,2% (de 1 539 para 1 090), o que sugere que a UE diversificou com sucesso os seus mercados de destino.
3. Transformação estrutural dos segmentos de produto: o declínio do níquel bruto e a ascensão das obras transformadas
O níquel em formas brutas (CN 7502) perdeu peso relativo nas importações, embora permaneça dominante
A análise por segmento de produto revela uma mudança estrutural significativa. O níquel em formas brutas (7502) — historicamente o principal produto importado — viu o seu volume de importação reduzir-se de 231 324 para 144 752 toneladas (-37,4%), embora em valor a quebra tenha sido menor (de 2 604 para 2 168 milhões de euros, -16,7%) devido ao aumento dos preços médios.
| Segmento de importação | Volume 2015 (t) | Volume 2025 (t) | Var. | Valor 2015 (milhões €) | Valor 2025 (milhões €) | Var. |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 7502 — Níquel em formas brutas | 231 324 | 144 752 | -37,4% | 2 604 | 2 168 | -16,7% |
| 7501 — Mates e produtos intermediários | 40 768 | 96 477 | +136,7% | 277 | 756 | +173,2% |
| 7503 — Desperdícios e sucata | 12 504 | 30 203 | +141,5% | 55 | 118 | +114,6% |
| 7505 — Barras, perfis e fios | 12 505 | 16 318 | +30,5% | 369 | 696 | +88,8% |
| 7508 — Obras diversas (n.e.) | 4 814 | 3 845 | -20,1% | 200 | 820 | +309,3% |
Os mates de níquel (CN 7501) e a sucata (CN 7503) ganharam destaque como matérias-primas secundárias
O crescimento exponencial das importações de mates de níquel (+136,7% em volume) e de desperdícios e sucata (+141,5%) reflete a crescente importância da economia circular e da reciclagem de metais na indústria europeia do níquel. Estes produtos intermediários são essenciais para alimentar as fundições e refinarias europeias que expandiram a sua capacidade.
As obras de níquel (CN 7508) tornaram-se o segmento de maior valor acrescentado
O segmento de obras diversas de níquel (7508) registou uma valorização extraordinária: embora o volume de importação tenha diminuído ligeiramente (-20,1%), o seu valor multiplicou-se por quatro (+309,3%), passando de 200 para 820 milhões de euros. O preço médio subiu de 41 617 para 213 181 €/t — um aumento de 412% — o que evidencia a crescente procura de componentes de alto valor em níquel, provavelmente ligados às aplicações em baterias, aeronáutica e energia.
O perfil de exportação reflete a indústria transformadora europeia
Do lado das exportações, os barras, perfis e fios de níquel (7505) foram o segmento de maior valor em 2025 (855 milhões de euros), seguidos pelos mates (7501, com 565 milhões) e as obras diversas (7507, com 443 milhões). A exportação de níquel bruto (7502) diminuiu 35,0% em valor (de 445 para 290 milhões de euros), confirmando a transformação da UE de reexportadora de matéria-prima em exportadora de produtos transformados.
Conclusão
O mercado europeu do níquel (CN 75) experimentou, entre 2015 e 2025, uma metamorfose profunda impulsionada por três vetores principais: a reconfiguração geopolítica do abastecimento (com o afastamento progressivo da dependência russa e a diversificação para a América do Norte), a expansão maciça da capacidade produtiva europeia e a transição para produtos de maior valor acrescentado.
O défice comercial, embora persistente, reduziu-se graças a um crescimento das exportações (81,2%) significativamente superior ao das importações (28,5%). Contudo, a dependência líquida de importações situou-se em 37,2% em 2025, um nível que, embora muito inferior ao pico registado, continua a exigir vigilância. A intensidade comercial diminuiu de 173% para 108%, e a propensão para exportar caiu de 368% para 124%, sugerindo que a UE está a internalizar progressivamente mais da sua cadeia de valor do níquel.
Os choques de preço detetados em 2022 — nomeadamente na Coreia do Sul (exportações) e na Noruega (importações) — ilustram a volatilidade inerente a este mercado de matérias-primas, amplificada pelos eventos geopolíticos e pelas disrupções na Bolsa de Metais de Londres (LME) desse ano.
Em suma, a UE caminhou no sentido certo no que respeita à autonomia estratégica no sector do níquel, mas a redução da concentração das importações e a aposta na circularidade e na transformação interna serão decisivas para garantir a resiliência futura da cadeia de valor europeia num contexto de procura crescente, nomeadamente no setor das baterias e da mobilidade elétrica.