Evolução do mercado: Vidros (CN 70) — 2015–2025
Introdução
O presente relatório analisa a evolução do comércio externo da União Europeia (UE) para a posição aduaneira CN 70 — Vidro e suas obras, abrangendo o período entre 2015 e 2025. Esta posição inclui uma vasta gama de produtos — desde resíduos e fragmentos de vidro (7001), vidro flotado (7005), vidros de segurança (7007), recipientes e garrafas (7010), objetos de mesa (7013), espelhos (7009), até fibras de vidro (7019) — reflectindo sectores industriais tão diversos como a construção, a automóvel, a embalagem, a energia e a decoração.
Ao longo da década analisada, o sector do vidro na UE passou por transformações profundas. As exportações mantiveram uma posição dominante, mas as importações cresceram a um ritmo muito superior, quase eliminando o superavit comercial que a UE detinha em 2015. Paralelamente, a estrutura geográfica dos parceiros comerciais reconfigurou-se significativamente, com a China a assumir um papel cada vez mais preponderante e a Rússia a perder relevância. O ano de 2022, marcado pela crise energética europeia e pelo conflito na Ucrânia, constituiu um ponto de inflexão, com choques de preço generalizados e um aumento da volatilidade nos fluxos comerciais.
1. O desvanecimento do superavit comercial europeu no sector do vidro
A dinâmica mais marcante do período 2015–2025 é a erosão acentuada do superavit comercial da UE em vidro e suas obras. Se em 2015 a UE registava um excedente de €2 712 milhões, em 2025 esse valor reduziu-se para apenas €87 milhões — uma queda de 96,8%, que transformou a UE de exportador líquido robusto numa posição de quase equilíbrio.
As importações cresceram a um ritmo muito superior ao das exportações
Ao longo do período, as exportações da UE cresceram moderadamente em valor (+8,2%), passando de €7 883 milhões em 2015 para €8 532 milhões em 2025, apesar de uma quebra no volume exportado (de 3,80 para 3,55 milhões de toneladas, -6,6%). O aumento do preço médio de exportação (+15,9%, de €2 075/t para €2 406/t) compensou parcialmente a perda de volume.
Em contraste, as importações dispararam, com um crescimento de 63,3% em valor (de €5 171 milhões para €8 445 milhões) e de 51,5% em volume (de 3,48 para 5,28 milhões de toneladas). O preço médio de importação situou-se em €1 600/t em 2025, 7,8% acima do registado em 2015.
| Indicador | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Exportações — valor | 7 883 M€ | 8 532 M€ | +8,2 % |
| Exportações — volume | 3,80 M t | 3,55 M t | −6,6 % |
| Exportações — preço médio | 2 075 €/t | 2 406 €/t | +15,9 % |
| Importações — valor | 5 171 M€ | 8 445 M€ | +63,3 % |
| Importações — volume | 3,48 M t | 5,28 M t | +51,5 % |
| Importações — preço médio | 1 485 €/t | 1 600 €/t | +7,8 % |
| Saldo comercial | +2 712 M€ | +87 M€ | −96,8 % |
A dependência líquida de importações aproximou-se de zero
A dependência líquida de importações passou de −10,6% em 2015 para −0,6% em 2025 (uma variação de +94,6%). Em termos de intensidade comercial (rácio comércio/produção), o valor subiu de 24,7% para 33,1% (+34,0%), enquanto a propensão exportadora aumentou de 18,2% para 20,0% (+10,1%). Estes indicadores sugerem que, apesar de a UE ter aumentado a sua presença nos mercados externos, a abertura do sector ao comércio internacional beneficiou sobretudo as importações.
Segmentos de produto que mais impulsionaram o crescimento das importações
Os segmentos com maior crescimento em valor das importações entre 2015 e 2025 foram, por ordem decrescente:
| Segmento (CN) | Descrição | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|---|
| 7010 | Recipientes de vidro (garrafas, frascos, boiões) | 479 | 1 138 | +137,5 % |
| 7001 | Cacos, desperdícios e resíduos de vidro | 32 | 66 | +104,2 % |
| 7009 | Espelhos de vidro | 791 | 1 424 | +80,1 % |
| 7013 | Objetos de vidro para serviço de mesa/cozinha | 659 | 1 061 | +61,0 % |
| 7005 | Vidro flotado, desbastado ou polido | 159 | 253 | +59,2 % |
| 7007 | Vidros de segurança (temperados ou laminados) | 822 | 1 299 | +58,1 % |
| 7019 | Fibras de vidro e suas obras | 1 220 | 1 561 | +28,0 % |
O segmento 7010 (recipientes de vidro) destaca-se como o motor principal do crescimento das importações, mais do que duplicando o seu valor. Este aumento reflecte a procura crescente de embalagens de vidro na indústria alimentar e farmacêutica, bem como a concorrência de fornecedores externos com custos mais competitivos.
2. Reconfiguração geográfica e concentração crescente das importações
A segunda grande dinâmica do período é a transformação da estrutura geográfica dos parceiros comerciais da UE, com especial impacto no lado das importações. A China consolidou-se como o principal fornecedor externo, enquanto a Rússia perdeu praticamente toda a sua relevância. Em simultâneo, a concentração das importações (medida pelo índice HHI) aumentou significativamente, sinalizando um maior risco de dependência.
A China como motor dominante do crescimento das importações
Em 2015, a China representava €1 685 milhões em importações de vidro pela UE. Em 2025, esse valor atingiu €3 629 milhões — um crescimento de 115,3%. A China passou assim a responder por 43% do total das importações de vidro da UE, consolidando-se como parceiro dominante.
| Parceiro | 2015 (M€) | 2025 (M€) | Variação |
|---|---|---|---|
| China | 1 685 | 3 629 | +115,3 % |
| Reino Unido | 703 | 711 | +1,2 % |
| Turquia | 351 | 727 | +107,4 % |
| Egito | 60 | 193 | +218,4 % |
| Ucrânia | 60 | 151 | +151,5 % |
| Suiça | 225 | 201 | −11,0 % |
| Rússia | 80 | 18 | −77,3 % |
A Turquia e o Egito também registaram crescimentos notáveis (+107,4% e +218,4%, respectivamente), reflectindo a reconfiguração das rotas de abastecimento da UE em direção a fornecedores com custos competitivos e proximidade geográfica relativa.
A diminuição das trocas com a Rússia e o surgimento de novos parceiros
As importações da Rússia desceram de €80 milhões para €18 milhões (−77,3%), num reflexo direto das sanções económicas impostas após 2022 e da deterioração das relações comerciais bilateral. A Ucrânia, apesar do conflito armado, mais do que duplicou as suas exportações para a UE (de €60 M para €151 M), o que poderá reflectir reconfiguração logística e acordos de apoio comercial.
Do lado das exportações europeias, os principais destinos mantiveram-se relativamente estáveis, com o Reino Unido (€1 428 M), os Estados Unidos (€1 549 M) e a Suiça (€818 M) a liderarem. Destaca-se o crescimento das exportações para a Sérvia (+94,9%, de €107 M para €209 M) e para a Ucrânia (+233,7%, de €51 M para €170 M).
Maior concentração das importações face a exportações mais diversificadas
O índice HHI de concentração das importações subiu de 1 671 para 2 200 (+31,7%), indicando uma concentração crescente das fontes de abastecimento. Em contraste, o HHI das exportações manteve-se praticamente estável (de 888 para 855, −3,6%), sinalizando uma base exportadora mais diversificada e resiliente.
| Métrica HHI | 2015 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Importações (valor) | 1 671 | 2 200 | +31,7 % |
| Exportações (valor) | 888 | 855 | −3,6 % |
| Importações (volume) | 1 404 | 1 711 | +21,9 % |
| Exportações (volume) | 859 | 947 | +10,2 % |
No que respeita à especialização dos Estados-Membros, a Croácia (RSCA = 0,52), a Bulgária (0,48) e o Luxemburgo (0,46) lideram como os países mais especializados em exportação de vidro. Portugal ocupa o 4.º lugar (RSCA = 0,38; RCA = 2,21), reflectindo a relevância do sector vidreiro na economia portuguesa. No extremo oposto, a Irlanda (RSCA = −0,86) e o Chipre (−0,86) apresentam a menor especialização.
3. Ruptura de 2022: choques de preço, volatilidade e pressão inflacionária
O ano de 2022 constituiu um ponto de inflexão no mercado europeu do vidro, com a conjugação da crise energética, do conflito na Ucrânia e das disrupções nas cadeias de abastecimento a provocarem choques de preço significativos e um aumento da volatilidade em múltiplos fluxos comerciais.
Uma viragem de preço generalizada em 2022
Os preços de importação atingiram o seu máximo em 2022, com especial destaque para os segmentos de elevado valor acrescentado. O preço médio de importação do segmento 7009 (espelhos) subiu de €5 271/t em 2015 para €6 232/t em 2022, antes de recuar para €5 398/t em 2025. Do lado das exportações, o segmento 7013 (objetos de mesa) registou uma subida contínua: de €3 775/t em 2015 para €6 196/t em 2025 (+64,1%), reflectindo a crescente valorização dos produtos europeus de maior qualidade.
| Segmento (CN) | Preço importação 2015 | Preço importação 2022 | Preço importação 2025 | Preço exportação 2015 | Preço exportação 2022 | Preço exportação 2025 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 7009 — Espelhos | 5 271 €/t | 6 232 €/t | 5 398 €/t | — | — | — |
| 7013 — Objetos de mesa | 1 962 €/t | 3 036 €/t | 2 276 €/t | 3 775 €/t | 4 859 €/t | 6 196 €/t |
| 7007 — Vidros de segurança | 1 948 €/t | 2 228 €/t | 1 933 €/t | 3 499 €/t | 3 628 €/t | 4 279 €/t |
| 7019 — Fibras de vidro | 1 948 €/t | 2 197 €/t | 1 894 €/t | 3 599 €/t | 4 383 €/t | 4 541 €/t |
| 7005 — Vidro flotado | 435 €/t | 594 €/t | 472 €/t | 497 €/t | 821 €/t | 755 €/t |
Eventos de choque identificados nos principais parceiros
A análise de eventos de choque detetou três anomalias de preço significativas, todas centradas em 2022:
| Fluxo | Parceiro | Tipo de choque | Anomalia | Desvio de preço | Peso no valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Exportações | Sérvia | Preço | 9,4 | +29,9 % | 2,5 % |
| Importações | Egito | Preço | 8,4 | +34,7 % | 3,0 % |
| Exportações | Bósnia e Herzegovina | Preço | 6,9 | +45,0 % | 0,9 % |
A Bósnia e Herzegovina apresentou o desvio mais acentuado (+45,0%), ainda que com peso reduzido no valor total. O choque nas importações do Egito (anomalia de 8,4) é particularmente relevante dada a crescente importância deste parceiro (+218,4% em valor entre 2015 e 2025). Estes episódios ilustram como a subida dos custos energéticos em 2022 se propagou para os preços do vidro, tanto no lado das exportações como das importações.
Volatilidade assimétrica entre parceiros
A volatilidade dos fluxos, medida pelo coeficiente de variação (CV), apresenta padrões distintos entre parceiros e entre fluxos:
| Parceiro | CV — Importações | CV — Exportações |
|---|---|---|
| Rússia | 0,71 | 0,51 |
| Ucrânia | 0,32 | 0,51 |
| Egito | 0,37 | — |
| Turquia | 0,29 | 0,11 |
| China | 0,19 | 0,19 |
| Sérvia | — | 0,16 |
| Reino Unido | 0,16 | 0,09 |
| Suiça | 0,04 | 0,06 |
| Noruega | 0,14 | 0,07 |
A Rússia apresenta a maior volatilidade nas importações (CV = 0,71), consistente com a redução abrupta das trocas após 2022. A Ucrânia destaca-se pela volatilidade elevada em ambos os fluxos (CV ≈ 0,5), reflectindo a instabilidade geopolítica. Em contraste, a Suiça (CV = 0,04 nas importações) e o Reino Unido (CV = 0,09 nas exportações) são os parceiros mais estáveis, funcionando como âncoras comerciais da UE.
Conclusão
Entre 2015 e 2025, o mercado europeu do vidro (CN 70) sofreu uma transformação estrutural profunda. O superavit comercial da UE, que em 2015 rondava os €2 700 milhões, praticamente desapareceu, impulsionado por um crescimento das importações (+63,3%) muito superior ao das exportações (+8,2%). A China tornou-se o parceiro dominante, com um peso crescente na origem das importações e uma contribuição decisiva para o aumento da concentração do abastecimento (HHI +31,7%).
O ano de 2022 representou um ponto de rutura, com choques de preço em múltiplos parceiros e uma aceleração das pressões inflacionárias que, embora parcialmente revertidas em 2023–2025, deixaram cicatrizes na estrutura comercial. A perda de relevância da Rússia como fornecedor e o crescimento de parceiros como a Turquia, o Egito e a Ucrânia sinalizam uma reconfiguração das cadeias de abastecimento do vidro europeu.
No entanto, persistem assimetrias positivas: a UE mantém uma vantagem em produtos de maior valor acrescentado (a diferença entre o preço de exportação e de importação em segmentos como os objetos de mesa ou os vidros de segurança é significativa) e continua a ter uma base exportadora mais diversificada do que a sua base importadora. O desafio para a próxima década será conciliar a competitividade exportadora com uma maior segurança no abastecimento, num contexto em que a intensidade comercial do sector (subida de 24,7% para 33,1%) torna a UE cada vez mais experta e simultaneamente mais dependente dos mercados externos.